Em 16 de outubro, a Justiça Eleitoral de Niterói determinou que a Polícia Federal investigue Brunna Rosa Alfaia e os responsáveis por quatro perfis que divulgaram um vídeo contra Alfredo Gaspar, candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro. Entre as contas está a de Kriska Carvalho. Publicado em 8 de outubro, o material apresentava Gaspar como investigado por crime sexual contra uma criança, embora o Supremo Tribunal Federal (STF) tivesse arquivado, dois dias antes, o pedido para abrir um inquérito contra ele. O caso foi revelado pela coluna do jornalista Paulo Cappelli, do Correio da Manhã.
Brunna comandou a estratégia digital de Lula na campanha de 2022 e depois ocupou a Secretaria de Estratégia e Redes da Secom. Kriska, cujo nome é Cristianlene de Carvalho, foi apresentada pela Fundação Perseu Abramo como estrategista digital da instituição. As ligações das duas com a comunicação petista já haviam sido documentadas por A Investigação, antes de seus nomes aparecerem no novo caso.
Segundo a notícia-crime apresentada por Gaspar, o vídeo circulou nos perfis @lulapelaverdade, @rembodinho, @kriskacarvalho e @midia.ativista. A peça também mencionava a disputa presidencial e pedia votos para a chapa adversária. Brunna e André Martins Rembold, conhecido como Rem Bodinho, foram identificados entre os citados na notícia-crime. A PF deverá estabelecer a participação individual dos envolvidos, quem administrava as contas e se havia conhecimento de que a informação divulgada era falsa.
A decisão autorizou a apuração, sem declarar culpados. A Justiça mandou o Instagram preservar por um ano os registros da publicação e dos quatro perfis. Por ora, rejeitou o pedido para proibir novas postagens sobre o assunto; a eventual remoção do vídeo será analisada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A acusação nasceu na reta final da CPMI do INSS
Em 27 de março, Gaspar apresentou à CPMI do INSS um relatório que pedia o indiciamento de 216 pessoas, entre elas Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente. No mesmo dia, o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) e a senadora Soraya Thronicke levaram à Polícia Federal uma notícia-crime segundo a qual Gaspar teria estuprado e engravidado uma adolescente de 13 anos. O relatório de Gaspar acabou rejeitado pela comissão.
A defesa de Gaspar atribui a acusação a uma tentativa de retaliá-lo e desviar o foco de suas conclusões sobre Lulinha. A coincidência de datas dá peso político à suspeita, mas não estabelece, sozinha, a intenção de Lindbergh e Soraya. Gaspar negou o crime desde o início e afirmou que a história confundia seu nome com o de um primo. Uma jovem apontada na narrativa como filha nascida do suposto estupro também declarou que seu pai era primo do deputado e que havia nascido de uma relação consensual.
A origem do relato passou ainda por Luiz Antônio Lopes, que apresentou versões contraditórias. Primeiro, levou adiante a acusação contra Gaspar; depois, declarou à Polícia Legislativa que teria participado de uma armação e apontou pessoas ligadas a Lindbergh. Mais tarde, voltou a sustentar a suspeita. Lindbergh negou participação em qualquer armação e contestou a apuração conduzida pela Polícia Legislativa. Essas mudanças de versão fazem parte da história da denúncia, mas a decisão que arquivou o caso se baseou nas diligências examinadas pelo STF e no parecer da Procuradoria-Geral da República (PGR).
Em 6 de outubro, Gilmar Mendes arquivou o pedido de abertura de inquérito. Antes disso, haviam sido solicitadas informações à Google e a operadoras de telefonia, feitas transcrições de áudios e pedidas explicações complementares aos autores da notícia-crime. Após essas diligências, a PGR concluiu que não foi possível confirmar a origem das comunicações, identificar diretamente as pessoas mencionadas nem encontrar elementos independentes que corroborassem a acusação. Para o ministro, capturas de tela, áudios, registros digitais e relatos não ofereciam suporte mínimo para investigar Gaspar.
Brunna, Janja e a plataforma de militância petista
Brunna é próxima da primeira-dama Janja. Quando o publicitário Sidônio Palmeira assumiu a Secom, em janeiro de 2025, a imprensa relatou que Janja tentou impedir sua saída, sem sucesso. Antes de integrar o governo, Brunna havia trabalhado na comunicação digital da campanha de Lula; sua empresa, a Embaúba Produções, recebeu R$ 3,1 milhões daquela campanha.
Em fevereiro, A Investigação mostrou que a Embaúba registrou o domínio do Pode Espalhar. Lançada pelo PT e pela Fundação Perseu Abramo, a plataforma cadastra apoiadores, oferece conteúdo pronto para compartilhamento e os encaminha a canais de mobilização. Uma cronologia posterior produzida por nossa equipe situou o registro do domínio, a entrada do site no ar e seu lançamento público como possivelmente dentro da quarentena imposta a Brunna pela Comissão de Ética da Presidência. Naquele período, ela estava impedida de exercer atividades privadas relacionadas à área em que atuara no governo e recebia remuneração compensatória.
A apuração levantou a necessidade de esclarecer se Brunna trabalhou no projeto durante o impedimento e se comunicou sua eventual atuação à Comissão de Ética. Ao publicar aquela reportagem, A Investigação informou que havia procurado Brunna, a Secom, a Fundação Perseu Abramo e o Pode Espalhar, sem obter resposta até então. Esses registros explicam seu papel anterior na estrutura digital do PT; ainda será preciso apurar qual foi sua atuação no vídeo de 8 de outubro.
O Pode Espalhar também ajuda a entender a dimensão eleitoral dessa estrutura. A Investigação identificou a plataforma em atividade antes que seus endereços aparecessem na relação apresentada pela campanha de Lula ao TSE. Posteriormente, o site e seus perfis foram incluídos no registro. Os grupos de WhatsApp “Espalhe a Verdade”, acompanhados pela reportagem, continuavam fora da lista examinada em 15 de outubro. Não há, nos elementos conhecidos da nova decisão, demonstração de que esses grupos tenham distribuído o vídeo contra Gaspar.
Apagou vínculo do perfil, mas deixou rastros
Em março, A Investigação revelou que Kriska Carvalho é o nome usado nas redes por Cristianlene de Carvalho, também conhecida como Kriska Pimentinha. Na ocasião, ela havia publicado um briefing para orientar uma ofensiva digital contra Nikolas Ferreira, com objetivos, argumentos e direcionamento para a militância. Após a repercussão, apagou a publicação.
Kriska afirmou que a mobilização havia partido dela, sem coordenação externa ou remuneração, e negou ligação com o governo federal. “Nunca recebi nada para fazer militância”, escreveu. Também declarou que nunca havia trabalhado na Secom. A resposta tratava do governo, mas deixava de fora outro vínculo que nossa apuração encontrou: uma versão arquivada de sua biografia no X informava que ela atuava na comunicação digital da Fundação Perseu Abramo. A referência foi retirada do perfil depois que suas orientações começaram a circular amplamente.
A mudança na biografia não apagou os demais registros. Em um programa de dezembro de 2025, a própria fundação apresentou Kriska como sua estrategista digital, ao lado do diretor de Comunicação, Alberto Cantalice. Ela também apareceu creditada em publicações da instituição. É esse histórico, somado à publicação do vídeo em @kriskacarvalho, que torna sua participação relevante para a apuração da PF. Os registros anteriores não mostram quem produziu a peça contra Gaspar nem se a fundação teve participação nela.
A acusação chegou à campanha presidencial
Em 9 de outubro, três dias após a decisão do STF, a Justiça de Alagoas condenou Soraya, em primeira instância, a pagar R$ 50 mil a Gaspar por danos morais. O juiz considerou que a imputação pública de um crime tão grave não tinha sustentação suficiente e ultrapassou os limites da manifestação parlamentar. Soraya contestou a ação, defendeu que suas declarações estavam relacionadas ao mandato e criticou a sentença. Cabe recurso.
A defesa de Gaspar também acionou a Justiça Eleitoral contra Manuela D’Ávila por declarações feitas em um ato político. Nesse caso, houve apresentação de uma notícia-crime, sem condenação. Lindbergh, por sua vez, negou ter forjado a acusação e contesta as alegações feitas contra ele por Luiz Antônio Lopes.
A história ultrapassou os perfis agora investigados. Em 10 de outubro, o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, suspendeu uma propaganda da campanha de Lula que voltava a associar Gaspar à acusação sem informar o arquivamento determinado pelo STF. A circulação do tema entre militantes, perfis digitais e a propaganda oficial mostra por que importa esclarecer como o vídeo de 8 de outubro foi produzido e distribuído. A falsidade verificável naquele material é apresentar Gaspar como alvo de uma investigação por estupro depois que o Supremo recusou a abertura do inquérito e arquivou o pedido.
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