O Negócio da Lama: a venda bilionária por trás da tragédia de Brumadinho
Novos documentos revelam que laudos da barragem foram fraudados para sustentar a venda da New Steel por US$ 500 milhões. A Vale já tinha acordo secreto sobre os rejeitos da B1 antes da tragédia.
Em 25 de janeiro de 2019, às 12h28, a barragem B1 da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, se rompeu. Em menos de trinta segundos, cerca de 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos — resíduos da mineração de ferro — mataram 272 pessoas, entre elas duas gestantes. A Vale, uma das maiores mineradoras do mundo e responsável pela barragem, tratou o colapso como um acidente isolado. Os documentos reunidos por esta investigação, ao longo de meses, apontam outra direção.
A empresa tinha pleno conhecimento da condição crítica da barragem e, ainda assim, manteve sua operação com base em laudos que permitiram manter a estrutura oficialmente classificada como segura. Segundo a Polícia Federal, esses laudos foram fraudados. A Vale sabia, desde fevereiro de 2018, que o refeitório e os escritórios da mina seriam atingidos pelos rejeitos em menos de um minuto em caso de rompimento. Não retirou ninguém.
Mas a fraude só ganha sentido quando observada à luz de um movimento paralelo: o negócio da New Steel. Documentos inéditos obtidos por A Investigação revelam que, desde julho de 2017, a Vale já negociava com um grupo de empresários um acordo secreto baseado justamente nos rejeitos armazenados na B1. O acordo esteve protegido por cláusula de sigilo — e nunca chegou às CPIs de Brumadinho nem à imprensa. Para realizar esse negócio, a barragem precisava estar classificada como estável. Ao menos no papel. As vidas dos funcionários e moradores de Brumadinho foram tratadas como risco aceitável diante da perspectiva de lucro bilionário.
Em 11 de dezembro de 2018, a Vale anunciou a compra da New Steel Global N.V. por US$ 500 milhões (cerca de R$ 1,9 bilhão na época). Atualizado pelo IPCA até abril de 2026, o valor equivale hoje a R$ 2,8 bilhões. A empresa afirmava ter tecnologia para transformar rejeitos de barragens em minério que podia ser vendido. No mesmo dia da compra, a Vale recebeu autorização para explorar o rejeito depositado na própria barragem B1. No processo apresentado ao CADE, a mineradora admitiu que parte do valor refletia a expectativa de rentabilidade sobre os finos de minério acumulados em suas barragens. Quarenta e cinco dias depois do anúncio, a B1 se rompeu.
O laudo da Polícia Federal, concluído em 2021, já havia determinado que o colapso não foi causado por chuva nem por fadiga espontânea. Segundo os peritos, o gatilho foi uma perfuração feita pela própria Vale no no dia do rompimento — justamente para analisar o material que a empresa queria explorar e vender.
Os documentos obtidos por esta investigação levam a crer que Brumadinho não foi acidente. Foi o resultado direto de uma operação em que o lucro foi tratado como prioridade sobre a vida. Sete anos depois, a Vale voltou a registrar lucros bilionários.
Ninguém está preso por Brumadinho.
Capítulo I: Os quatro operadores
Antes de a lama descer a serra em Brumadinho, já haviam transcorrido anos de articulação silenciosa entre quatro nomes que se repetem em quase todos os documentos relevantes da história: Lucas Prado Kallas, Luís Fernando Franceschini da Rosa, Bruno Luciano Henriques e Celso Baptista Dias Filho.
Kallas, Franceschini e Bruno começaram juntos. Em 2012, os três fundaram a Cia Mineradora Ferro Phoenix. No ano seguinte, em 2013, a empresa mudou de nome e objeto social, passando a se chamar Green Metals Soluções Ambientais S.A., com discurso de “recuperação ambiental de rejeitos”. Na prática, o grupo se posicionava para acessar e comercializar material depositado em barragens da Vale.
Kallas atuava como o homem de negócios e contatos. Franceschini era o arquiteto das estruturas societárias em camadas. Bruno Luciano Henriques aportava capital e nome familiar. Os três operavam com uma estrutura típica de grupo: pessoas físicas controlando holdings que controlavam as empresas operacionais.
Kallas — o vendedor
Lucas Prado Kallas é um empresário mineiro do setor de mineração, fundador do grupo Cedro. Durante anos, cultivou a imagem pública de “novo minerador ESG”, alinhado ao discurso de sustentabilidade, recuperação ambiental e mineração verde. Nas investigações policiais, aparece de outra forma: como operador comercial de negócios minerários marcados por licenciamentos controversos, suspeitas de exploração irregular e danos ambientais bilionários.
Kallas já teve seu nome citado em pelo menos quatro operações policiais e foi preso temporariamente pela PF em 2008, sob acusação de envolvimento em desvios de recursos do PAC em contratos de obras públicas. Em 2025, voltou ao centro das apurações na Operação Parcours, que investigou a exploração irregular de minério na Serra do Curral, em área tombada, com dano ambiental estimado pela PF em R$ 832 milhões. No mesmo ano, seu nome apareceu em um organograma manuscrito encontrado no celular do delegado Rodrigo Teixeira, no contexto da Operação Rejeito, que apurou um esquema bilionário de corrupção no licenciamento mineral em Minas Gerais. Até hoje, nenhuma dessas investigações resultou em condenação definitiva contra ele.
O empresário também foi sócio de Daniel Vorcaro na farmacêutica Biomm, empresa que recebeu contratos milionários do governo federal para fornecimento de insulina ao SUS, mas deixou a sociedade após reportagem de A Investigação. Assim como o banqueiro dono do Banco Master, Kallas contratou os serviços de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes. Em fevereiro de 2023, pouco mais de um mês após o início do mandato de Lula, foi recebido no Ministério de Minas e Energia em uma agenda com executivos da Cedro e da XP Investimentos. Em fevereiro de 2025, Lula assinou com a Cedro Participações o contrato de concessão do terminal ITG-02, no Porto de Itaguaí, vencido pela empresa em leilão com lance único. No mesmo evento, Lula elogiou Kallas publicamente como “empresário sério” e alguém que “ama o Brasil”.
Mas sua entrada na história de Brumadinho começa antes dessa ascensão política e empresarial. Em fevereiro de 2012, Kallas procurou João Henrique Pereira e Juarez de Oliveira Rabello — os “JJ” —, antigos operadores da Mina Granja Corumi, na Serra do Curral, em Belo Horizonte. Apresentou dois companheiros: Luís Fernando Franceschini da Rosa e Bruno Luciano Henriques. O minério de ferro estava em alta. A mina tinha um ativo jurídico precioso: um Plano de Recuperação de Área Degradada firmado no âmbito do Ministério Público de Minas Gerais. O trio queria a operação.
Em sua oitiva à Polícia Federal, Kallas definiu seu próprio papel como “diretor comercial, responsável pela venda de minério, logística e qualidade”. Afirmou que, até sua saída, todas as operações estavam regulares. Negou irregularidades sob sua gestão. O problema está na cronologia.
O Acordo de Confidencialidade com a Vale sobre material de Jangada e Córrego do Feijão — onde estava a barragem B1 — foi assinado em 20 de julho de 2017. Segundo depoimentos de JJ e Bruno Luciano, Kallas deixou a estrutura apenas em 2018. A própria Cedro, em nota enviada à reportagem, afirmou que ele “se desligou desse negócio formalmente em maio de 2018”. No fim daquele mesmo ano, já em desacordo com Celso Baptista Dias Filho da Flapa, a Cedro Holding, empresa de Kallas, ajuizou ação bilionária contra a Flapa sobre a divisão de outros negócios. Ou seja, Kallas, Celso, Bruno e Franceschini estavam bem alinhados em 2017, quando o acordo sobre os rejeitos da B1 foi estabelecido.
Franceschini — o arquiteto da operação
Luís Fernando Franceschini da Rosa é um advogado e empresário do setor de mineração, apontado pelas investigações como o “arquiteto” das complexas estruturas societárias utilizadas para ocultar operações de mineração ilegal e lavagem de ativos. Nasceu em Porto Alegre, mas radicou-se em Minas. Ali passaria a ser conhecido por outro apelido: “o Gaúcho”.
Franceschini era o engenheiro da estrutura. Construiu o labirinto societário que tornava o esquema invisível: dezenas de empresas em camadas, diretores de fachada, holdings que separavam o controlador do passivo, o mesmo advogado em todos os atos. A Polícia Federal o identifica como principal administrador de uma rede de ao menos 33 empresas interligadas.
Gravações obtidas pela reportagem expõem seu estilo de comando. Sobre a ruptura com Lucas Kallas, o tom é de guerra: “O Lucas era um quebrado, um metido quebrado. E eu e o Bruno demos moral pra esse cara, demos dinheiro pra esse cara, e esse cara meteu uma faca bem cravada nas nossas costas.” Em outra conversa, assume o poder sem disfarce: “E se não é um problema pra mim, não é um problema pra organização, porque quem manda sou eu.”
O papel de Franceschini em Brumadinho é direto. Em abril de 2014, a Green Metals se fundiu com a Flapa Mineração de Celso Baptista Dias Filho, dando origem à Neometal Brumadinho Mineração S.A. — com Franceschini como diretor. Em 2017, a Green Metals — então sob controle de Franceschini — assinou o Acordo de Confidencialidade com a Vale sobre os rejeitos do Córrego do Feijão. Em junho de 2019, cinco meses depois do rompimento, assinou pessoalmente o contrato que cedeu ao Consórcio Terraço/Flapa o terreno onde se encontrava a planta da Green Metals em Brumadinho, para atuação sobre a lama e os rejeitos da tragédia.
E quando o conflito com a Fleurs Global bloqueou a estrada de escoamento da Serra do Curral em 2024, foi Franceschini quem narrou aos funcionários o plano alternativo: “começamos e nos organizamos para começar a tirar o material ali da Empabra em direção à nossa planta de Brumadinho que a gente tem lá, espaço para acomodar tudo isso.”
O minério extraído ilegalmente de uma área tombada em Belo Horizonte tinha como destino de processamento uma unidade no município da maior tragédia minerária da história brasileira. Era a mesma planta citada no Acordo de Confidencialidade firmado em 20 de julho de 2017 entre a Vale, a Green Metals e a Flapa, em tratativas sobre materiais de Córrego do Feijão e Jangada.
Depois do rompimento da B1, o Consórcio Terraço/Flapa também apareceu no mesmo território, contratado para atuar sobre a lama e os rejeitos espalhados pela tragédia. A sequência documental é incômoda: antes do rompimento, a planta aparecia no circuito econômico dos rejeitos da B1; depois da tragédia, voltou a aparecer na operação sobre a lama; anos depois, segundo áudio atribuído a Franceschini, seria usada como destino para material extraído da Serra do Curral.
Bruno Luciano — o capital e a legitimidade
Bruno Luciano Henriques é neto de Antônio Luciano Pereira Filho, empresário que construiu ao longo do século XX um dos maiores impérios de Minas Gerais: as concessionárias de automóveis de luxo do Grupo BDG, a viação São Cristóvão e a Cineart Multiplex, que detém cerca de 70% do mercado de cinemas no estado. A mineração na Serra do Curral era um novo braço desse ecossistema familiar.
Dentro do quarteto, Bruno era o capital e a legitimidade. Kallas abria portas comerciais; Franceschini montava a estrutura jurídica; e Celso operava as plantas. Bruno trazia o nome e, quando necessário, o dinheiro. Sua empresa, a Aroeira Empreendimentos, era uma das holdings que compunham a Cia Mineradora Ferro Phoenix, criada em 2012 com Kallas e Franceschini.
O ponto mais importante para o contexto de Brumadinho é a cronologia da saída de Bruno. Ele afirmou à Polícia Federal ter vendido todas as participações no grupo Biogold a Franceschini pelo valor de R$ 1,00, com cláusula de assunção dos passivos e reembolso do capital investido. A saída formal ocorreu em 2018.
Mas Bruno não desapareceu da equação econômica. A empresa que liquidou a arbitragem com JJ, em junho de 2020, foi a BLT Empreendimentos Imobiliários — ligada à sua família. O pagamento de R$ 85 milhões aos antigos operadores da Mina Corumi saiu do Grupo Luciano, não de Kallas nem de Franceschini. Bruno afirmou à PF que, por esse motivo, Franceschini passou a lhe dever aproximadamente R$ 150 milhões.
Em 2024, Franceschini voltou a procurá-lo para oferecer quitação parcial da dívida. A proposta incluía 50% do produto do Plano de Fechamento da Mina Corumi — a mesma mina que Bruno havia formalmente deixado anos antes. A cronologia revela o ponto central: Bruno Luciano integrou o ciclo de formação do negócio, da Ferro Phoenix à Green Metals, da entrada na Mina Corumi às tratativas com a Vale. Saiu formalmente da estrutura em 2018, mas continuou preso ao passivo e aos resultados econômicos da operação. O “ex-sócio” havia deixado os papéis. Não havia deixado a conta.
Celso Baptista — o operador
Os três se uniram a Celso Baptista Dias Filho e sua esposa, Valéria Fernandez Borges Dias, donos da Flapa Mineração, e fundaram juntos a Neometal Brumadinho Mineração S.A. Foi por meio dessa composição que o grupo passou a ter presença direta na região de Brumadinho e iniciou tratativas formais com a Vale para o aproveitamento dos rejeitos da B1. Celso era o elo local da engrenagem. Era ele que aportava a operação física: a Flapa, a planta, o terreno e o acesso ao ambiente minerário de Brumadinho.
Foi a Flapa que assinou, ao lado da Green Metals, o Acordo de Confidencialidade com a Vale em 20 de julho de 2017. Depois, quando a relação com Kallas se rompeu às vésperas do anúncio da compra da New Steel, Celso passou a disputar judicialmente a divisão dos negócios. Cinco meses após a tragédia, o Consórcio Terraço/Flapa voltaria a aparecer no mesmo território, contratado para atuar sobre a lama e os rejeitos espalhados pelo rompimento.
Os quatro raramente apareciam juntos publicamente. Preferiam atuar por meio de empresas e holdings. Quando a B1 se rompeu, em janeiro de 2019, a estrutura montada ao longo de anos já estava consolidada.
Capítulo II: O negócio
O negócio da New Steel não foi uma peça lateral na história de Brumadinho. É a espinha dorsal econômica que explica a falsificação dos laudos, a blindagem da barragem e a decisão de continuar perfurando uma estrutura condenada até o momento em que ela desabou.
Em 20 de julho de 2017, a Vale assinou um Acordo de Confidencialidade com a Green Metals Soluções Ambientais S.A. e a Flapa Mineração e Incorporações Ltda., empresa controlada por Celso Baptista Dias Filho, operador local do grupo em Brumadinho. O objeto do contrato eram estudos visando ao aproveitamento de materiais de Jangada e Córrego do Feijão. Em linguagem direta, a Vale colocou o grupo de Lucas Kallas dentro do mapa econômico dos rejeitos da B1 um ano e meio antes do rompimento.







O que torna esse documento especialmente revelador é o que aconteceu com ele durante a CPI. O Requerimento de Informações n.º 2.455/2019 exigiu que a Vale entregasse todos os contratos e memorandos firmados com a Green Metals ou seus sócios relacionados ao aproveitamento dos rejeitos da barragem B1. A Vale entregou documentos parciais. O Acordo de Confidencialidade de julho de 2017 não estava entre eles.
As assinaturas do acordo
O acordo tinha seis assinaturas, e elas mostram que o documento não era uma formalidade burocrática. Era o encontro, num mesmo papel, entre executivos da Vale e o núcleo empresarial que depois apareceria nas CPIs e nas investigações policiais sobre mineração, licenciamento e lavagem de ativos.
Pela Vale, assinaram dois executivos: o primeiro era Lúcio Cavalli, então diretor de planejamento da mineradora. Em depoimento à CPI de Brumadinho na Câmara Federal, em 11 de junho de 2019, Cavalli declarou desconhecer relações contratuais com a Green Metals no âmbito de sua diretoria — embora tenha admitido, quando pressionado, que já havia “ouvido falar” da empresa. Sua assinatura contradiz sua declaração.
O segundo signatário da Vale é Fabiano de Carvalho Filho, então Executive Manager de Estratégia e Desenvolvimento de Negócios da divisão de Ferrosos. Em seu perfil profissional, Fabiano descreve que, entre abril de 2017 e outubro de 2021, pelo lado da Vale, conduziu e fechou a aquisição da New Steel. Meses antes, em julho, no mesmo cargo, assinou o acordo com o grupo de Kallas sobre os rejeitos de Córrego do Feijão e Jangada. Em agosto de 2024, foi contratado pela Cedro Participações, empresa de Kallas, como vice-presidente Comercial, Estratégia e Projetos — com a missão de estruturar um contrato de take-or-pay de 20 anos com a Vale e captar mais de US$ 3 bilhões.
Pela Flapa Mineração e Incorporações Ltda., assinou Celso Baptista Dias Filho. Já pela Green Metals, assinaram duas representantes da empresa. A primeira era Luciana Freitas Goulart, que atuava no núcleo administrativo e financeiro do grupo, sendo responsável, ao lado de Bruno Luciano, pela gestão interna da Green Metals e da Bio Gold. A segunda era Claudine Costa Corrêa, profissional que atuou como gerente administrativo-financeira do Biogold Investment Fund e da Green Metals. Em reportagem anterior de A Investigação, Claudine aparece como beneficiária de uma proposta de adesão a um plano de previdência privada do Bradesco vinculado à Empabra. No documento, ela é indicada como “amiga” e detentora de 100% de participação no resgate. O boleto anexo registrava cobrança de R$ 3,7 milhões. Os recursos, no entanto, deveriam ser destinados à recuperação ambiental da Serra do Curral.
Duas testemunhas completam o quadro: os engenheiros Antônio Carlos Pinto Coelho, funcionário da Vale à época, e Marconi Tarbes Vianna, que tinha mais de três décadas de carreira na antiga CVRD e na Vale. Menos de dois meses depois do Acordo de Confidencialidade com a Vale, em 1º de setembro de 2017, Vianna assinou contrato com a Green Metals. O objeto era amplo: assessoria, consultoria, orientação e assistência comercial, estratégica e operacional na área de mineração para projetos da empresa. O contrato previa pagamento mensal de R$ 15 mil até dezembro daquele ano e excluía expressamente a emissão de laudos ou relatórios na condição de responsável técnico.
Anos depois, Vianna foi alvo de mandado de busca e apreensão na Operação Rejeito. A PF investiga a suspeita de que ele tenha sido contratado para intermediar negociações com a Vale sobre o Projeto Brava, uma pequena mina de ferro pretendida na Serra do Gandarela — região de Mata Atlântica preservada e importante manancial de água perto de Belo Horizonte —, ao lado do Projeto Apolo. Investigações apontam que Marconi se tornou sócio da Hermes Mineração, empresa que comprou os direitos minerários do projeto em 2025. Consta ainda que, em fevereiro de 2022, Úrsula Deroma enviou a ele informações sobre a possível nomeação de Rodrigo de Melo Teixeira para um cargo de alto escalão na Polícia Federal. Teixeira foi preso na mesma operação.
As cláusulas do acordo
O Acordo de Confidencialidade tem oito cláusulas. Lidas em conjunto, elas mostram como a Vale colocou Green Metals e Flapa dentro do mapa dos rejeitos da B1 — e, ao mesmo tempo, preservou para si o direito de descartá-las. A lógica era simples: a Vale abria informações sobre o material, tratava rejeito como estéril aproveitável, submetia a negociação a sigilo extremo e mantinha contratualmente uma saída para fechar com terceiros.
O documento não falava em abstração técnica. O Anexo 1 localizava a UTM Brumadinho da Green Metals entre Córrego do Feijão e Jangada. O próprio acordo registrava que a planta estava sendo adaptada e licenciada para operar a úmido, com capacidade de geração de 2 milhões de toneladas por ano de produtos, previsão de funcionamento a partir de 2018 e capacidade ociosa para adquirir minério de terceiros.
A cronologia é decisiva. Em julho de 2017, a Vale abriu informações sobre material de Córrego do Feijão e Jangada a um grupo que dizia ter uma planta pronta para processar minério em Brumadinho no ano seguinte. Em 2018, viriam os laudos de estabilidade, o incidente de perfuração, a licença para reaproveitamento dos rejeitos e a compra da New Steel. Em janeiro de 2019, a barragem caiu.
O considerando (iv) chama o material de “Estéril de Formação Ferrífera — EFF”, definido como algo que “atualmente não é aproveitado no processamento a seco” da Vale, mas que “eventualmente poderá ser aproveitado e processado pelas Partes Receptoras na UTM Brumadinho”. A escolha do termo importa. O acordo não tratava o material como rejeito, mas como estéril aproveitável. Anos depois, diante da CVM, a Vale sustentaria que seus rejeitos não poderiam ser registrados como ativo. A linguagem mudava conforme a conveniência; o material continuava sendo o mesmo.
O sigilo era parte central da engrenagem. Pela Cláusula 2.2, Green Metals e Flapa eram proibidas de revelar que informações confidenciais estavam sendo disponibilizadas, que tratativas estavam em curso, quais eram os termos das discussões, quem eram as partes envolvidas e até que o próprio acordo havia sido celebrado. O contrato, portanto, não protegia apenas dados técnicos. Protegia a existência da negociação.
Esse sigilo, porém, tinha limite. O próprio acordo previa exceção quando a divulgação fosse exigida por lei, processo judicial, ordem ou requisição de autoridade competente. Quando a CPI pediu todos os contratos e memorandos da Vale com a Green Metals e seus sócios sobre os rejeitos da B1, o acordo deveria ter aparecido. Não apareceu.
A Cláusula Quarta completava a blindagem. Encerradas as negociações, Green Metals e Flapa deveriam apagar as informações confidenciais de seus sistemas, devolver ou destruir documentos e certificar o cumprimento por escrito. Isso incluía qualquer documento preparado pelas próprias receptoras que refletisse, total ou parcialmente, as informações recebidas da Vale.
Não há registro público de que essa certificação tenha sido apresentada à CPI de Brumadinho ou a outro órgão de investigação. Também não há registro público de que a Vale tenha informado à CPI se exigiu a devolução, a destruição ou o apagamento desses dados. A pergunta permanece: o que aconteceu com as informações técnicas sobre Jangada e Córrego do Feijão depois que a Vale abandonou a via Green Metals/Flapa e fechou com a New Steel?
O ponto mais revelador aparece no considerando (vii) e na Cláusula Sexta. O acordo previa que, caso a Vale decidisse negociar o EFF, poderia abrir o processo por carta-convite a mineradores da região. Também deixava claro que nenhuma das partes era obrigada a continuar as tratativas ou implementar a transação. A Vale podia repassar informações a terceiros, negociar com outros interessados, rejeitar propostas e encerrar as conversas a qualquer momento, sem gerar direito às Partes Receptoras.
Em linguagem direta: Green Metals e Flapa tiveram acesso ao ambiente técnico do material da B1, mas não receberam garantia de preferência. Desde o início, a Vale preservou contratualmente uma saída. Foi exatamente o que aconteceu: o grupo entrou no mapa dos rejeitos, mas a mineradora acabou fechando com a New Steel.
Do Rio para Amsterdã
Enquanto o acordo de confidencialidade colocava Green Metals e Flapa dentro do circuito técnico dos rejeitos da B1, outra operação se desenhava fora do Brasil. A New Steel Soluções Sustentáveis S.A., sediada no Rio de Janeiro, havia construído sua narrativa empresarial em torno de uma tecnologia de beneficiamento a seco de minério de ferro e rejeitos — era essa tecnologia que permitiria transformar material fino, de baixo teor, acumulado em barragens, em produto comercializável. Em 2018, porém, às vésperas da venda à Vale, a estrutura societária do negócio mudou de escala.
Em 7 de março de 2018 — nove meses antes do anúncio da aquisição pela Vale — foi constituída na Holanda a New Steel Global N.V., com CNPJ brasileiro 29.875.537/0001-87 e sede em Strawinskylaan 3127, 8º andar, em Amsterdã. A sigla N.V., de Naamloze Vennootschap, corresponde a uma sociedade anônima holandesa. O cadastro brasileiro registrava a empresa como domiciliada no exterior, ativa desde aquela data, com atividade principal de pelotização, sinterização e outros beneficiamentos de minério de ferro.
A holding não era uma estrutura histórica com anos de operação. Surgiu no ano da transação. E não surgiu sozinha. O registro de patentes no Instituto de Propriedade Intelectual da Austrália documenta uma sequência decisiva: em novembro de 2018, a titularidade das patentes foi transferida da New Steel Soluções Sustentáveis S.A. para a New Steel Global N.V. Menos de um mês depois, em 11 de dezembro de 2018, a Vale anunciou ao mercado que havia assinado acordo com o Hankoe FIP para adquirir a New Steel Global N.V. por US$ 500 milhões.
A movimentação é central porque a propriedade intelectual era um dos ativos usados para justificar publicamente a operação. A Vale apresentaria a New Steel como detentora de tecnologia inovadora de concentração a seco, com patentes em dezenas de países. Mas, quando a compra foi anunciada, essas patentes já haviam sido deslocadas para a holding estrangeira criada no mesmo ano da venda.
A mudança não foi um detalhe burocrático. Ela ocorreu no mesmo período em que os rejeitos da B1 passavam a ser formalmente autorizados para recuperação, processamento e comercialização em Minas Gerais. No Brasil, a Vale obtinha a licença ambiental que dava destino econômico ao material acumulado na barragem. No exterior, a New Steel Global N.V. concentrava o ativo tecnológico que permitia transformar esse material em narrativa de negócio. As duas trilhas se encontraram no mesmo dia: 11 de dezembro de 2018.
Durante a CPI de Brumadinho da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, a operação New Steel apareceu cercada de suspeitas. Documentos anexados aos autos indicavam que Green Metals Soluções Ambientais, Elijah Administração e Participações e Brasil Século III Consultoria teriam intermediado a compra da New Steel pela Vale. Segundo a denúncia registrada no relatório, essas empresas teriam firmado acordo para explorar os rejeitos da Barragem 1 e cedido à New Steel direitos anteriormente pactuados com a mineradora.
Os documentos afirmavam ainda que, caso a New Steel fosse adquirida pela Vale, “todos os envolvidos, ocultamente, receberiam por suas participações”. A transferência da estrutura para a Holanda, segundo a mesma denúncia, serviria para dificultar a identificação dos sócios, dos beneficiários finais e do caminho do dinheiro.
O segredo do valuation
Em paralelo, documentos do CADE indicam que uma venda de ações minoritárias da New Steel, realizada no primeiro semestre de 2018, serviu como um dos parâmetros para justificar o valuation da empresa antes da aquisição pela Vale, anunciada em 11 de dezembro daquele ano. No trecho público do processo, a própria Vale informa que o comprador, o valor exato da operação e os documentos de suporte aparecem protegidos por tarjas de acesso restrito. Essa é uma das zonas mais sensíveis do processo.
Fontes ouvidas pela reportagem apontam que essa operação minoritária teria envolvido a Pacific Mines, sediada em Vancouver. A suspeita é relevante porque a própria Vale afirmou ao CADE que o preço pago pela New Steel “se espelhou” também nessa venda minoritária. Ou seja, a compra de uma fatia pequena da New Steel ajudou a formar o preço de uma venda bilionária à Vale meses depois.
A reportagem obteve publicações feitas em novembro de 2017 pelo perfil de Licurgo Albuquerque nas redes sociais. Em 26 de novembro, Albuquerque publicou uma imagem dentro de um avião ao lado de Lucas Kallas, com a legenda: “Lucas Kallas, sempre boa amizade, respeito e apoio”. No dia seguinte, publicou uma foto em Belo Horizonte ao lado de João Alberto Paixão Lages, a quem chamou de “grande amigo” e “Coroné”. Em outubro de 2018, às vésperas do anúncio da compra da New Steel, a Cedro indicou Paixão Lages como representante para tratativas com a Flapa. Anos depois, João Alberto apareceria nos manuscritos apreendidos no celular de Rodrigo Teixeira como elo político da engrenagem investigada pela Polícia Federal na Operação Rejeito.
As postagens não comprovam, por si só, participação de Kallas ou João Alberto na compra minoritária da New Steel. Mas colocam os dois, no fim de 2017, no círculo direto de Licurgo Albuquerque — justamente antes da operação minoritária que, segundo os documentos do CADE, serviu como um dos parâmetros para justificar o valuation da New Steel na venda à Vale.
A suspeita sobre a operação canadense ganha peso quando lida ao lado de um áudio obtido por A Investigação. Na gravação, uma voz atribuída a Luís Fernando Franceschini da Rosa afirma que a justificativa de valor da New Steel foi construída por dois caminhos: um fluxo de caixa descontado baseado no aproveitamento de minério de baixo teor e a compra de uma participação minoritária no começo de 2018.
Segundo Franceschini, Lucas Kallas e Bruno Luciano Henriques teriam embarcado em “um voo estranho” para Nova York e depois Toronto, onde se encontraram com “um fundo parceiro” ligado a Licurgo Albuquerque. O roteiro descrito no áudio converge com a publicação feita por Licurgo em 26 de novembro de 2017, dentro de um avião, ao lado de Kallas. A imagem não prova o destino do voo nem o objeto da viagem, mas reforça a proximidade temporal e pessoal entre os personagens citados na gravação.
Franceschini diz acreditar que a venda minoritária usada no valuation pode ter sido “uma combinação” feita por meio desse fundo. Ao tentar lembrar o nome da empresa, identifica a estrutura como sendo de Vancouver, no Canadá: “Pacific Mines”.
Em 11 de dezembro de 2018, a Vale anunciou ao mercado que havia assinado acordo com o Hankoe FIP para adquirir a New Steel por US$ 500 milhões. A Vale não comprou a empresa diretamente de seus fundadores nem da New Steel Global N.V. Comprou de um Fundo de Investimento em Participações — estrutura que, por definição, não exige a identificação pública de seus cotistas. Os US$ 500 milhões foram pagos ao fundo, e o fundo os distribuiu. Para quem, em que proporções e sob que condições: isso nunca foi tornado público.
A própria Vale admite no processo administrativo do CADE (SEI 08700.007027/2018-85) que o preço de US$ 500 milhões pago pela New Steel “se espelhou” na operação desse investidor minoritário. A pergunta que permanece é quem estava por trás da Pacific Mines, qual foi a origem dos recursos usados na aquisição da participação minoritária da New Steel e se Lucas Kallas, Bruno Luciano Henriques, João Alberto Paixão Lages ou empresas relacionadas tiveram participação direta, indireta ou econômica nessa compra. Essa resposta não aparece no trecho público do processo. Permanece escondida na parte sigilosa do CADE. Se Kallas e seu grupo eram cotistas do Hankoe FIP — o veículo que recebeu os US$ 500 milhões —, essa pergunta também segue sem resposta oficial.


A manobra
O negócio não apareceu de repente no comunicado da Vale. Foi montado em etapas. Primeiro, a New Steel ganhou um parâmetro de preço. Depois, foi levada para fora do país. Em seguida, a Vale obteve a licença ambiental que dava destinação econômica aos rejeitos da B1. Só então anunciou ao mercado a compra de US$ 500 milhões, no mesmo dia em que os órgãos ambientais e minerais que compõem o COPAM/MG — muitos investigados posteriormente no âmbito da Operação Rejeito — concederam a licença para explorar os rejeitos da B1. Quando a barragem caiu, a operação já estava estruturada.
A Vale não pagou apenas por uma tecnologia da New Steel. Pagou por uma tecnologia supostamente aplicada a um estoque concreto de minério fino depositado em suas barragens. Entre elas, a B1, em Brumadinho. O valor dos rejeitos não aparecia no balanço como ativo, mas já entrava na conta que justificava uma aquisição bilionária.
A CPI da ALMG não ignorou essa coincidência. O relatório final abriu uma seção específica para tratar da denúncia de aceleração do licenciamento com vistas a viabilizar a aquisição da New Steel. Maria Teresa Corujo — conselheira do COPAM e único voto contrário na Câmara de Atividades Minerárias na reunião de 11 de dezembro — afirmou à comissão que o intervalo entre a primeira pauta no conselho do Parque Estadual da Serra do Rola-Moça, em 5 de novembro, e a votação de 11 de dezembro foi rápido demais e chamou a atenção.
A suspeita registrada no relatório era mais grave: a Vale, mesmo sabendo das falhas estruturais da B1, não teria acionado o plano de autossalvamento nem retirado as pessoas da rota da lama porque precisava obter, naquele 11 de dezembro de 2018, a licença que permitiria transformar os rejeitos da barragem em produto comercializável — no mesmo dia em que anunciou a compra da New Steel.
O então deputado Bartô resumiu a suspeita em plenário: os envolvidos teriam pegado “uma empresa que não vale nada”, transferido a companhia para fora do país e dificultado a identificação dos sócios e do caminho do dinheiro.
A sequência importa. A New Steel foi precificada com base na expectativa de recuperar rejeitos. Depois, foi levada para Amsterdã. Em seguida, faltava a licença que permitiria transformar aquele material em produto comercializável. Ela veio em 11 de dezembro de 2018. Naquele dia, o COPAM/MG concedeu à Vale a Licença Ambiental Concomitante — LAC1 — que autorizava expressamente a “recuperação de rejeitos das Barragens I e VI para produzir pellet feed fines”, o PFF, um produto de ferro comercializável. A autorização foi embasada pelo parecer técnico da SUPPRI/SEMAD n.º 0786757/2018, de 20 de novembro de 2018.
O parecer ia além da autorização genérica para “recuperar” rejeitos. Previa que o material retirado da Barragem I poderia ser comercializado tal como empilhado, usado na mistura dos produtos produzidos em Feijão ou reprocessado pela própria Vale. Não se tratava de lama sem valor econômico. O relatório da CPI da Câmara registrou que, segundo laudos da própria mineradora, o rejeito da B1 ainda tinha 50% de ferro.
Essa era a chave econômica da licença. Ela não apenas autorizava uma etapa de descomissionamento. Abria caminho para retirar, tratar, misturar, reprocessar e vender material com valor mineral relevante. No mesmo dia em que essa autorização foi concedida, a Vale divulgou ao mercado global a compra da New Steel Global N.V. por US$ 500 milhões.

As duas notícias não eram fatos isolados. A licença dava destinação econômica ao material. A aquisição dava à Vale a tecnologia e a narrativa empresarial para reaproveitá-lo. Sem a licença, os rejeitos da B1 continuavam sendo passivo ambiental. Com ela, viravam insumo de uma operação bilionária. E em meio a essa operação, segundo a CPI de Brumadinho da ALMG, ocultamente estava o grupo de Kallas.
O CADE aprovou a compra em 22 dias corridos, incluídos Natal e Ano-Novo, sem contestação pública. Em 2 de janeiro de 2019, a operação estava liberada. Vinte e três dias depois do aval do órgão antitruste — e 45 dias depois da licença e do anúncio da compra —, a B1 se rompeu.
Mas um detalhe sórdido não passou despercebido: os rejeitos espalhados no meio ambiente e sobre os corpos das vítimas foram recuperados pelos próprios envolvidos nessa trama. O consórcio Terraço/Flapa, contratado pela Vale para retirar a lama do meio ambiente por meio de Rafael Parra e Paulo Thiago Puga Miranda, genro de Celso, firmou contrato com a Green Metals para uso do local onde se encontrava sua planta de processamento de minérios. Era a mesma planta que constava no Acordo de Confidencialidade firmado com a Vale em 20 de julho de 2017 e que, segundo Franceschini, foi usada após a tragédia para receber o minério ilegal extraído da Serra do Curral e misturado à lama e aos rejeitos removidos pelo Consórcio Terraço/Flapa.






Mas a disputa pelo dinheiro da New Steel havia começado antes mesmo de o mercado saber oficialmente do negócio. Em 27 de novembro de 2018, duas semanas antes do anúncio da Vale, Lucas Kallas, representado pelo escritório Rodrigo Pacheco Advogados, interpelou criminalmente Celso Baptista Dias Filho, da Flapa, com base no artigo 144 do Código Penal. A interpelação pedia esclarecimentos sobre acusações feitas pelos advogados de Celso, como declaração falsa, ocultação de informações e comportamento contrário aos interesses societários.
A briga logo saiu da esfera criminal e foi para o cível. A Cedro Holding, de Kallas, ajuizou o processo n.º 5165504-34.2018.8.13.0024 perante a 2ª Vara Empresarial de Belo Horizonte. O valor atribuído à disputa: R$ 1,5 bilhão. Hoje, o processo tramita sob sigilo. A ação revela que Kallas e Celso já se desentendiam em vários negócios.
O escritório usado por Kallas nessa disputa também não é detalhe lateral. O cabeçalho do processo estampava o nome do senador Rodrigo Pacheco, então deputado federal por Minas Gerais. Anos depois, Pacheco apareceria no topo de um organograma manuscrito apreendido pela Polícia Federal no celular do delegado Rodrigo Teixeira, com o nome de Kallas em nível subsequente. O senador nega qualquer relação com o esquema. Mas a relação documental entre o empresário e o escritório de Pacheco já existia desde novembro de 2018.
Essa é a progressão da manobra: primeiro, a Vale abriu informações sobre Córrego do Feijão e Jangada à Green Metals e Flapa sob um acordo que escondia até a existência das negociações; depois, a New Steel ganhou um parâmetro de valuation com a entrada de minoritários; em seguida, foi transferida para uma jurisdição mais opaca; no mesmo dia, a licença ambiental deu três caminhos econômicos aos rejeitos da B1 e a Vale anunciou a compra de US$ 500 milhões. Às vésperas do anúncio, os operadores já brigavam entre si. Depois do rompimento, parte dos mesmos personagens voltou ao local para operar sobre a lama.
Capítulo III: A barragem que precisava ficar de pé
Desde 2017, a Vale tinha em mãos cálculos inequívocos sobre o estado da B1. Em dezembro daquele ano, a Potamos Engenharia apresentou os fatores de segurança da estrutura: 1,06 para a condição de pico e 0,39 para a condição pós-pico. Os valores de referência para segurança eram 1,30 e 1,10, respectivamente. O diagnóstico era direto: a barragem permaneceria de pé apenas enquanto nada a perturbasse.
Mas a B1 já não era apenas um problema de segurança. Era também um ativo em preparação. O relatório da CPI do Senado registrou que a barragem estava desativada desde 2016 e passava por esvaziamento de água para ficar apta à remineração — o reaproveitamento do minério de ferro presente nos rejeitos. A estabilidade, portanto, não era só uma exigência regulatória. Era condição para que aquele material pudesse ser retirado, tratado e convertido em produto.
Três anos antes, em novembro de 2015, a barragem de Fundão, em Mariana, também havia se rompido. Naquela tragédia, operada pela Samarco — joint venture entre a Vale e a BHP —, 19 pessoas morreram. Assim como em Brumadinho, a barragem foi construída com o método de alteamento a montante, técnica mais barata, porém mais instável. Depois de Mariana, a Vale não foi devidamente punida. E três anos depois, repetiu o mesmo erro em Brumadinho. Como repetiram muitas vítimas e especialistas na época: “Se a Vale tivesse sido punida por Mariana, Brumadinho nunca teria acontecido.” Só após a tragédia de Brumadinho é que esse método de construção de barragens foi proibido no Brasil, pela Lei 14.066 de 2020.
Em fevereiro de 2018, a consultoria Walm entregou o Plano de Ação de Emergência da Barragem (PAEBM) da B1. O documento mapeou a trajetória da lama: do talude da barragem, passando pelas oficinas, escritórios, posto médico e refeitório da mina. Em caso de rompimento abrupto, os rejeitos atingiriam o trecho imediatamente abaixo em menos de um minuto. A Vale recebeu o PAEBM, não retirou ninguém da zona de impacto e, no segundo semestre de 2018, reformou completamente o refeitório que o próprio plano marcava como área de impacto instantâneo.
A empresa alemã TÜV SÜD emitiu laudos fraudulentos em junho e setembro de 2018, após intervenção direta de gestores da Vale. Em junho, atestou a estabilidade da B1 adotando, de forma ad hoc, um fator de segurança mínimo de 1,05 — em vez do padrão de 1,30. Em setembro, repetiu a manobra sem que nenhuma intervenção estrutural relevante tivesse sido realizada. O relatório da CPI do Senado registrou que os estudos da TÜV SÜD de 2017 e 2018 estavam, em parte, no contexto de preparação da barragem para a remineração. A mesma empresa que atestava a segurança da estrutura participava de trabalhos ligados ao ativo que dependia dessa estabilidade.
Funcionários de ambas as empresas foram presos e indiciados por falsidade ideológica. Em novembro de 2018, a Vale apresentou esses mesmos laudos ao Ministério Público de Brumadinho, pedindo o arquivamento do inquérito que investigava a segurança da B1. O MP acatou e arquivou.
Em 11 de junho de 2018, a barragem ensaiou o que faria sete meses depois. Durante a instalação do 15º dreno horizontal profundo, a água de perfuração parou de retornar pelo furo. Minutos depois, jatos de água e lama surgiram na face de jusante. Equipes trabalharam sete dias ininterruptamente para montar um dreno invertido emergencial. Os engenheiros atribuíram nota 6 ao evento numa escala em que 10 é crítico — classificação que exigia o acionamento do PAEBM, a comunicação à ANM e à Defesa Civil, e o início da evacuação. Nada disso foi feito. O fraturamento hidráulico foi comunicado à ANM como anomalia menor. Trabalhadores ouvidos pela CPI descreveram a barragem como “igual a uma bomba”. Um veterano da mina alertou o filho para nunca ficar debaixo da B1. Meses depois, morreu no refeitório.
A própria licença de reaproveitamento dos rejeitos reconhecia que a operação exigia cuidado extremo com água, distância e estabilidade. O parecer previa que, para garantir a segurança do corpo da barragem, a dragagem deveria manter distância suficiente da praia de montante, afastar água do maciço, respeitar inclinações específicas e promover o rebaixamento do nível d’água. Também estabelecia que, após a retirada, o rejeito seria disposto provisoriamente na ombreira esquerda da barragem. Ou seja, a operação econômica dependia de mexer justamente no material que ajudava a compor o equilíbrio precário da estrutura. A licença não eliminava o risco. Tentava administrá-lo dentro de uma barragem que a própria documentação técnica da Vale já indicava como crítica.
Depois que o CADE liberou a compra da New Steel em 2 de janeiro de 2019, a Vale iniciou, em 20 de janeiro, uma segunda campanha de perfurações na B1 para caracterizar os rejeitos e instalar instrumentos de medição de pressão interna. O laudo da PF qualifica essa pressa como “atropelo”. Em 25 de janeiro, uma das perfurações atingiu, a 68 metros de profundidade, uma camada particularmente sensível de rejeitos saturados. O fluido usado para resfriar a sonda aumentou a pressão de poros naquele ponto. A estrutura interna perdeu resistência. A liquefação se propagou. Em menos de trinta segundos, o talude desabou.
Em agosto de 2025, a Vale retomou operações de mineração na Mina da Jangada, a menos de dois quilômetros das nascentes que abastecem a comunidade, no mesmo complexo onde a B1 rompeu.
Capítulo IV: A contabilidade da lama
Em 31 de dezembro de 2015, a New Steel Soluções Sustentáveis S.A., com sede no Rio de Janeiro, não tinha receita operacional. Estava em fase pré-operacional, acumulava prejuízos e dependia de aportes dos acionistas para sobreviver. O balanço daquele exercício, auditado pela KPMG e assinado pelo diretor-presidente Gustavo Emina e pelo diretor-financeiro Leonardo Szczerb, registrava ativos totais de R$ 84,4 milhões, quase todo o valor concentrado em imobilizado, intangíveis e adiantamentos a partes relacionadas.
Mas o balanço também descrevia o que tornava a empresa valiosa: uma tecnologia de processamento de minério de ferro integralmente a seco, que seria capaz de converter rejeito com 40% de teor em produto rico com 66% de ferro, com recuperação em massa de 60%. A tecnologia estava patenteada no Brasil desde abril de 2016 e reconhecida em dezenas de países. Esse era o processo industrial que daria sentido econômico ao material acumulado atrás das barragens do Sistema Sudeste da Vale, incluindo a B1.
O quadro societário registrado no mesmo balanço mostrava quem controlava a empresa. Principais acionistas da New Steel e a porcentagem que detinham da empresa:
Hankoe FIP: 67,53%;
GN Barra: 23,46%;
GEF Consultoria: 6,81%;
Mario Fumio Yamamoto: 2,21% (inventor da tecnologia).
O Hankoe FIP, controlador majoritário, era gerido pela Lorinvest Gestão de Recursos Ltda., braço de gestão de ativos do grupo Lorentzen, fundado pelo norueguês Erling Lorentzen, pioneiro da indústria de celulose no Brasil e cunhado do rei Harald V da Noruega. A administração fiduciária do fundo era do BTG Pactual Serviços Financeiros S.A., o maior banco de investimentos da América Latina. Essa distinção entre gestão e administração é técnica, mas relevante: o gestor — a Lorinvest — tomava as decisões de investimento; o administrador — o BTG — era o responsável legal perante a CVM, operando os fluxos financeiros do fundo e respondendo pela guarda das cotas.
O elo entre a Lorinvest e a New Steel estava documentado. Leonardo Szczerb, o Diretor Financeiro que assinou o balanço de 2015, era também sócio-administrador da Lorinvest. A pessoa que geria as finanças da empresa era a mesma que geria o fundo que a controlava. O Hankoe não era recém-chegado em 2015: o balanço registra ao menos quatro emissões privadas de debêntures conversíveis em ações realizadas pelo fundo antes de dezembro daquele ano. O fundo subscreveu as debêntures, integralizou capital, colocou um diretor no comando financeiro e esperou. Quando a Vale concluiu a aquisição, em janeiro de 2019, o fundo estava em posição para receber.
A forma pela qual esses recursos foram distribuídos internamente aos cotistas do Hankoe — quem eram, em que proporções, por quais contas — é uma das perguntas centrais desta reportagem. O regulamento do Hankoe FIP e seus informes de distribuição à CVM não foram tornados públicos.
O sócio amigo de Aécio
O segundo maior acionista da New Steel em 2015, com 23,46% das ações, era a GN Barra Empreendimentos e Participações Ltda. Com participação dessa magnitude, seu detentor receberia, proporcionalmente, uma parcela significativa do valor da venda. O portal O Antagonista destacou, em fevereiro de 2019, que a GN Barra pertencia a Marcelo Soares Pereira, conhecido em círculos empresariais cariocas como Tuca Maia. Entre os sócios da empresa estava o seu irmão, José Henrique Soares Pereira — e entre os cotistas estava uma empresa administrada por familiares de Tuca.
Em 2017, Tuca Maia foi citado na delação do ex-deputado Pedro Corrêa em um episódio envolvendo propina a Paulo Roberto Costa, então diretor de Abastecimento da Petrobras. Segundo Corrêa, o empresário teria proposto vender à estatal 45 milhões de litros de álcool anidro com problemas de qualidade e pagado R$ 4,8 milhões em propina, com os recursos repassados por meio da empresa 2S Participações, de Marcos Valério. Tuca Maia nunca foi investigado por esse episódio.
Seu nome consta ainda da lista de clientes do banco EVG, sediado em Antigua e controlado pelo megadoleiro Dario Messer, alvo da Operação Câmbio, Desligo. Na offshore Sommerset Ltd., registrada no mesmo banco, figuram ele e sua irmã Márcia Andreia Soares Pereira Coelho. José Henrique Soares Pereira — o mesmo que assinava como sócio-administrador da GN Barra — aparece junto com a irmã na offshore Valencia Ltd. O Ministério Público Federal demonstrou interesse na movimentação dessas contas como possível rota de lavagem de recursos ilícitos.
Enquanto a GN Barra detinha quase um quarto da New Steel, uma empresa do grupo de Tuca Maia, a Mega Energia, tinha contrato ativo com a Vale para transporte e espalhamento de produto final na Mina de Feijão, em Sarzedo — ao lado da barragem de Brumadinho. O mesmo grupo familiar beneficiado economicamente pelo negócio dos rejeitos operava, por outra empresa, na própria mina onde esses rejeitos estavam depositados.
Segundo fonte ouvida pelo O Antagonista, a entrada do grupo no capital da New Steel teria ocorrido com ajuda de Georges Sadala, operador financeiro do ex-governador Sérgio Cabral, figura presente nos círculos de Aécio Neves — que também teria sido responsável pela indicação de Fábio Schvartsman para a presidência da Vale. Schvartsman foi posteriormente indiciado por homicídio qualificado em razão do rompimento da B1.
Em outubro de 2017 — três meses após a assinatura do Acordo de Confidencialidade entre a Vale, a Green Metals e a Flapa —, a GN Barra transferiu suas ações da New Steel para o Hankoe FIP. Quem transfere ações para um fundo de investimento em participações recebe cotas em troca; quando o fundo desinveste, as cotas são resgatadas proporcionalmente.
A contradição contábil da Vale
Até aqui, os documentos mostram que os rejeitos da B1 não eram apenas lama acumulada atrás de uma barragem. Eram tratados como matéria-prima, como oportunidade comercial e como base de um negócio bilionário. A contabilidade da Vale, porém, contou outra história depois da tragédia.
Em 14 de abril de 2022, pressionada pela CVM, a Vale assinou uma declaração formal afirmando que os rejeitos de minério de ferro de suas operações no Brasil “não se enquadram na definição de ativo” e, por isso, não poderiam ser registrados como ativo de nenhuma natureza. O documento foi assinado por Gustavo Pimenta — então CFO da companhia e hoje CEO da Vale.
A declaração cria um problema imediato quando confrontada com o que a mesma Vale havia dito ao CADE quatro anos antes, para justificar a compra da New Steel por US$ 500 milhões. No processo de aprovação da operação, a mineradora afirmou que o valor pago refletia “a expectativa de rentabilidade a longo prazo” baseada na recuperação dos finos de minério depositados nas barragens do Sistema Sudeste. No processo do CADE, a Vale também minimizou o impacto da operação para o mercado: afirmou que a aquisição não atingia seu critério mínimo de materialidade para divulgação como “Fato Relevante”. O argumento era internamente contraditório — a tecnologia e os rejeitos justificavam uma compra de US$ 500 milhões, mas o negócio não teria peso suficiente para alterar a decisão dos investidores.
A saída encontrada pela Vale diante da CVM foi argumentar que rejeitos são “desprovidos de valor econômico enquanto essa situação mercadológica e/ou tecnológica perdurar” — formulação registrada no Parecer Técnico 97/2022 da própria CVM. O problema é que a mesma CVM definiu ativo como “um direito que tem o potencial de produzir benefícios econômicos” — não como algo que já gera caixa. A Vale reconheceu o potencial e condicionou-o a uma mudança tecnológica. Era exatamente essa mudança que a New Steel prometia entregar. A CVM registrou a contradição e não a enfrentou. Vale, PwC e KPMG solicitaram sigilo para suas manifestações no processo; a CVM deferiu. Os fundamentos detalhados da declaração de que rejeitos não são ativos nunca se tornaram públicos.
Em 2018, diante do CADE, os rejeitos tinham valor futuro suficiente para ajudar a explicar uma aquisição de meio bilhão de dólares. Em 2022, diante da CVM, esses mesmos rejeitos deixaram de ser ativos. As duas declarações são formais, assinadas perante órgãos reguladores. Não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo.
A saída semântica foi mudar a linguagem. Os rejeitos passaram a ser tratados como “subprodutos da lavra”. A diferença parece técnica, mas tem efeito jurídico e econômico: a Constituição determina que as riquezas minerais pertencem à União, enquanto o produto da lavra pertence ao minerador. Classificar rejeito como subproduto cria base para sustentar que o material pertence à empresa e pode ser comercializado sem novo título mineral ou procedimento ambiental específico. O problema é que rejeito não se confunde com subproduto à luz das normas da ABNT — rejeito é o material descartado após o beneficiamento; subproduto é resultado aproveitável de um processo produtivo. A mudança de nome não altera a origem, a natureza nem o risco do material.
A contradição não ficou restrita ao Brasil. A empresa mineira Itabiriçu Nacional Pesquisa Mineral Ltda. processa a Vale no Condado de Nueces, no Texas, alegando que a mineradora removeu e vendeu, entre 2014 e 2019, cerca de 100 milhões de toneladas de rejeitos e estéril de minério de ferro que pertenciam à empresa. Em outubro de 2025, o tribunal manteve a Vale como ré. O processo desloca a disputa para uma jurisdição em que o sigilo brasileiro tem menos alcance — pelas regras do discovery americano, a mineradora pode ser obrigada a apresentar documentos internos que permanecem fora do alcance público no Brasil.
Em abril de 2022, a SEC ajuizou ação civil contra a Vale no U.S. District Court for the Eastern District of New York, acusando a mineradora de enganar investidores sobre a segurança da B1. Em março de 2023, a Vale fechou acordo e pagou US$ 55,9 milhões para encerrar a ação, mas sem admitir culpa. O processo da CVM, no Parecer 97/2022, registra que a questão de como a Vale declarou os rejeitos no Formulário 20-F arquivado na SEC foi levantada formalmente e não recebeu resposta da autarquia brasileira — o que torna a sobreposição com a jurisdição americana ainda mais relevante. São frentes distintas, mas complementares: a SEC olhava para a informação prestada ao mercado sobre a barragem; o caso da Itabiriçu pode alcançar a documentação sobre a exploração econômica dos rejeitos.
Antes do rompimento, os rejeitos tinham valor econômico suficiente para sustentar negócios, licenças e uma aquisição bilionária. Depois da tragédia, passaram a desaparecer como ativo nos papéis da companhia. O que foi lama para as famílias de 272 mortos era, para o mercado, material reaproveitável. O que foi apresentado à CVM como algo sem natureza de ativo havia sido apresentado ao CADE como base de rentabilidade futura. E o que o Brasil manteve sob sigilo pode acabar vindo à tona fora do país, onde a Vale talvez não consiga controlar quais documentos serão entregues, nem quais perguntas ainda terão de ser respondidas.
O que aconteceu depois da venda
A Vale comprou a New Steel em janeiro de 2019 sabendo que a empresa carregava R$ 58 milhões em prejuízos acumulados e nunca havia faturado um real de sua atividade-fim. Nos três anos seguintes, nada mudou: a New Steel não registrou receita operacional. O Centro Tecnológico Soluções Sustentáveis — a subsidiária que detinha a operação da tecnologia — acumulou prejuízo de R$ 35,4 milhões em 2020 e R$ 53,9 milhões em 2021. A Vale precisou injetar R$ 50,4 milhões em 2020, R$ 70,5 milhões em 2021 e mais R$ 130 milhões em janeiro de 2022 — este último sob a forma de adiantamento que, segundo a nota explicativa do próprio balanço, seria capitalizado na primeira assembleia extraordinária daquele ano. Essa assembleia foi a mesma que aprovou a fusão e extinguiu a empresa. O dinheiro chegou, foi registrado e foi absorvido pelo processo de extinção antes de virar capital efetivo. Em abril de 2022, quando a Vale incorporou toda a estrutura, os auditores avaliaram o patrimônio contábil consolidado das três entidades em R$ 78,5 milhões — 4% do valor pago três anos antes. A Vale não ofereceu explicação pública para essa diferença.
Em julho de 2020, a New Steel formalizou um contrato de cessão de marcas e patentes pelo valor de R$ 10,1 milhões — cerca de US$ 2 milhões. O contrato foi celebrado dentro da própria estrutura da Vale: um mês antes, os registros de propriedade intelectual australianos já documentavam a transferência das patentes da holding estrangeira de volta para a New Steel S.A. brasileira, ambas integralmente controladas pela Vale. Não houve terceiro independente, não houve teste de mercado. O valor registra quanto partes relacionadas atribuíram à tecnologia numa operação interna. Se o preço de US$ 500 milhões estivesse concentrado nas patentes, seria difícil explicar por que a própria estrutura da Vale, dezoito meses depois, avaliou esse mesmo ativo em valor quase 250 vezes menor. Os números confirmam o que o Capítulo 4 documenta do lado regulatório: o preço bilionário só se sustenta se incluir a expectativa de rentabilidade sobre os rejeitos acumulados nas barragens — especialmente os do Sistema Sudeste, incluindo a B1 de Brumadinho.
Em 29 de abril de 2022, a Vale incorporou e extinguiu as três entidades que compunham a estrutura da New Steel: a New Steel S.A. brasileira, o Centro Tecnológico Soluções Sustentáveis S.A. e a holding estrangeira — que em 2018 havia recebido as patentes e operado como New Steel Global N.V. em Amsterdã, e que chegou à fusão reorganizada como New Steel Global S.à r.l., em Luxemburgo, mantendo o mesmo CNPJ brasileiro e a mesma posição na cadeia de controle.
O fundo de pensão dos empregados da Vale, a Valia, registrou a baixa com uma linha seca: “New Steel 09.442.144/0001-72 — CNPJ baixado por Incorporação pela Vale S.A.” Os documentos capazes de esclarecer a cadeia econômica da transação — incluindo quem recebeu os US$ 500 milhões e em que proporções — passaram a estar em três lugares: nos arquivos internos da Vale como sucessora universal, nos registros da CVM sobre o Hankoe FIP e na parte sigilosa do processo do CADE, onde a legislação antitruste exige a identificação dos beneficiários finais.
A pergunta permanece: se a tecnologia isoladamente não justificava o valor pago — como os próprios números internos da Vale sugerem —, e os rejeitos foram declarados sem natureza de ativo, qual era a real justificativa econômica da aquisição de US$ 500 milhões? E quem, de fato, recebeu esse dinheiro?
Capítulo V: o ciclo da impunidade
Sete anos depois do rompimento da B1, a pergunta continua de pé: por que ninguém está preso por Brumadinho? Não faltaram laudos e perícias, CPIs, ações judiciais e investigações. A Polícia Federal concluiu que a perfuração feita pela Vale foi o gatilho direto da liquefação que matou 272 pessoas. A CPI mineira documentou laudos fraudados, plano de emergência ignorado e trabalhadores mantidos na rota da lama. Nossa investigação encontrou duas respostas.
A primeira é que ninguém havia entendido, até agora, o negócio que existia em torno da barragem antes de ela romper. O acordo comercial sobre os rejeitos da B1 estava protegido por cláusula de confidencialidade e nunca chegou às CPIs nem à imprensa. Esta reportagem o obteve. Ele mostra que os rejeitos já eram tratados como ativo bilionário — e que o negócio envolvia os mesmos operadores que a Polícia Federal investigaria anos depois nas Operações Rejeito e Parcours.
A segunda resposta é blindagem. Quando o caminho existia e os documentos chegavam perto demais do topo, o circuito de proteção funcionava — nas CPIs, nos órgãos reguladores, na Polícia Federal, no governo federal e no Supremo. O que faltou atravessar foi o circuito de proteção formado ao redor do negócio. Brumadinho não foi apenas a tragédia de uma barragem instável. Foi o ponto mais grave de um método que já aparecia antes e continuou depois: transformar passivo ambiental em ativo privado, apresentar mineração como recuperação e usar empresas em camadas para afastar os controladores do risco.
Os manuscritos encontrados no celular do delegado Rodrigo Teixeira desenhavam uma arquitetura que seguia viva depois da tragédia: operadores políticos, servidores, empresários, consultores, órgãos capturados e a cadeia comercial do minério. O terceiro manuscrito, revelado por A Investigação e omitido pela cobertura nacional, era o mais sensível porque completava o circuito econômico. Sem ele, o esquema parecia terminar nos operadores. Com ele, chegava aos compradores. O documento mostrava o destino final do material extraído irregularmente: minério misturado a produto legalizado e vendido a grandes compradoras, entre elas a Vale. Era a ponta que transformava exploração irregular em produto formal de mercado.
A captura regulatória
A Operação Rejeito mostrou que a captura dos órgãos fiscalizadores não era metáfora. Leandro César Ferreira de Carvalho, gerente regional da ANM em Minas, enviava minutas de notas técnicas a João Alberto Paixão Lages para revisão antes do protocolo oficial. Caio Seabra, diretor da agência, recebeu uma hora antes de uma sessão o trecho exato do voto que deveria proferir. Claudinei Oliveira Cruz, superintendente substituto de segurança de barragens, apareceu em dados bancários com movimentações incompatíveis com sua renda declarada.
Na Semad mineira, o mecanismo de captura tinha nome: Termos de Ajustamento de Conduta. Durante o governo Zema, o estado firmou 358 TACs e TCs com mineradoras entre 2019 e 2022 — mais que o triplo dos 98 assinados na gestão anterior. Em novembro de 2020, a Controladoria-Geral do Estado alertou formalmente a secretaria de que não era razoável pactuar ajustes com empresas que persistiam em desrespeitar a legislação. O alerta foi ignorado. Quatro mineradoras ligadas ao núcleo investigado pela PF — Fleurs Global, Empabra, Gute Sicht e Tamisa — operaram amparadas por esses instrumentos. O TAC firmado com a Fleurs Global em 2022 foi assinado um dia depois de a equipe técnica da Supram concluir pelo indeferimento da licença. Servidores relataram “pressão sofrida pelo órgão ambiental” para que o caso nem fosse a voto no COPAM.
A engrenagem tinha um eixo: a secretária Marília Carvalho de Melo. Charles Soares, que havia trabalhado para a Fleurs Global antes de ocupar cargo público, foi nomeado por ela para a superintendência responsável por fiscalizar e assinar TACs com a própria empresa. Gilberto Horta, apontado pela PF como articulador central da organização criminosa, auditava os TACs da Fleurs por meio de sua consultoria — de dentro, portanto, do processo que deveria controlá-lo. A Operação Rejeito prendeu o ex-presidente da Feam, Rodrigo Franco, e o diretor do IEF, Breno Lasmar, suspeitos de receber propina para favorecer mineradoras. Franco teria declarado, antes da prisão, que apenas “cumpria ordens” que vinham “de cima”.
O custo territorial dessa engenharia ficou visível na Serra do Curral: a área tombada foi reduzida por ato administrativo de 42 para 9 hectares. Em 2026, a Justiça Federal restaurou a proteção integral e multou a própria ANM em R$ 4 milhões por descumprir ordem judicial que proibia novos direitos minerários na região desde 2018.
A camada policial
Rodrigo de Melo Teixeira era superintendente da Polícia Federal em Minas Gerais e a autoridade máxima da corporação no estado quando Brumadinho se rompeu. Teixeira foi apontado publicamente como o responsável por dar início às investigações. Foi sob sua superintendência que a PF concluiu a primeira fase do inquérito.
Em 2019, Teixeira foi coautor do livro-reportagem Brumadinho: A Engenharia de um Crime, ao lado dos jornalistas Lucas Ragazzi e Murilo Rocha e dos delegados Cristiano Campidelli, Luis Augusto Nogueira e Roger Lima de Moura — obra baseada nos bastidores da investigação que ele superintendia. Seis anos depois, foi preso na Operação Rejeito, suspeito de integrar uma organização criminosa ligada à mineração ilegal e corrupção regulatória. Entre os investigados estavam os mesmos nomes por trás da tragédia de Brumadinho.
Segundo a PF, Teixeira e Gilberto Horta negociaram, por meio da Gmais Ambiental — empresa registrada em nome da esposa do delegado, Daniella Wandeck —, os direitos minerários da Topázio Imperial com o grupo de João Alberto Paixão Lages, Alan Cavalcante e Helder Adriano de Freitas. A operação poderia render a Teixeira cerca de R$ 27 milhões, sem qualquer investimento de sua parte.
O empreendimento tinha uma barragem: a Água Fria, em Ouro Preto. Ela foi construída pelo método de alteamento a montante — o mesmo das estruturas que colapsaram em Mariana (2015) e Brumadinho (2019), proibido no Brasil desde 2020. O problema é que, por anos, a Topázio Imperial havia declarado às autoridades um método construtivo diferente, o mais seguro. Só ao final de 2022, numa reavaliação técnica, a ANM descobriu a inconsistência e reclassificou a barragem. Foi essa revelação que obrigou a empresa a passar a cumprir as exigências legais de descaracterização — e que levou o MPF a ir à Justiça Federal, em fevereiro de 2023, com pedido de liminar para forçar obras emergenciais.
Na ação civil pública, o Ministério Público Federal exigiu que a Topázio Imperial adotasse imediatamente medidas de estabilização, atualizasse o Plano de Ação de Emergência — o documento que define rotas de fuga para comunidades no entorno em caso de ruptura — e apresentasse em 30 dias um projeto de descaracterização com prazo máximo de execução de 12 meses. Três anos depois da ação, a barragem ainda estava em Nível 1 de Emergência, conforme registrou o boletim da ANM de janeiro de 2025. A empresa havia concluído apenas o projeto básico, em junho de 2024, e adiado o projeto executivo — inicialmente previsto para outubro de 2024 — para março de 2025, alegando adequação à nova norma técnica. Um eventual rompimento atingiria o Ribeirão Funil e nascentes da região, em área com comunidades rurais na zona de autossalvamento — o raio onde não há tempo hábil para evacuação após o início do colapso.
Nos dados telemáticos, a posição de Teixeira era tratada como ativo pelo grupo. Em 4 de janeiro de 2023, dia de sua posse como diretor de Polícia Administrativa — o terceiro cargo na hierarquia da PF —, Gilberto Horta enviou áudio a João Alberto: “O Rodrigo Teixeira já tá lá. Já tá mandando e desmandando lá na PF. Já tá reorganizando tudo lá dentro.” No dia seguinte, João Alberto perguntou se Teixeira já tinha nome para indicar à Superintendência da PF em Minas Gerais. O grupo não buscava apenas mina, licença ou barragem. Buscava influência dentro da instituição encarregada de investigar tudo isso.
A camada política
Brumadinho gerou três CPIs. A CPI do Senado, relatada por Carlos Viana, não transformou a trilha Kallas–Green Metals–Franceschini em eixo de responsabilização — os nomes de Lucas Prado Kallas, Luís Fernando Franceschini da Rosa, Bruno Luciano Henriques e Celso Baptista não aparecem em seu relatório final. Viana nega conflito de interesses. Os registros eleitorais mostram que Franceschini doou R$ 100 mil à sua campanha de 2018. João Alberto Paixão Lages e sua filha também fizeram doações relevantes ao senador. A CPI da Assembleia Legislativa de Minas Gerais enxergou a trilha. A do Senado não a levou ao centro.
Em vez de ser responsabilizado, Kallas viveu uma ascensão meteórica. Em fevereiro de 2025, o presidente Lula assinou com sua empresa, a Cedro Participações, a concessão do terminal ITG-02, no Porto de Itaguaí, e o elogiou publicamente como um empresário “sério” que “ama o Brasil”. Trinta e cinco dias depois, a PF deflagrou a Operação Parcours contra a exploração irregular de minério na Serra do Curral, ligada ao mesmo ecossistema empresarial. Em setembro de 2025, dias após a Operação Rejeito, o ministro Alexandre Silveira — de quem Kallas é próximo — participou do Projeto Elos, evento patrocinado pela Cedro Mineração, e anunciou a criação do Conselho Nacional de Política Mineral.
Rodrigo Teixeira percorreu esse circuito por dentro das instituições. Promovido pelo diretor-geral Andrei Rodrigues ao posto de diretor de Polícia Administrativa — o terceiro cargo na hierarquia da PF —, foi também nomeado pelo ministro Alexandre Silveira para o Comitê de Segurança, Meio Ambiente e Saúde da Petrobras. O homem que a Corregedoria acusa de ter negociado barragens em risco e interferido em inquéritos chegou ao número três da corporação que deveria investigá-lo — antes de ser preso, em setembro de 2025, na Penitenciária Nelson Hungria.
A camada judicial
Segundo os manuscritos encontrados no celular do delegado Rodrigo Teixeira, a blindagem judicial era classificada como a quarta camada do esquema — uma estrutura de contenção de danos para garantir que o minério continuasse circulando mesmo sob contestação administrativa ou criminal.
O circuito desenhado nos organogramas dividia a influência por instância. Na primeira instância do TJMG, o ponto de contato indicado era José Newton Kury de Oliveira Coelho, o “Zé Nilton Cury”, descrito pela PF como o “arquiteto do estratagema” de criação de empresas de fachada e peça central da proteção jurídica do grupo nesse nível. Na segunda instância e nos tribunais regionais, o manuscrito conecta essas instâncias diretamente ao nome de Rodrigo Pacheco — que aparece no topo do segundo organograma, ramificando toda a estrutura a partir de sua conexão com João Alberto Paixão Lages. A blindagem não se baseava apenas em influência política: nos dados apreendidos de João Alberto, a PF encontrou uma planilha detalhada de autoridades públicas, incluindo magistrados e membros do Ministério Público, com perfis, decisões e posicionamentos mapeados para antecipar resistências.
O caso da Fleurs Global ilustra essa camada em operação: após decisão de primeira instância determinar a suspensão das atividades e o bloqueio de R$ 30 milhões da empresa, uma decisão de segunda instância reverteu parcialmente a ordem, liberando os valores e permitindo a retomada do licenciamento.
Quando a Operação Rejeito chegou ao STF por mencionar autoridades com foro privilegiado — entre elas o próprio Pacheco —, o caso ficou sob relatoria de Dias Toffoli. O inquérito foi colocado em grau máximo de sigilo; por um período, nem a própria PF tinha acesso completo aos autos. Toffoli revogou as prisões preventivas dos investigados apontados como líderes do esquema, contrariando manifestação da PGR, e depois mandou o caso de volta à primeira instância. Os presos foram soltos. Nenhuma condenação foi proferida. Quando o processo derivado da Operação Parcours chegou ao STF, Kallas contratou Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, criando impedimento formal para sua atuação no caso.
Os manuscritos não comprovam atos judiciais concretos praticados pelas autoridades citadas. O que eles revelam é a percepção interna da organização: o grupo acreditava possuir canais de influência capazes de neutralizar decisões contrárias em qualquer instância. Quando um órgão ambiental travava um negócio, a rede agia para destravá-lo juridicamente. Era essa integração vertical — do licenciamento à blindagem judicial — que mantinha o esquema funcionando.
A blindagem midiática
A imprensa não foi apenas espectadora passiva do “Círculo de Minas” — em alguns momentos, foi parte da arquitetura de legitimidade. Os documentos apontam três mecanismos principais.
O primeiro é o branding de sustentabilidade. Na última semana de fevereiro de 2026, veículos como Estadão e Metrópoles publicaram textos elogiosos que apresentavam Kallas como um líder “comprometido com a Agenda 2030”. Em ao menos um caso, o material foi veiculado sem identificação clara de conteúdo patrocinado. A contradição com a realidade era flagrante: agências de rating como a Sustainable Fitch classificavam a estratégia de sustentabilidade das empresas de Kallas como “em fase inicial” e com “impacto ambiental significativo”.
O segundo mecanismo é a omissão seletiva. Enquanto os dois primeiros manuscritos apreendidos na Operação Rejeito — detalhando corrupção de servidores e políticos — circularam amplamente na mídia, um terceiro documento permaneceu fora da cobertura entre setembro e dezembro de 2025. Segundo as fontes, esse manuscrito nomeava as três maiores compradoras de minério do Brasil — Vale, Gerdau e Trafigura — como destinatárias finais de produto com origem parcialmente irregular. Ao não reportar esse mapa, a imprensa evitou expor a ponta final do mercado e a chamada “lavagem física” do minério.
O terceiro mecanismo é a institucionalização por patrocínio. A Cedro Mineração, de Kallas, adquiriu o nível de patrocínio máster no Fórum Esfera Brasil — evento que reúne a cúpula do Executivo, do Judiciário e do setor financeiro. Esses palcos conferiram a Kallas uma forma de blindagem institucional que culminou nos elogios públicos do presidente Lula, que afirmou ter “descoberto na hora” que o empresário era sério.
O circuito completo
Nenhum desses fatos prova, isoladamente, que houve um acordo para proteger o esquema. Em conjunto, eles mostram que o grupo soube construir proximidades precisamente onde as proximidades importavam: no órgão regulador, no licenciamento ambiental, na CPI, na Polícia Federal, no governo federal e no Supremo. Cada instituição tocava uma parte do caso. Nenhuma atravessava o circuito inteiro. E onde a blindagem não era suficiente, o sigilo completava o trabalho — nos trechos confidenciais do processo do CADE, nos contratos que a Vale não entregou às CPIs, nos autos protegidos pelo STF.
Em áudio obtido por A Investigação, em conversa sobre disputas, riscos jurídicos e relações políticas do grupo, Franceschini resume essa arquitetura na primeira pessoa: “A coisa sempre termina em Brasília. E lá em Brasília, um abraço pra eles, pra todos. A gente não perde nada porque a gente conhece todo mundo, a gente se relaciona politicamente e a gente tem grana. Todos [os processos] morreram até agora. Então eu tenho medo zero.”
Sete anos depois, nenhuma condenação foi proferida por Brumadinho. Os investigados da Rejeito estão em liberdade. A ANM foi multada por descumprir ordem judicial que ela própria deveria fazer cumprir. E o terceiro manuscrito — o que mostrava a cadeia comercial do minério e citava a Vale como compradora — foi omitido pela imprensa brasileira.
Dezenas de pessoas físicas — ex-diretores, gerentes e engenheiros da Vale e funcionários da TÜV SÜD — respondem criminalmente, e as audiências de instrução, iniciadas em fevereiro de 2026 na 2ª Vara Federal Criminal de Belo Horizonte, devem se estender até meados de 2027, quando será decidido se os réus vão a júri popular. Em abril de 2026, o STJ determinou, por três votos a dois, a reabertura das ações penais contra Fábio Schvartsman, ex-presidente da Vale; em junho, a mesma Corte negou o recurso da defesa e manteve sua condição de réu por homicídio qualificado — decisão unânime da Sexta Turma.
Na Alemanha, o Primeiro Tribunal Regional de Munique conduziu em maio de 2026 audiências sobre a responsabilidade civil da TÜV SÜD, a empresa alemã que certificou a estabilidade da barragem meses antes do rompimento; 1,4 mil familiares pedem indenização de cerca de R$ 3,2 bilhões, e o Ministério Público de Munique ainda avalia se apresenta denúncia criminal contra a empresa.
No campo da reparação, o abismo entre os números e a realidade dos atingidos permanece visível. Em fevereiro de 2021, a Vale, o governo de Minas e o Ministério Público fecharam o maior acordo ambiental da história do Brasil — R$ 37,6 bilhões para reparar os danos coletivos da tragédia. Cinco anos depois, mais de 158 mil atingidos ainda aguardam indenização individual, e o Programa de Transferência de Renda criado pelo acordo — que pagava até um salário mínimo mensal a famílias afetadas — foi encerrado em outubro de 2025 sem que as indenizações definitivas estivessem garantidas.
Ninguém está preso por Brumadinho. A pergunta não é apenas por quê. A pergunta é quem trabalhou para que fosse assim.
O que dizem os envolvidos
A reportagem enviou questionamentos a todas as pessoas e instituições citadas. As respostas — e os silêncios — são parte da história.
Green Metals e Empabra: As duas empresas contrataram a mesma assessoria de gerenciamento de crise para responder conjuntamente. O tom foi evasivo. Embora afirmassem que estavam abertos para responder todas as questões, em três rodadas, nenhuma das perguntas centrais foi respondida no mérito: o Acordo de Confidencialidade de julho de 2017, o contrato de cessão da planta firmado em junho de 2019 e os áudios atribuídos a Franceschini permaneceram sem resposta. A assessoria afirmava que a reportagem deveria enviar perguntas
Em um dos emails, a assessoria descreveu a participação do grupo após o rompimento como "ceder espaço para caminhões" — um gesto humanitário. O que consta nos autos do IPL 2024.0046355, fl. 2279, é diferente: a descrição de um plano para desviar minério da Empabra para uma planta em Brumadinho. A empresa não negou a existência do áudio nem seu conteúdo. A troca de mensagens na íntegra pode ser lida aqui.
Bruno Luciano Henriques: Por meio de seu advogado, Bruno Henriques enviou nota afirmando que “os fatos indicados são objeto de Inquérito Policial Federal em curso, de caráter sigiloso”, no âmbito do qual “prestou todos os esclarecimentos necessários”. Acrescentou que “confia que o desenrolar das investigações reconhecerá a absoluta regularidade de sua conduta enquanto investidor indireto da Empabra, empresa da qual foi simples sócio investidor, jamais tendo participado de sua gestão”.
FEAM: A Fundação Estadual do Meio Ambiente respondeu em nota institucional afirmando que seus processos de licenciamento “obedecem estritamente os princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência” e que a fundação “não compactua com nenhuma interferência indevida em análises técnicas”. Sobre a Operação Rejeito, informou que as averiguações relativas às empresas envolvidas estão em andamento na Controladoria-Geral do Estado, que conduz sindicância sobre os indícios de irregularidade. Nenhuma das perguntas específicas foi respondida no mérito.
TÜV SÜD: A empresa alemã responsável pelos laudos de estabilidade da B1 respondeu por escrito, por meio de sua porta-voz Jule Depoi: “O colapso da barragem em Brumadinho foi uma tragédia terrível. Nossa solidariedade permanece com as vítimas e suas famílias. A emissão das declarações de estabilidade pela TÜV SÜD Bureau foi legal e em conformidade com os regulamentos brasileiros aplicáveis e normas técnicas vigentes. A barragem estava estável no momento em que as declarações foram emitidas; autoridades fiscalizadoras brasileiras inspecionaram a barragem em novembro de 2018 e não levantaram nenhuma preocupação com a segurança. A TÜV SÜD está convicta de que não tem responsabilidade legal pelo colapso da barragem.” Funcionários da empresa foram presos e indiciados pela Polícia Federal por falsidade ideológica.
Vale: A reportagem enviou questionamentos formais à assessoria de imprensa da Vale. Dois profissionais da mineradora visualizaram o perfil do repórter no LinkedIn após o envio dos pedidos de resposta — mas a empresa não se manifestou.
Lucas Prado Kallas e a Cedro: Kallas e a Cedro Holding foram procurados por e-mail e outros meios. Não responderam. Fabiano Carvalho Filho, Chief Commercial Officer da Cedro Mineração, também visualizou o contato e não respondeu.
AVABRUM: A Associação das Vítimas e Familiares de Brumadinho enviou posicionamento assinado por seus diretores Josiane Melo e Sergio Amaral. Ex-funcionária da Vale, sobrevivente e familiar de vítimas fatais, Josiane afirmou que o aproveitamento econômico dos rejeitos da B1 já era estratégia conhecida internamente na mineradora desde 2008: “Recordo-me perfeitamente de projetos de redução de despesas no Corredor Sudeste. Uma dessas estratégias era justamente o aproveitamento econômico de rejeitos de barragens antigas. Isso incluía, tragicamente, a própria barragem B1.” Leia a manifestação completa aqui.
Os demais: Não responderam: a Flapa, Lúcio Cavalli; Marconi Tarbes Viana; Licurgo Albuquerque; BTG Pactual; Pacific Mines; Claudine Costa Corrêa; Luciana Freitas Goulart; Lorinvest e os demais citados que foram procurados por esta reportagem. O espaço permanecerá aberto.
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Parabéns David! Espero que em 2027 com Flavio no poder essas investigações sirvam p reabrir os processos e punir os culpados.