Faltando pouco menos de seis meses para o início oficial do período eleitoral, o PT já colocou em campo sua estrutura digital de mobilização. Embora sua rede de MAVs (militantes em ambiente virtual) já atue nas redes desde o início da década de 2010, a engrenagem atual — rebatizada por críticos de “Gabinete do Amor” — opera em outra escala de alcance e organização.
A estrutura funciona a pleno vapor e os mesmos núcleos já identificados anteriormente por A Investigação seguem ativos. Nesse contexto, a comparação com o chamado “Gabinete do Ódio” bolsonarista torna-se inevitável. No caso petista, há documentação abundante indicando práticas idênticas às que foram atribuídas — até hoje sem comprovação — à rede digital da direita: coordenação centralizada de influenciadores, campanhas digitais organizadas e emprego de automação e bots para ações em massa.
A diferença está na resposta institucional. Apesar do volume de evidências disponíveis, não houve até o momento responsabilização formal nem abertura de investigação equivalente contra a rede pró-Lula.
Com as pesquisas recentes mostrando o senador Flávio Bolsonaro ultrapassando Lula em simulações de segundo turno para a Presidência, o campo governista acelerou a engrenagem digital. A estrutura montada revela uma máquina profissionalizada, preparada para uma disputa intensa nas redes — ainda que recorrendo a expedientes que operam na zona cinzenta da legislação eleitoral.
A movimentação também antecipa o novo cenário institucional. Em 2022, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob comando de Alexandre de Moraes adotou postura intervencionista que teve impacto direto no ambiente eleitoral. A partir de junho, o tribunal será presidido pelo ministro Kassio Nunes Marques. Indicado por Jair Bolsonaro, ele é visto no meio político como alguém que tende a conduzir uma corte mais equilibrada, ou no mínimo menos ativista.
Sem a expectativa de um ambiente institucional favorável, a estratégia digital lulista foi reforçada. Cartilhas jurídicas, redes permanentes de mobilização, plataformas próprias de distribuição e indícios de automação apontam para uma preparação antecipada de campanha — estruturada para operar em larga escala muito antes do marco legal do período eleitoral.
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Samba, Lula e robôs
No dia 15 de fevereiro de 2026, a escola de samba Acadêmicos de Niterói levou à Marquês de Sapucaí o enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, uma homenagem ao presidente que percorreu sua trajetória desde a infância no Nordeste até a chegada ao Planalto. Lula acompanhou o desfile de um camarote oficial da Prefeitura do Rio. A escola, estreante no Grupo Especial, acabou rebaixada com a menor pontuação do ano. Na avenida, o clima era de celebração; nas redes, de guerra.
À direita, partidos como Novo e PL apresentaram representações à Justiça Eleitoral apontando campanha antecipada e questionando o uso de recursos públicos no desfile — estimados em cerca de R$ 9,6 milhões, somando verbas das prefeituras de Niterói e do Rio, do governo do Estado e repasses da Embratur. Setores evangélicos também reagiram à ala “família conserva”, acusando a escola de atacar valores religiosos.
Do outro lado, militantes e influenciadores alinhados ao governo transformaram o episódio em gatilho para uma campanha digital coordenada, amplificando vídeos do desfile, falas de Lula e narrativas de que a homenagem representava “o povo na Sapucaí”. O problema é que, diante da dificuldade de disputar organicamente o debate nas redes, a estratégia passou a incluir o uso de automação para inflar artificialmente o engajamento.
Um mapeamento da plataforma Brandwatch, divulgado em 18 de fevereiro pela revista Veja, identificou padrões inorgânicos compatíveis com o uso de automação na rede X em defesa do presidente. Entre 15 e 18 de fevereiro, um único perfil chegou a publicar 5.969 vezes, com picos próximos de 400 postagens por hora. Mantido de forma contínua, esse volume equivale a cerca de 6,6 publicações por minuto — ou uma postagem a cada nove segundos.
Questionado, o responsável pelo perfil negou o uso de robôs e atribuiu o desempenho ao “feriado prolongado” e à mobilização espontânea. A explicação não se sustenta diante dos próprios números: manter esse ritmo por horas consecutivas exigiria atividade ininterrupta, em cadência praticamente mecânica, incompatível com o uso ordinário da plataforma por um único usuário sem algum grau de automatização ou apoio operacional.


Ainda segundo o levantamento, os mil perfis mais ativos concentraram mais de 200 mil publicações sobre Lula e o desfile em apenas quatro dias. Parte dessas contas apresentou padrão predominante de retuítes em massa e baixa produção autoral, comportamento típico de estruturas voltadas à amplificação coordenada de narrativas.
Os dados da Brandwatch confirmam um padrão já identificado em reportagens anteriores de A Investigação. Em outubro de 2024, a série revelou o uso de perfis automatizados e redes sincronizadas para impulsionar conteúdos favoráveis ao governo e atacar críticos. À época, análises técnicas detectaram contas operando de forma coordenada, com repetição massiva de mensagens, disparo simultâneo de hashtags e falhas operacionais que expuseram testes de automação por meio de publicações idênticas contendo comandos de script.
Também foram registradas campanhas de pressão contra jornalistas e comentaristas, marcadas por enxurradas de menções padronizadas, pedidos de derrubada de contas e amplificação artificial de conteúdo por perfis criados em lote, com baixa produção autoral e atuação quase exclusiva via replicação em massa.
O monitoramento de fevereiro de 2026 mostra a mesma engrenagem em funcionamento, agora em escala ampliada e com maior sofisticação. A cadência mecânica de publicações, a concentração do volume em poucos perfis e o predomínio de retuítes massivos repetem o padrão já documentado, indicando continuidade operacional e profissionalização de uma estrutura digital permanente de mobilização e pressão política nas redes.
De caçadores a espalhadores
Na mesma época do desfile de carnaval, outro núcleo do Gabinete do Amor também se moveu, de forma mais discreta. Os grupos de WhatsApp usados para coordenar a militância digital lulista assumiram nova roupagem. O grupo “Caçadores de Fake News”, denunciado anteriormente por A Investigação por atuar na defesa do governo Lula e organizar campanhas coordenadas contra adversários, passou a se chamar “Espalhe a Verdade”.
A mudança não foi apenas estética. A estrutura permanece intacta: os mesmos administradores, a mesma lógica de comando centralizado e a mesma organização em rede numerada. Os grupos são nomeados em sequência — 01, 02, 03 e assim por diante, até pelo menos o grupo 189 — indicando operação simultânea em múltiplas células. Considerando o limite atual de 1.024 membros por grupo, a malha pode alcançar dezenas de milhares de participantes. O grupo principal continua sob administração de Clarissa Berry Veiga, apontada nas apurações anteriores como uma das operadoras centrais desse núcleo desde pelo menos 2022.
A rede não surgiu agora. Foi criada ainda durante a campanha presidencial e divulgada em canais ligados ao então candidato Lula. Em maio de 2024, durante as enchentes no Rio Grande do Sul, a estrutura foi reativada com participação direta da Secretaria de Comunicação Social da Presidência. O então ministro Paulo Pimenta e o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) ingressaram pessoalmente nesses grupos para solicitar a disseminação de conteúdo favorável ao governo. A mobilização era apresentada como combate à “desinformação”, mas os alvos das denúncias coordenadas eram majoritariamente opositores e perfis de direita.
Na prática, os grupos funcionam como centrais de comando. Administradores distribuem links, textos padronizados, artes e vídeos, organizam mutirões de denúncia para derrubar contas e definem prioridades diárias. Em momentos sensíveis, apenas moderadores podem publicar, controlando rigorosamente o fluxo de mensagens.
A nova bio do grupo explicita o caráter político da operação:
“A eleição nem começou e já estamos vendo uma enxurrada de notícias falsas contra o governo Lula, a Democracia e o Brasil. O objetivo do grupo é combater as notícias falsas que buscam instalar caos, insegurança e medo no povo brasileiro. Eles usam robôs, nós temos a nossa força coletiva, esperança e fé no futuro do Brasil.”
E conclui:
“Vamos apontar as prioridades, com informações e dados checados, para atuarmos de forma eficiente e organizada. Sem ajudar a divulgar a estratégia da extrema-direita. Esse será o ano da verdade. Vamos juntos! Quer conteúdos para espalhar? Acesse podeespalhar.com.br.”
Pode Espalhar
O site Pode Espalhar funciona como a plataforma central dessa engrenagem. Em 2 de julho de 2025, o Partido dos Trabalhadores e a Fundação Perseu Abramo lançaram oficialmente o projeto em uma reunião virtual com influenciadores aliados. A iniciativa foi apresentada como o “Clube de Influência do Time Lula”, com promessa de suporte jurídico, curadoria de conteúdos e canais diretos com a estrutura partidária.
O evento de lançamento contou com o senador Humberto Costa (PT-PE), presidente nacional do partido, o deputado federal Jilmar Tatto (PT-SP), secretário nacional de Comunicação do partido, e Paulo Okamotto, presidente da Fundação Perseu Abramo — núcleo histórico de formulação política e estratégica do petismo.
Okamotto já havia sido apontado em apurações anteriores de A Investigação como operador de grupos de WhatsApp dos “Caçadores de Fake News” sob o pseudônimo “Rodrigo Time Lula”. Tatto também aparece conectado à estrutura por meio de operadores dos próprios grupos. Um dos administradores identificados nas apurações anteriores, Maxwell Gonçalves Nunes — responsável por núcleos regionais da rede — é proprietário da empresa Creative Full Service. Registros do Portal da Transparência indicam que, desde 2023, a empresa recebeu R$ 15,4 mil em pagamentos do gabinete de Jilmar Tatto.
Também participaram Marco Aurélio Carvalho, coordenador do Grupo Prerrogativas, coletivo de juristas com atuação pública em defesa do governo Lula; e Otávio Antunes, dono da agência Urissanê e operador recorrente de comunicação em campanhas petistas. Sua empresa já recebeu valores milionários em contratos políticos — cerca de R$ 11,5 milhões na campanha de Fernando Haddad ao governo de São Paulo em 2022, quase R$ 14 milhões em repasses eleitorais e partidários em 2024 e ao menos R$ 5 milhões do diretório nacional do PT em 2025.
No portal, o interessado é convidado a se cadastrar informando nome completo, e-mail, WhatsApp, cidade, estado e perfis em redes sociais. Em seguida, indica como pretende atuar: compartilhando conteúdos, criando publicações, representando a iniciativa localmente, promovendo eventos ou coordenando equipes regionais. A plataforma funciona, na prática, como um banco de dados de militância digital organizada e segmentada.
No centro do site está a seção de campanhas e conteúdos prontos para compartilhamento. Ali, a equipe responsável define o tema prioritário do dia, seleciona a narrativa e disponibiliza o material a ser replicado — vídeos, cards e falas de autoridades — acompanhado de instruções de difusão. A orientação é explícita: enviar o conteúdo, comentar, reagir, compartilhar e impulsionar a mensagem nas diferentes redes. O objetivo é padronizar o discurso e ampliar sua presença por meio de uma base mobilizada para atuar de forma sincronizada.
Além dos materiais prontos, o site oferece tutoriais de engajamento, links para grupos de WhatsApp e ferramentas para envio de conteúdo por apoiadores. Há também petições e campanhas temáticas que combinam mobilização digital com ações políticas. Em destaque, uma chamada resume a lógica da plataforma: ajudar o governo nas redes e encaminhar o conteúdo para novos contatos, ampliando o alcance da mensagem.
O que antes operava de forma difusa em grupos de WhatsApp com aparência espontânea passou a se conectar abertamente a uma estrutura partidária formalizada, com centralização de conteúdo, captação sistemática de dados e canais definidos de distribuição. Uma engrenagem permanente de mobilização digital — ativa muito antes do início oficial do período eleitoral.
A infraestrutura da operação
No registro técnico do domínio, consta como contato operacional a empresa Hacklab Serviços de Tecnologia em Informática Ltda, identificada no cadastro do Registro.br como responsável técnico. A Hacklab se apresenta publicamente como laboratório de software livre com atuação junto a movimentos sociais, partidos, órgãos governamentais e organizações da sociedade civil.
O portfólio da empresa inclui sistemas como o Mapas Culturais, plataforma utilizada pelo Ministério da Cultura para mapear e gerir políticas públicas culturais. A empresa também mantém histórico de atuação no ecossistema da Casa da Cultura Digital, espaço tradicionalmente associado a projetos de tecnologia cívica de perfil progressista.
Dados do Portal da Transparência indicam que a Hacklab recebeu ao menos R$ 62.460 em contratos públicos — R$ 7.500 do CNPq e R$ 54.960 da Universidade Federal de Pelotas, em pagamentos mensais entre maio de 2025 e fevereiro de 2026. O período coincide com a criação e consolidação do Pode Espalhar.
A quebra da quarentena
Já o domínio do site está registrado em nome da Embaúba Produções LTDA. A Embaúba não é uma empresa qualquer. Fundada em julho de 2021 por Brunna Rosa Alfaia, recebeu R$ 3,1 milhões da campanha de Lula em 2022. Sua atividade formal declarada é “atividades de artistas plásticos, jornalistas independentes e escritores”. Carmela Morena Zigoni Pereira também consta como sócia desde novembro de 2023.
Brunna Rosa ficou conhecida na campanha como a “companheira do TikTok”, apelido que recebeu por ter aproximado Lula de influenciadores digitais, ex-BBBs e agências de marketing de influência. Foi ela quem coordenou a presença da campanha na plataforma quando o TikTok ainda despontava como novidade no cenário eleitoral brasileiro, além de participar de treinamentos de lideranças digitais organizados pelo Instituto Lula com apoio da agência Mynd8.
A atuação da Embaúba Produções na campanha de 2022 não se restringiu à gestão de redes sociais. Em setembro de 2023, o site O Bastidor divulgou documentos que revelavam que a campanha Lula omitiu do TSE serviços prestados pela Polo Marketing Digital. Segundo o texto, relatórios relacionados ao site “Verdade na Rede” foram elaborados pela Polo, embora o domínio estivesse registrado em nome da Embaúba.
O “Verdade na Rede” foi criado por Brunna Rosa como canal de comunicação da campanha, apresentando-se como uma iniciativa independente de checagem, sem informar vínculo com recursos eleitorais. Em setembro de 2022, o TSE determinou sua retirada do ar por unanimidade, classificando a operação como dissimulada e apontando coleta irregular de dados. A relatora registrou que Brunna recebia R$ 12,7 mil da campanha por esse serviço.
Após a eleição, em 28 de novembro de 2023, assumiu a Secretaria de Estratégias e Redes da Secom. Tornou-se responsável direta pela presença digital do presidente nas redes sociais, atuando dentro do Palácio do Planalto e vinculada à estrutura de Janja. Foi exonerada em 17 de janeiro de 2025, em meio a um embate interno. O marqueteiro Sidônio Palmeira, que assumiu a condução da estratégia política de Lula, teria exigido sua saída. Janja tentou mantê-la no cargo, sem sucesso.
Meses depois, em maio de 2025, a Comissão de Ética da Presidência da República formalizou uma quarentena de seis meses com início retroativo a 23 de fevereiro de 2025. A medida foi motivada pela tentativa de Brunna ingressar na agência Mynd8 — a mesma empresa que havia prestado serviços ao Instituto Lula durante a campanha e com quem ela mantinha relação profissional anterior ao cargo público. A Comissão entendeu que a contratação configuraria conflito de interesses com as atribuições que ela exerceu na Secom. Durante o período de impedimento, Brunna recebeu remuneração compensatória de R$ 18,4 mil mensais. O impedimento se encerrou em 23 de agosto de 2025.
O domínio do Pode Espalhar, no entanto, foi registrado pela Embaúba em 7 de abril de 2025 — portanto durante o período de quarentena, quando Brunna estava formalmente impedida de exercer atividades privadas ligadas à sua área de atuação no governo. O site já estava no ar em 23 de maio de 2025, e o lançamento público da plataforma ocorreu em 2 de julho de 2025 — tudo dentro do período de impedimento. Brunna retornou formalmente ao quadro societário da Embaúba em 19 de setembro de 2025, 27 dias após o término da quarentena.
Embora a decisão da Comissão de Ética tenha determinado que qualquer nova proposta de trabalho recebida durante o período de impedimento devesse ser comunicada ao colegiado, não há registro público de que a operação do Pode Espalhar tenha sido submetida a essa análise.
A cartilha que ensina como não ser processado
Em 29 de dezembro de 2025, o PT publicou em seu site oficial, sob a marca do Pode Espalhar, o “Manual de Apoio a Influenciadores e Ativistas Digitais”, cartilha de 93 páginas que sistematiza orientações políticas e jurídicas para a militância digital pró-Lula. O documento se apresenta como parte de uma “articulação política de comunicação, organização e mobilização em defesa do governo Lula e da democracia” e afirma ter sido criado para “ajudar a prevenir processos e ataques da extrema direita”.
Elaborado por uma comissão de influenciadores vinculados ao partido, com revisão jurídica formal, o manual aborda 32 situações envolvendo responsabilidade civil, eleitoral e penal nas redes. A cartilha funciona na prática como um guia para blindar juridicamente o discurso de campanha, ensinando militantes a substituir afirmações diretas por formulações que dificultem processos judiciais.
As orientações principais são:
Não diga “genocida” — troque por “a condução da pandemia resultou em milhares de mortes evitáveis”, citando dados;
Não diga “corrupto” — troque por “responde a investigações sobre rachadinhas e joias sauditas”, com citação de fonte;
Não diga “fascista” como xingamento — diga que “esse discurso se aproxima do fascismo histórico”;
Transforme acusação em opinião: “na minha visão, essa conduta é corrupta” é juridicamente mais seguro do que “Bolsonaro é corrupto”;
Prefira linguagem de denúncia política: usar CPIs, matérias jornalísticas e decisões judiciais como blindagem.
O documento também dedica capítulo específico à organização de engajamento coordenado. Afirma que mutirões para subir hashtags, comentar em massa e fazer reposts simultâneos “não são crime”, desde que realizados de forma orgânica e sem uso de perfis falsos ou financiamento oculto. Ao mesmo tempo, alerta para riscos de responsabilização caso haja robôs, anonimato ou propaganda paga irregular.
No capítulo sobre uso de imagens e vídeos, orienta a explorar atos públicos e manifestações políticas como material legítimo, diferenciando-se da “outra corrente ideológica”, que, segundo o texto, manipularia imagens para produzir desinformação.
Há ainda seção voltada à reação a notificações judiciais. A cartilha recomenda reunir provas, centralizar a defesa e acionar redes de apoio jurídico. Vai além: sugere converter o próprio processo em instrumento político — “Virem a narrativa: não é derrota ser notificado; é prova de que o opositor teme a força da militância”.
A comissão responsável pelo manual reúne operadores jurídicos, influenciadores digitais, quadros partidários e até um delegado de polícia em exercício — composição que evidencia a integração entre militância digital, estratégia jurídica e estrutura política. O perfil dos autores ajuda a compreender a finalidade do documento: padronizar a atuação nas redes com respaldo técnico e coordenação centralizada.
Iohana Bezerra Costa — advogada eleitoral com atuação no TSE e no TRE-SP. Em 2024, representou o PSB em ações de investigação eleitoral contra Pablo Marçal. Assina a revisão jurídica do manual e a seção com 32 questões práticas, conectando a mobilização digital à engrenagem processual do campo lulista.
Teresa Freitas (@eutocomlula) — administradora de uma das maiores páginas pró-Lula no Instagram, com cerca de 990 mil seguidores e mais de 11 mil publicações. Atua desde 2022 como distribuidora massiva de conteúdo governista e classificou o manual como instrumento de “resistência” e proteção da militância digital.
Henrique Lopes — influenciador digital. Foi responsável por sistematizar as dúvidas jurídicas enviadas por militantes que deram origem ao manual, atuando como elo entre a base digital organizada e a equipe jurídica que redigiu a cartilha.
Gladson Targa — designer e ativista com histórico de produção visual para campanhas de movimentos de esquerda, inclusive iniciativas ligadas ao MST. Autor de trabalhos sobre “design dissidente” nas redes, assina o projeto gráfico, a diagramação e as ilustrações do manual, unindo estética militante e estratégia política.
Yasser Martins Yassine — delegado de polícia civil em exercício, com mais de 300 mil seguidores nas redes e apontado como liderança digital do PT em Goiás, além de nome cotado para disputar as eleições de 2026. Produz conteúdo político regular, analisando adversários e temas do debate público. Sua participação na elaboração de um manual que orienta militantes sobre como atuar para evitar responsabilizações judiciais cria uma sobreposição sensível entre função estatal — com poder de investigação criminal — e atuação político-partidária organizada.
Outros nomes listados na comissão — Thiago Melo, Fabiano Cavalcanti, Rodolfo Vasconcelos e Rosângela Mousinho — não apresentam presença pública expressiva no ecossistema digital político, indicando atuação mais técnica ou interna na estrutura do projeto.
Os velhos novos ataques à imprensa
À medida que dois escândalos simultâneos passaram a atingir o entorno direto do governo — o caso Banco Master, que expõe ligações de ministros do STF com o banco em liquidação extrajudicial, e as investigações da CPMI do INSS, que levaram à aprovação da quebra de sigilo de Lulinha, filho do presidente, e mantiveram Frei Chico, seu irmão, na mira das apurações sobre o Sindnapi — a militância digital alinhada ao governo incluiu novos alvos: os jornalistas que investigavam esses temas passaram a receber ataques, com enxurradas de xingamentos, desqualificação pessoal e tentativas de enquadrar as reportagens como “ataques à democracia”.
O principal alvo foi Malu Gaspar, colunista de O Globo. Suas reportagens detalharam contratos milionários do Banco Master com estruturas jurídicas ligadas ao entorno de ministros do STF, além de bastidores da crise interna no Supremo envolvendo a condução do caso. A partir daí, perfis alinhados à militância governista passaram a rotulá-la como “golpista”, “vendida” e “inimiga da democracia”, acusando-a de participar de uma suposta ofensiva contra o STF. Em publicações coordenadas, houve pedidos de boicote, questionamentos públicos à sua credibilidade e pressão sobre o próprio jornal.
O roteiro se repetiu com Andreza Matais, que já havia sido alvo de campanhas digitais em 2023 após reportagens incômodas ao governo. Com novas apurações sobre bastidores políticos e desdobramentos do caso Master em sua coluna no Metrópoles, voltou a ser atacada como “bolsonarista fanática” e “fabricante de fake news”. Paralelamente, a ofensiva se estendeu ao próprio veículo. Perfis e comentaristas alinhados à militância governista passaram a acusar o Metrópoles de conduzir uma campanha de vingança contra o STF — especialmente contra Dias Toffoli — por interesses pessoais de seu proprietário.
Em sua busca para descredibilizar o portal, a blogosfera petista difundiu em massa a narrativa de que a “esposa do dono do Metrópoles” teria recebido cerca de R$ 700 mil do PL para defender Carla Zambelli. A advogada Flávia Cardoso Campos Guth, responsável pela defesa de Zambelli, não é esposa, mas nora do empresário Luiz Estevão, controlador do portal. Além disso, os pagamentos citados correspondem a honorários advocatícios registrados no Portal da Transparência do TSE e declarados como despesa partidária regular — prática permitida pela legislação para custear a defesa jurídica de filiados.
O método não é novo. Desde os anos 2000, setores do PT rotulam a imprensa como “PIG” — Partido da Imprensa Golpista — e estimulam campanhas contra repórteres e colunistas que publicam reportagens incômodas ao partido. Nos anos mais recentes, a lógica foi reciclada nas redes sociais: mutirões de menções, hashtags coordenadas, questionamentos públicos à credibilidade de jornalistas e tentativas de enquadrar apurações como ofensivas políticas.
Embora parte significativa da imprensa tenha adotado postura abertamente crítica a Jair Bolsonaro — com direito até a comemorações em redações após o anúncio da vitória de Lula no segundo turno de 2022 — o alinhamento não produziu imunidade permanente. Bastou que reportagens voltassem a atingir o entorno do poder para que o mesmo repertório de ataques fosse reativado. Agora, às vésperas de uma disputa acirrada em 2026, o PT volta a demonstrar que seu apreço pela imprensa é condicionado à bajulação e ao silêncio diante de temas sensíveis.
O que dizem os envolvidos
A reportagem entrou em contato com a Secom, a Fundação Perseu Abramo, o projeto Pode Espalhar e Brunna Rosa Alfaia, questionando-os sobre os vínculos institucionais e financeiros revelados nesta reportagem, a gestão da plataforma e o cumprimento das normas de ética e proteção de dados. Até o momento da publicação, nenhum dos contactados havia se manifestado. O espaço permanece aberto para respostas.
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Parabéns não apenas pelo trabalho jornalístico imprescindível e irreprochável, mas também pela coragem de descer sem escafandro na fossa séptica do leprosário das redes, ou seja, no depositório de perfis alinhados ao Carniça.
Eles tem Instituto e orientação. O que tem a direita?