Em 19 de outubro, diante da sede da Meta na Avenida Faria Lima, em São Paulo, a presidente do Sindicato dos Bancários, Neiva Ribeiro, participou do protesto que acusava a empresa de interferir na eleição contra Lula. A entidade reclamava do bloqueio de seu atendimento no WhatsApp e se somou à mobilização articulada pela CTRL+Z e outras organizações.
Quatro dias antes, dia 14, Flávio Bolsonaro havia acionado o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com a acusação de que entidades sindicais haviam convertido dinheiro, pessoal e canais de comunicação em estrutura de campanha pela reeleição de Lula. A ação inclui Neiva entre os dirigentes indicados.
O corregedor Ricardo Villas Bôas Cueva afastou restrições genéricas às entidades e pediu que a campanha de Flávio individualize as condutas dos demais dirigentes em 72 horas. A Investigação encontrou conexão financeira com a estrutura digital petista: o sindicato contratou uma empresa também contratada pelo PT e pela campanha do presidente.
Cinco notas fiscais obtidas por A Investigação mostram cobranças de R$ 65 mil mensais ao Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, entre maio e setembro de 2026. São R$ 325 mil em serviços de inteligência digital de dados e governança tecnológica faturados pela Embaúba, fundada por Brunna Rosa Alfaia, a “companheira do TikTok” de Lula, ex-secretária de Estratégia e Redes da Secom e próxima de Janja. A mesma empresa faturou R$ 2,1 milhões ao PT nacional e R$ 400 mil à campanha de Lula. As três frentes somam R$ 2,825 milhões em cobranças de 2026.
Como A Investigação mostrou na reportagem sobre a CTRL+Z, o ato diante da Meta tinha articulação entre organizações, dirigentes e financiadores identificados. Nosso levantamento sobre a narrativa de interferência da plataforma também examinou a passagem de episódios de restrição de contas para a acusação de favorecimento eleitoral a Flávio. A contratação da Embaúba acrescenta a esse quadro uma despesa sindical concreta, com fornecedor, objeto, período e valor.
O vínculo vai além da escolha da empresa. Neiva integra o Conselho Curador da Fundação Perseu Abramo — núcleo histórico de formulação política e estratégica do petismo — que lançou o Pode Espalhar com o PT e divulgou a campanha da CTRL+Z contra a Meta.
O cruzamento documenta relações comerciais e institucionais entre quem promove Lula, quem organiza sua mobilização digital e quem pressiona a plataforma em nome dos prejudicados pelas restrições. A questão é se o dinheiro sindical pagou alguma entrega aproveitada pela candidatura. Se comprovado custeio eleitoral indireto com gravidade para o pleito, o caso pode configurar abuso de poder econômico: Flávio pede a cassação da chapa Lula–Alckmin e a inelegibilidade, por oito anos, dos responsáveis. As notas fiscais não demonstram, sozinhas, essa destinação.
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O contrato de R$ 325 mil e a fornecedora comum
As cinco notas ao sindicato, emitidas de maio a setembro, cobram R$ 65 mil e repetem a descrição: “Inteligência Digital de Dados e Governança Tecnológica de forma integrada e contínua”. O tomador é o Sindicato dos Trabalhadores em Empresas do Ramo Financeiro de São Paulo, Osasco e Região. A Investigação conferiu as notas por seus códigos de verificação e baixou as cópias diretamente do portal da Receita Federal.
A sequência documenta cobranças recorrentes por cinco meses de serviços. Duas notas, que somam R$ 130 mil, correspondem a agosto e setembro, período que justamente abrange a campanha eleitoral. Os documentos não identificam os canais atendidos, as bases de dados utilizadas, as equipes envolvidas nem os produtos entregues.
No mesmo conjunto, sete notas da Embaúba ao PT nacional somam R$ 2,1 milhões, em cobranças mensais de R$ 300 mil pelos serviços de março a setembro. O objeto inclui estratégia e gestão de relacionamento digital, criação e gestão de comunidades online e distribuição segmentada de conteúdo orientado pelo partido. As próprias cobranças documentam a contratação de uma estrutura profissional para organizar comunidades e fazer circular a mensagem petista.
Durante os cinco meses em que faturou ao sindicato, a empresa também cobrou R$ 1,5 milhão do PT. São R$ 1,825 milhão em serviços simultâneos às duas instituições. A coincidência comprovada é de fornecedor e de período; a separação das entregas depende dos contratos e relatórios, porque o objeto sindical é mais genérico que o partidário.
O atendimento à candidatura de Lula já aparece na prestação de contas disponível no TSE: R$ 400 mil à Embaúba por serviços digitais. A documentação da campanha descreve gestão de relacionamento digital e de comunidades online, atividades também presentes nas cobranças ao partido. O registro público confirma que a fornecedora dos Bancários atua nos dois braços da operação petista: o partido e sua candidatura presidencial.
As notas sustentam uma conclusão objetiva: a contratação sindical se insere na atividade de uma empresa que comercializa organização e distribuição profissional de comunicação política ao PT. Elas ainda não mostram se alguma entrega comprada pelos Bancários foi aproveitada pela campanha. É essa destinação que permite distinguir um serviço próprio da entidade de eventual custeio eleitoral indireto.
A denúncia de Flávio e a decisão do TSE
A acusação apresentada por Flávio em 14 de outubro é de suposto custeio da campanha Lula–Alckmin por estruturas sindicais, estudantis e de movimentos sociais. A petição aponta emprego de recursos, sedes, trabalhadores, publicações e canais digitais em favor da chapa e contra seu adversário. Neiva Maria Ribeiro dos Santos, presidente dos Bancários de São Paulo, aparece na relação de dirigentes da ação.
Na tese apresentada por Flávio, o custeio ocorreria também quando uma entidade fornece estrutura, comunicação ou pessoal à candidatura, mesmo sem transferência de dinheiro ao candidato. O beneficiário eleitoral apontado é a chapa Lula–Alckmin. As notas examinadas nesta reportagem identificam uma despesa dos Bancários com uma fornecedora do PT e de Lula; a destinação das entregas precisa ser esclarecida.
A petição traz um exemplo específico sobre os Bancários de São Paulo. Em 6 de outubro, às 10h46, o sindicato publicou no X uma frase sobre desemprego, salários congelados e “argentinização” da economia sob Flávio. Às 10h49, a CUT publicou a mesma frase. A peça de Flávio apresenta o intervalo de três minutos e um carrossel do sindicato com crédito à CUT como indícios de propaganda negativa coordenada. O registro mostra circulação da mesma mensagem; não identifica quem custeou cada publicação.
A acusação de dinheiro posto em comitês de Lula, reproduzida na petição, se refere a uma declaração atribuída a dirigente do ANDES-SN, outro sindicato. Em relação aos Bancários de São Paulo, a peça apresenta publicações e a coincidência com a CUT; não menciona a Embaúba, seu contrato de R$ 325 mil ou um repasse financeiro à campanha. As notas agora examinadas acrescentam uma despesa concreta à apuração, sem provar que o serviço sindical foi entregue à candidatura.
Na decisão de 15 de outubro, o corregedor Ricardo Villas Bôas Cueva recebeu a ação contra Lula, Alckmin e cinco dirigentes ligados a outras entidades. Para os demais, exigiu a individualização de fatos, datas, provas e participação. A integração de Neiva ao polo passivo ficou reservada a nova análise; sua presença no cadastro processual não equivalia, naquela decisão, ao recebimento da ação contra ela.
Cueva negou as “restrições genéricas” pedidas à atuação das entidades e resguardou a liberdade de manifestação política. Ressaltou, porém, que isso não autoriza custeio eleitoral com recursos sindicais. O artigo 24 da Lei das Eleições veda a doação direta ou indireta de entidades sindicais a campanhas, inclusive por publicidade. Se o sindicato custear serviços utilizados pela candidatura, a ausência de repasse direto não afasta a questão.
O financiamento partidário tem tratamento diferente: o PT pode custear atividades eleitorais, inclusive com recursos do Fundo Partidário, observadas as regras de registro e identificação dos benefícios às candidaturas. A apuração exige comparar contas, contratos e execução dos serviços. A contratação de um fornecedor comum, isoladamente, não demonstra duplicidade de cobrança nem omissão contábil.
A estrutura sindical na mobilização por Lula
A participação no protesto contra a Meta integra uma sequência de atuação política nos canais institucionais dos Bancários. Em 7 de outubro, a direção reuniu Neiva, a presidente da Contraf-CUT, Juvandia Moreira, e o deputado estadual Luiz Claudio Marcolino (PT-SP) para avaliar o primeiro turno. O debate associou o avanço conservador a ameaças aos bancos públicos e aos direitos dos trabalhadores.
Em 13 de outubro, o site do sindicato promoveu a cobertura da Marcha pela Democracia, realizada dois dias antes na Avenida Paulista. A legenda da imagem principal classificava a manifestação como “Ato pela reeleição de Lula”. No texto, Neiva vinculou a preservação de direitos à derrota eleitoral do projeto bolsonarista.
No dia 14, outra publicação do sindicato tratou da votação sobre a escala 6x1 e terminou com o alerta de que a conquista estaria em risco se Flávio vencesse. O texto combinou a pauta trabalhista com uma orientação sobre as consequências do voto no adversário de Lula.
Quatro dias depois, a entidade convocou a categoria para o ato diante da Meta. A convocação identificava CTRL+Z, Código Não Binário, Artigo 19, DiraCom, Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação e Sleeping Giants Brasil como articuladores. Afirmava que as restrições atingiam especialmente o lado de Lula e divulgava a exigência de um pedido de desculpas da plataforma com reconhecimento de prejuízo ao candidato.
O conjunto permite concluir que há mobilização institucional recorrente favorável à reeleição: o site do sindicato promove um ato pró-Lula, associa a vitória do adversário à perda de direitos e convoca para a pressão sobre a Meta. A petição acrescenta a circulação, com três minutos de intervalo, de uma mensagem idêntica nos perfis dos Bancários e da CUT. As notas revelam que, nos meses anteriores, essa entidade contratou inteligência digital da fornecedora do PT. A comunicação eleitoral é visível; o que falta demonstrar é se recursos do contrato sindical também pagaram trabalho em benefício da campanha.
Neiva, a fundação do PT e a pressão sobre a Meta
Neiva é funcionária do Bradesco desde 1989 e ingressou na direção do sindicato em 2000, segundo seu perfil institucional. Ocupou a Secretaria de Formação, a Secretaria-Geral e a direção da Faculdade 28 de Agosto. Sua atuação também alcança o governo: o próprio sindicato a identifica como integrante do Conselhão de Lula em registro de março de 2026.
A conexão mais direta com a rede digital passa pela Fundação Perseu Abramo. Em 13 de maio de 2025, Neiva tomou posse no Conselho Curador, por indicação do Diretório Nacional do PT. O colegiado fiscaliza a fundação e aprova contas, orçamento e plano de trabalho. Seu nome permanece na composição divulgada pela instituição.
Menos de dois meses depois, a FPA lançou o Pode Espalhar com o partido. Já em 13 de outubro de 2026, a fundação divulgou a petição “Meta, tira a mão da nossa eleição”, da CTRL+Z. Seis dias depois, o sindicato presidido por uma de suas conselheiras participou do protesto organizado pela mesma rede. A convergência aparece nas publicações das próprias instituições.
Nas capturas de seu perfil no X examinadas pela reportagem, Neiva se declara petista. A foto de perfil mostra a dirigente com Lula e uma moldura de campanha; a capa reproduz a subida do presidente à rampa do Planalto. Ela também fixou uma publicação que divulga “Revelando: Pátria Submissa”, apresentado por Wagner Moura. O projeto é liderado por Alessandra Orofino, cujas conexões com a financiadora da CTRL+Z detalhamos na reportagem anterior. A postagem documenta a circulação desse material entre os atores da mobilização.
Em 21 de outubro, Neiva cobrou a abertura dos sigilos de Flávio e escreveu: “Quem não deve, não teme!”. A dirigente que exige transparência do adversário também deve esclarecer quais entregas o sindicato comprou da fornecedora digital do PT.
A “companheira do TikTok” e a sua rede
Brunna Rosa Alfaia ficou conhecida como a “companheira do TikTok” por sua atuação na campanha de Lula em 2022. Aproximou o candidato de influenciadores e coordenou sua presença na plataforma. Depois, ocupou a Secretaria de Estratégia e Redes da Secom, de 28 de novembro de 2023 a 17 de janeiro de 2025. Próxima de Janja, teve a permanência defendida pela primeira-dama quando Sidônio Palmeira assumiu a comunicação do governo.
Em 20 de fevereiro de 2025, Sidônio exonerou Priscila Pinto Calaf da direção do Departamento de Canais Digitais da Secom. O Metrópoles relatou que ela integrava a equipe de Brunna, era próxima de Janja e havia sido sócia dela na Embaúba. As duas deixaram a comunicação do governo após a chegada do ministro.
Em 2022, a campanha de Lula registrou duas despesas com a Embaúba: R$ 2,2 milhões em agosto e R$ 900 mil em outubro, ambas por serviços de comunicação digital, gestão de redes e curadoria. Os registros do TSE somam R$ 3,1 milhões.
No quadro societário atual da Embaúba (CNPJ 42.618.722/0001-54), a Receita Federal identifica Brunna como sócia-administradora e Carmela Morena Zigoni Pereira como sócia. O Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) apresenta Carmela como assessora política, com atuação em orçamento público, democracia e sistema político. O cadastro atual não estabelece desde quando ela integra a empresa.
Em fevereiro, A Investigação identificou a empresa como titular do domínio do Pode Espalhar e reconstituiu uma rede com cadastro de apoiadores, conteúdos prontos, orientações de compartilhamento e grupos de mobilização. As notas de 2026 comprovam a relação comercial com o PT e explicitam o serviço contratado: comunidades digitais e distribuição de conteúdo sob orientação partidária.
O desenho da integração com o movimento sindical foi anunciado desde o lançamento. Em julho de 2025, o PT informou que Paulo Okamotto, então presidente da FPA, previa uma central de relacionamento, curadoria e distribuição de conteúdo, além de produção em consórcio com PT nacional, CUT, movimento sindical e agências parceiras. As cobranças agora documentadas e a presença de Neiva na governança da fundação dão dimensão concreta a essa aproximação.
Em setembro, nossa reportagem documentou uma missão nos grupos “Espalhe a Verdade”: acessar uma publicação de Brasil com Lula, copiar um comentário contra Flávio e encaminhar a instrução a outros grupos. Diferentes usuários repetiram a frase indicada. É o tipo de circulação organizada que os contratos de gestão de comunidades permitem estruturar, embora as notas não individualizem os grupos atendidos pela Embaúba.
O site e os perfis do Pode Espalhar passaram a constar da relação de canais de Lula no TSE, como mostramos em outubro. A lista examinada nesta apuração também os inclui. Ela contém dois canais de WhatsApp, mas não convites para os grupos “Espalhe a Verdade”. A inclusão de endereços esclarece o vínculo formal com a candidatura; não identifica, por si, a origem de cada despesa da rede.
A apuração anterior também levantou dúvidas sobre a criação do Pode Espalhar durante a quarentena de Brunna. A Decisão nº 11/2026 da Comissão de Ética Pública, fornecida a esta reportagem por meio da Lei de Acesso à Informação, confirma o impedimento de 23 de fevereiro a 23 de agosto de 2025, com direito à remuneração compensatória, e informa que não consta consulta dela para exercer nova atividade privada naquele intervalo.
É preciso separar essa cronologia da titularidade do domínio. A consulta atual ao registro informa que o endereço foi criado em 7 de abril de 2025, mas o cadastro da Embaúba no sistema traz registro em 10 de outubro daquele ano. A data de criação do endereço não comprova quem o detinha desde o início. Esses dados são compatíveis com a resposta de Brunna de que a empresa só assumiu a titularidade em outubro.
As notas de 2026 confirmam a inserção comercial da Embaúba na estrutura digital petista. Não demonstram que Brunna trabalhou no projeto durante a quarentena, nem desmentem sua negativa sobre a titularidade em 2025. O fato novo está no presente da operação: a mesma fornecedora de mobilização do PT e da candidatura também faturou serviços recorrentes a um sindicato que promove Lula e cuja presidente integra a fundação responsável pelo Pode Espalhar.
O que dizem os envolvidos
A Investigação enviou pedidos de informação aos envolvidos, mas até o momento não obteve retorno. O espaço permanece aberto para manifestações.
Em resposta anterior a A Investigação, Brunna afirmou que não integrava o quadro societário nem o de colaboradores da empresa no período da quarentena. A manifestação trata da atuação em 2025 e não responde às contratações de 2026 examinadas nesta reportagem.
Em nota de 19 de outubro, os Bancários repudiaram a ação da campanha de Flávio e defenderam a participação política das entidades. A Contraf-CUT também contestou os pedidos de restrição como tentativa de silenciamento. Nenhuma dessas manifestações aborda as contratações e as entregas da Embaúba examinadas nesta reportagem.
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