Uma rede de WhatsApp ligada à máquina digital de Lula, mas ausente da relação de canais declarados pela campanha à Justiça Eleitoral, está sendo usada para fabricar engajamento contra Flávio Bolsonaro dentro de um perfil oficial do candidato petista.
A nova evidência obtida por A Investigação mostra o circuito completo da operação: o grupo “Espalhe a Verdade” escolhe o alvo, distribui o link de uma publicação do Instagram, fornece uma frase pronta para ataques ao adversário de Lula e ordena que os integrantes a reproduzam nos comentários e encaminhem o material para outros grupos.
A “missão do dia” era atacar Flávio Bolsonaro em um vídeo publicado pelo perfil Brasil com Lula. “Vamos pra cima do 01!”, anunciou a administradora do grupo. Em seguida, vieram as instruções:
“Acesse o vídeo”;
“Comente: Flávio, o pior dos Bolsonaros!”;
“Mande esta mensagem nos seus grupos do zap!”
Os militantes obedeceram. A frase determinada pelo comando do grupo aparece repetida, palavra por palavra, por diferentes usuários nos comentários da publicação. O vídeo acumulava cerca de 7 mil curtidas, 900 comentários e quase 1,9 mil republicações quando foi registrado pela reportagem.


O ponto mais grave está na conexão entre as duas pontas da operação. O “Espalhe a Verdade” não aparece entre os canais da campanha de Lula registrados no Tribunal Superior Eleitoral. Já o perfil destinatário da mobilização, @brasilcomlula, consta oficialmente na relação de sites e redes sociais apresentada pelo próprio candidato no sistema DivulgaCandContas.
Ou seja: um canal mantido fora da vitrine da Justiça Eleitoral fornece mão de obra digital e engajamento coordenado para um perfil reconhecido formalmente pela campanha.
Precisamos de você
Reportagens como esta têm custo. Além do trabalho de apuração, há toda uma estrutura técnica que permite publicar sem depender de anunciante ou de padrinho político.
Você já sabe o que A Investigação entrega: fizemos o Twitter Files Brasil, a Vaza Toga 2, 4 e 5, o Araponga de Miami, o Radiolão e várias outras investigações que trouxeram à luz o que outros veículos preferiam não ver.
Fazemos isso de forma independente — e independência tem preço.
A rede que acompanhamos há anos
O “Espalhe a Verdade” não é um grupo espontâneo surgido durante a atual eleição. Trata-se do novo nome dos antigos “Caçadores de Fake News”, uma estrutura acompanhada por A Investigação há mais de dois anos.
Em outubro de 2024, a reportagem “Caçadores de Fake News: como Lula utilizou a estrutura do governo para perseguir opositores” revelou que os primeiros grupos haviam sido criados entre julho e outubro de 2022, durante a campanha presidencial, e divulgados no site oficial de Lula.
A rede também possuía grupos regionais, espaços destinados a mulheres e os grupos do “Lulaverso”, voltados à distribuição de memes, figurinhas e propaganda favorável ao petista. A apuração identificou como principais administradores Clarissa Berry Veiga, Maxwell Gonçalves Nunes e um usuário chamado “Rodrigo Time Lula”, cujo telefone, segundo fontes ouvidas à época, pertencia a Paulo Okamotto, atual presidente da Fundação Perseu Abramo.
Em 2024, durante as enchentes no Rio Grande do Sul, a estrutura foi reativada depois que a Secretaria de Comunicação Social da Presidência lançou a campanha “Seja um voluntário digital da informação”. A publicação oficial da Secom foi posteriormente retirada do ar.
Naquele período, o então ministro Paulo Pimenta entrou pessoalmente em um dos grupos, que levava o número 186, e pediu aos integrantes que divulgassem propaganda da gestão Lula sobre a atuação federal no Rio Grande do Sul. A rede não apenas reproduzia informações oficiais: também organizava denúncias coletivas contra publicações e perfis de adversários políticos.
A reportagem documentou ainda que, ao atingir o limite de participantes do WhatsApp, os responsáveis simplesmente criavam novos grupos numerados. Alguns permaneciam fechados para mensagens dos integrantes, permitindo que apenas os administradores distribuíssem as ordens, os links e os conteúdos autorizados.
Em março deste ano, A Investigação revelou que os “Caçadores de Fake News” haviam sido rebatizados como “Espalhe a Verdade”, preservando os mesmos administradores, a numeração dos grupos e o método de comando centralizado. A sequência já chegava pelo menos ao grupo 189.
A mudança de nome não alterou a operação. Administradores continuam escolhendo prioridades, distribuindo textos padronizados e direcionando integrantes para ações em massa. O novo episódio contra Flávio Bolsonaro mostra a rede atuando diretamente em benefício de uma conta oficial da campanha presidencial de Lula.
Militância espontânea não recebe ordem pronta
As regras eleitorais permitem que cidadãos manifestem voluntariamente apoio ou rejeição a candidatos. Também preveem uma exceção para páginas e canais de iniciativa verdadeiramente pessoal, sem vínculo ou financiamento de campanha.
Mas não é essa a situação que as sucessivas apurações de A Investigação vêm documentando. A rede nasceu durante a campanha de Lula em 2022, foi anunciada em seu site oficial, teve administradores ligados à estrutura petista, foi reativada durante uma campanha da Secom e recebeu pessoalmente de um ministro de Estado uma ordem para espalhar propaganda do governo. Agora, direciona militantes para uma página oficialmente registrada pela campanha de reeleição.
O próprio TSE informa que os endereços eletrônicos utilizados por candidatos, partidos, federações e coligações em campanhas digitais devem constar no Requerimento de Registro de Candidatura ou no Demonstrativo de Regularidade de Atos Partidários. O Tribunal já decidiu que permitir o uso paralelo de canais não informados dificulta a fiscalização da propaganda eleitoral.
O “Espalhe a Verdade” não foi encontrado entre os endereços declarados por Lula. O @brasilcomlula, por outro lado, aparece expressamente no cadastro.
A ausência do grupo não seria relevante se ele fosse apenas uma conversa privada entre eleitores independentes. As provas reunidas desde 2024, entretanto, colocam em dúvida essa alegada autonomia e exigem uma resposta objetiva: quem administra atualmente a rede, quem produz suas ordens, quem fornece os materiais e se existe alguma forma de remuneração, financiamento ou tratamento de dados pela campanha, pelo PT ou por estruturas ligadas ao governo.
A campanha petista parece operar, assim, em dois níveis. No primeiro estão as contas oficialmente declaradas, visíveis à fiscalização. No segundo, grupos fechados organizam militantes, distribuem missões e despejam engajamento nos perfis registrados.
O escândalo de 2018 que o TSE não comprovou
O contraste com a eleição de 2018 é inevitável. Naquele ano, uma reportagem da Folha de S.Paulo afirmou que empresários compravam pacotes de disparos em massa pelo WhatsApp para beneficiar Jair Bolsonaro e atacar o PT. Segundo a publicação, os contratos chegariam a R$ 12 milhões e envolveriam centenas de milhões de mensagens.
A acusação foi repetida durante anos como um fato comprovado, alimentou os trabalhos da CPMI das Fake News e ajudou a consolidar a narrativa do chamado “gabinete do ódio”. O PT levou o caso à Justiça Eleitoral e pediu a cassação de Bolsonaro e Hamilton Mourão por abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação.
A própria CPMI, porém, ouviu uma versão oposta. Em fevereiro de 2020, Hans River do Rio Nascimento, ex-funcionário da Yacows — uma das empresas citadas nas reportagens sobre os supostos disparos pró-Bolsonaro — afirmou que havia realizado envios em massa para as campanhas de Fernando Haddad, do PT, e Henrique Meirelles, então no MDB. Ele negou ter trabalhado para a campanha presidencial de Bolsonaro.
O depoente também declarou que o PT era um dos principais clientes da Yacows e fazia pagamentos elevados à empresa. Segundo seu relato, os funcionários recebiam materiais políticos, utilizavam vários celulares e chips vinculados a cadastros de terceiros e executavam os envios em diferentes turnos. Hans River disse, contudo, que as mensagens que presenciou continham apenas nome, número e informações eleitorais dos candidatos, sem ataques ou conteúdos falsos. O registro oficial da audiência feito pela Rádio Senado confirma que River atribuiu ao PT uma “forte ligação” com a empresa e o apontou como um de seus principais clientes.
Integrantes do PT contestaram a credibilidade do depoimento e apontaram inconsistências, especialmente em relação às datas em que River teria trabalhado na empresa. As acusações contra os empresários ligados à direita, por outro lado, nunca foram comprovadas judicialmente. Em 2021, o TSE rejeitou e arquivou as ações que pediam a cassação de Bolsonaro e Mourão. A Corte não encontrou prova suficiente de que a campanha, seus apoiadores ou os empresários acusados tivessem contratado as empresas investigadas para realizar os supostos disparos.
Em uma das apurações, o WhatsApp identificou comportamento anormal compatível com envio automatizado em apenas três linhas, dentro de um universo superior a 600 contas vinculadas às empresas investigadas. O conteúdo das mensagens era desconhecido. Também não foi demonstrado quem havia contratado os envios nem se eles beneficiaram Bolsonaro. Segundo a própria jurisprudência do TSE, não havia sequer prova inicial de relação jurídica entre a campanha, os apoiadores do candidato e as empresas apontadas como responsáveis pela operação.
O Tribunal estabeleceu que disparos em massa contendo desinformação podem, dependendo da gravidade, configurar abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação. A tese jurídica permaneceu para eleições futuras, mas a acusação concreta que marcou a disputa de 2018 terminou sem a comprovação de que empresários de direita haviam financiado uma operação clandestina para eleger Bolsonaro.
Os robôs petistas
No caso da rede digital petista, A Investigação já documentou tanto o trabalho coordenado de militantes quanto o uso de robôs. Em 2023, a reportagem revelou dezenas de perfis com mensagens idênticas, nomes e fotografias semelhantes e publicações simultâneas contendo comandos de teste como “TESTE1 ERRO1” e “TESTE1 ERRO2”. As contas haviam sido criadas no mesmo período e atuavam conjuntamente para atacar opositores, pedir prisões e impulsionar conteúdos favoráveis a Lula.
Em fevereiro de 2026, outra reportagem mostrou que a engrenagem permanecia ativa. Um levantamento da Brandwatch identificou padrões inorgânicos em uma campanha favorável a Lula no X. Um único perfil publicou quase 6 mil vezes em quatro dias, chegando a aproximadamente 400 postagens por hora. Os mil perfis mais ativos concentraram mais de 200 mil publicações, com predominância de republicações em massa e baixa produção autoral.
O mesmo padrão reapareceu agora contra André Mendonça. A Veja identificou grande concentração de postagens hostis ao ministro do STF e do TSE em poucas contas, com indícios de automação. O ataque ocorre justamente quando Mendonça se tornou alvo da máquina governista por decisões e revelações incômodas ao entorno de Lula.
Não se trata de um recurso isolado para aumentar alcance. As estruturas digitais alinhadas ao PT já foram usadas para criar redes de perfis falsos, promover doxxing, atacar mulheres e judeus, pressionar juízes e parlamentares, pedir derrubada de contas e promover campanhas de difamação contra opositores. O repertório reproduz, na prática, os mesmos métodos que a esquerda atribuiu durante anos ao chamado “gabinete do ódio”.
A principal revelação de Eli Vieira e Michael Shellenberger no Twitter Files Brazil foi justamente a existência de uma vigilância em massa sobre hashtags usadas por perfis de direita no debate sobre voto impresso. A estrutura estatal monitorou cidadãos e procurou sinais de robôs ou coordenação ilegal. Não encontrou prova de que a rede bolsonarista tivesse empregado automação naquela mobilização.
Agora, os indícios aparecem do outro lado. Há registros de robôs e perfis sincronizados promovendo Lula, de grupos fechados que distribuem conteúdo e definem alvos, e de militantes que recebem frases prontas para repetir em massa. A evidência obtida nesta reportagem mostra esse segundo braço: os MAVs, pessoas reais submetidas a um comando centralizado para conferir aparência humana e espontânea a uma campanha previamente planejada.
O registro não permite afirmar, isoladamente, que robôs comentaram naquela publicação específica do perfil Brasil com Lula. Ele prova, porém, que uma estrutura já associada a automação também mobiliza militantes reais para fabricar engajamento em uma conta oficial da campanha de Lula.
A diferença de tratamento continua sendo o ponto central. Em 2018, uma acusação nunca comprovada contra empresários de direita sustentou manchetes, investigações e pedidos de cassação. Agora, há evidências de robôs, perfis falsos, grupos de comando e ordens expressas para ampliar artificialmente o alcance de conteúdos oficiais de Lula. Mesmo assim, a estrutura permanece sem investigação ou responsabilização equivalente.
Uma sequência de apurações ignoradas
O episódio não está isolado. A Investigação vem mostrando como organizações ligadas ao PT constroem campanhas digitais que parecem espontâneas na superfície, mas são coordenadas nos bastidores.
A reportagem “PT e PSOL se unem em campanhas digitais para atacar Nikolas e outros adversários” documentou estruturas responsáveis por selecionar alvos, fornecer conteúdos e organizar ações coletivas nas redes.
Em “Lula vai à guerra”, esta publicação mostrou como o PT, a Fundação Perseu Abramo, o projeto Pode Espalhar e os antigos Caçadores foram integrados a uma estratégia eleitoral mais ampla. O próprio manual do Pode Espalhar ensina a realizar mutirões de hashtags, comentários, curtidas e republicações.
Também mostramos que o perfil “Evangélicos com Lula” continuava fazendo campanha sem aparecer na declaração apresentada ao TSE, apesar de ter sido registrado entre os canais oficiais do petista na eleição de 2022.
Mais recentemente, a reportagem “Toffoli congela campanha de Renan Santos” expôs a diferença de rigor adotada pela Justiça Eleitoral. Dias Toffoli paralisou a campanha de Renan, reduziu seu fundo eleitoral em R$ 3,3 milhões e determinou a retirada de conteúdos por causa de perfis que não constavam no registro oficial.
Contra a estrutura de Lula, até agora não houve reação equivalente conhecida. A nova prova elimina qualquer dúvida sobre a utilidade eleitoral do grupo. O “Espalhe a Verdade” não se limita a debater política ou combater informações consideradas falsas por seus administradores. Ele entrega tráfego, comentários e compartilhamentos para uma conta formalmente integrada à campanha de Lula.
A questão central já não é se apoiadores podem defender o presidente. Podem. A questão é por que uma rede criada na campanha de 2022, promovida por canais oficiais, mobilizada por integrantes do governo e agora empregada para beneficiar uma conta eleitoral declarada continua operando fora do alcance da transparência exigida dos demais candidatos.
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