Exclusivo: o terceiro manuscrito da Serra do Curral que a imprensa omitiu
Três organogramas manuscritos enviados a delegado da PF mapearam esquema de R$ 18 bilhões em Minas. Justamente o que citava a Vale como compradora de minério ilegal ficou fora da cobertura midiática.
Em 26 de fevereiro de 2021, às 21h31, uma mulher enviou fotografias de documentos manuscritos via WhatsApp para o marido. Os papéis, desenhados à mão como organogramas, detalhavam nomes, empresas, conexões políticas, órgãos públicos infiltrados e a cadeia comercial de um gigantesco esquema de corrupção na mineração de Minas Gerais.
Quatro anos e sete meses depois, em 17 de setembro de 2025, a PF deflagrou a Operação Rejeito — a maior ação contra corrupção no licenciamento mineral já realizada em Minas Gerais. Vinte e duas pessoas foram alvo de mandados de prisão preventiva. Entre elas estavam empresários, servidores da Agência Nacional de Mineração (ANM) e operadores políticos. Segundo a PF, o esquema havia movimentado R$ 4,3 bilhões só por uma das empresas investigadas. O potencial de ganhos ilícitos foi calculado em R$ 18 bilhões.
Entre os presos na Operação Rejeito estava o delegado Rodrigo de Melo Teixeira, classificado pela própria PF como “peça central” da organização criminosa. Foi a extração de dados do celular dele que revelou os três manuscritos. Em relatório interno datado de 1º de outubro de 2025, o Setor de Inteligência da Superintendência da PF em Minas Gerais registrou que os documentos estavam armazenados no aparelho, dentro de uma conversa de WhatsApp com sua esposa, Daniella Wandeck. Para os investigadores, os organogramas “aparentemente mapeiam todo o esquema de corrupção perpetrado por servidores públicos e possivelmente políticos no Estado de Minas Gerais”.
No manuscrito mais sensível — e, por isso mesmo, omitido até agora pela imprensa —, era detalhada a etapa final do esquema: minério de ferro extraído ilegalmente era misturado a material legalizado — a chamada “blendagem” — e vendido a grandes companhias, como a Vale S.A., gigante brasileira da mineração.
Nos outros dois documentos aparecia Lucas Kallas — então sócio de Daniel Vorcaro na Biomm. Mais tarde, assim como o banqueiro, Kallas foi defendido por Viviane Barci, esposa de Alexandre de Moraes. No documento, também apareciam operadores da Agência Nacional de Mineração e políticos, como o ex-deputado João Alberto Paixão Lages e o senador Rodrigo Pacheco.
Delegado da Polícia Federal, Rodrigo de Melo Teixeira reteve as imagens no celular e não instaurou investigação. Segundo a PF, àquela altura Teixeira já mantinha tratativas e encontros com alguns dos personagens que apareciam ou orbitavam o esquema descrito nos documentos.
Teixeira era o mesmo delegado que ficou nacionalmente conhecido por chefiar o inquérito da facada em Jair Bolsonaro e que, anos depois, se tornaria o número três da Polícia Federal no governo Lula. Segundo fontes da PF, sua influência era tal que, nos bastidores, era tratado como diretor de facto da corporação, em um cenário em que quadros oriundos de Minas Gerais predominavam nas chefias — e no qual o diretor-geral Andrei Rodrigues era descrito nos corredores, segundo fontes, como uma “rainha da Inglaterra”.
Teixeira não teria investigado as denúncias porque estava envolvido no próprio esquema. Segundo a PF, ele atuava por meio de uma empresa de fachada registrada em nome da esposa, Daniela Santos Wandeck, e lucraria milhões com operações minerárias irregulares. O esquema funcionava por “captura sistêmica” de órgãos públicos que garantiam licenças e proteção judicial. Parte relevante da extração ocorria ilegalmente, inclusive em área protegida, causando danos ambientais severos.
Os manuscritos não têm autoria conhecida, mas sua relevância está no que anteciparam. Em fevereiro de 2021, quando Daniela Wandeck enviou as imagens a Rodrigo Teixeira, nomes, funções, circuitos de proteção e a cadeia comercial do minério ainda não haviam vindo a público. Quatro anos e meio depois, a Operação Rejeito confirmaria o núcleo daquela arquitetura — inclusive a etapa final descrita no terceiro documento. Não há elementos, até o momento, de que as compradoras soubessem da origem irregular do material que recebiam.
As operações que cercam o caso
Operação Rejeito — 17 de setembro de 2025
É a investigação central do caso. Deflagrada pela PF com apoio da CGU, mirou uma organização acusada de corromper agentes públicos, lavar dinheiro e obter licenças fraudulentas para explorar minério irregularmente em Minas Gerais. A operação cumpriu 22 mandados de prisão preventiva, 79 mandados de busca e bloqueou R$ 1,5 bilhão. Segundo a PF, os projetos ligados ao grupo tinham potencial econômico superior a R$ 18 bilhões.Operação Parcours — 28 de março de 2025
Apurou a exploração irregular de minério pela Empabra na Serra do Curral, em Belo Horizonte. A suspeita é que o grupo tenha usado um plano de recuperação ambiental como fachada para continuar retirando minério da área. A investigação apontou prejuízo superior a R$ 800 milhões e envolveu servidores da Agência Nacional de Mineração.Operação Poeira Vermelha — 18 de julho de 2019
Foi a investigação precursora sobre a extração ilegal de minério em Nova Lima. A PF identificou um esquema em que empresas simulavam obras de terraplanagem em terrenos urbanos, como se preparassem áreas para construção, quando, na prática, retiravam minério de ferro sem autorização.Operação Intrafortis
Desdobramento da Rejeito, voltou-se ao núcleo financeiro e operacional da mesma organização criminosa. Entre os focos estavam a atuação do delegado Rodrigo de Melo Teixeira e empresas ligadas a ele.Operação Contrassabotagem
Desdobramento da Poeira Vermelha, apurou suspeitas de vazamento de informações sobre ações policiais, embaraço às investigações e medidas de blindagem patrimonial do grupo após as primeiras operações.
O mapa da máquina
Os três documentos enviados por Daniela Wandeck ao celular de Rodrigo Teixeira eram organogramas desenhados à mão. Registravam uma engrenagem que atravessava o setor mineral, os órgãos reguladores e o sistema de Justiça de Minas Gerais — e precisava operar em duas frentes: a institucional, responsável por licenciar, regularizar ou blindar as operações; e a comercial, encarregada de transformar minério de origem irregular em produto negociável no mercado formal.
Os dois primeiros manuscritos descrevem a arquitetura de poder que tornava o esquema possível: a captura dos órgãos responsáveis por autorizar a mineração e a rede de operadores encarregada de proteger quem explorava o minério. O terceiro, revelado aqui pela primeira vez, mostra a etapa final do negócio: a cadeia física do minério, da extração clandestina à mistura com material legalizado e à venda para grandes compradoras.
Primeira camada: Licenciamento Ambiental
Licenciar uma mina no Brasil não depende de uma assinatura isolada. Depende de uma cadeia. A ANM autoriza a lavra. Os órgãos estaduais de meio ambiente — em Minas, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) e a Superintendência Regional de Meio Ambiente (Supram) — concedem a licença ambiental. Em áreas sensíveis, entram ainda órgãos de patrimônio, como o IPHAN. Cada um desses pontos tem poder de travar o negócio. Capturar todos ao mesmo tempo é o que transforma uma operação irregular em um empreendimento capaz de sobreviver por anos. Era esse sistema que os manuscritos tentavam desenhar.
Essa frente também apareceu na investigação. A PF apontou ligação entre João Paulo Martins, então presidente do IEPHA-MG, e Débora Maria Ramos do Nascimento França, superintendente do IPHAN em Minas entre 2020 e 2023. Segundo a investigação, Débora articulou reunião entre João Alberto e o presidente do IEPHA que resultou em ofício favorável ao licenciamento sem os estudos técnicos exigidos. Martins foi exonerado no dia seguinte à Operação Rejeito.
O primeiro documento posiciona Marília Carvalho de Melo, então secretária de Meio Ambiente de Minas Gerais no governo Zema, como peça central. Marília é filha de Ciomara Rabelo de Carvalho e enteada de Jorge Saffar, sócios da Crono Engenharia, consultoria que presta serviços a grandes mineradoras como Vale e CSN. A Semad declarou não ter identificado conflito de interesse.
No dia 23 de dezembro de 2025, pouco mais de três meses após a deflagração da Operação Rejeito, Marília Carvalho de Melo deixou o comando da Semad. No mesmo dia, o governador Romeu Zema sancionou a lei que autoriza a privatização da Copasa, estatal de saneamento de Minas Gerais, e anunciou que ela seria a nova diretora-presidente da empresa.
A folha do manuscrito é cercada por anotações sobre “padrinhos políticos” e registra que Marília teria a missão de “dar um jeito de licenciar” a MGB — Mineração Geral do Brasil, a empresa que os manuscritos descrevem como preparada para assumir o lugar das operações comprometidas. A Polícia Civil também registrou pressão direta sobre a secretária. João Alberto Paixão Lages foi indiciado por ameaça após enviar mensagens cobrando a agilização do licenciamento da Fleurs Global. A empresa aparece nas investigações como uma das peças centrais da cadeia de extração e regularização do minério.
A MGB é uma empresa fundada em 1966 com sede em São Paulo e filial operacional em Belo Horizonte. Os manuscritos descrevem como preparada para assumir o lugar das operações comprometidas. A empresa é vinculada à Mina Casa Branca, na Serra do Rola Moça, descrita nos documentos como operação ligada a João Alberto e a Lucas Kallas, cujas iniciais — LKS — aparecem no organograma diretamente acima do nome da empresa. Dois diretores da empresa são citados nominalmente no primeiro manuscrito: Carlos Hamoi e Basílio Chedid Jafet.
A articulação passaria por um advogado contratado por Lucas Kallas para negociar o Termo de Ajustamento de Conduta com a secretária, regularizar a Cedro/Extrativa e obter a licença da MGB. Ao lado, uma pergunta registrada como hipótese: “Existe alguma ligação do senador Carlos Viana com a Vale”. O senador negou qualquer envolvimento em nota pública, afirmando que sua única ligação com a Vale é um pedido de prisão que fez contra um ex-presidente da empresa no âmbito da CPI de Brumadinho.
Segunda camada: Captura Regulatória
O manuscrito identifica operadores com trânsito na ANM que, segundo o documento, vendiam facilidades e articulavam nomeações para cargos estratégicos na agência.
Um dos citados é Pablo César de Souza, o Pablito — ex-servidor da ANM, marido da deputada federal Greyce Elias (PL-MG) e assessor de Rodrigo Pacheco no Senado entre 2019 e 2023. Em 2021, Greyce foi relatora de uma proposta de novo Código de Mineração que, segundo O Bastidor, beneficiava a Vale e grandes empresas do setor ao concentrar na União a competência sobre a exploração mineral e reduzir o poder de estados e municípios de barrar empreendimentos, especialmente por meio de tombamentos em áreas como Nova Lima e Belo Horizonte. A reportagem também apontava Lucas Kallas como possível beneficiário do texto.
Pablito também foi identificado como “Calvo” na planilha da Odebrecht, com anotação de R$ 100 mil — valor que, segundo ele, foi devidamente declarado. Apesar de descrito nos manuscritos como operador com influência na ANM e na Semad, não foi alvo da Operação Rejeito. Em resposta ao Estadão, Souza afirmou que não tem “a menor ideia do que se trata”. “Não sou investigado nessa operação e por isso não tive acesso aos autos.”
Ao lado de Pablito, o manuscrito descreve um lobista que atuaria “dentro da ANM juntamente com o João Alberto para vender facilidades lá dentro”. Segundo o documento, esse núcleo teria conseguido emplacar Caio Mário Trivellato Seabra Filho na área de conflitos da agência em Brasília e articulava a transferência do diretor da ANM em Minas para a cúpula federal. Seabra foi preso pela PF na mesma operação que Teixeira e Lages. O manuscrito registra ainda transações patrimoniais entre reguladores e regulados: imóveis de luxo no Alphaville que teriam mudado de mãos entre servidores da ANM e operadores do grupo.
A PF afirmou que a influência do grupo na ANM não se limitava a indicações. Leandro César Ferreira de Carvalho, então gerente regional da agência em Minas Gerais, teria enviado minutas de decisões ao grupo empresarial para aprovação prévia antes do protocolo oficial. Ele foi exonerado quatro dias após a Operação Parcours, deflagrada em março de 2025. No mesmo ato, também caiu Claudinei Oliveira Cruz, superintendente substituto de Segurança de Barragens de Mineração.
Na diretoria da agência, o caso mais documentado envolve Caio Seabra. Segundo a PF, em 22 de novembro de 2024, uma hora antes de uma sessão da ANM, Allan Cavalcante lhe enviou por WhatsApp o trecho exato do voto que deveria proferir. Seabra teria seguido a orientação. A intervenção beneficiaria a Aiga Mineração numa disputa com a Vale por rejeitos minerais avaliados em cerca de R$ 200 milhões. A PF apontou pagamento de R$ 2,7 milhões em propina.
O nome de Caio Seabra também aparece em outro episódio envolvendo a ANM. Foi ele o relator do processo administrativo que permitiu à 3D Minerals reduzir, após o encerramento da disputa, um lance de R$ 37 milhões para R$ 3,7 milhões, sob a justificativa de erro de digitação. A decisão contrariou parecer técnico interno e manteve a empresa no maior leilão de minerais críticos já realizado pela agência.
A 3D Minerals havia sido criada apenas 46 dias antes de entrar na disputa, com capital social de R$ 5 mil e nenhum histórico operacional relevante. Mesmo assim, venceu 116 áreas minerais em sete estados, assumindo compromisso financeiro de R$ 54,8 milhões. O negócio só ganhou escala porque, em novembro de 2024, o Banco Master, de Daniel Vorcaro, concedeu empréstimo à empresa para viabilizar o pagamento. A garantia foi o penhor de 50% das ações da mineradora.
O elo político-empresarial estava nas mensagens de Vorcaro com Martha Graeff, reveladas por A Investigação. Nelas, o banqueiro citava Eduardo “Duda” Wanderley — empresário mineiro ligado ao grupo vencedor do leilão — como seu sócio em um negócio de mineração. Formalmente, Vorcaro não aparecia no quadro societário da 3D Minerals. Mas, por meio do Banco Master, passou a deter metade do ativo como garantia econômica.
No centro de toda a captura regulatória, segundo os documentos, estava o ex-deputado pelo MDB João Alberto Paixão Lages. Os manuscritos o posicionam como o eixo de onde partem praticamente todas as conexões — empresariais, regulatórias e políticas. A ele o autor atribui a movimentação de mais de R$ 600 milhões em 2019 e vínculos com cada camada do esquema: do operador comercial que vendia minério à Trafigura e à Vale, passando por empresas de fachada usadas para usurpar mineral, até a cadeia de empresas da rede de Lucas Kallas — Biogold, Green Metals, Empabra, Cedro, Extrativa e MGB.
A cadeia não parava nos órgãos reguladores. Chegava ao ministério responsável por supervisionar a ANM. Alexandre Silveira, ministro de Minas e Energia, indicou ou apoiou nomes que depois apareceriam na Operação Rejeito: Caio Seabra para a diretoria da agência, Rodrigo Teixeira para o Serviço Geológico do Brasil e Lucas Kallas para o Conselhão de Lula. João Alberto Paixão Lages, apontado como operador central do esquema, doou R$ 100 mil à campanha de Silveira em 2022; sua filha doou outros R$ 100 mil no mesmo ciclo.
O ministério nega irregularidades e afirma que as indicações foram institucionais e técnicas. Cinco dias após a deflagração da Operação Rejeito, Silveira participou de evento patrocinado pela Cedro Mineração, empresa do grupo de Kallas, e anunciou a criação do Conselho Nacional de Política Mineral. Disse ter sido “surpreendido” pelas prisões.
Terceira camada: Intermediários Profissionais
A terceira camada, descrita no segundo organograma, é a dos intermediários profissionais — advogados, consultores ambientais, lobistas e ex-servidores que operavam a passagem entre o mercado e o Estado. Era nesse nível que a irregularidade ganhava aparência técnica: laudos, estudos ambientais, pareceres, pedidos administrativos e articulações políticas transformavam extração clandestina em empreendimento formalmente defensável.
Segundo o manuscrito, consultorias ambientais funcionavam como engrenagens centrais desse processo. Algumas seriam usadas para produzir estudos sob encomenda; outras, para intermediar pagamentos e dar aparência regular ao fluxo de dinheiro. O documento descreve empresas controladas por ex-integrantes da estrutura ambiental do Estado, com uso de interpostas pessoas, vínculos com advogados e atuação direta em licenciamentos de mineradoras associadas ao núcleo investigado.
A camada também incluía proteção informacional. O manuscrito aponta a existência de um delegado da Polícia Civil de Belo Horizonte que atuaria como informante do grupo, vazando operações policiais e antecipando movimentos de fiscalização. O mesmo personagem é descrito como alguém com trânsito prévio na estrutura ambiental estadual e acesso a esquemas internos da Semad, onde facilidades teriam sido negociadas em gestões anteriores.
Outro eixo era a rede de parentesco e influência local. O documento descreve conexões entre agentes públicos, magistrados, delegados, ex-prefeitos e operadores regionais que, segundo o autor, funcionavam como canais de tráfico de influência na região de Mariana e dentro da Semad. A lógica era simples: quem não ocupava mais cargo formal mantinha acesso a quem decidia; quem não assinava atos administrativos aproximava quem precisava da licença de quem podia destravá-la.
O manuscrito cita ainda um caso concreto de corrupção administrativa envolvendo a regularização da Cedro. Um TAC obtido em julho de 2019, além de aditivos assinados nos meses seguintes, teria sido liberado mediante pagamento em dinheiro e participação percentual ao responsável pela decisão. A anotação é uma das mais diretas do organograma: não descreve apenas influência, mas compra de ato administrativo.
Essa terceira camada mostra como o esquema não dependia apenas de servidores capturados nos órgãos públicos. Dependia de uma periferia profissional capaz de fabricar documentos, abrir portas, antecipar riscos e converter influência em decisão. Era a zona cinzenta entre consultoria, lobby, advocacia, política local e corrupção administrativa — justamente onde a legalidade formal era produzida para encobrir a origem irregular do minério.
Quarta Camada: Blindagem Judicial
No canto esquerdo do segundo documento, aparece a quarta camada do esquema: a blindagem judicial. O autor desenha um circuito simples, mas revelador: “TJMG 1ª instância → Zé Nilton Cury” e “TJMG 2ª instância e TRF → Pacheco”. No topo do segundo organograma, Rodrigo Pacheco é conectado diretamente a João Alberto, de quem se ramifica toda a estrutura.
A anotação é relevante menos pelo que comprova — não há, no manuscrito, descrição de ato judicial concreto praticado por Pacheco — e mais pelo que revela sobre a percepção interna da rede: o grupo acreditava contar com canais de influência capazes de reagir a decisões desfavoráveis tomadas por instâncias técnicas, administrativas ou judiciais.
Na primeira instância do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, o ponto de contato indicado era José Newton Kury de Oliveira Coelho, o Zé Nilton Cury. A PF o descreveu depois como o “arquiteto do estratagema” de criação de empresas de fachada, usadas para pulverizar responsabilidades, ocultar beneficiários reais e dar aparência empresarial a operações irregulares. No manuscrito, Cury não aparece apenas como operador societário. Aparece como peça da blindagem jurídica do grupo.
A blindagem, contudo, não se limitava à suposta influência política. Segundo a PF, nos dados telemáticos de João Alberto havia uma planilha com autoridades públicas, incluindo magistrados e membros do Ministério Público. O material mapeava decisões, perfis e posicionamentos de autoridades que atuavam em casos de interesse do grupo. Era uma forma de antecipar resistências, medir riscos e definir estratégias para contornar decisões contrárias aos empreendimentos minerários.
O caso da Fleurs Global ilustra esse funcionamento. Em março de 2024, uma decisão de primeira instância determinou a suspensão das atividades da empresa e o bloqueio de R$ 30 milhões. No mês seguinte, uma decisão de segunda instância atendeu parcialmente ao recurso da mineradora, liberou os valores bloqueados e permitindo a retomada do licenciamento ambiental. A reversão não prova, isoladamente, interferência indevida. Mas, lida à luz dos manuscritos e do mapeamento de autoridades encontrado pela PF, mostra por que a proteção judicial era tratada como uma camada própria da engrenagem.
O que os dois documentos descrevem, lidos em conjunto, é uma estrutura de contenção de danos montada para manter o minério circulando mesmo sob contestação administrativa, ambiental e criminal. Quem extraía ilegalmente integrava a mesma rede que influenciava quem podia autuá-lo, licenciá-lo ou blindá-lo nos tribunais. Quando o órgão ambiental travava, buscava-se destravar administrativamente; quando a fiscalização avançava, acionavam-se intermediários; quando a Justiça impunha limites, entravam em cena monitoramento, recursos e influência.
O padrão documentado pela PF é de integração vertical: consultores produziam laudos técnicos, servidores aprovavam licenças, operadores políticos destravavam decisões e, segundo os manuscritos, um delegado da Polícia Federal tinha acesso ao andamento das investigações. Quatro anos depois, a Operação Rejeito confirmaria boa parte dessa arquitetura.
Em resposta à reportagem da Folha de S.Paulo, o senador Rodrigo Pacheco afirmou que não poderia “comentar sobre um papel manuscrito de autoria incerta”. “O que me estranha é isso aparecer e ser vazado agora, veiculando o nome de diversas autoridades sem nenhum critério e lastro em prova. Sobre a tramitação e a razão de estar no Supremo, desconheço. Não tenho como afirmar”, disse Pacheco, que à época era cotado para uma vaga no STF.
O manuscrito que ninguém publicou
Se os dois primeiros manuscritos descrevem quem controlava a máquina e como se obtinham as licenças, o terceiro documenta o que a máquina produzia — a cadeia física do minério, da extração à venda. É o mais direto dos três. E é o único que, durante toda a cobertura jornalística da Operação Rejeito, entre setembro e dezembro de 2025, não apareceu em nenhum veículo de imprensa.
No título da folha aparece: “Esquema Zé Nilton Cury (Terraplanagem RMBH → Nova Lima)”. Kury — cujo nome completo é José Newton Kury de Oliveira Coelho, é descrito pela PF como o “arquiteto do estratagema de criar inúmeras pessoas jurídicas de fachada” — ou seja, o operador especializado em engenharia societária da organização criminosa. Uma dessas empresas foi criada em nome da própria filha de Kury para receber R$ 3,8 milhões do esquema. Ele aparece no segundo organograma como o operador da blindagem judicial na primeira instância do TJMG. No terceiro, é o centro da cadeia física do minério ilegal.
O manuscrito descreve que o minério de ferro extraído ilegalmente seria transformado em produto comercializável sem que as compradoras finais pudessem distinguir sua origem. Segundo o documento, tudo começa com a terraplanagem. Obras de condomínios de luxo em Nova Lima — Vale dos Cristais, Vila da Serra e redondezas — geram grandes volumes de material removido do subsolo. Esse material é identificado na própria folha como minério de ferro e, em vez de ser descartado conforme a legislação mineral, seria desviado para a Fleurs Global e para duas plantas de beneficiamento próximas ao Alphaville e à Lagoa de Codornas.
Ali, o minério usurpado passaria por blendagem — a mistura com minério legalizado oriundo da Cedro/Extrativa e de outras fontes —, de modo que o produto resultante se tornasse indistinguível de uma carga regular. A comercialização ficaria a cargo de um operador específico, por intermédio da GSM, que venderia o material beneficiado para Vale, Gerdau e Trafigura. A GSM é parte do Grupo Avante, conglomerado minerário com sede em Belo Horizonte e filiais em Barão de Cocais, Itabirito, Congonhas e Nova Lima — esta última com situação suspensa na Receita Federal desde data anterior às operações policiais de 2025.
O operador identificado no manuscrito como responsável pela comercialização via GSM é Gabriel Thadeu Baya Andrade, que é controlador da Ônix Céu Aberto, mineradora apontada pela PF como uma das empresas de fachada utilizadas pelo grupo de João Alberto para usurpação de minério. Baya Andrade também é citado em investigação do MPMG sobre suposta fraude no conselho ambiental de Ouro Preto e um suposto “acerto” de R$ 1,3 milhão entre a HG Mineração, da qual ele é diretor, e a prefeitura para favorecer empreendimento minerário da empresa. A HG Mineração também foi alvo da Operação Rejeito.
O vínculo entre Andrade e a GSM vem do terceiro manuscrito — não há, até o momento, documento público da PF que os una formalmente nessa empresa específica. Em 2022, Baya Andrade doou R$ 20 mil à campanha de Nikolas Ferreira (PL-MG) para deputado federal.
A descrição do manuscrito coincide exatamente com as conclusões da Polícia Federal em operações anteriores na mesma região. Em julho de 2019, a PF deflagrou a Operação Poeira Vermelha em Nova Lima e constatou que criminosos simulavam atividades de terraplanagem em terrenos urbanos, como se os preparassem para futura construção, quando, na prática, extraíam ilegalmente minério de ferro de alto valor comercial — material que era revendido para siderúrgicas. Em maio de 2021, nova operação na região identificou o mesmo estratagema, com empresas fictícias criadas para encobrir a mineração ilegal.
No caso da Gute Sicht — mineradora que a PF depois vincularia ao mesmo grupo —, o inquérito documentou que a empresa firmou contrato com a Valefort, que detinha autorização para terraplanagem, a pretexto de retirar terra de um terreno da Fleurs Global, onde a perícia apontou a presença de máquinas pesadas de transporte e prospecção de minério. A própria Fleurs Global, segundo a PF, integrava a cadeia de comercialização do minério extraído de forma irregular. A empresa atuava como núcleo financeiro do esquema e movimentou bilhões de reais sem a devida rastreabilidade da origem lícita do produto.
Quanto às compradoras finais, a revista Exame registrou em julho de 2023 — dois anos antes da Operação Rejeito — que gigantes como a siderúrgica CSN, a Trafigura e a própria Vale eram clientes da Cedro, a empresa de Kallas. Em reportagem publicitária de 2024, a própria Cedro declarou fornecer minério para a Gerdau, e o restante para exportação, por intermédio de parcerias comerciais com grandes empresas do setor.
O que o manuscrito acrescenta a essas informações é o mecanismo completo. A terraplanagem em condomínios de luxo geraria minério como subproduto aparentemente inevitável. Esse minério seria desviado para plantas de beneficiamento onde seria misturado com material de origem legalizada. Análises químicas não distinguem a fonte. A documentação fiscal aponta apenas as fontes legais. O produto chega limpo ao comprador. É esse mecanismo de lavagem física que tornaria possível — e até provável — que as empresas compradoras não soubessem da origem ilegal do material que recebiam. O manuscrito descreve a rota do minério até elas. Não documenta, porém, que tivessem ciência da irregularidade.
O bloco lateral da folha registra ainda uma lógica de contingência: “Com a queda da Fleurs Global, Cedro e Extrativa, a estratégia é operar através da MGB.” A estrutura foi concebida, segundo o manuscrito, para sobreviver a ações fiscalizatórias — quando uma empresa é comprometida, outra assume o fluxo. A PF confirmaria essa lógica: após a Operação Poeira Vermelha, a organização criminosa teria passado “a realizar lavagem de dinheiro em três ou quatro camadas”, utilizando ao menos 42 empresas para ocultar os valores ilícitos.
O que torna esse manuscrito diferente dos outros dois não é o nível de detalhe — é o que ele implica. Os dois primeiros descrevem corrupção dentro do Estado: servidores, licenças, proteção judicial. O terceiro aponta para a ponta final do mercado. Nomear as três maiores compradoras de minério de ferro do Brasil como destinatárias de produto com origem parcialmente ilegal é outra coisa.
Durante a cobertura da Operação Rejeito, entre setembro e dezembro de 2025, os dois primeiros manuscritos circularam em diversos veículos. O terceiro — com o mesmo grau de detalhamento, a mesma origem e vazado no mesmo bloco — não foi publicado por nenhum dos veículos consultados por A Investigação. A diferença está no conteúdo: este nomeia as três maiores compradoras de minério de ferro do Brasil como destinatárias finais de produto com origem parcialmente ilegal.
A Vale S.A. é a maior mineradora do país. A Gerdau é a maior siderúrgica. A Trafigura é uma das maiores tradings de commodities do mundo. Não há, até o momento, qualquer elemento que indique que essas empresas tivessem conhecimento da origem irregular do material.
A máquina dos TACs
Entre 2019 e 2022, durante o governo de Romeu Zema, Minas Gerais firmou 358 Termos de Ajustamento de Conduta e Termos de Compromisso com mineradoras — mais que o triplo dos 98 acordos assinados no governo anterior, entre 2015 e 2018. De 2023 a março de 2026, foram outros 187. Criado para corrigir irregularidades, o instrumento virou regularização provisória permanente: empresas sem licença definitiva assinavam um ajuste com o Estado e continuavam extraindo minério sob aparência de conformidade jurídica.
Em novembro de 2020, a Controladoria-Geral do Estado alertou formalmente a Semad que “não se vislumbra razoável pactuar instrumento de ajuste de conduta com empreendedor que persiste em manter suas atividades em desconformidade com a legislação ambiental”. O alerta foi ignorado. As quatro mineradoras que a PF depois vincularia ao núcleo central da organização — Fleurs Global, Empabra, Gute Sicht e Tamisa — assinaram TACs ou Termos de Compromisso durante o governo Zema.
A FEAM, fundação vinculada à Semad e responsável por etapas da regularização ambiental, também entrou no centro da investigação. Seu presidente, Rodrigo Gonçalves Franco, foi exonerado dias antes da Operação Rejeito e preso na deflagração. O governo de Minas apresentou versões diferentes para a saída: primeiro, atribuiu a exoneração a “burburinho e fofoca”; depois, Marília Melo afirmou em audiência pública que havia denúncia formal encaminhada à Controladoria-Geral do Estado.
Arthur Ferreira Rezende Delfim, diretor de Apoio à Regularização Ambiental da FEAM, também foi preso. Segundo reportagem d’O Fator, a PF identificou que Franco cobrou R$ 50 mil para repassar a Delfim como compensação por uma licença emitida em favor da Fleurs Global. Na véspera da prisão, Delfim representava a FEAM em audiência pública na Assembleia Legislativa sobre flexibilização do licenciamento ambiental.
A Fleurs Global, apontada pela PF como núcleo financeiro do esquema, operava sem licença ambiental definitiva desde 2018 e acumulava 17 autuações por desmatamento, intervenção em áreas de preservação permanente e captação irregular de recursos hídricos. Ainda assim, recebeu dois TACs do governo de Minas Gerais — em novembro de 2020 e em fevereiro de 2022 — que lhe permitiram continuar funcionando sob a cobertura formal de um acordo com o Estado.
O segundo TAC foi assinado pela Semad um dia depois de a equipe técnica da Supram concluir pelo indeferimento da licença e pelo cancelamento do ajuste vigente. O processo estava pronto para votação no Copam e foi retirado da pauta sem justificativa à equipe técnica. Servidores depuseram ao Ministério Público de Minas Gerais descrevendo “possível pressão sofrida pelo órgão ambiental” para que o caso não fosse votado. No dia seguinte à assinatura do novo acordo, a gestora jurídica do processo formalizou sua discordância por escrito. Segundo funcionários ouvidos pela Agência Pública, a partir daí os TACs passaram a ser redigidos “sem a participação da equipe jurídica” — apenas pela diretoria jurídica.
A Fleurs contratou a GH Sustentabilidade Ambiental, de Gilberto Henrique Horta de Carvalho, para fazer auditoria interna dos próprios TACs. Gilberto é o mesmo operador que aparece como sócio formal da Gmais Ambiental, de Rodrigo Teixeira, e que a PF identificou como articulador da organização criminosa. Quatro servidores da Semad ouvidos pela Agência Pública o descreveram como amigo pessoal da secretária Marília Carvalho de Melo.
Charles Soares de Souza, soldado da Polícia Militar, também havia atuado para a Fleurs Global, por meio da M.A. Consultoria Ambiental. Depois, foi nomeado por Marília Melo como superintendente da Supram-CM — o órgão que fiscalizava e assinava TACs com a própria Fleurs. Antes da nomeação oficial, em junho de 2022, já participava informalmente de vistorias, reuniões e operações de fiscalização na Semad desde pelo menos 2021, sem vínculo formal com o poder público. No cargo, cancelou um auto de infração da Gute Sicht e assinou um dos TACs com a Fleurs. Foi exonerado em setembro de 2022. A Corregedoria do Estado só abriu processo disciplinar sobre sua atuação informal em outubro de 2023.
A Tamisa recebeu do governo Zema, em maio de 2022, um Termo de Compromisso para avançar sobre a Serra do Curral sem consulta livre, prévia e informada a uma comunidade quilombola. A Justiça Federal suspendeu as licenças em dezembro daquele ano, manteve a decisão em outubro de 2023 e, em março de 2026, suspendeu todos os 57 processos minerários em tramitação na Serra do Curral, restaurou a proteção integral da área e multou a ANM em R$ 4 milhões por descumprimento deliberado de ordem judicial.
O sócio majoritário da Tamisa era o Victoria Falls Fundo de Investimento, controlado pelo Banco Master de Daniel Vorcaro. Outro acionista relevante era a WJ Consultoria, administrada por Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. Em 2022, Henrique Moura Vorcaro — pai de Daniel Vorcaro e preso pela Polícia Federal em maio de 2026 na Operação Compliance Zero — doou R$ 1 milhão ao diretório mineiro do Partido Novo, legenda de Romeu Zema, no ano da reeleição do governador.
Rodrigo Franco, presidente da FEAM preso na Operação Rejeito, teria declarado antes da prisão que apenas “cumpria ordens”, que elas “vinham de cima” e que “não cairia sozinho”.
O cartão-postal destruído
Quem chega a Belo Horizonte de avião vê, antes de qualquer prédio ou avenida, uma parede de pedra e vegetação que corta o horizonte ao sul da cidade. É a Serra do Curral — símbolo visual de BH, tombada pelo IPHAN desde 1960 e um dos últimos remanescentes contínuos de vegetação nativa na região metropolitana. O paredão verde que define a silhueta da capital mineira tem proteção federal e está sujeito a normas específicas que vedam qualquer intervenção significativa sem autorização dos órgãos competentes.
Ainda assim, há décadas mineradoras tentam, por diferentes meios, operar na área, transformando a serra em um dos territórios mais judicializados do setor mineral brasileiro. Mineração em área tombada pelo patrimônio histórico não representa apenas uma violação ambiental: pode configurar crime contra o patrimônio cultural da União.
Por dentro desse símbolo, a PF documentou — em uma investigação que a própria corporação descreveu como uma “distopia ambiental” — o resultado de uma década de operações: cavas de mineração de grande porte escavadas em área tombada. O Córrego Taquaril — que nascia na serra e desaguava no Ribeirão Arrudas — foi destruído e secou em 2017. Duas cavas foram abertas na área da mina entre 2014 e 2019, identificadas nos documentos como Sump 3 e Sump 4.
A empresa que operava no local era a Empabra — Empresa de Mineração Pau Branco. Ela tinha um Plano de Recuperação de Área Degradada firmado com o Ministério Público de Minas Gerais e aprovado em 2008. O plano impunha a obrigação de restaurar a área em quatro anos. Em vez de cumpri-lo, a empresa o usou como escudo jurídico para continuar operando. A partir de 2014, expandiu as atividades. Para justificar as cavas perante a ANM, apresentou documentos afirmando que os buracos eram consequência de “medidas reparatórias”. A CGU confirmou, em auditoria, que a extração extrapolou os limites do título minerário. A PF concluiu que as condutas adotadas a partir de 2014 deixaram a área “em pior estado do que se encontrava.”
A empresa por meio da qual a organização liderada por Kallas assumiu o controle da Empabra foi a Green Metals Soluções Ambientais. O nome não é detalhe irrelevante — é o vocabulário central do esquema: rejeitos como produto, extração como remediação, cava como medida reparatória. Como A Investigação apurou em reportagem anterior, Kallas é ex-sócio do banqueiro Daniel Vorcaro na farmacêutica Biomm (BIOM3) e citado em ao menos quatro operações policiais. Vorcaro e Kallas estiveram juntos no Palácio do Planalto e chegaram a se reunir, um de cada vez, com o próprio presidente Lula.
O nome de Kallas também apareceu na Operação Parcours, deflagrada pela PF em março de 2025, para investigar o uso do PRAD — o Plano de Recuperação de Área Degradada firmado com o MPMG — como cobertura jurídica para a extração contínua de minério na Serra do Curral. Enquanto a Operação Rejeito investigava a rede de agentes públicos que tornava possível o esquema, a Parcours investiga o lado empresarial. O alvo central é a Empabra e o ecossistema de empresas de Lucas Kallas.
O dano financeiro calculado pela PF na Serra do Curral é de R$ 830 milhões em minério extraído irregularmente. A CFEM — a compensação financeira devida aos cofres públicos pela exploração mineral — não foi recolhida entre 2012 e 2019, somando R$ 11,4 milhões. A pilha de rejeitos e a barragem deixadas no local estão em risco de ruptura — o MPF pediu obras emergenciais em fevereiro de 2026 para evitar um desastre. Em março do mesmo ano, a Justiça Federal suspendeu 57 processos minerários na Serra do Curral, restaurou a proteção integral da área — reduzida ilegalmente por portaria do IPHAN de 42 para 9 hectares — e multou a própria ANM em R$ 4 milhões por descumprir de forma deliberada uma ordem judicial que proibia novos direitos minerários na serra desde o fim de 2018. Mesmo ciente da proibição, o órgão havia autorizado pelo menos quatro novos empreendimentos na área.
O terceiro homem da PF
Rodrigo de Melo Teixeira nasceu em Barbacena, Minas Gerais. Formou-se em Direito pela UFMG, ingressou na Polícia Federal em 1999 e construiu uma carreira que cruzou segurança pública, política estadual mineira e os setores de mineração e energia. Em 2016, foi nomeado secretário-adjunto da Secretaria de Defesa Social de Minas, sob o governo do petista Fernando Pimentel. De 2016 a 2018, ainda na gestão Pimentel, presidiu a FEAM — Fundação Estadual do Meio Ambiente —, fundação vinculada à Semad cujos quadros aparecem na Operação Rejeito como parte da engrenagem de licenciamentos irregulares. De 2019 a 2022, ocupou a secretaria-adjunta de Segurança Pública da Prefeitura de Belo Horizonte, na gestão de Alexandre Kalil.
Em setembro de 2018, quando era superintendente da PF em Minas Gerais, chefiou o inquérito sobre a facada em Jair Bolsonaro durante a campanha presidencial. A investigação concluiu que Adélio Bispo agiu sozinho. Bolsonaro jamais aceitou essa conclusão. Em fevereiro de 2019, pouco mais de um mês após a posse, Teixeira foi exonerado do cargo. Declarou ao Estadão acreditar que o clã Bolsonaro queria direcionar a investigação para uma conclusão de motivação política ou criminosa. A exoneração o projetou, na narrativa pública, como vítima de retaliação bolsonarista — e o tornaria, anos depois, figura confiável o suficiente para o governo Lula nomeá-lo ao terceiro posto da PF. O que viria a público em 2025 colocaria essa narrativa sob outra luz: à época da exoneração, Teixeira já construía sua rede de negócios no setor mineral.
Em abril de 2020, quando Sérgio Moro renunciou ao Ministério da Justiça denunciando suposta interferência de Bolsonaro na PF, Teixeira voltou ao centro do caso. O ministro Celso de Mello autorizou dez depoimentos no inquérito sobre a interferência — e Teixeira foi arrolado como testemunha, explicitamente porque Bolsonaro havia contestado as conclusões do inquérito da facada que ele mesmo produzira. Na véspera da oitiva, recebeu mensagem no celular informando que “não havia mais necessidade” do depoimento — comunicação feita pela escrivã da delegada que presidia o inquérito, sem explicação. A Veja noticiou o episódio em maio de 2020.
Quatro anos depois, no início do governo Lula, voltou à cúpula da PF: em janeiro de 2023, foi designado diretor de Polícia Administrativa, o terceiro posto na hierarquia da corporação. Em março de 2024, já nesse cargo, foi confrontado publicamente por Moro — agora senador — numa audiência no Senado. Moro o interrogou diretamente sobre a abordagem da PF a um cidadão português antes de ato pró-Bolsonaro.
Entre a saída da superintendência e a nomeação à secretaria municipal, em abril de 2019, assumiu a coordenação dos delegados federais no inquérito de Brumadinho — o rompimento da barragem B1 da Vale em 25 de janeiro daquele ano, que matou 270 pessoas. Nenhum executivo da Vale foi condenado criminalmente até hoje.
O que a Operação Rejeito revelaria anos depois é que, enquanto supervisionava a maior investigação mineral da história recente do país, Teixeira já construía sua rede de negócios no setor. Em 2021, sua esposa, Daniela Wandeck — a mesma que lhe enviaria os manuscritos em fevereiro daquele ano — abriu a Gmais Ambiental, empresa pela qual ele lucraria R$ 27 milhões. Formalmente registrada em nome dela, a Gmais não tinha funcionários e se destinava a formalizar contratos de cessão e intermediação de direitos minerários. Para a PF, era uma empresa de fachada: quem exercia a gestão de fato era Teixeira; Daniela apenas assinava os documentos.
Luiz Fernando Vilela Leite e seu companheiro, Gilberto Henrique Horta de Carvalho, também constam como sócios formais ao lado de Daniela Santos Wandeck. Carvalho foi apontado pela PF como articulador interinstitucional da organização criminosa, responsável por manipular decisões administrativas e legislativas em favor do grupo. No celular dele, os investigadores localizaram uma nota em caixa alta — “NÃO FALE DE RODRIGO DA PF” — que a PF interpretou, no relatório da operação, como um alerta interno para evitar a exposição do delegado nas comunicações do grupo.
As conexões de Teixeira
Em algum momento de 2021 ou 2022, enquanto estava cedido à Prefeitura de Belo Horizonte, Rodrigo Teixeira foi pessoalmente à sede da Cedro Mineração conversar com Lucas Kallas. O encontro foi tratado em procedimento preliminar da Polícia Federal em 2023. Segundo o parecer da Corregedoria, o expediente tramitou na Diretoria de Inteligência Policial, onde foram realizados levantamentos e entrevistas, incluindo a de Teixeira. À PF, Teixeira disse que a ida à Cedro foi uma visita de cortesia para tratar de política, em razão da então pré-candidatura de Alexandre Kalil ao governo de Minas. Uma testemunha ouvida separadamente apresentou outra versão: disse acreditar que a conversa envolveu a oferta de uma oportunidade ligada a ativo minerário.
As duas versões do mesmo encontro ficaram registradas no processo. Cinco semanas depois da entrevista com Teixeira, em 5 de outubro de 2023, a Corregedoria arquivou o expediente: a fonte original era anônima, não havia fato concreto atribuível ao delegado, e o procedimento não atendia aos requisitos para abertura de inquérito. O arquivo ficou fechado. Dois anos depois, a Superintendência da PF em Minas Gerais — a mesma que havia produzido os documentos originais — deflagrou a Operação Rejeito com 22 mandados de prisão. Teixeira estava na lista. Horta de Carvalho também.
Antes de ser preso, Carvalho ocupou cargo de assessor parlamentar no gabinete do vereador belo-horizontino Uner Augusto (PL), entre fevereiro e setembro de 2025. Em 2023, concorreu à presidência do CREA-MG com apoio declarado de políticos como Jair Bolsonaro e Nikolas Ferreira (PL-MG), que gravou vídeo pedindo votos para ele como parte de um movimento para retirar a entidade da “influência da esquerda”.
Em janeiro de 2025, Thiago Rodrigues de Faria, advogado que à época prestava assessoria jurídica ao gabinete do deputado Nikolas Ferreira, assinou contrato de intermediação com a própria Gmais para negociar a lavra da Topázio Imperial — mina associada à barragem Água Fria, em Ouro Preto, classificada entre as de maior risco de rompimento do país e construída pelo método a montante, o mesmo que provocou os desastres de Mariana e Brumadinho. O acordo previa comissão de 25% para o escritório de Thiago sobre um negócio estimado entre US$ 30 milhões e US$ 45 milhões. O contrato teria sido elaborado de forma a ocultar a identidade dos beneficiários finais.
Em outubro de 2021, a Gmais passou a integrar a estrutura societária da Brava Mineração com 13,3% das cotas. A Brava era o principal veículo de monetização dos direitos minerários controlados pelo grupo: reunia títulos ainda não explorados, dependentes de capital, licenças e acesso institucional para se tornarem negócio.
Uma decisão da Justiça Federal de Minas Gerais, no âmbito do inquérito da Operação Rejeito, registra que Teixeira e seus sócios receberiam mais de R$ 27 milhões da Brava “sem nunca terem investido qualquer quantia.” Ou seja, o que Teixeira oferecia não era capital, era o peso de sua carreira na PF e conexões em órgãos reguladores do setor — trocado por participação societária em uma empresa de mineração. Dois anos depois, no início do governo Lula, ao ser designado diretor de Polícia Administrativa — o terceiro cargo na hierarquia da PF —, esse ativo se tornaria ainda mais valioso para o grupo. Segundo a CNN Brasil, ele teria usado sua posição e contatos para conseguir autorizações de exploração em favor da organização.
Em 4 de janeiro de 2023, Gilberto Horta enviou áudio a João Alberto Paixão Lages: “O Rodrigo Teixeira já tá lá. Já tá mandando e desmandando lá na PF. Já tá reorganizando tudo lá dentro. Tá com um trabalhão danado, mas tá super feliz, né? Pra ele vai ser bom.” No dia seguinte, João Alberto perguntou se Teixeira já tinha um nome para indicar para a Superintendência da PF em Minas Gerais, e Gilberto respondeu que ele ainda estava “avaliando alguns amigos”.
A PF chegou a Teixeira por trilhas digitais convergentes. As interceptações eletrônicas mostraram Teixeira como o real operador da Gmais: no grupo de WhatsApp da empresa, ele enviou 557 mensagens — 37% de todas as comunicações do grupo —, enquanto Daniela Wandeck, sócia formal e sua esposa, enviou apenas 30, menos de 3%. Uma conta de e-mail do Yahoo atribuída a ele continha documentos da empresa e tratativas minerárias enviadas a interlocutores que não eram Daniela. No mesmo grupo, ele compartilhou procurações e documentos da Topázio Imperial e sugeriu manter “um arquivo digital de todos os documentos do ‘Projeto Topázio’ no grupo Gmais” — posicionando-se como negociador central dos direitos minerários de uma lavra em Ouro Preto cuja barragem, Água Fria, figurava entre as sete de maior risco de rompimento do Brasil segundo o MPF.
Depois de uma negociação frustrada com a Cedro Mineração, Úrsula Paula Deroma — empresária identificada pela PF como sócia oculta da Brava Mineração — enviou um áudio a Teixeira dizendo que “não tinha medo de delegado”, que haviam perdido “o negócio da vida deles”, e que ele e Gilberto “não aportaram um único real pelos títulos minerários.” Teixeira não estava apenas assessorando as negociações, estava dentro delas.
Por indicação do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, Teixeira acumulou cargos no Comitê de Segurança, Meio Ambiente e Saúde da Petrobras, no conselho fiscal da ENBPar e na diretoria de Administração e Finanças do Serviço Geológico do Brasil. Era identificado nos bastidores como parte dos chamados “Silveirinhas” — o círculo de confiança de Silveira. Segundo a imprensa, o mesmo ministro indicou Lucas Kallas ao Conselhão de Lula e Caio Seabra à diretoria da Agência Nacional de Mineração. Os três foram presos ou investigados na mesma operação.
Do sigilo máximo à primeira instância
Teixeira foi preso em 17 de setembro de 2025. Em outubro, a investigação foi remetida ao STF. O motivo formal: a apreensão dos manuscritos no celular de Teixeira revelou anotações citando os senadores Rodrigo Pacheco (PSD-MG) e Carlos Viana (Podemos-MG), cujo foro privilegiado obrigou a remessa ao Supremo. O caso caiu com o ministro Dias Toffoli, que assumiu a relatoria por conexão com investigações anteriores envolvendo a mineradora Gute Sicht.
Em novembro, Toffoli ampliou o sigilo de tal maneira que nem a PF e nem os advogados dos presos podiam consultar os autos. Em dezembro, os investigadores tiveram de pedir formalmente ao tribunal o número do processo — não tinham acesso nem a isso. Em 19 de dezembro, Toffoli revogou as prisões preventivas dos quatro apontados como líderes: Alan Cavalcante, Helder Freitas, João Alberto Lages e Rodrigo Teixeira. A decisão contrariou o parecer do procurador-geral Paulo Gonet, que havia defendido a manutenção das preventivas.
Em 14 de janeiro de 2026, o TRF da 6ª Região, seguindo a lógica fixada por Toffoli, mandou soltar os demais investigados. O argumento foi que manter parte do grupo presa enquanto os líderes respondiam em liberdade seria desproporcional — os fundamentos das prisões eram idênticos ou menos graves. O último a sair foi Horta de Carvalho. Após 129 dias preso, saiu em 22 de janeiro de 2026. A Operação Rejeito havia deflagrado 22 prisões preventivas em setembro de 2025. Quatro meses depois, nenhuma estava em vigor.
Para Teixeira, as cautelares incluem tornozeleira eletrônica, recolhimento noturno, retenção de passaporte e afastamento compulsório da CPRM e do cargo de delegado da PF — com vedação de qualquer contato com servidores das duas instituições. Em fevereiro de 2026, a Corregedoria da PF instaurou Processo Administrativo Disciplinar contra ele. O MPF pediu bloqueio de bens no valor de R$ 4,2 milhões.
No início de 2026, a advogada Viviane Barci de Moraes — esposa do ministro Alexandre de Moraes — assumiu a defesa de Kallas no STF, por substabelecimento. Meses antes, o mesmo escritório havia sido contratado pelo Banco Master por R$ 129 milhões. A petição também é assinada pelos filhos do casal, Alexandre Barci de Moraes e Giuliana Barci de Moraes.
Em 15 de abril de 2026, Toffoli determinou o retorno de todas as investigações ligadas às operações Rejeito, Intrafortis, Contrassabotagem, Parcours e Poeira Vermelha à 3ª Vara Federal Criminal de Belo Horizonte. A decisão veio depois que a PF e a PGR concluíram não haver “qualquer elemento mínimo” que vinculasse o deputado federal Luiz Fernando Faria (União-MG) ao esquema investigado — afastando o único fundamento que havia levado o caso ao Supremo. O processo voltou à primeira instância sem que qualquer condenação tivesse sido proferida.
Treze dias depois, em 28 de abril, a Cedro Participações anunciou a venda de sua participação na Biomm e de sua fatia de 33,33% na gestora Latache Capital, dois negócios que associavam Kallas a Daniel Vorcaro. A gestora Alaska Asset Management, controlada pelo investidor Luiz Alves Paes de Barros, assumiu 26,15% da Biomm, tornando-se a maior acionista individual da empresa — comprando tanto as ações que haviam migrado para o Banco de Brasília após a liquidação do fundo de Vorcaro quanto parte da fatia da Cedro.
O que dizem os envolvidos
A Investigação procurou os principais citados na reportagem antes da publicação.
A Trafigura informou que não comentaria o caso.
O Ministério de Minas e Energia afirmou que a relação do ministro Alexandre Silveira com Rodrigo de Melo Teixeira e Caio Mário Trivellato Seabra Filho ocorreu apenas por meio de indicações institucionais feitas pelo MME ao Serviço Geológico do Brasil e à Agência Nacional de Mineração. Segundo a pasta, as indicações foram técnicas, passaram por análise de currículo e comprovação de experiência profissional no setor.
O MME disse que Teixeira é policial federal de carreira e que Seabra já atuava na ANM desde 2020. Também afirmou que os processos de aprovação seguiram os ritos próprios das instituições, com análise por comitês internos, conselhos de administração ou sabatina no Senado, no caso da ANM.
Sobre Lucas Kallas, o ministério afirmou que ele não foi indicado ao Conselho Nacional de Política Mineral. A pasta disse ainda que Silveira repudia condutas contrárias aos princípios da legalidade, impessoalidade e transparência e que, ao tomar conhecimento da Operação Rejeito, determinou a apuração dos fatos e defendeu o afastamento dos envolvidos.
O ministério também respondeu sobre as doações feitas na campanha de 2022. Segundo o MME, os repasses foram efetuados em nome do suplente Virgílio Guimarães, que possuía conta bancária específica para essa finalidade, e não foram direcionados ao então candidato a senador Alexandre Silveira. A pasta afirmou que a prestação de contas de titular e suplentes é unificada, conforme a legislação eleitoral, e que as doações ocorreram antes de Silveira assumir o Ministério de Minas e Energia.
Sobre o evento patrocinado pela Cedro Mineração, realizado cinco dias após a deflagração da Operação Rejeito, o MME afirmou que Silveira foi convidado a participar de forma institucional, como autoridade do setor, e que nem o ministro nem a pasta tinham conhecimento ou relação com os patrocinadores.
O advogado Bruno César Gonçalves da Silva, que representa Rodrigo de Melo Teixeira, afirmou que os fatos envolvendo o delegado já haviam sido analisados pela Corregedoria da Polícia Federal e sustentou que a investigação foi retomada pela Superintendência da PF em Minas Gerais a partir de fatos “requentados”. Ele encaminhou à reportagem cópia do procedimento preliminar arquivado pela Corregedoria da PF em outubro de 2023.
O documento, porém, não tratava da Operação Rejeito, deflagrada quase dois anos depois. Era uma verificação preliminar aberta a partir de notícia de fato recebida pelo Serviço de Inteligência Policial da PF em Minas Gerais sobre possível atuação de Teixeira no setor mineral por intermédio da esposa, Daniela Santos Wandeck. A apuração registrou vínculos entre Gmais Ambiental, Brava Mineração, Verdecal Mineração, GH Sustentabilidade Ambiental e Fleurs Global, além da visita de Teixeira à Cedro Mineração.
No procedimento, uma testemunha afirmou acreditar que a conversa na Cedro envolveu uma oportunidade ligada a ativo minerário. Teixeira negou irregularidades e disse que a visita foi de cortesia, para tratar de política, em razão da então pré-candidatura de Alexandre Kalil ao governo de Minas.
A Corregedoria arquivou o caso em 6 de outubro de 2023 por entender que, naquele momento, não havia fato objetivo suficiente para abertura de investigação formal. O parecer, no entanto, deixou ressalvada a possibilidade de reanálise caso surgissem elementos concretos capazes de vincular o delegado a irregularidades em contratos públicos de Minas Gerais ou a vazamentos de investigações da PF.
A Investigação também procurou Rodrigo Pacheco, Nikolas Ferreira, Vale, Gerdau, Lucas Kallas, Gmais Ambiental e seus sócios, Céu Aberto Mineração, GSM, Pablo César de Souza, o Pablito, o governo de Minas Gerais, João Alberto Paixão Lages, José Newton Kury de Oliveira Coelho, Grupo Avante e Fleurs Global. Eles não responderam aos questionamentos enviados até a publicação desta reportagem. Caso se manifestem, as respostas serão acrescentadas.
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