Em 1º de setembro de 2026, o ministro André Mendonça, do STF, determinou o levantamento do sigilo de um relatório da Polícia Federal construído a partir de mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, no âmbito da Operação Compliance Zero. Entre os documentos liberados está uma conversa de 14 de abril de 2024 na qual o advogado Ciro Soares — então atuando na defesa do Master — diz a Vorcaro ter articulado, junto ao procurador-geral da República Paulo Gonet, a desistência de um concorrente à presidência do Conselho Nacional dos Procuradores-Gerais (CNPG) em favor de Jarbas Soares Júnior, então procurador-geral de Justiça de Minas Gerais.
No áudio anexado ao relatório, revelado por O Globo, Ciro relata: “Eu pedi o Gonet ontem, ele me ligou falar um assunto, aí eu falei, Gonet, pede o cara para tirar a candidatura, que ele vai tomar uma porrada arretada. Aí o Gonet me ligou ontem à noite e falou: Ciro, acabei de ligar para ele, ele vai desistir.”



Vorcaro pergunta se “o cara largou”; Ciro confirma. Vorcaro responde: “Top demais.” Três dias depois, em 17 de abril de 2024, Jarbas foi eleito presidente do CNPG por aclamação, em reunião da qual o próprio Gonet participou. O concorrente que abriu mão da candidatura, segundo registro oficial do Ministério Público, foi Georges Carlos Frederico Moreira Seigneur, então procurador-geral de Justiça do Distrito Federal.
O CNPG é a associação que reúne o PGR, os PGJs dos 26 estados e do Distrito Federal e os chefes dos ramos Militar e do Trabalho. Não investiga, mas funciona como o foro político da cúpula: alinha pauta entre os estados, coordena os grupos nacionais de combate ao crime organizado e à corrupção e indica nomes à lista tríplice que alimenta o CNMP. A presidência, de um ano, comanda a mesa e senta ao lado do PGR nas reuniões em Brasília. Foi essa cadeira — acesso, agenda e foto — que Vorcaro comemorou.
Procurado pelo O Globo, Jarbas afirmou em nota que as mensagens tratam de um “agradecimento” natural “a colegas procuradores-gerais que apoiaram minha candidatura em uma eleição interna (...) legítima, pública, decidida pelo voto”. Sobre “conversas de terceiros das quais não pa
rticipou”, disse que “deverão responder os autores”, e reforçou seus “37 anos de dedicação” ao Ministério Público.
Jarbas Soares Júnior é hoje o candidato a vice-governador de Minas Gerais na chapa de Patrus Ananias (PT), lançada em 21 de agosto com a presença de Lula em Belo Horizonte, com indicação costurada sob pressão pessoal de Geraldo Alckmin e do senador Rodrigo Pacheco.
Jarbas ocupou a presidência do CNPG até dezembro de 2024. Segundo o O Globo, ele chegou a ser cotado para concorrer ao governo de Minas Gerais em candidatura própria pelo PSB, em meio à dificuldade do PT de encontrar candidato no estado após a recusa do senador Rodrigo Pacheco. Tentou também articular uma vaga ao Senado — perdida para a ex-prefeita de Contagem Marília Campos (PT) e a ex-deputada federal Áurea Carolina (Psol). A vice-liderança na chapa de Patrus Ananias, foi a posição que sobrou das duas tentativas anteriores.
Três anos antes do episódio Gonet, o nome de Jarbas já havia aparecido ligado a outro personagem que hoje integra o núcleo de investigados do maior esquema de corrupção mineral de Minas Gerais. Em maio e junho de 2023, a revista Piauí documentou, em duas reportagens da série “Questões Éticas”, duas viagens de Jarbas em jatos particulares de Lucas Prado Kallas — empresário que a Polícia Federal aponta como gestor operacional de mina com extração ilegal de minério na Serra do Curral entre 2014 e 2018, hoje réu na Operação Parcours e citado nos manuscritos apreendidos no celular do delegado Rodrigo Teixeira.
O relatório liberado por Mendonça e as reportagens de 2023 tratam de episódios diferentes, com personagens diferentes — Vorcaro e Gonet num caso, Kallas no outro. O que os une é o mesmo nome no centro: um procurador-geral de Justiça que, em sequência, recebe uma articulação política de bastidor atribuída ao chefe do Ministério Público Federal e mantém, por anos, proximidade documentada com um empresário hoje investigado por integrar organização criminosa na mineração mineira. Meses depois de deixar o cargo, esse mesmo procurador se torna vice de um governo apoiado por Lula, Alckmin e Pacheco.
Procurado pela imprensa, Jarbas classificou o episódio de 2024 como “eleição legítima” e disse que conversas de terceiros das quais não participou devem ser respondidas por seus autores.
A conexão que antecede o áudio
Na primeira viagem, em julho de 2022, Jarbas e a mulher — advogada que atua na defesa de mineradoras em Minas Gerais — cumpriram agenda oficial na Flórida, custeada pelo erário mineiro, mas prolongaram a estada por seis dias além do previsto, sem registro público do período. No retorno, quem os buscou em Confins foi o jato de Kallas, registrado em nome da Extrativa Mineral S/A, uma de suas empresas de mineração.
Na segunda, em abril de 2023, Jarbas embarcou com Kallas rumo a São Vicente e Granadinas, no Caribe, classificado pela Receita Federal como paraíso fiscal. A viagem, que deveria ser breve, se estendeu por toda a Semana Santa. Nove procuradores de Justiça mineiros pediram sindicância contra Jarbas por causa do episódio; o pedido foi arquivado por falta de competência da Corregedoria estadual para investigar o chefe da instituição.
O calendário chama atenção: duas semanas após o retorno da primeira viagem, em agosto de 2022, o Ministério Público chefiado por Jarbas assinou acordo com o Grupo Cedro, de Kallas, arquivando um inquérito por desmatamento ilegal em área de mineração mediante pagamento de R$ 2 milhões em projetos ambientais. Kallas já respondia, à época, a cinco ações penais por fraude em licitação, corrupção ativa e tráfico de influência — condenado nesta última.
Um grupo de seis procuradores e três promotores do MPMG — entre eles o ex-chefe do órgão Antônio Sérgio Tonet — formalizou pedido de apuração à Corregedoria, alegando que a carona configurava “vantagem de natureza econômica” vedada por lei, e questionando também acordos entre o Grupo Cedro e o MPMG assinados pelo próprio Jarbas.
O caso foi arquivado pela Corregedoria estadual; procuradores pediram o desarquivamento ao CNMP; e em 28 de novembro de 2023, o CNMP confirmou por unanimidade o arquivamento, definindo o episódio como encerrado institucionalmente.
Em nota à Piauí, a assessoria de Kallas classificou as duas viagens como "agendas pessoais e de férias, com amigos de longa data" e "agendas pessoais e de passeio, no feriado, entre amigos de longa data". Em nota à Piauí, Jarbas disse “desconhecer qualquer condenação” contra o amigo.
Quem é Lucas Kallas
O empresário que levou Jarbas de jatinho ao Caribe não é personagem lateral. A Investigação mapeou que Kallas é ex-sócio de Daniel Vorcaro na farmacêutica Biomm, viajou com o banqueiro a Caracas em novembro de 2023 para prospectar negócios no setor petrolífero venezuelano — hospedados no mesmo hotel, com diária de US$ 23 mil por duas suítes —, e que os dois entraram juntos no Palácio do Planalto em dezembro daquele ano, num encontro que não constou da agenda oficial do governo. Kallas e Vorcaro são defendidos pela mesma advogada, Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes.
Kallas integra o “Conselhão” de Lula desde 2023, por indicação do ministro de Minas e Energia Alexandre Silveira — o mesmo ministro cujos indicados para cargos estratégicos na área de mineração (Rodrigo Teixeira, na CPRM, e Caio Seabra, na ANM) acabaram presos ou investigados na Operação Rejeito. Em fevereiro de 2025, Lula assinou pessoalmente com a Cedro Participações, de Kallas, o contrato de concessão do terminal portuário ITG-02 em Itaguaí, chamando o empresário de “alguém que ama o Brasil”. Um mês depois, a PF deflagrou a Operação Parcours contra o mesmo grupo empresarial.
Em setembro, A Investigação revelou em primeira mão o conteúdo do terceiro manuscrito apreendido no celular do delegado Rodrigo Teixeira — o único dos três organogramas que nenhum veículo havia publicado durante toda a cobertura da Operação Rejeito — descrevendo como minério extraído ilegalmente da Serra do Curral era misturado a material legalizado antes de ser vendido a Vale, Gerdau e Trafigura.
Em agosto, um relatório da própria PF confirmou que a Vale de fato comprou ao menos 523,8 mil toneladas desse minério entre 2016 e 2018 — no mesmo período em que Kallas, segundo a PF, geria a operação comercial da mina .
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