Uma reportagem da coluna de Juliana Dal Piva, no ICL Notícias, revelou nesta quinta-feira, 3 , que o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) pediu pessoalmente a Daniel Vorcaro que ajudasse Thiago Rodrigues de Faria, seu advogado e, à época, assessor jurídico, a destravar um ativo minerário. A mensagem de áudio foi enviada em 30 de março de 2025.
Nikolas disse ao banqueiro que Faria estava com “um ativo minerário” que já havia passado pela análise da equipe técnica, mas permanecia pendente. Em seguida, encaminhou o contato do advogado. Em 1º de abril, avisou que Faria estaria em Brasília e disponível para uma reunião. No dia 2, Vorcaro respondeu: “Deixa comigo”. As mensagens não mostram se o encontro ocorreu ou se o pedido foi atendido.
O nome, o tipo de negócio e a cronologia convergem com uma negociação que A Investigação já havia mapeado em 27 de maio, ao publicar O terceiro manuscrito da Serra do Curral. Em janeiro de 2025, dois meses antes do áudio, o escritório de Thiago Faria havia assinado um contrato com a Gmais Ambiental para intermediar a retomada e a venda da lavra da Topázio Imperial, em Ouro Preto. A existência desse contrato fora revelada pelo Estado de Minas em setembro de 2025, com base no inquérito da Operação Rejeito.
O novo registro acrescenta um fato que ainda não era conhecido: Nikolas não apenas tinha um assessor ligado à negociação, mas usou seu acesso pessoal a Vorcaro para tentar abrir uma porta ao advogado.
O áudio não menciona a Topázio Imperial pelo nome. A coincidência, portanto, não basta para afirmar de forma definitiva que se trata do mesmo ativo. O próprio Faria, porém, confirmou ao ICL Notícias que trabalhava com mineração e que havia encaminhado a diferentes interessados um ativo vinculado a um contrato que se tornou público depois que uma das pessoas envolvidas “teve um problema”. Thiago Faria acrescentou que não cometeu irregularidade e nunca foi chamado a depor pela PF.
Em março de 2026, quando o número de Nikolas foi encontrado entre os contatos do celular de Vorcaro, o deputado havia declarado à Folha de S.Paulo que nunca encontrara o banqueiro e não se lembrava de ter falado com ele por telefone ou mensagem. Ressalvou que algum contato poderia ter ocorrido porque ambos tinham o pastor André Valadão como amigo comum, mas disse ter certeza de que não haviam conversado sobre pagamentos ou contratos.
Após a revelação dos áudios, Nikolas admitiu ao Metrópoles que intercedeu em favor do advogado, mas afirmou que teve apenas dois contatos com Vorcaro, que nenhum negócio foi fechado e que jamais recebeu dinheiro do banqueiro. Disse ainda que deixou de falar com ele depois das notícias que ligaram o Master a fraudes no INSS.
Em setembro de 2025, quando o contrato da Topázio veio a público, Nikolas já havia declarado ao Estado de Minas que a área estava disponível no mercado, que Faria podia intermediar a negociação no exercício da advocacia e que o deputado não tinha relação com a atividade privada.
Ao preparar O terceiro manuscrito da Serra do Curral, A Investigação procurou Nikolas, a Gmais e outros envolvidos. Eles não responderam aos questionamentos enviados pelo veículo até a publicação. As manifestações prestadas a outros veículos estão registradas nesta reportagem.
Após a publicação desta reportagem, o deputado Nikolas Ferreira enviou um áudio a A Investigação afirmando que Thiago Rodrigues de Faria pretendia vender o ativo a Daniel Vorcaro e que não houve pedido de “liberação”. “O meu advogado queria vender a terra — sei lá o que que era — para o Vorcaro. Não houve nada de liberação de absolutamente nada”, declarou.
O contrato que antecedeu o pedido
A Topázio Imperial detinha os direitos minerários de uma lavra no distrito de Rodrigo Silva, em Ouro Preto, cuja exploração havia sido suspensa por ação do Ministério Público Federal. Na área está a barragem Água Fria, construída pelo método a montante — o mesmo empregado nas estruturas que romperam em Mariana e Brumadinho — e apontada pelo MPF entre os sete barramentos de maior risco de rompimento do país.
Para tornar o ativo novamente negociável, o grupo precisava desembaraçar a situação da empresa, obter autorização para a retomada das atividades e vender a lavra. A Gmais Ambiental recebeu procuração da Topázio para representá-la perante os órgãos ambientais. Segundo a Polícia Federal, porém, a empresa funcionava como fachada para a atuação do delegado Rodrigo de Melo Teixeira e de seus associados no mercado minerário.
Rodrigo Teixeira ganhou projeção nacional ao chefiar, em 2018, o inquérito da PF sobre o atentado a faca contra Jair Bolsonaro. Sua conclusão de que Adélio Bispo agiu sozinho nunca foi aceita por Bolsonaro. No ano seguinte, coordenou os delegados federais responsáveis pela investigação criminal do rompimento da barragem da Vale em Brumadinho. No governo Lula, chegou à Diretoria de Polícia Administrativa, o terceiro posto na hierarquia da PF, e depois assumiu uma diretoria no Serviço Geológico do Brasil. Foi preso em setembro de 2025 na Operação Rejeito, apontado pelos investigadores como peça central do esquema de corrupção mineral.
Daniela Santos Wandeck, esposa de Teixeira, era sócia formal da Gmais. Foi ela quem, em 26 de fevereiro de 2021, enviou ao marido pelo WhatsApp as fotografias dos três manuscritos que mais tarde seriam encontrados no celular do delegado. Os documentos mapeavam empresas, operadores políticos, agentes públicos e órgãos capturados pelo esquema de corrupção mineral investigado pela PF.
No mesmo ano, Wandeck abriu a Gmais ao lado de outros sócios formais. Gilberto Henrique Horta de Carvalho integrou o quadro societário e, depois de sua saída, foi substituído por seu companheiro, Luiz Fernando Vilela Leite. Para os investigadores, contudo, quem comandava a empresa era Teixeira.
A PF chegou a essa conclusão pelas comunicações internas da companhia. No grupo de WhatsApp da Gmais, Teixeira enviou 557 mensagens — 37% de todo o conteúdo —, enquanto Wandeck publicou apenas 30, menos de 3%. Uma conta de e-mail atribuída ao delegado também armazenava documentos da empresa e tratativas minerárias encaminhadas diretamente a outros interlocutores.
Teixeira compartilhava procurações e documentos da Topázio Imperial e orientou que a Gmais mantivesse um arquivo digital com todo o material do “Projeto Topázio”. Embora não aparecesse formalmente como sócio, posicionava-se no centro da negociação da lavra e das providências necessárias para liberar o empreendimento.
O valor do delegado para o grupo não se limitava ao conhecimento do setor. Em janeiro de 2023, Gilberto Horta comemorou em mensagem a João Alberto Paixão Lages que Teixeira já estava “mandando e desmandando” na PF e avaliava nomes para a Superintendência da corporação em Minas Gerais. Posteriormente, por indicação do Ministério de Minas e Energia, Teixeira ocupou cargos no comitê de segurança da Petrobras, no conselho fiscal da ENBPar e na diretoria do Serviço Geológico do Brasil.
Thiago Faria já participava das tratativas antes da assinatura do contrato. Segundo o inquérito, ele e Gilberto Horta criaram, em abril de 2024, um grupo de WhatsApp chamado “Projeto Ferro”, no qual discutiam a transação. Em uma das mensagens, Faria perguntou se Horta havia conversado com uma pessoa identificada apenas como “R”, apontada pela PF como Rodrigo Teixeira. A versão final do contrato também foi encaminhada ao advogado para conferência.
Em janeiro de 2025, o escritório de Faria assinou o acordo de intermediação com a Gmais. O negócio era estimado entre US$ 30 milhões e US$ 45 milhões e previa uma comissão global de 20% para os intermediários. A Gmais ficaria com metade dessa remuneração; o escritório de Thiago e a Estabil Contabilidade receberiam 25% cada. No teto estimado, a parcela do advogado poderia chegar a US$ 2,25 milhões.
Dois meses depois, Nikolas procurou Vorcaro para tentar destravar um ativo minerário de Faria que já havia passado pela equipe técnica do banqueiro. O áudio não cita a Topázio Imperial pelo nome, mas mostra que o pedido ocorreu quando o advogado já estava formalmente contratado para negociar a lavra controlada pela empresa representada pela Gmais.
Os outros elos com o gabinete de Nikolas
O contrato de Thiago Faria não era a única conexão entre o entorno de Nikolas e personagens da Operação Rejeito. Em 2023, o deputado gravou um vídeo em apoio à candidatura de Gilberto Horta à presidência do CREA-MG, apresentado como parte de um movimento para retirar o conselho da “influência da esquerda”. Dois anos depois, Horta foi preso e apontado pela PF como articulador interinstitucional do grupo, encarregado de influenciar decisões administrativas e legislativas em favor dos interesses minerários.
No celular de Horta, os investigadores encontraram uma nota em caixa alta: “NÃO FALE DE RODRIGO DA PF”. A PF interpretou a anotação como um alerta interno para impedir que o delegado Rodrigo Teixeira fosse exposto nas comunicações. Horta também era sócio formal da Gmais antes de ser substituído no quadro societário por seu companheiro Luiz Fernando Vilela Leite.
Outro personagem já havia chegado diretamente à campanha de Nikolas. Gabriel Thadeu Baya Andrade, controlador da GJM Representações e da Ônix Céu Aberto, doou R$ 20 mil ao então candidato a deputado federal em 2022. A GJM aparece no terceiro manuscrito como responsável pela comercialização de minério misturado a material de origem regular. Em junho de 2026, Baya Andrade foi indiciado pela PF por organização criminosa, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica. A doação foi declarada à Justiça Eleitoral e, isoladamente, não representa irregularidade.
Há ainda uma conexão entre a estrutura política e a atuação privada de Thiago. O advogado assinou uma denúncia apresentada por Nikolas contra a deputada Duda Salabert (PDT-MG), elaborada com informações levantadas pelo ex-deputado estadual João Alberto Paixão Lages, apontado como um dos líderes do grupo investigado. Segundo o Estado de Minas, a denúncia foi protocolada na PF com apoio de Rodrigo Teixeira e Gilberto Horta. O episódio não demonstra que Nikolas conhecesse as atividades atribuídas aos três, mas mostra que a relação do gabinete com o núcleo não se limitava a um vídeo de campanha ou a um único contrato comercial.
Vorcaro já estava dentro da mineração
O pedido também não foi dirigido a um banqueiro sem experiência no setor. Reportagens de A Investigação já haviam mostrado que o ecossistema do Banco Master avançou simultaneamente sobre mineradoras, direitos de lavra e áreas de minerais críticos em Minas Gerais e outros seis estados.
Por meio do Victoria Falls Fundo de Investimento, controlado pelo Master, o grupo chegou a deter mais de 90% da Tamisa, mineradora instalada na Serra do Curral e beneficiada por um termo de compromisso com o governo de Minas. Outro acionista era a WJ Consultoria, administrada por Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. A Justiça Federal suspendeu as atividades da Tamisa e outros 56 processos minerários na Serra do Curral em março de 2026. Vorcaro e Zettel não foram acusados de participação no esquema de corrupção investigado pela Operação Rejeito.
Em novembro de 2024, o Banco Master também financiou a 3D Minerals, empresa criada com capital de R$ 5 mil que havia arrematado 116 áreas de minerais críticos num leilão da Agência Nacional de Mineração. O empréstimo permitiu quitar o compromisso de R$ 54,8 milhões e teve como garantia 50% das ações da mineradora. Na prática, o banco passou a deter metade do ativo como garantia.
No mesmo mês, um grupo formado por Vorcaro, Rodrigo Gontijo e Argeu Geo obteve a aprovação do Cade para comprar a ItaMinas por meio da RDA Mineração. Vorcaro ficou com 50% do negócio. Em maio de 2025, poucas semanas depois da conversa com Nikolas, os compradores anteciparam cerca de US$ 155 milhões em parcelas com recursos próprios e debêntures. A origem desses recursos e a identidade dos subscritores não foram esclarecidas publicamente.
A relação era anterior ao pedido
A conversa divulgada pelo ICL Notícias também mostra que a aproximação não começou com o ativo minerário. No mesmo áudio, Nikolas voltou a pedir desculpas a Vorcaro por ter criticado, em abril de 2024, um evento jurídico realizado em Londres com ministros do STF, do STJ e do TSE. O Banco Master havia ajudado a financiar o encontro.
Mensagens publicadas por Dal Piva mostram que Vorcaro reagiu às críticas procurando o pastor André Valadão, que conversou com Nikolas pedindo para que não fizesse ataques a Vorcaro. O banqueiro também afirmou a um interlocutor que havia bancado os voos do deputado e ameaçou divulgar a informação. Durante o segundo turno de 2022, Nikolas usou por cerca de dez dias um jato ligado a Vorcaro para participar de atos de campanha em nove estados e no Distrito Federal.
Nikolas declarou que não sabia a quem pertencia a aeronave quando aceitou participar da viagem. O Tribunal de Contas da União arquivou, em maio de 2026, uma representação sobre o uso do jato. As mensagens de Vorcaro não esclarecem quantos voos teriam sido pagos, qual foi o valor nem em que condições ocorreu o custeio.
Na gravação de março de 2025, o deputado disse que, se soubesse que o Master havia financiado o evento de Londres, teria procurado Vorcaro antes de publicar as críticas. Também afirmou que gostaria de ter mais proximidade com o banqueiro. Só depois dessa reconciliação apresentou o problema minerário de Faria.
O contexto não prova uma troca de favores. Mostra, no entanto, que o pedido sobre o ativo não surgiu de um contato frio ou ocasional: foi feito depois de Vorcaro cobrar gratidão pelo apoio anterior, de uma intervenção de André Valadão e de um pedido de desculpas do deputado.
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