Em 19 de outubro, a CTRL+Z ajudou a organizar um protesto diante da sede da Meta, em São Paulo. O ato foi uma nova etapa da campanha em que a organização reúne denúncias de restrições a conteúdos eleitorais, mobilização nas redes e pressão sobre o TSE e o Ministério Público Federal.
Os organizadores exigiam que a plataforma reconhecesse prejuízos à campanha digital de Lula e publicasse um pedido de desculpas aos usuários do Instagram. Dois dias depois, a organização que prega “soberania digital” se juntou ao Instituto Vladimir Herzog para pedir ao Congresso dos Estados Unidos que investigasse a Meta na eleição brasileira.
O protesto em São Paulo e o apelo ao Congresso americano expõem o alcance da rede reunida pela CTRL+Z. Seu conselho inclui integrantes do Sleeping Giants, da Quid e do NetLab, enquanto a plataforma BONDE, criada pelo NOSSAS, divulga a campanha. A articulação também reúne pessoas que participaram da transição de Lula e ocupam assentos no Conselhão da Presidência e no conselho consultivo da Anatel.
Esses mesmos grupos já apareceram em diversas reportagens de A Investigação ao longo dos últimos anos. Agora, seus vínculos se encontram numa ofensiva comum contra a Meta, funcionando como uma espécie de “vingadores do complexo da censura”. A CTRL+Z articula a campanha e unifica a pauta da rede: a acusação de que as restrições da plataforma desequilibram a eleição circula em publicações conjuntas e fundamenta pedidos às autoridades.
A organização apresenta essa disputa como defesa da soberania brasileira, mas nasceu com financiamento internacional da Luminate, fundação ligada ao bilionário americano Pierre Omidyar, fundador do eBay. Além de financiar organizações de ativismo digital e campanhas pela regulação das plataformas, a fortuna de Omidyar também sustentou a First Look Media, que lançou o The Intercept.
Sua diretora executiva, Daniela da Silva, chefiou a área de políticas públicas do WhatsApp no Brasil e trabalhou por quase uma década na fundação de Soros. No cardápio da Open Society estão o apoio ao aborto, a descriminalização das drogas e iniciativas de censura, que eles chamam de “combate à desinformação”. Elon Musk já acusou a organização de Soros de querer “nada menos que a destruição da civilização ocidental”.
Não localizamos o CNPJ da CTRL+Z. Seu site está registrado em nome do Instituto Incube, que recebeu US$ 3,1 milhões da Open Society, fundada por George Soros, em 2023. É o mesmo instituto que intermediou a implantação da More in Common Brasil, que monitorou cerca de 7,5 mil cultos e missas no período eleitoral, com quase 14 mil horas de áudio analisadas por filtros de palavras-chave. Esse registro do domínio, isoladamente, não identifica a pessoa jurídica responsável pela CTRL+Z.
A conexão com as duas fundações também passa pelo NOSSAS, que recebeu recursos da Open Society e da Luminate e criou o BONDE. Em uma publicação conjunta dos perfis BONDE e CTRL+Z, Alessandra Orofino, cofundadora do NOSSAS, aparece na divulgação de “Meta, tira a mão da nossa eleição!”. Ela integra o conselho da Luminate e lidera a série de minidocumentários Revelando. Após a remoção do perfil da série no Instagram, a CTRL+Z participou da representação que levou o MPF a abrir um procedimento sobre as práticas de moderação da Meta.
A campanha da CTRL+Z produziu uma petição ao TSE, uma representação ao MPF com outras organizações e o protesto diante da empresa. A fundação do PT divulgou a petição. Em 21 de outubro, a campanha de Lula também acionou o TSE para pedir a cassação da chapa de Flávio Bolsonaro, sob a acusação de favorecimento nas plataformas digitais.
No Instagram e no site, a CTRL+Z usa o slogan “Desfazer a distopia. Retomar a internet”. Apresenta-se como uma articuladora de pessoas e instituições para enfrentar as grandes plataformas e transformar indignação em ação organizada. Sua página de transparência identifica a Luminate como financiadora inicial, mas não informa o valor recebido, o contrato, as contas da organização nem as decisões sobre potenciais conflitos de interesses.
A CTRL+Z não respondeu aos contatos desta reportagem até o fechamento desta versão. O espaço segue aberto para manifestação.
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A soberania financiada de fora
A origem do dinheiro é reconhecida pela própria CTRL+Z: seu financiamento inicial veio da Luminate. A organização afirma recusar recursos de grandes empresas de tecnologia, mas encontrou sustentação na filantropia de um bilionário que construiu sua fortuna nesse setor.
O discurso sobre a presença americana é mais abrangente quando a CTRL+Z trata da eleição. Em texto de setembro, a organização apresentou a disputa como escolha entre preservar um país soberano e sucumbir à dominação dos Estados Unidos. Classificou as plataformas como instrumentos geopolíticos americanos, atacou o alinhamento de Flávio Bolsonaro a Washington e avaliou favoravelmente a agenda regulatória de Lula.
A contradição está no critério de influência: a rede denuncia o poder de atores americanos sobre o debate brasileiro, enquanto sua constituição dependeu da decisão de uma fundação ligada a uma fortuna americana. Os contratos e as condições desse apoio permitiriam examinar os limites da autonomia que reivindica. A página de transparência identifica a Luminate, mas não discrimina montante, cronograma de desembolso, orçamento ou prestação de contas do financiamento inicial.
Na mesma página, a CTRL+Z afirma: “Todas as fontes de financiamento e as decisões relacionadas a potenciais conflitos de interesses são divulgadas de forma clara e acessível”. Não apresenta ali atas, decisões de impedimento ou avaliações de conflitos. A exigência é especialmente relevante porque uma conselheira da financiadora está ligada a um projeto defendido pela organização financiada.
O Incube e os milhões de Soros
A consulta ao Registro.br reunida por A Investigação mostra o domínio ctrlz.org.br, criado em 29 de janeiro de 2026, em nome do Instituto Incube, CNPJ 38.659.852/0001-68. Raul Paulino Torres aparece como responsável. O registro estabelece a titularidade do endereço; a função do Incube na contratação de pessoal, no recebimento de doações e nos pagamentos da CTRL+Z depende do acordo entre as entidades.
O instituto descreve sua atividade como incubação e intermediação entre financiadores e organizações sociais. Seu relatório de 2020 a 2024 coloca a Open Society entre os principais financiadores e inclui More in Common Brasil e Sleeping Giants entre as dez iniciativas executoras que mais receberam recursos sob sua administração.
Em 2023, a Open Society destinou ao Incube cerca de US$ 3,1 milhões — aproximadamente R$ 15,5 milhões ao câmbio usado na época —, segundo levantamento da Gazeta do Povo sobre a base da fundação. Os dois maiores apoios, de US$ 1,9 milhão e US$ 868 mil, foram descritos como destinados a um fundo de resposta rápida no Brasil para promover os valores da sociedade aberta.
A Luminate também registrou compromissos com o Incube em 2024: US$ 250 mil, cerca de R$ 1,3 milhão, para instalar a More in Common no Brasil; e US$ 500 mil, aproximadamente R$ 2,5 milhões, para um fundo de jornalismo. São projetos identificados separadamente na base, sem equivalência com o financiamento inicial da CTRL+Z.
Cerca de 7,5 mil transmissões de cultos e missas foram monitoradas pela More in Common Brasil e por pesquisadores da UFRJ no período eleitoral, como A Investigação revelou. O material reuniu quase 14 mil horas de áudio, submetidas a filtros de palavras-chave e classificação de conteúdo político. A implantação da rede no Brasil também passou pelo Incube, que reaparece na titularidade do domínio da CTRL+Z. Os pesquisadores afirmaram que o estudo teve finalidade científica e usou recursos próprios das instituições; não detalharam os custos.
O dirigente do Incube também foi alvo de uma apuração policial. Em outubro de 2024, a Gazeta do Povo revelou um inquérito da Polícia Civil de São Paulo sobre suspeita de transferências de cerca de R$ 760 mil do Instituto Sincronicidade para a Interação Social, o ISPIS, para contas de Torres e de sua empresa, sem respaldo contratual, segundo a entidade denunciante.
Torres alegou que havia um acordo verbal para receber 5% da arrecadação. Ao jornal, o Incube afirmou que a defesa havia apresentado provas da correção de sua conduta e da falsidade das acusações. A notícia tratava de recursos do ISPIS, não da CTRL+Z. Hoje, o Incube mantém site, relatório de atividades e certificados de auditoria, mas condiciona o acesso aos relatórios completos ao contato por e-mail.
Orofino entre a financiadora, o BONDE e o Revelando
Em uma publicação conjunta dos perfis BONDE e CTRL+Z, Alessandra Orofino aparece na divulgação da campanha contra a Meta. “As big techs não são neutras”, diz a legenda, antes de apresentar as denúncias de remoções e banimentos feitas pela ONG e convidar os seguidores a aderir à mobilização. A participação liga a cofundadora do NOSSAS/BONDE à promoção da iniciativa de uma entidade financiada pela fundação de cujo conselho ela participa.
Orofino lidera Revelando, série de minidocumentários apresentada por artistas e produzida por um coletivo que reúne Calma Urgente, ICL, Mídia Ninja e 342 Artes. O projeto estreou com Samara Felippo e um episódio sobre esterilizações em massa. Em outro episódio, Fábio Porchat apresentou relações entre Banco Master, Igreja Batista da Lagoinha e figuras políticas, entre elas Flávio Bolsonaro e Nikolas Ferreira. Orofino é sócia-fundadora da Peri, produtora responsável pela iniciativa.
Em 23 de setembro, a CTRL+Z anunciou uma representação ao MPF após a remoção do perfil da série no Instagram. Pediu justificativa documentada, avaliação de punição e medidas para futuras remoções. A Meta informou à entidade que havia restaurado a conta depois de revisão interna e pediu desculpas. A reclamação alcançou, portanto, um projeto ligado a uma integrante do conselho de sua financiadora.
No conselho da Luminate, Orofino participa de um colegiado que, segundo a fundação, revisa orçamento, estratégia e resultados e aconselha suas equipes. A ligação se soma à produção audiovisual e à divulgação da campanha. A página de transparência da CTRL+Z não informa se a atuação sobre Revelando passou por avaliação de conflito de interesses.
Há outra conexão com a produtora. O NOSSAS/BONDE informa que Enrica Duncan, diretora de operações da Peri, preside seu conselho deliberativo no mandato de 2025 a 2028. O BONDE também nomeia a plataforma de mobilização desenvolvida pelo NOSSAS, utilizada pelo Sleeping Giants em campanhas anteriores.
A ciranda dos dirigentes nos mesmos conselhos
A trajetória de Daniela da Silva conecta a direção da CTRL+Z à Open Society e à Meta. Seu perfil informa quase uma década de trabalho na fundação de Soros e passagem pela chefia de políticas públicas do WhatsApp no Brasil. Segundo a organização, ela deixou a empresa em 2025, em protesto contra mudanças de políticas. Tatiana Dias, diretora de programas, foi editora executiva do Intercept Brasil.
No conselho fundador estão Humberto Ribeiro, do Sleeping Giants; Marie Santini, diretora do NetLab/UFRJ; Bia Barbosa, da DiraCom; Maíra Berutti, diretora da Quid; e Pedro Telles, cofundador da Quid e ex-Luminate. A ligação também aparece no sentido inverso: Daniela e Santini integram o conselho consultivo do Sleeping Giants, enquanto Marília Guarita, diretora de programas do Incube, ocupa seu conselho fiscal.
O relatório oficial da transição de Lula, de 2022, reúne três desses nomes no Grupo Técnico de Comunicação: Orofino na coordenação, Bia Barbosa e Pedro Ribeiro Telles entre os integrantes. A aproximação com esse campo político antecede a campanha atual. A CTRL+Z também critica propostas do governo, como o incentivo a data centers, mas na eleição apresentou a agenda regulatória de Lula como preferível à de seus adversários.
Sleeping Giants
O Sleeping Giants leva à articulação da CTRL+Z um método de pressão econômica sobre veículos e comunicadores. Em relatório publicado pela Environmental Progress em 2024, este repórter mostrou como o grupo mobilizava anunciantes para retirar publicidade de veículos de direita, entre eles Jornal da Cidade Online, Brasil Sem Medo e Jovem Pan, e utilizava a plataforma BONDE, do NOSSAS, em sua atuação.
O grupo descreve a desmonetização como instrumento para interromper o financiamento do que classifica como desinformação e discurso de ódio. Em sua trajetória institucional, registra campanhas contra o apresentador Sikêra Jr. e a Jovem Pan, além da defesa da regulação das plataformas. O modelo combina mobilização de seguidores, pressão sobre marcas, produção de relatórios e medidas judiciais.
O financiamento inclui recursos de uma fundação ligada à fortuna do Itaú. O Serrapilheira, criado por João Moreira Salles e Branca Vianna, registra um apoio de cerca de R$ 208 mil ao Sleeping Giants em 2022 para o projeto Fraude na ciência, não. Moreira Salles é herdeiro da família controladora do banco. Segundo a fundação, o material subsidiou discussões sobre o PL 2.630 e o Ministério da Saúde e alimentou uma rede de criadores de conteúdo com mais de 3 milhões de seguidores.
A Luminate também registra US$ 400 mil, cerca de R$ 2 milhões, comprometidos ao Sleeping Giants em 2025 para um projeto de dois anos. É a mesma fundação que forneceu o financiamento inicial da CTRL+Z. O relatório do Incube coloca o Sleeping Giants entre as dez iniciativas executoras que mais receberam recursos sob sua administração entre 2020 e 2024.
O acesso institucional passa por Humberto Ribeiro, cofundador e diretor do grupo e conselheiro da CTRL+Z. Sua biografia informa participação no Conselhão da Presidência da República e no Conselho Consultivo da Anatel, além de uma coluna na Mídia Ninja. Na campanha atual, o Sleeping Giants assinou a representação ao MPF e participou da organização do protesto contra a Meta.
Da Bancada Ativista à CTRL+Z
Pedro Telles é também cofundador da Bancada Ativista, movimento que levou à Assembleia Legislativa de São Paulo, em 2018, a “candidatura coletiva” de Mônica Seixas, do PSOL. Em estudo publicado em 2019, ele se apresentava como chefe de gabinete do mandato, que reunia nove ativistas e havia obtido cerca de 149 mil votos. A trajetória combina organização de campanhas, atuação parlamentar e passagem pela filantropia internacional.
Este repórter já mostrou como atores de Hollywood ajudaram a levar aos adolescentes brasileiros uma mobilização pelo título de eleitor em 2022. Mark Ruffalo, o Hulk, divulgou Olha o Barulhinho, campanha criada e financiada pela Quid; Leonardo DiCaprio promoveu essa iniciativa e Cada Voto Conta, organizada pelo NOSSAS. A segunda oferecia prêmios a quem convencesse mais jovens a tirar o título. A escolha do público tinha peso eleitoral: Lula liderava com ampla vantagem sobre Bolsonaro entre os eleitores mais jovens. As campanhas não pediam expressamente votos para o petista, mas buscavam ampliar justamente esse eleitorado.
A Quid afirmou que Telles havia deixado a equipe em fevereiro, antes da campanha, embora ele ainda aparecesse como sócio-administrador nos registros consultados à época. A empresa negou participação financeira ou organizacional da Bancada Ativista na iniciativa e não divulgou o valor da campanha. Hoje, Telles e Maíra Berutti, diretora da Quid, estão no conselho da CTRL+Z.
O perfil de Telles na organização informa passagens pela Luminate, Greenpeace e Oxfam e sua atuação atual no Democracy Hub e na FGV. Em novembro de 2022, ele publicou, na openDemocracy, o artigo Como evitar um retorno de Bolsonaro, no qual defendia a ação simultânea de diferentes grupos para impedir que o então presidente chegasse com força à eleição de 2026. Sua entrada na CTRL+Z acrescenta à rede experiência de campanhas eleitorais e de articulação entre organizações.
Da mobilização ao pedido de cassação
Em 13 de outubro, a Fundação Perseu Abramo, vinculada ao PT, divulgou a petição da CTRL+Z que cobrava providências do TSE contra a Meta. No dia seguinte, o MPF informou a abertura de procedimento administrativo a partir de representação conjunta de CTRL+Z, Sleeping Giants, Conectas e Artigo 19. O material também foi compartilhado com a Procuradoria-Geral Eleitoral.
O protesto de 19 de outubro foi articulado por CTRL+Z, Código Não Binário, Artigo 19, DiraCom, Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação e Sleeping Giants. O Sindicato dos Bancários de São Paulo aderiu, sob a alegação de que seu canal de atendimento no WhatsApp havia sido bloqueado. Daniela e Veronyka Gimenes, do Código Não Binário, tentaram entregar as exigências à empresa, segundo relato da Folha de S.Paulo.

A convocação defendia revisão humana, auditoria dos algoritmos e preservação de registros. Incluía também a exigência de um anúncio a todos os usuários brasileiros do Instagram reconhecendo prejuízo especialmente a Lula e com pedido de desculpas. No vídeo divulgado pelo sindicato e por sua presidente, Neiva Ribeiro, um cartaz ao fundo traz a frase em inglês Brazil is not Zuck’s bitch e referências a sionismo, fascismo e Epstein sobre uma bandeira brasileira. Ao fundo, o ativista Thiago Ávila conhecido pela participação da “Flotilha da Liberdade” de Gretta Thunberg em Gaza.
No mesmo dia, Patrícia Campos Mello noticiou, na Folha, que a campanha de Lula havia decidido pedir a cassação da chapa de Flávio por suposta manipulação algorítmica. A iniciativa anunciada citava a reportagem da jornalista sobre mensagens internas da Meta, publicada três dias antes, além de comparações de desempenho nas redes.
Falhas de moderação, restrições e mecanismos de recomendação exigem explicações técnicas. Sua ocorrência não estabelece, por si, uma ordem para eleger Flávio. O que os documentos examinados por A Investigação demonstram é a articulação entre organizações que compartilham dirigentes e fontes de financiamento para transformar essas reclamações em pressão institucional e reivindicações de efeito eleitoral.
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