O Gaúcho e os laranjas da Serra do Curral
Documentos da PF apontam que Luís Fernando Franceschini da Rosa estruturou uma rede de mineração ilegal com laranjas e empresas em camadas — e mostram como ele ressurgiu no setor de minerais críticos.
Era 19 de dezembro de 2022, três dias antes do Natal, quando Leonardo Almeida Ferreira recebeu a ordem de comparecer a uma reunião. O endereço informado não era o escritório onde ele rotineiramente trabalhava, mas um contêiner nas cercanias da antiga Mina Granja Corumi, explorada pela Empabra — Empresa de Mineração Pau Branco — na Serra do Curral, em Belo Horizonte.
Ao chegar, Ferreira afirma ter sido surpreendido por integrantes do jurídico da empresa, que diz nunca ter visto antes, e por homens armados posicionados no local. A ordem foi apresentada sem rodeios: Leonardo deveria deixar a operação imediatamente.
Segundo seu relato, ali teria sido forçado a assinar ali um acordo de confidencialidade e, em seguida, exigiram a entrega do notebook Dell e do iPad — bens pessoais com nota fiscal em seu nome. O argumento foi “formatação de segurança”. O notebook foi recolhido com promessa de devolução. Em mensagens posteriores, Leonardo foi informado de que o equipamento estava com o “jurídico em Brasília”.
Nos dias seguintes, começou a receber alertas sucessivos de tentativas de acesso remoto a contas vinculadas ao seu e-mail, incluindo códigos de verificação única da Microsoft. Em 23 de dezembro, ainda no plantão do recesso de Natal, a Empabra obteve na Justiça decisão favorável em ação de produção antecipada de provas para periciar o notebook. Na prática, a empresa levou ao Judiciário um equipamento que, segundo a petição de Leonardo, já estava em seu poder — buscando chancela formal para acessar e analisar o conteúdo.
O computador só foi devolvido mais de dois anos depois — sem arquivos, com sinais de abertura e parafusos faltando. Leonardo registrou tudo no recibo e, desconfiado de manipulação, vendeu o aparelho. Para ele, a motivação estava clara: “Eles queriam saber exatamente até onde eu sabia.”
E Leonardo sabia muito. Entrou no grupo em 2014 como tesoureiro com carteira assinada e, quatro anos depois, passou a figurar como diretor estatutário da Empabra. No papel, era um homem de comando. Na rotina, segundo afirma, continuava recebendo ordens de outras pessoas. Ao longo de quase nove anos, acumulou documentos, mensagens, registros bancários e áudios. Não foi intimado pela Polícia Federal: apresentou-se espontaneamente à delegada Márcia Paulino Franco Versieux, que conduz o inquérito da Operação Parcours, e entregou esse material.
Leonardo tem interesse direto na disputa — responde a execuções milionárias e moveu ação contra o grupo. Entretanto, em vários pontos, foram os documentos da defesa que confirmaram elementos centrais do seu relato.
A versão da empresa é outra. Procuradas pela reportagem, a Empabra e a Green Metals não responderam às perguntas objetivas enviadas, mas encaminharam, por meio de assessoria conjunta, documentos que apresentam Leonardo como alguém que, no ato de desligamento, teria confessado irregularidades. Entre os materiais estão atas notariais, prints de conversas e declarações que envolvem Geraldo Alberto Brandão, o Beto, ex-funcionário da logística da Empabra descrito como a pessoa que denunciou Leonardo.
Nos anos seguintes à saída de Leonardo, duas operações federais alcançariam o ecossistema empresarial que ele conhecia por dentro: a Operação Rejeito e a Operação Parcours. Os autos passaram a descrever uma engrenagem formada por empresas em camadas, laranjas, recuperação ambiental de fachada e movimentações financeiras que mantinham o passivo nas camadas inferiores da estrutura.
No centro desse labirinto aparece Luís Fernando Franceschini da Rosa — advogado conhecido em Minas Gerais como “o Gaúcho”, identificado pela Polícia Federal como o principal administrador de uma rede de ao menos 33 empresas interligadas, confirmada em planilha impressa apreendida durante as buscas e atualizada em julho de 2024. Ele é investigado em apurações sobre mineração ilegal em área tombada, corrupção de agentes regulatórios e lavagem de ativos.
Estudante de Direito, Leonardo conta que durante uma aula de Direito Penal na PUC Minas recebeu uma ligação de Franceschini. Atendeu pensando que ouviria uma proposta de acordo. A mensagem, segundo ele, foi curta: “Leonardo, isso não vai muito longe e você deveria ficar de boca calada.”
Há ainda dois áudios, gravados às escondidas por Beto em um encontro com Franceschini num hotel da Savassi — encontro cuja existência e data o próprio empresário registrou em cartório. Neles, uma voz atribuída a Franceschini resume a lógica de poder que, segundo a investigação, sustentava o grupo: “Em Brasília, um abraço. A gente não perde nada.”
Enquanto Leonardo tenta, mais de três anos depois da reunião no contêiner, provar que não comandava a estrutura que carregava seu nome — respondendo a execuções milionárias e impedido de reorganizar a própria vida financeira —, Franceschini continua operando. Em 2024, já com investigações em curso e após a interdição da Mina Corumi pela Prefeitura de Belo Horizonte em maio daquele ano, abriu novas empresas voltadas a ouro, cobre, lítio, terras raras e minerais críticos — os mesmos insumos que se tornaram estratégicos na disputa global entre Estados Unidos e China.
A história que começa no contêiner não termina na Serra do Curral. Segundo documentos analisados por A Investigação, ela percorre uma engrenagem de empresas em camadas, laranjas e diretores de fachada que permitiu ao grupo atravessar múltiplas operações da Polícia Federal — e desemboca na nova embalagem empresarial do conglomerado, agora dedicada à extração de minerais críticos e terras raras.
Os negócios do Gaúcho
Luís Fernando Franceschini da Rosa nasceu em Porto Alegre, em outubro de 1966. Formou-se em Direito, montou escritório de advocacia no Rio Grande do Sul e construiu uma trajetória que, à primeira vista, parecia distante das cavas de minério de Minas Gerais. Foi professor universitário na UniRitter e presidiu o Instituto de Estudos de Direito Internacional e Comparado, em Porto Alegre. Em Minas Gerais, passaria a ser conhecido por outro nome: “o Gaúcho”.
Filiado ao PT desde 1987, segundo registros do TSE, em 2018 Franceschini doou R$ 100 mil para a campanha do então candidato ao Senado Carlos Dias Viana, na época filiado ao PHS, depois migrado para o PSD-MG. A contribuição foi uma das maiores recebidas por Viana. Poucos meses depois da eleição, Viana assumiu a relatoria da CPI do Rompimento da Barragem de Brumadinho, que investigou a tragédia da Vale. Questionado sobre eventual conflito de interesses, o senador afirmou que a doação não comprometeu sua atuação.
A entrada de Franceschini na mineração ocorreu por volta de 2010, durante a valorização do minério de ferro no mercado internacional. O aumento do preço das commodities transformou pilhas antigas, rejeitos e áreas abandonadas em ativos cobiçados. O que antes parecia apenas passivo ambiental passou a ser visto como oportunidade comercial.
Foi nesse ambiente que Franceschini se aproximou de Lucas Prado Kallas — o empresário mineiro que o apresentaria ao negócio da Serra do Curra. Ex-sócio do banqueiro Daniel Vorcaro na Biomm (BIOM3) e figura central dos três manuscritos revelados no celular do delegado da PF Rodrigo Teixeira, o nome de Kallas aparece em pelo menos quatro operações policiais — incluindo a Parcours, que investiga a extração irregular na Serra do Curral. Assim como Vorcaro, Kallas contratou os serviços da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes. Kallas também é integrante do chamado “Conselhão” do presidente Lula e teria sido indicado pelo próprio ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, de quem é próximo.
A mina era a antiga Granja Corumi, explorada pela Empabra em uma das áreas mais sensíveis de Belo Horizonte. A Serra do Curral é tombada pelo patrimônio histórico nacional desde 1960 — símbolo permanente da disputa entre mineração, cidade e preservação.
A Empabra, fundada em 1960, operava dentro desse perímetro tombado. Tinha um ativo jurídico relevante: um Plano de Recuperação de Área Degradada — PRAD —, aprovado em 2008 no âmbito dos órgãos ambientais e acompanhado em acordo com o Ministério Público de Minas Gerais. O plano previa a retirada de 4 milhões de toneladas de material acumulado nos taludes da mina e a posterior recuperação da área, em um ciclo de quatro anos. Pelo acordo, 15% do faturamento bruto deveria ser destinado à recomposição ambiental. Em tese, não se tratava de lavra convencional: a empresa não estaria simplesmente extraindo minério, mas retirando material necessário ao retaludamento e à recuperação de uma área degradada.
Para Kallas e Franceschini, o PRAD passou a funcionar como veículo comercial. Segundo a Polícia Federal, nos autos da Operação Parcours, o minério era retirado e vendido, e uma fração do faturamento deveria, no papel, custear a recuperação ambiental. A empresa não dizia estar minerando uma área tombada, dizia estar executando um plano de recuperação. A diferença entre uma coisa e outra dependia de fiscalização de campo, laudos técnicos e controle efetivo do volume retirado.
João Henrique Pereira e Juarez de Oliveira Rabello — os “JJ” — foram os operadores originais da estrutura, segundo a PF. Juarez, com 34 anos de experiência na MBR, sendo 15 como diretor, e João Henrique, com trajetória em construção pesada e logística, afirmaram em depoimento ter identificado, após a interdição da mina em 1992, a possibilidade de retirar material fino acumulado na área para viabilizar aproveitamento econômico e enfrentar o passivo ambiental. O PRAD foi aprovado em dezembro de 2008. Em fevereiro de 2012, JJ foram procurados por Kallas, Franceschini e Bruno Luciano Henriques, que propuseram adquirir participação na operação — e a partir de fevereiro de 2014 assumiram integralmente os direitos vinculados à Phoenix Mineração, empresa com contrato de exclusividade sobre a Empabra.
Junto deles, como sócio-investidor, estava Bruno Luciano Henriques, neto de Antônio Luciano Pereira Filho — empresário que construiu ao longo do século XX um dos maiores impérios empresariais de Minas Gerais, com concessionárias de automóveis de luxo reunidas no Grupo BDG, a viação São Cristóvão e a Cineart Multiplex, que detém cerca de 70% do mercado de cinemas no estado. A mineração na Serra do Curral era um novo braço desse ecossistema familiar.
O pagamento aos antigos operadores da Phoenix foi estruturado em parcelas vinculadas ao volume extraído — além de royalties de US$ 4,77 por tonelada retirada, conforme relatou o próprio Franceschini à PF. A lógica era simples: quanto mais material saísse, maior seria a capacidade de pagar JJ, financiar a operação e manter a empresa em funcionamento. O problema estava no limite entre o que o PRAD autorizava e o que a operação passou a demandar. Segundo JJ relataram à PF, Kallas e Franceschini passaram a pressionar pela retirada de volume maior do que o previsto no plano.
Franceschini apresentou à Polícia Federal outra versão. Em sua oitiva de setembro de 2025, afirmou que entrou na mineração por intermédio de Kallas, sem experiência prévia no setor. Disse que desconhecia, no início, o tombamento da Serra do Curral e os passivos ambientais existentes. Sustentou que a Green Metals foi criada com foco em recuperação ambiental, não em extração irregular. Declarou que, entre 2014 e 2018, etapas do PRAD foram executadas com prestação de contas aos órgãos competentes. Negou pagamento de vantagens indevidas a servidores públicos.
A versão apresenta a operação como tentativa de organizar uma área degradada herdada de gestões anteriores. Os documentos reunidos pela Polícia Federal, pela CGU, pelo Ministério Público e por ex-integrantes do grupo apontam para outra direção: uma estrutura empresarial que usou o PRAD como eixo jurídico para manter fluxo de minério, faturamento e reorganizações societárias em torno da Empabra. A disputa sobre a Serra do Curral começa nesse ponto — não apenas na quantidade de minério retirada, mas na função real do plano ambiental que permitiu a retirada.
A ruptura
Em 2018, a operação montada em torno da Empabra deixou de ser apenas um negócio mineral em área tombada e passou a ser também uma disputa por dívidas, controle e responsabilidade. Com a queda do preço do minério de ferro, o grupo deixou de honrar os pagamentos devidos a JJ. Eles acionaram a arbitragem e venceram: o acordo firmado depois da condenação resultou em pagamento de R$ 85 milhões aos antigos operadores, segundo resumo de depoimento constante dos autos.
A sociedade dos três se desfez. Kallas saiu em 2018, em meio a uma disputa interna que terminaria em arbitragem. Bruno Luciano formalizou em contrato a venda de suas participações no grupo Biogold para Franceschini pelo valor simbólico de R$ 1,00 — com cláusulas de assunção de passivos e reembolso que, segundo ele relatou à PF, Franceschini não cumpriu.
Bruno Luciano nunca saiu de fato da equação econômica: em acordo posterior, empresas do grupo se comprometeram a pagar à Aroeira — veículo ligado a ele — 50% do resultado líquido das vendas de qualquer produto autorizado a escoar da Mina Corumi até o início da execução do Plano de Fechamento. O “ex-sócio” mantinha, formalmente, participação direta no fluxo financeiro da mina.
Com os processos entre os sócios encerrados, as camadas de empresas, os administradores formais e os fluxos financeiros deixavam de ser objeto de disputa judicial interna. O risco de exposição caía. O controle, segundo os documentos da PF, consolidava-se nas mãos de Franceschini.
Segundo o relato de Leonardo Ferreira entregue à Polícia Federal, 2018 foi um divisor de águas. Naquele período, tornou-se necessária uma desvinculação operacional e societária entre a Empabra e o grupo Biogold/Green Metals — o que ele descreve como “esvaziamento patrimonial” e “blindagem de ativos”, realizado por meio de sua própria figura: ele foi mantido formalmente como diretor para dar aparência de continuidade, enquanto o controle real permanecia com Franceschini e o núcleo do grupo. A justificativa formal era o litígio com JJ e o risco criado pelo passivo milionário.
Leonardo afirma que essa separação também aparecia na rotina. As demandas chegavam por canais operacionais ligados à Green Metals e à Mônada Serviços de Apoio Administrativo e Técnico Ltda. — empresa cujos sócios eram Kellen e a Buriti da Mata —, mas os encontros presenciais com os operadores do grupo ocorriam fora da estrutura formal. Para ele, a Empabra precisava parecer apartada do restante do grupo, embora continuasse recebendo ordens dele. Conversas internas analisadas pela reportagem mostram que demandas administrativas, compras, relatórios, protocolos e cobranças circulavam por canais operacionais do grupo, não por uma estrutura autônoma da Empabra.
No áudio obtido pela reportagem observamos o poder interno de Franceschini depois da ruptura com Kallas. A conversa ocorreu em local afastado, longe do ambiente formal da empresa — uma dinâmica semelhante àquela descrita por Leonardo em sua própria saída, quando foi chamado a um contêiner nas cercanias da antiga Mina Granja Corumi.
Na gravação, Franceschini acusa Kallas de ter roubado o grupo — “não foi só minério, foi muita coisa em todas as frentes” —, mas afirma que a ruptura não teria ocorrido apenas por dinheiro. “A chave pra mim vira pela traição”, diz. Em seguida, descreve Kallas como alguém que “não tinha nada”, “não botou um centavo nesse negócio” e teria sido sustentado politicamente e financeiramente por ele e por Bruno Luciano. “Eu e o Bruno demos moral pra esse cara, demos dinheiro pra esse cara, e esse cara meteu uma faca bem cravada nas nossas costas”, afirma.
A casca de cebola
A Empabra era a empresa que aparecia na ponta mais sensível da estrutura, mas ela não estava sozinha. Nos documentos societários, ela aparece encaixada em uma sequência de pessoas jurídicas que separava a mineradora operacional dos controladores colocados no topo.
A Empabra aparece vinculada à Corumi Participações. Nos documentos analisados nos autos, a Corumi tem como administrador Luís Fernando Franceschini da Rosa e aparece ligada à Green Metals Soluções Ambientais, apontada como detentora de 99% da estrutura societária, enquanto Franceschini aparece com participação minoritária. A Green Metals se apresentava publicamente como empresa voltada à recuperação ambiental e se tornou uma das peças centrais da Operação Parcours.
Acima dela, os levantamentos societários apontam outras camadas, entre elas Grupo Biogold, Nautilus Gestão de Ativos, Vallya Participações Ltda., Silenda Participações Ltda. e Buriti da Mata Administradora de Bens Próprios e Participações Ltda. A Buriti tinha como sócios a Silenda e Franceschini; a Silenda tinha Franceschini como único sócio; e Franceschini aparecia como sócio-administrador da Buriti. No topo dessa cadeia, Luís Fernando Franceschini da Rosa.
Empresas em camadas não são, por si só, ilegais. Holdings, participações societárias e administradoras de bens são instrumentos comuns no mundo empresarial. O ponto relevante, nos autos e nos documentos analisados, é a combinação entre controle concentrado, objetos sociais semelhantes, endereços repetidos, mesmo advogado, centralização administrativa e deslocamento do passivo para as empresas que apareciam na ponta operacional. Segundo os documentos apreendidos, as empresas analisadas do pool reproduziam objeto social semelhante: extração, produção e beneficiamento de ouro, minerais metálicos não ferrosos, atividades de apoio à extração e participação em outras empresas como quotista ou acionista.
Havia, porém, uma lógica mais profunda do que a simples sobreposição de sócios e endereços. O grupo não apenas concentrava o controle: ele internalizava funções que, numa estrutura convencional, seriam exercidas por terceiros independentes. O advogado societário responsável por assembleias, alterações estatutárias e demais atos do pool era Felipe Mesquita Santana — OAB/DF 28.105. Ele também aparece como sócio de Franceschini e Marcos de Oliveira Pereira — investigado em outra frente da PF sobre estruturas minerárias — na Franceschini e Oliveira Advogados Associados.
A Mônada Serviços de Apoio Administrativo e Técnico Ltda. aparece nos autos como empresa centralizadora de serviços administrativos do grupo. Seus sócios eram a Buriti da Mata Administradora de Bens Próprios e Participações e Kellen Roberta Rocha da Silva. A Buriti, por sua vez, tinha como sócios a Silenda Participações e Luís Fernando Franceschini da Rosa.
A coordenação jurídica operacional da Empabra cabia a Ana Laura Braga de Carvalho, identificada pela PF como parte do grupo central, e não como assessora externa. Os endereços de constituição das empresas também se repetiam: Rua Alagoas, nº 772, Rua Sergipe, nº 1.167, e Rua Araguari, nº 358, loja 3, todas em Belo Horizonte, com algumas empresas posteriormente transferidas para outros estados. Segundo Leonardo Ferreira, a Rua Araguari funcionava sobretudo como endereço de correspondência ou coworking — mais um ponto formal de ligação entre empresas que, nos papéis, apareciam separadas.
O ciclo se fechava também no plano financeiro. Segundo análise de Ferreira das planilhas apreendidas, o minério extraído pela Empabra era vendido a uma comercializadora do próprio grupo por R$ 70 a tonelada, valor que estava “flagrantemente abaixo do mercado de minério de ferro de alta qualidade”. A diferença entre o custo de aquisição declarado — R$ 4 milhões — e a receita bruta da comercializadora — R$ 17 milhões — resultava numa margem de contribuição superior a 60%, retida nas camadas superiores da estrutura. A mineradora ficava com os passivos, os riscos, as autuações e as responsabilidades ambientais. A comercializadora ficava com a liquidez.
O mecanismo tinha uma consequência prática descrita na análise das planilhas: ao fixar o custo de aquisição do minério em patamar artificialmente baixo, o controlador transferia o lucro da operação para a empresa posicionada acima da mineradora, onde a margem ficava mais distante das execuções e das responsabilizações que recaíam sobre a Empabra. Segundo comentários de Leonardo Ferreira sobre as planilhas apreendidas, se a recuperação real do concentrado fosse apenas 2% superior ao percentual declarado, “milhões de reais em minério desaparecem do radar fiscal e contábil, circulando entre as holdings sem deixar rastro no balanço oficial”.



Durante as buscas e apreensões realizadas em 28 de março de 2025, no âmbito da Operação Parcours, a Polícia Federal encontrou no escritório da Mônada um conjunto de documentos que a investigação passou a tratar como mapa interno do grupo. O principal deles era uma tabela impressa, atualizada em 25 de julho de 2024 e intitulada “Levantamento Societário 2024”, com 33 empresas listadas por CNPJ, capital social, sócios, administradores e endereços.
Junto ao documento estavam três organogramas manuscritos. O primeiro mapeava as sociedades vinculadas diretamente a Franceschini. Os dois seguintes — intitulados “Organograma MOP Atual 05/2024” e “Organograma MOP Previsto após Ajustes” — mapeavam cerca de 30 empresas sob controle de Marcos de Oliveira Pereira. A diferença entre os dois organogramas de Marcos foi o que mais chamou a atenção da PF: o segundo introduzia camadas societárias adicionais e uma verticalização maior da estrutura, com mais empresas entre o controlador e a base, dificultando a identificação do titular real e fragmentando receitas e despesas entre empresas que circulavam entre si.
Havia ainda anotações avulsas, sem autoria identificada, sobre estratégias de proteção de capital no exterior: contas internacionais, offshores, países, tributações e custos de remessa a paraísos fiscais. Ao lado disso, os documentos traziam prospecções sobre empreendimentos minerais em Mato Grosso, no Vale do Tapajós, na Guiana, no Marrocos, na Bahia, além de nióbio e urânio. O escritório foi desmobilizado no dia seguinte à operação.
A Informação de Polícia Judiciária 2/2025 registrou que a Mônada tinha como sócios a Buriti da Mata e Kellen Roberta Rocha da Silva. Kellen confirmou à PF a função prática da Mônada: disse que, desde 2023, passou a ser contratada por essa empresa, responsável pela centralização dos serviços administrativos e financeiros de diversas empresas do grupo, incluindo Green Metals e Empabra. Afirmou ainda que os pagamentos eram realizados conforme disponibilidade de caixa, com eventuais autorizações de Franceschini quando havia insuficiência de recursos.
Quando a Empabra precisava pagar, a administração passava pela Mônada. Quando faltava caixa, havia autorização de Franceschini. Quando novos atos societários eram necessários, recorria-se ao mesmo advogado. Quando novas empresas eram criadas, reapareciam os mesmos nomes, os mesmos endereços e os mesmos canais administrativos. E, segundo a análise das planilhas apreendidas, quando o minério saía da mina, a margem subia pela cadeia, enquanto os passivos permaneciam concentrados na base.
Os diagramas de “Vínculos coincidentes” e “Endereços coincidentes” foram produzidos pelo Setor de Inteligência Policial da Superintendência Regional da PF em Minas Gerais, como parte da Informação de Polícia Judiciária entregue à delegada Márcia Paulino Franco Versieux em 10 de abril de 2025, no âmbito do IPL 2024.0046355 — o inquérito da Operação Parcours. É uma peça de inteligência policial produzida a pedido da delegada para mapear os alvos dos Mandados de Sequestro e Bloqueio de Bens.


A Empabra concentrava o risco da mina. A Corumi concentrava a participação. A Green Metals dava a moldura ambiental. A Mônada organizava a administração e o financeiro. A Buriti da Mata e a Silenda ficavam nas camadas superiores. Franceschini aparecia como ponto de convergência. Essa arquitetura tinha uma consequência prática: quem aparecia na base pagava a conta.
O “laranja”
A estrutura montada em torno da Empabra precisava de empresas. Mas também precisava de pessoas. Isso porque, enquanto empresas criam distância jurídica, pessoas assinam documentos, abrem contas, representam a companhia diante de bancos, órgãos públicos, fornecedores e tribunais.
Nos documentos analisados, a Empabra passou por sucessivos representantes formais antes de Leonardo Almeida Ferreira. A estrutura de governança chegou a ser composta pelo casal Ismar Leal e Lilian Kely. Segundo Leonardo, o mecanismo era simples: Ismar recebia cerca de R$ 15 mil mensais em dinheiro; para dar aparência legal a esses pagamentos, notas fiscais eram emitidas em nome de Lilian Kely, sua esposa, por eventos ou serviços que, segundo ele, não ocorreram.

Depois, a função executiva de representação documental passou por Eduardo Alves Ferreira, residente em São Paulo. Segundo Leonardo, Eduardo recebia R$ 15 mil mensais, depositados na agência do Bradesco em Mangabeiras. “Ele nunca pisou numa mina de minério. Não sabia diferenciar um feijãozinho de uma brita”, disse Leonardo. A representação formal da Empabra mudava de mãos. O controle efetivo, segundo a tese de Leonardo e os autos da PF, permanecia em outro lugar.
Leonardo afirma ter atuado como interposta pessoa da Empabra — alguém que aparece nos documentos, procurações e nos cadastros bancários, enquanto o administrador de fato dá as ordens, define pagamentos, controla a rotina e toma as decisões relevantes. Em linguagem popular, um “laranja” ou “testa de ferro”.
Leonardo Almeida Ferreira foi contratado em 3 de fevereiro de 2014 como tesoureiro da Biominer S.A., empresa do Grupo Biogold que, após alterações societárias, passou a integrar a estrutura da Green Metals. Tinha carteira assinada, salário mensal de R$ 3.500, vale-combustível e horas extras. Nos anos seguintes, teve acesso a contas, pagamentos e documentos internos das empresas ligadas à mineração na Serra do Curral. Não era um outsider. Era parte do fluxo operacional cotidiano do grupo.

Em 2018, depois da ruptura entre Franceschini, Kallas e Bruno Luciano, sua posição mudou. Segundo Leonardo, a mudança foi comunicada em uma reunião no escritório da Rua Paul Bouthilier, no bairro Mangabeiras, em Belo Horizonte, na presença de Franceschini e Kellen Rocha. A pauta já estava definida: ele deixaria a condição de empregado CLT e passaria a figurar como diretor estatutário da Empabra — a mineradora que concentrava o passivo mais sensível do grupo: a operação na Serra do Curral, as obrigações ambientais do PRAD, as cobranças decorrentes da atividade mineral e as disputas judiciais em curso. O documento de rescisão contratual registra sua demissão sem justa causa pelo empregador, formalidade que encerrava o vínculo trabalhista e inaugurava a nova condição.
Leonardo afirma que não fez investimento, não aportou capital nem recebeu participação societária na Empabra. Além dela, foi constituído administrador em outras duas sociedades da estrutura: a Elazul Investimentos e Participações Ltda. e a Mineralis Participações Ltda. Segundo os documentos apreendidos, a Elazul tinha como sócia majoritária originalmente a Green Metals, com 99,9% das cotas; posteriormente as cotas foram transferidas para a Corumi Participações. A Mineralis, por sua vez, foi constituída em 2015 tendo como único sócio a própria Elazul — empresa da qual Leonardo era, formalmente, o administrador. Era um administrador de uma empresa que controlava outra empresa da qual ele também era administrador, dentro de uma estrutura que ele próprio não controlava.
Segundo ele, a conta também não fechava. Como empregado CLT, recebia R$ 3.500 mais benefícios trabalhistas. Como diretor estatutário, passaria a receber pró-labore — sem vínculo CLT, sem horas extras, sem décimo terceiro, com custos próprios de deslocamento e alimentação, e com exposição muito maior diante de bancos, órgãos públicos e terceiros. O cargo indicava poder. A rotina, segundo Leonardo, indicava o contrário. E o momento pesava: meses antes, ele havia perdido um filho, fato que Franceschini conhecia. “Isso não foi uma proposta”, disse. “Foi uma coerção emocional.”
É preciso registrar com precisão o que a Justiça já decidiu sobre essa relação — porque a empresa usa essa decisão como defesa, e porque ela diz menos do que parece.
Em 2024, Leonardo moveu ação trabalhista pedindo o reconhecimento de vínculo de emprego no período em que foi diretor. Em abril de 2025, a 46ª Vara do Trabalho de Belo Horizonte julgou o pedido improcedente: para o juiz, o conjunto probatório mostrou que Leonardo praticava atos típicos de diretor — assinava contratos, outorgava procurações, representava as empresas — e isso afastou a subordinação jurídica exigida para o vínculo. A sentença, porém, fez outras duas declarações que a defesa da empresa omite. Primeiro: reconheceu que Green Metals, Empabra, Corumi, Elazul, Mineralis e Mônada — as seis empresas — integram um mesmo grupo econômico, com “sócio comum, Sr. Luiz Franceschini”, e respondem solidariamente. Segundo: condenou as empresas a pagar diferenças de pró-labore a Leonardo, reconhecendo que ele, como diretor, recebia menos do que analistas que lhe eram formalmente subordinados.
No depoimento registrado na própria sentença, Leonardo declarou em audiência: que “foi chamado de ‘laranja’ inúmeras vezes”; que “não conseguia autorizar pagamento no sistema”; que “quem autorizava era Kelly”; que “passou a assinar contratos, mas tudo a mando dessas pessoas”; que “somente ia nas reuniões e assinava o papel e retornava”.
A distinção importa. A sentença confirma que Leonardo praticava os atos formais de um diretor — assinar, representar, protocolar. O que ela não analisou, porque não era o objeto da ação, é se havia um controlador de fato por trás desses atos. Essa é exatamente a pergunta da Operação Parcours. Um laranja não é alguém que não assina nada — é alguém que assina tudo sem decidir nada.
Leonardo afirma que, para autorizar pagamentos, precisava de aprovação prévia de Caique Neiva — apontado por ele como homem de confiança de Franceschini, que aparece formalmente como sócio ou diretor em diversas das empresas do grupo. Essa aprovação, segundo seu relato, deveria ser formalizada por e-mail, com confirmação de Marco Aurélio, o tesoureiro com acesso efetivo às contas. O controle dos instrumentos de assinatura também ficava fora do alcance de Leonardo: o token bancário permanecia no telefone corporativo e o certificado de assinatura eletrônica ficava com Ana Laura Braga de Carvalho — bacharelanda em Direito ainda sem OAB, identificada pela PF como coordenadora jurídica do grupo e parte do grupo central de comunicações de Franceschini, junto com Kellen Rocha, no grupo de WhatsApp denominado “Missão Impossível”.
Quando era preciso assinar um documento, afirma Leonardo, Ana Laura pegava o dispositivo e fazia a assinatura. “Você está lá no Taquaril, nós estamos a 20 quilômetros, a gente assina”, disse Leonardo, descrevendo a justificativa que ouviu. Para ele, a retenção do telefone corporativo no momento de sua saída não era apenas um detalhe administrativo: era a retenção do instrumento que, segundo sua versão, permitia autorizações em seu nome sem sua presença.
“Todos no escritório já sabiam que eu servia simplesmente para assinar papel”, disse Leonardo. “Não tinha nem poder para autorizar pagamentos.”
Leonardo confronta a tese sustentada no processo arbitral de que Green Metals e Empabra seriam “duas pessoas jurídicas distintas, sem qualquer relação entre elas”. Em suas notas, ele afirma que mantinha contato com os administradores de fato da Green Metals — Caique Neiva, Kellen Rocha e Luís Fernando Franceschini da Rosa. A informação desloca a discussão do plano societário para o plano operacional: embora as empresas aparecessem como CNPJs separados, os mesmos nomes circulavam nas decisões internas da estrutura. E a sentença trabalhista, ao reconhecer o grupo econômico único, deu a essa tese um carimbo judicial.
De onde vinham as ordens
As ordens do dia a dia chegavam principalmente de Kellen Rocha, por WhatsApp, em qualquer horário — fins de semana, feriados, noite. Franceschini entrava em contato diretamente para compras de passagens aéreas e hospedagens. Caique Neiva, segundo Leonardo, tinha uma exigência específica: suas passagens deveriam ser sempre no assento 5, de saída rápida.
Mensagens de novembro e dezembro de 2021 analisadas pela reportagem documentam essa rotina. Nelas, o contato salvo no telefone de Leonardo como “Caique Mineracao” envia fotos do que aparenta ser área de mina e instrui: “Manda para a Laura”. Pede que Leonardo reserve “um carro para mim na Localiza do aeroporto de Confins para eu retirar amanhã pela manhã”. Em dezembro, coordena com Leonardo a logística de uma viagem a Alta Floresta, no norte do Mato Grosso: “Ida 13/12, Volta 17/12”, “Alugar uma caminhonete”, “Em Alta Floresta tem Localiza. Prioriza ela pq é cômodo e os carros são bons”. Em seguida, encaminha o cartão de contato de um geólogo estrangeiro — Oscar Omar Guevara Herrera, com registro de estrangeiro RNE — e pede o CPF dele para a passagem: “Veja se o RNE funciona”.
As mensagens são de um período relevante. Caíque, em resposta à reportagem, delimitou sua atuação formal no grupo ao cargo de diretor financeiro da Green Metals “entre 2019 e o início de 2020”. As instruções operacionais a Leonardo documentadas nas mensagens são de fim de 2021 — quase dois anos depois. E Alta Floresta fica a cerca de 200 quilômetros de Matupá, onde seriam sediadas, a partir de 2024, as mineradoras da nova fase do grupo, o ecossistema Fides, tratado no fim desta reportagem. Segundo anotações de Leonardo, o geólogo cuja viagem Caíque coordenava prestava serviços à estrutura que daria origem à Fides Gold.
As conversas internas do grupo “Compromissos Labore” ajudam a dimensionar o papel operacional de Kellen. Nelas, ela aparece cobrando providências sobre notas vencidas, pagamentos, relatórios, protocolos e fornecedores. Em uma das mensagens, aponta a existência de seis notas da Labore vencidas e afirma que não era normal aquela quantidade de títulos em aberto. A rotina documentada nas conversas a coloca no centro das demandas administrativas e financeiras do grupo.

A versão que Kellen apresentou à Polícia Federal, em oitiva realizada em 11 de setembro de 2025 perante a delegada Márcia Versieux, é diferente. Ela declarou que sua atuação sempre se deu em ambiente de escritório, sem envolvimento direto com operações de campo, e que era subordinada a Lucas Kallas e a Carlos Adel. Leonardo afirma o contrário: diz que Kellen acompanhava pessoalmente as saídas de minério dos SUMPs — as cavas abertas na área tombada.
A delegada não deixou a contradição passar. “Você tá falando muita coisa que não condiz com as provas, viu, doutor?”, disse Versieux ao advogado de Kellen durante a oitiva. E foi mais direta: “A estratégia de negar coisas que eu tenho prova nos autos que não são verdadeiras.” Antes de encerrar, a delegada avisou: “A partir do momento que ela fala essas questões, ela tem interesse na eventual organização criminosa. Na minha visão.” Kellen poderia, disse Versieux, ter permanecido em silêncio. Ao optar por falar e contradizer documentação já encartada nos autos, assumiu um risco diferente.
Documentos obtidos pela reportagem reforçam o quadro. Em junho de 2019, a empresa de Kellen — Rocha Assessoria e Consultoria Ltda. — firmou contrato com a Green Metals e a Cia Mineradora Ouro MT S.A. por R$ 15 mil mensais. O objeto descrito era “assessoria e gerenciamento na área de mineração”. O contrato dá lastro formal a uma atuação que vai além de tarefas genéricas de escritório.
Outro contrato aprofunda o retrato. Kellen assinou, por procuração, representando sozinha duas empresas do grupo ao mesmo tempo — a Green Metals Soluções Ambientais e a Green Metals Brumadinho Processamentos Sustentáveis. Representar simultaneamente ambos os lados de um instrumento contratual — cedente e cessionário — é indício de poder real de representação. Não se confunde com tarefa meramente administrativa. A própria estrutura da Mônada ajuda a explicar esse poder operacional: a empresa tinha como sócias a Buriti da Mata e a própria Kellen. A Buriti, por sua vez, tinha como sócios a Silenda Participações e Luís Fernando Franceschini da Rosa.
Outro detalhe mostra a circulação dos mesmos nomes dentro da estrutura. Bárbara Mariotto, que aparece como testemunha em contrato ligado à gestão da Green Metals por Kellen e Franceschini, surgiria depois como sócia de Kellen em empresa de seguros fornecedora de plano de saúde a funcionários de empresas do grupo.
A própria Labore também ajuda a expor a mistura operacional. Embora fosse uma pessoa jurídica distinta da Empabra, o endereço de e-mail corporativo usado por Leonardo estava vinculado ao domínio da Labore — laboratório químico em Nova Lima integrado à rotina administrativa do grupo. O dado reforça a lógica descrita por Leonardo: empresas formalmente separadas, mas acionadas pelos mesmos canais e pelas mesmas pessoas.
Kellen também afirmou à PF que Leonardo tentou chantagear membros do grupo durante sua licença-maternidade e que possuía mensagens para comprovar. Quando a delegada perguntou se havia boletim de ocorrência registrado, ela disse que pretendia fazê-lo. Leonardo nega. A denúncia não foi levada a registro antes da oitiva, e a delegada tomou nota da inconsistência: alguém que teria sofrido chantagem e disporia de mensagens comprobatórias não havia ainda formalizado nada.
A “distopia ambiental” na Serra do Curral
Entre julho de 2012 e julho de 2018, a Empabra retirou 8,7 milhões de toneladas de minério de ferro da Serra do Curral, com faturamento bruto de R$ 533,6 milhões, conforme apontado pela CGU. Em 2018, último ano antes do embargo, a empresa extraiu mais que o dobro do volume autorizado pelo acordo com o Ministério Público — ultrapassando em mais de 200 mil toneladas o teto estabelecido no Termo de Ajustamento de Conduta com a Secretaria de Estado de Meio Ambiente.
O impacto não ficou restrito aos números. Duas cavas foram abertas na área da mina entre 2014 e 2019, identificadas nos documentos como Sump 3 e Sump 4. O Córrego Taquaril — que nascia na serra e desaguava no Ribeirão Arrudas — foi destruído e secou em 2017. A PF concluiu que as condutas adotadas a partir de 2014 deixaram a área “em pior estado do que se encontrava” e classificaram a destruição como uma “distopia ambiental”.

O que saía da mina seguia uma rota específica. Segundo Leonardo, o minério era retirado da limpeza dos SUMPs, levado para os taludes e vendido à Fleurs Global, de Alan Cavalcante do Nascimento. “Todo minério da Serra do Curral é ilegal, não poderia sair”, disse Leonardo à reportagem. “O que é feito fora, pela Fleurs Global, é o que chamamos de blend — a mistura de um minério ruim com um bom.”
A rota descrita por Leonardo é exatamente a etapa final do esquema desenhada no terceiro manuscrito da Serra do Curral, revelado por A Investigação: o minério de origem irregular passava por blendagem — a mistura com material legalizado — até se tornar indistinguível de uma carga regular, e seguia para grandes compradoras. É também compatível com os autos da Operação Rejeito, que descrevem a Fleurs Global como núcleo financeiro do esquema, movimentando bilhões de reais sem rastreabilidade da origem lícita do produto.
A natureza jurídica das transações com a Fleurs Global também é contestada por Leonardo. O que a empresa descrevia internamente como “dação” — repasse de minério como forma de pagamento de dívida — era, segundo ele, compra e venda. Leonardo entregou à reportagem contrato e documentos de cartório sobre valores que, afirma, não chegaram a ser pagos. Notificação extrajudicial de agosto de 2021 mostra a Empabra cobrando a Fleurs Global pelo ressarcimento de valores de ICMS ligados à compra de minério de ferro da Mina Corumi. Alan Cavalcante tinha, segundo Leonardo, trânsito livre dentro da Empabra. Perante a Prefeitura de Rio Acima, apresentava-se como diretor da própria mineradora.
A relação entre os dois grupos não durou — e o conflito comercial entre eles seria o pano de fundo de uma ação regulatória que a investigação viria a questionar.
Em 4 de novembro de 2021, o delegado Rodrigo Teixeira — então cedido à Prefeitura de Belo Horizonte, portanto formalmente fora da PF — enviou por WhatsApp à delegada Kelly Cristina de Castro Ireno a localização da sede da Green Metals e uma decisão judicial que suspendia seu funcionamento. No dia seguinte, a delegada enviou a ele consultas a sistemas internos de dados policiais sobre a empresa e sobre Franceschini. A PF descreveu a troca como uma “verdadeira prestação de contas” da delegada ao delegado, demonstrando, nos termos do relatório, “notória subserviência”.
Em março de 2022, Kelly saiu pessoalmente para uma fiscalização na Green Metals. O agente federal Kleber Gualberto dos Santos, de sua própria equipe, descreveu o episódio como atípico: em toda sua atuação na Delegacia de Meio Ambiente, Kelly havia participado de apenas uma fiscalização in loco de iniciativa própria. Exatamente essa. Quando perguntada sobre a origem da denúncia, ficou inicialmente “reticente”. Depois confirmou: a informação tinha vindo de Rodrigo Teixeira. A diligência não tinha procedimento formal instaurado. O inquérito só seria aberto seis meses depois.
Os documentos da PF apontam que a fiscalização pode ter sido usada como instrumento de pressão para forçar a Green Metals a ceder — em benefício do grupo com quem Teixeira negociava, por meio da Gmais, direitos minerários avaliados em dezenas de milhões de dólares. A Green Metals resistia a vender o minério da Empabra à Fleurs Global, de Alan Cavalcante — integrante do mesmo grupo com quem Teixeira mantinha tratativas. A ação regulatória, segundo a PF, não tinha origem técnica, mas uma negociação paralela.
A Investigação já revelou os três manuscritos encontrados no celular de Teixeira — documentos que antecipavam o esquema investigado e que a PF trata como evidência de acesso privilegiado do delegado às estruturas do grupo. Até hoje não se sabe quem os produziu. Para Leonardo, o autor mais provável seria alguém que conhecia a engrenagem por dentro. Sua hipótese, que apresenta como especulação pessoal: Franceschini. A PF não atribuiu autoria aos documentos.
O fluxo financeiro obedecia à mesma lógica de urgência. Compradores efetuavam os pagamentos e o dinheiro era rapidamente transferido para outras contas. O risco eram as chamadas “teimosinhas” — bloqueios judiciais automáticos que poderiam alcançar os valores depositados. As transferências imediatas serviam, segundo Leonardo, para evitar que o dinheiro fosse retido. O circuito que ele descreve era sistemático: o dinheiro entrava na conta da Empabra, migrava para outro CNPJ do mesmo grupo, passava por novas camadas internas e chegava à Green Metals. Entre cada etapa, eram criados contabilmente contratos de prestação de serviços entre empresas do mesmo ecossistema — para que o fluxo não aparecesse como compra e venda direta. “A ordem era amanhecer sem nenhum tostão”, disse Leonardo.
O dano financeiro calculado pela PF na Serra do Curral é de R$ 830 milhões em minério extraído irregularmente. A CFEM — a compensação financeira devida aos cofres públicos pela exploração mineral — não foi recolhida entre 2012 e 2019, somando R$ 11,4 milhões. A pilha de rejeitos e a barragem deixadas no local estão em risco de ruptura — o MPF pediu obras emergenciais em fevereiro de 2026 para evitar um desastre. Em março do mesmo ano, a Justiça Federal suspendeu 57 processos minerários na Serra do Curral, restaurou a proteção integral da área — reduzida ilegalmente por portaria do IPHAN de 42 para 9 hectares — e multou a própria ANM em R$ 4 milhões por descumprir de forma deliberada uma ordem judicial que proibia novos direitos minerários na serra desde o fim de 2018. Mesmo ciente da proibição, o órgão havia autorizado pelo menos quatro novos empreendimentos na área.
O esquema da recuperação ambiental
O PRAD da Empabra previa que parte do faturamento bruto da mineradora fosse destinada à recuperação ambiental da Serra do Curral. A cláusula constava do acordo firmado com o Ministério Público de Minas Gerais. Na prática, a empresa continuava extraindo e vendendo minério sob a justificativa de recompor a área degradada. A recuperação era a moldura jurídica; a operação econômica seguia funcionando. A própria Polícia Federal afirma, na representação da Operação Parcours, que a degradação avançou enquanto estava vigente um plano que deveria recuperar a área.
O dinheiro, porém, percorreu outro caminho. Segundo Leonardo, os recursos reservados para essa finalidade chegaram a se acumular, somando mais de R$ 5 milhões. Parte desses valores teria sido comprometida em uma operação financeira junto ao Bradesco, deixando de cumprir a finalidade original: bancar a recomposição da Serra do Curral.
A documentação bancária analisada pela reportagem mostra uma proposta de adesão a plano de previdência privada — VGBL — vinculada à Empabra. A proposta, datada de 26 de setembro de 2016, traz a empresa como averbadora e Eduardo Alves Ferreira como proponente/representante da operação. Claudine Costa Corrêa aparece no quadro de beneficiários, indicada como “amiga”, com 100% de participação no resgate. O boleto anexo registra cobrança de R$ 3,7 milhões.
Segundo Leonardo, quando a Empabra inadimpliu a obrigação financeira, o Bradesco reteve o valor dado em garantia. Se confirmada, a operação revela uma inversão de finalidade: dinheiro reservado à recuperação ambiental passou a servir como lastro de compromissos financeiros privados da empresa.
O Ministério Público de Minas Gerais recebia relatórios de acompanhamento ambiental sobre o PRAD. Um deles, referente a março de 2020, foi apresentado como o 92º relatório mensal enviado à Promotoria de Justiça do Meio Ambiente. O documento informava um “Total Disponível” superior a R$ 88 milhões. No mesmo material, porém, os dados bancários vinculados ao Bradesco apontavam saldo aplicado de R$ 0 e saldo negativo na conta corrente indicada. Essa contradição é o centro do problema: no papel, havia dinheiro disponível para recuperar a Serra; no banco, a conta não mostrava a mesma disponibilidade.
Leonardo afirma que os relatórios também não refletiam a execução real em campo. Fotos antigas teriam sido usadas para simular trabalhos de recuperação. Despesas sem relação direta com a recomposição ambiental teriam sido lançadas como custos do PRAD. Nos documentos analisados pela reportagem, aparecem mensagens indicando que peças técnicas ligadas à Mina Corumi passavam por comentários e revisões de integrantes do grupo antes de serem assinadas e protocoladas.



Em uma das conversas citadas nos autos, Ana Laura Carvalho encaminha uma versão final de documento revisado por Laura Rainoni e Pedro Morgan. Franceschini pede que ela “feche o cerco” em Vinicius para que ele envie o documento assinado. Em outro trecho, Vinicius sugere o uso de fotos antigas em relatório ambiental, porque imagens atuais deixariam mais evidente o volume das pilhas.
A empresa Solu Engenharia também aparece nos autos da Polícia Federal como parte da cadeia de produção dos relatórios ambientais. Nos documentos enviados ao Ministério Público, apareciam despesas como táxi, passagens aéreas, almoços, jantares e diesel. O problema apontado não era excesso de combustível, mas o contrário: para uma recuperação ambiental real, com máquinas e caminhões operando em uma área degradada daquele porte, o volume registrado seria irrisório.
Segundo Leonardo, ao longo de cinco anos, dezenas de relatórios com centenas de páginas foram protocolados. “Quem analisou? Quem conferiu? Por que as inconsistências não foram identificadas?”, pergunta.

Em outro conjunto de mensagens, anexado a documentos apresentados ao Ministério Público, integrantes do grupo discutem alterações em peças técnicas ligadas à Mina Corumi. Em uma delas, Christianne Vallya informa que Franceschini faria acréscimos antes do protocolo de uma petição sobre obra emergencial. Dias depois, Nívio afirma que o relatório encaminhado por Ana Laura “não atende aos nossos objetivos”. Em seguida, nova versão do parecer é encaminhada, com a indicação de que a formatação ficaria a cargo da Solu.
O delator o traidor
Para entender o que aconteceu com Leonardo entre 19 de dezembro e 23 de dezembro de 2022, é preciso conhecer antes a história de Geraldo Alberto Brandão — o Beto. Ele trabalhou na logística da Empabra, foi demitido meses antes de Leonardo em circunstâncias que considerava injustas e moveu ação trabalhista contra a Green Metals e a Empabra. Ficou sem renda. As mensagens que trocou com Franceschini no fim de 2022 — registradas em cartório pelo próprio empresário e enviadas à reportagem pela assessoria da empresa — documentam sua situação: “Minha situação não é fácil!”, “Preciso demais de trabalhar este mês! Não consigo mais pagar coisas básicas!”, “Eu já estou em situação de perder minha casa”. Em outra mensagem, enviada diretamente a Franceschini: “Fui demitido da sua empresa e saí como um ladrão! E estou sendo tratado desta forma ainda!”
O que Beto não sabia — ou preferiu ignorar — é que Leonardo havia sido, até então, um de seus poucos aliados dentro do grupo. Quando Beto foi demitido, Leonardo tentou ajudá-lo: indicou caminhos, manteve contato, chegou a sugerir que ele procurasse Bruno Luciano em busca de uma oportunidade. Segundo Leonardo, foi exatamente essa aproximação — as mensagens trocadas entre ele e Beto sobre Bruno Luciano — que a empresa usaria depois como prova de seu suposto “vazamento de informações”. Em outras palavras: Leonardo foi demitido, em parte, por ter tentado ajudar o homem que, semanas depois, forneceria os documentos usados contra ele.
Foi esse homem que Franceschini encontrou no lobby do Hotel Royal Golden, na Savassi, em 10 de novembro de 2022 — encontro cuja data e local o próprio Franceschini registraria, semanas depois, em escritura pública num cartório de Itajaí. O que o registro notarial não menciona é que Beto gravou a conversa.
Nos áudios obtidos por A Investigação, uma voz atribuída a Franceschini negocia com Beto a resolução de sua pendência trabalhista e uma recolocação — e, no caminho, expõe a lógica interna do grupo. Sobre a ação trabalhista de Beto, diz não guardar mágoa e explica que pretendia trazê-lo de volta para assumir “a responsabilidade pela logística”. A decisão, afirma, dependia apenas de sua vontade: “Se não é um problema pra mim, não é um problema pra organização, porque quem manda sou eu.” No mesmo diálogo, menciona a necessidade de encerrar outras disputas, incluindo a de Leonardo: “A gente tem que acabar com a putaria, acabar com essa trabalhista, acabar com essa sacanagem aí com Leonardo.”
E então vem o trecho que resume a tese da investigação sobre como o grupo atravessou anos de embargos, autuações e ordens judiciais. “A coisa sempre termina em Brasília”, diz a voz. O grupo não perde disputas porque “conhece todo mundo”, “se relaciona politicamente” e “tem grana”. A conclusão: “Em Brasília, um abraço. A gente não perde nada.”
As mensagens registradas na ata notarial de Franceschini mostram o que veio depois do encontro. Em 23 de novembro, ele escreve: “Beto, bom dia. O que falamos continua de pé.” Beto responde agradecendo e aguardando “o local e horário para conversarmos”. Nas semanas seguintes, pergunta repetidamente sobre o emprego prometido: “Está confirmado para amanhã?”
Em 19 de dezembro — dia em que a empresa formalizou seu desligamento —, Leonardo mandou mensagem a Beto: “Fui demitido.” Beto respondeu: “Como assim? Tá doido?!” — e perguntou: “Qual motivo te deram? Brigou com alguém também?” Leonardo explicou: “Descobriram que eu conversava com o Bruno Luciano. E tentei ajudar você.” Beto respondeu que entendia, que “só queriam usar as pessoas”, e que sofria o mesmo. Dois dias depois, em 21 de dezembro, encaminhou os prints dessa mesma conversa a Franceschini, com a mensagem: “Ele me procurou tentando me culpar pela demissão dele. Fico no aguardo para conversarmos.”
A acusação central contra Leonardo, segundo os documentos da empresa, era que ele “vazava informações confidenciais para pessoas ligadas ao ex-sócio Bruno Luciano”. A defesa de Leonardo a esse ponto é direta — e encontra apoio na própria Justiça. Bruno Luciano não era um estranho: era acionista do grupo, mantinha participação econômica formal no resultado da Mina Corumi via acordo com a Aroeira, e as notificações da Empabra chegavam em nome de Leonardo, que entendia dever prestação de contas também a ele. “Eu não entreguei documentos a ninguém de fora. Eu prestava contas a um acionista”, afirma. A sentença trabalhista que reconheceu todas as empresas como um único grupo econômico sob controle de Franceschini torna essa fronteira — quem era “de dentro” e quem era “de fora” — juridicamente muito menos nítida do que a acusação pressupõe.
O que aconteceu em 23 de dezembro de 2022 é o dado mais revelador de todo o episódio — e foi a própria empresa que o entregou à reportagem. Naquela sexta-feira, véspera do recesso de Natal, foram produzidos ao menos cinco documentos, em dois estados, todos com o mesmo objetivo: formalizar a narrativa de que Leonardo era um traidor confesso.
Em Itajaí, Santa Catarina, Luís Fernando Franceschini da Rosa — “ora de passagem por esta cidade”, segundo o registro — compareceu ao 1º Tabelionato de Notas duas vezes. Na primeira, lavrou ata notarial com 26 capturas de tela das mensagens trocadas com Beto; o registro foi concluído à tarde. Na segunda, lavrou escritura pública de declaração narrando que Beto o havia procurado e denunciado Leonardo; o ato foi selado às 17h48.
Em Belo Horizonte, no mesmo dia, Bruno Viacelli Pontello — Diretor Financeiro da Green Metals e da Empabra — compareceu ao Cartório do Barreiro também duas vezes. Lavrou uma ata notarial com seu depoimento sobre a reunião de desligamento de Leonardo, descrevendo uma “confissão” e uma saída tranquila pelo estacionamento; e uma segunda ata com prints de suas próprias conversas de WhatsApp com Leonardo. Completando o conjunto, o advogado Sálvio Gonçalves Júnior — que representava a empresa na reunião — assinou declaração particular, sem registro em cartório e sem testemunha independente, afirmando que Leonardo “confessou” e assinou um Acordo de Confidencialidade.
Todos os cinco documentos foram produzidos pela mesma parte, por pessoas ligadas à empresa ou ao seu controlador. Nenhum traz a assinatura de Leonardo. Nenhum foi produzido por terceiro independente. E o dia 23 de dezembro foi também a data da decisão judicial que autorizou a perícia no notebook — equipamento que, segundo Leonardo, estava em poder da empresa desde o dia 19.
Há ainda um detalhe que a própria ata notarial de Itajaí registra, em linguagem oficial. Sobre as mensagens capturadas do celular de Franceschini, o cartório consignou que “não possui capacidade técnica para aferir se houve ou não prévia manipulação nos arquivos de imagem apresentados” e que tampouco pode garantir a ausência de “alteração e/ou prévia manipulação de datas e números das mensagens e do conteúdo das mesmas e de seus anexos e/ou exclusões de mensagens intermediárias”. O documento que a empresa enviou à reportagem como prova adverte, ele próprio, que não pode garantir a integridade do que registra. A ressalva não é excepcional — é padrão nos registros de ata notarial de capturas de tela —, mas seu peso neste caso é particular: ao menos uma mensagem aparece como “Mensagem apagada” na sequência registrada pelo cartório.
As versões sobre a saída de Leonardo também não se conciliam entre si. A ata de Pontello e a declaração do advogado descrevem uma reunião em 19 de dezembro na qual Leonardo teria entregue equipamentos e senhas voluntariamente e saído tranquilo. Leonardo registrou boletim de ocorrência e afirma que o notebook foi retirado sob intimidação, com agentes de segurança armados presentes. Sobre a “confissão”, é categórico: “Com quatro seguranças na sua frente, todo mundo olhando para você, num lugar distante, eu confesso até o que eu não fiz.”
Quanto a Beto, meses depois enviou mensagem a Leonardo — à qual a reportagem teve acesso — dizendo que se arrependia e que o que fez “foi imposto no momento de desespero”, em meio a grave crise financeira e familiar. “Eu me arrependi de ser íntegro com estas pessoas”, escreveu. A reportagem enviou questionamentos a Beto, que tem o direito de apresentar sua versão; até a publicação, não houve resposta.
O quadro que os documentos desenham, somados, é o de uma possível operação jurídica coordenada: um ex-funcionário em desespero financeiro acionado como denunciante mediante promessa de recolocação; uma “confissão” registrada exclusivamente por prepostos da empresa; cinco documentos produzidos no mesmo dia em dois estados; uma ação judicial protocolada para periciar um equipamento que já estava em poder da empresa; e um cartório advertindo que não podia garantir a integridade do material que registrava. Tudo isso orbitando uma estrutura cujo controlador, segundo áudio gravado por Beto, declarou: ‘Quem manda sou eu.
O bagaço do laranja
Em novembro de 2025, Leonardo recebeu uma ligação comunicando uma nova dívida de R$ 2,5 milhões ligada à Empabra. Foi essa ligação que o levou a investigar a própria situação bancária. O que encontrou confirmou o que já suspeitava: o Bradesco ainda o listava como representante de contas da mineradora — anos depois de sua saída em dezembro de 2022.
A resposta veio em carta da Ouvidoria do Bradesco, datada de 2 de abril de 2026. O banco informou que Leonardo só foi excluído como representante das contas da Empabra em 5 de março de 2026; no mesmo ato, Luís Fernando Franceschini da Rosa foi incluído como novo representante nas contas 513/553170 e 3484/612. A carta também registrou que a última movimentação ocorreu em agosto de 2024 — quase dois anos depois da saída de Leonardo.



A substituição nominal é o ponto mais sensível do documento. Franceschini, que segundo os documentos analisados havia declarado seu próprio desligamento formal da Empabra em maio de 2018, foi incluído pelo Bradesco como representante das contas em 2026 — justamente no lugar de Leonardo, que afirma ter sido usado como diretor de fachada.
A resposta do banco também ajuda a explicar a importância do telefone corporativo recolhido em dezembro de 2022. Segundo Leonardo, o token bancário ficava naquele aparelho. Se o CPF dele continuava vinculado às contas até março de 2026 e o token estava fora de seu controle desde sua saída, a pergunta central passa a ser quem tinha acesso operacional para autorizar movimentações no período.
O passivo que ficou em nome de Leonardo é concreto. Em 2019, ele passou a figurar como coobrigado em uma execução fiscal movida pelo Estado de Minas Gerais contra a Empabra. A cobrança original era de R$ 2,9 milhões em ICMS e tramita na 1ª Vara Cível da Comarca de Nova Lima. Há ainda, segundo Leonardo, uma execução cível de R$ 3,5 milhões, negativação no Serasa desde 2019 e a cobrança de R$ 2,5 milhões recebida em novembro de 2025.
“Sem conta corrente, eu deixo de ser uma pessoa e passo a ser um ninguém”, disse Leonardo.
Leonardo diz que quem sustenta sua família hoje é sua esposa e que mora de favor. Conta que, quando falta comida, a mãe ajuda. Segundo ele, a Polícia Federal investigou sua família — mãe, irmãos e cunhados — e não encontrou patrimônio. “Se eu realmente fosse dono ou controlador de uma operação milionária”, disse, “onde está esse dinheiro?”
A segunda vida e as terras raras
Enquanto os inquéritos avançavam, Franceschini reorganizava o ecossistema empresarial. Em 2024, com as investigações da PF já em curso, foram abertas novas empresas ligadas ao mesmo controlador — agora voltadas ao que o mercado passou a chamar de minerais críticos: ouro, cobre, lítio e terras raras, insumos estratégicos na disputa tecnológica e geopolítica entre Estados Unidos e China. Entre elas estão a Fides Mining Mineradora S.A. e a Fides Gold Mineradora S.A., sediadas em Matupá, no Mato Grosso, com capitais sociais de R$ 64,4 milhões e R$ 43,7 milhões, respectivamente, segundo os autos.
O fio que conecta o novo ecossistema ao antigo não é apenas o nome do controlador. É o mesmo e-mail fiscal da Mônada que aparece nos cadastros das novas empresas. A Mônada, estrutura administrativa que centralizava os serviços financeiros da Green Metals e da Empabra, reaparece como base operacional da nova fase. Marcos de Oliveira Pereira, sócio recorrente de Franceschini nas antigas estruturas, também aparece nas novas empresas. Felipe Mesquita Santana, o advogado comum do grupo original, mantém a função. A holding Fides Investimentos em Participações Societárias, sediada em Porto Alegre, tem capital integralizado de R$ 42,3 milhões.
Há também continuidade de pessoas — e ela começa antes do que os registros formais sugerem. As mensagens de dezembro de 2021, em que Caíque Neiva coordena via Leonardo a viagem de um geólogo estrangeiro a Alta Floresta, no norte do Mato Grosso, indicam que a prospecção da nova fronteira já estava em andamento três anos antes da constituição formal das mineradoras Fides na mesma região.
A nova fase também contou com um nome de peso técnico. Marco Túlio Naves de Carvalho, ex-diretor de geologia da Vale, deixou a mineradora em julho de 2023 e foi contratado pelo Grupo Mônada entre outubro e novembro do mesmo ano. Em abril de 2025, compareceu à Polícia Federal e confirmou sua atuação na estrutura. Em oitiva à delegada Márcia Versieux, disse que sua função era “exclusivamente técnica, sem poderes administrativos ou de assinatura”. Também apresentou um plano de fechamento da mina da Serra do Curral com custo estimado entre R$ 240 milhões e R$ 370 milhões, a ser financiado pela venda de 6 milhões de toneladas de minério, “sem objetivo de lucro empresarial”.
A estrutura se expandiu para fora do Brasil. Nos autos da Operação Parcours, a Polícia Federal inseriu um organograma apreendido que identifica a EX Gold Corp e a Fides Advisory como nós da estrutura societária sob controle de Marcos de Oliveira Pereira. A própria PF registrou que a nova configuração “pode indicar distanciamento do controlador, com mais camadas societárias, o que dificultaria a identificação deste controlador e a responsabilização direta”.
Registros públicos do Reino Unido informam que Franceschini e Marcos de Oliveira Pereira figuram como pessoas com controle significativo da Zest Resources Ltd., empresa registrada em Londres em janeiro de 2020. Em 2021, Franceschini encerrou formalmente seu cargo de diretor e transferiu o controle para a Fides Advisory Ltd., registrada nas Ilhas Virgens Britânicas. Em julho de 2022, os dois brasileiros voltaram a aparecer como controladores diretos da empresa no registro britânico.
Nesse mesmo perímetro societário aparece um nome relevante para o mercado de capitais americano: Lyle Emerson Braaten, advogado canadense especializado em mineração, formado pela University of British Columbia. Braaten figura em documentos brasileiros como co-diretor de Franceschini na EX Gold Brasil Pesquisa Mineral S.A., empresa do Grupo Fides sediada em Matupá. Ao mesmo tempo, ocupa desde 2016 o cargo de diretor independente da Ero Copper Corp., mineradora de cobre listada nas bolsas de Nova York e Toronto, com operações no Brasil, na Bahia e no Pará.
A internacionalização não era improviso. Documentos encontrados pela PF no escritório de Franceschini mostram que ele já pesquisava a abertura de uma fintech em Portugal e em Londres antes do desmantelamento das operações na Serra do Curral. A expansão para o exterior, portanto, precederia a fase Fides e não se limitaria à mineração. Envolveria também a construção de veículos financeiros em jurisdições estrangeiras.
Oo novo ciclo é diferente: não mais recuperação ambiental de área degradada, mas mineração responsável de insumos para a transição energética. O discurso mudou. A arquitetura — mesmo controlador, mesma estrutura administrativa, mesma lógica de camadas — permanece reconhecível nos documentos.
Do contêiner de dezembro de 2022 à Fides Mining de 2024, a distância é de menos de dois anos. De um lado, Leonardo ainda tenta se livrar de cobranças milionárias de uma operação que afirma nunca ter comandado. Do outro, Franceschini reaparece em nova fronteira mineral, com novas empresas, o mesmo aparato administrativo e a mesma lógica de camadas.
O que dizem os envolvidos
A Investigação enviou perguntas objetivas a Luís Fernando Franceschini da Rosa, à Empabra e à Green Metals sobre os fatos desta reportagem — entre elas, sobre seu papel na gestão de fato da Empabra após 2018, sobre a precificação interna do minério, sobre os áudios e sobre a relação entre as novas empresas Fides e as estruturas investigadas na Parcours.
As perguntas não foram respondidas. Em nome da Green Metals e da Empabra, a assessoria especializada em gerenciamento de crise enviou uma manifestação com três argumentos e documentos anexos, afirmando estar “à disposição para esclarecimento de perguntas que sejam embasadas em fatos e evidências”.
O primeiro argumento é uma decisão do desembargador Pedro Felipe de Oliveira Santos, do TRF da 6ª Região, de março de 2026, que suspendeu o bloqueio de bens da Fides Mining e da Fides Gold. Segundo a assessoria, as empresas “não possuem conexão com os fatos investigados”. A decisão, porém, mostra outra coisa. É uma medida cautelar de cognição sumária, que suspendeu o bloqueio por uma razão técnico-processual — a falta de individualização das condutas pelo Ministério Público —, não por análise de mérito. O próprio desembargador registrou que “os fatos investigados são de extrema gravidade” e que, “se devidamente comprovados, os danos ambientais ilicitamente provocados são vultosos”, ressalvando que a análise da apelação pode “sugerir conclusão diversa”. Um detalhe adicional: o advogado que assina o recurso da Fides Mining no TRF6 é Felipe Mesquita Santana — o mesmo advogado societário que, segundo os autos da Parcours, respondia pelos atos formais de todo o pool de empresas de Franceschini, e seu sócio em escritório de advocacia.
O segundo argumento é a sentença da Justiça do Trabalho que negou o vínculo de emprego de Leonardo, apresentada como prova de que ele “praticava todos os atos de Diretor, com poder e autonomia”. A mesma sentença, declarou que as seis empresas formam um único grupo econômico sob sócio comum — “Sr. Luiz Franceschini” — e as condenou solidariamente. O documento enviado para negar a conexão entre as empresas é o que a confirma judicialmente, ao menos no núcleo analisado pela Justiça do Trabalho.
O terceiro argumento são as atas notariais e declarações sobre a “confissão” de Leonardo — os documentos analisados na reportagem, todos produzidos no mesmo dia, pela mesma parte, e um deles contendo a advertência do próprio cartório de que não podia aferir eventual manipulação das mensagens registradas. Leia a troca de mensagens com a assessoria na íntegra aqui.
Caíque Souza Neiva respondeu à reportagem. Afirmou ser economista, com 18 anos de atuação como executivo e consultor, e que sua trajetória “sempre foi pautada pelo profissionalismo, ética e correção”. Negou ter atuado como aprovador de pagamentos da Empabra: disse ter sido diretor financeiro da Green Metals “entre 2019 e o início de 2020”, período em que, segundo ele, a Empabra não era controlada pela Green Metals, “ainda que as empresas tivessem acionistas em comum”. Afirmou que suas opiniões como consultor “sempre ocorrem em caráter opinativo e técnico, não deliberativo” e que nunca teve “responsabilidade diretiva, legal ou informal” sobre a Empabra. Disse ainda que prestou todos os esclarecimentos às autoridades e que, segundo ele, decisão unânime da 2ª Turma do TRF6, proferida em 22 de maio de 2026, reconheceu “a equivocada referência” ao seu nome no início da investigação. Por fim, afirmou não ser sócio nem investidor e depender do trabalho para o próprio sustento, pedindo rigor em qualquer menção ao seu nome.
A reportagem registra que as mensagens de novembro e dezembro de 2021, nas quais Caíque dá instruções operacionais rotineiras a Leonardo e coordena a logística de um geólogo para o Mato Grosso, são posteriores ao período que ele delimita como sua atuação formal no grupo.
Bruno Luciano Henriques, por meio de seu advogado, Juliano de Oliveira Brasileiro, respondeu por nota: “Bruno Henriques informa que os fatos indicados são objeto de um Inquérito Policial Federal em curso, de caráter sigiloso e no âmbito do qual prestou todos os esclarecimentos necessários. Confia que o desenrolar das investigações reconhecerá a absoluta regularidade de sua conduta enquanto investidor indireto da Empabra, empresa da qual foi simples sócio investidor, jamais tendo participado de sua gestão.”
A reportagem também enviou questionamentos a Beto, Kellen, a Marcos de Oliveira Pereira, à Ero Copper Corp e demais citados na reportagem. Não houve resposta até a publicação deste texto. O espaço segue aberto para manifestações.
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