
A Vale comprou ao menos 523,8 mil toneladas de minério de ferro extraído ilegalmente da Serra do Curral em 2016 e 2018, segundo documentos da Operação Parcours revelados pelo O Tempo nesta sexta-feira, 21. As aquisições renderam R$ 43,5 milhões à Empabra, empresa apontada pela Polícia Federal como responsável pela exploração criminosa da Mina Granja Corumi, em Belo Horizonte.
Os dados foram extraídos dos Relatórios Anuais de Lavra da própria Empabra e cruzados pela PF e pela Controladoria-Geral da União. Os registros identificam a Vale como compradora do minério retirado da área protegida e mostram que a mineradora pagou preços 19% abaixo do mercado em 2016 e 44% inferiores em 2018.
Ao longo de toda a operação da Empabra, o deságio chegou a 78%. Segundo os investigadores, a comercialização abaixo do valor de mercado fez a União deixar de arrecadar R$ 11,4 milhões em Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (Cfem) entre 2012 e 2019 . Esse valor corresponde ao conjunto das vendas da Empabra no período, e não apenas às compras realizadas pela Vale.
A confirmação acrescenta números, datas e valores ao elo comercial que A Investigação revelou em 27 de maio, ao publicar com exclusividade O terceiro manuscrito da Serra do Curral que a imprensa omitiu.
O documento estava entre três organogramas apreendidos no celular do delegado Rodrigo Teixeira. Era o único que não havia sido publicado por nenhum veículo durante toda a cobertura da Operação Rejeito e descrevia a etapa final da cadeia: minério extraído ilegalmente era misturado a material de origem regular — a chamada blendagem — para que sua procedência se tornasse indistinguível antes da venda.
O manuscrito apontava uma empresa identificada como GJM como responsável pela comercialização e nomeava expressamente três compradoras finais: Vale, Gerdau e Trafigura.
Na ocasião, A Investigação fez uma ressalva necessária: nenhum documento da PF acusava as três empresas de conhecer a origem irregular do minério ou de participar dolosamente do esquema. Pelo contrário, a blendagem teria sido desenhada justamente para impedir que o comprador final identificasse a procedência de cada carga.
Os novos dados não demonstram que as 523,8 mil toneladas adquiridas pela Vale tenham percorrido exatamente a rota de blendagem descrita no manuscrito ou passado pela GJM. Confirmam, porém, o ponto central daquela revelação: minério retirado ilegalmente pela Empabra chegou à cadeia de abastecimento da Vale.
Da Empabra ao mercado legal
Em 12 de junho, a reportagem O Gaúcho e os laranjas da Serra do Curral mostrou como a estrutura comandada por Luís Fernando Franceschini da Rosa separava a empresa que acumulava os passivos ambientais das sociedades que concentravam o dinheiro.
A Empabra ficava na ponta operacional, exposta às autuações, dívidas e obrigações de recuperação ambiental. Acima dela estavam empresas como Corumi Participações, Green Metals, Mônada, Silenda e Buriti da Mata, ligadas pelos mesmos controladores, administradores e endereços.
Planilhas analisadas pela reportagem mostravam que o minério da Empabra era vendido a uma comercializadora do próprio grupo por R$ 70 a tonelada. Em uma das operações examinadas, a diferença entre o custo de aquisição declarado, de R$ 4 milhões, e a receita bruta da comercializadora, de R$ 17 milhões, produzia margem superior a 60%. O lucro subia pela estrutura empresarial; o passivo permanecia na mineradora.
Em 26 de junho, a PF concluiu os relatórios finais das Operações Parcours e Rejeito e indiciou 51 pessoas. Investigadores haviam chegado à mesma estrutura empresarial revelada pela série do Círculo de Minas.
A PF apontou Franceschini como principal controlador do grupo e identificou Lucas Prado Kallas como gestor operacional da Mina Granja Corumi entre 2014 e 2018. O período coincide com as duas compras de minério atribuídas agora à Vale. Em depoimento à própria PF, Kallas declarou que atuava como diretor comercial, responsável pelas vendas de minério, pela logística e pela qualidade do produto. Ele sustenta que as operações realizadas durante sua gestão eram regulares.
O mesmo grupo e a Vale em Brumadinho
As compras de minério da Empabra não foram a única relação comercial da Vale com aquele núcleo empresarial durante o período investigado.
Entre as aquisições registradas em 2016 e 2018, a Vale assinou, em 20 de julho de 2017, um Acordo de Confidencialidade com a Green Metals e a Flapa Mineração. O documento, revelado por A Investigação na reportagem O negócio da lama: a venda bilionária por trás da tragédia de Brumadinho, tratava do aproveitamento de materiais das minas de Jangada e Córrego do Feijão, onde estava a barragem B1.
A Green Metals havia sido fundada por Kallas, Franceschini e Bruno Luciano Henriques, integrantes do mesmo núcleo empresarial que controlava a operação da Empabra. Uma sentença da 46ª Vara do Trabalho de Belo Horizonte já havia reconhecido Green Metals, Empabra, Corumi, Elazul, Mineralis e Mônada como integrantes de um único grupo econômico. O relatório final da Operação Parcours chegou à mesma estrutura.
O acordo de 2017 não foi entregue pela Vale à CPI de Brumadinho da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, embora um requerimento tivesse solicitado os contratos e memorandos firmados com a Green Metals ou seus sócios sobre o aproveitamento dos rejeitos da B1.
Um dos executivos que assinaram o documento pela Vale foi Fabiano de Carvalho Filho, então responsável por estratégia e desenvolvimento de negócios na divisão de ferrosos e posteriormente envolvido na aquisição da New Steel. Em agosto de 2024, ele foi contratado como vice-presidente Comercial, de Estratégia e Projetos da Cedro, empresa de Lucas Kallas.
A cronologia agora está documentada: a Vale aparece como compradora de minério da Empabra em 2016; assina em 2017 um acordo sigiloso com a Green Metals, empresa do mesmo grupo econômico; e volta a figurar nos registros de aquisição de minério da Empabra em 2018.
O que a PF acrescentou
A análise dos Relatórios Anuais de Lavra transforma em dados mensuráveis uma conexão que, até maio, aparecia no terceiro manuscrito como parte do desenho da cadeia comercial.
A PF também rejeitou a explicação técnica para a diferença de preços. Segundo os investigadores, o teor de ferro ligeiramente inferior do minério da Empabra poderia justificar um desconto máximo de 13% nos anos de maior discrepância. Isso, porém, “não sustenta os valores de deságio efetivamente exercidos”. Na compra registrada em 2018, a diferença chegou a 44%.
Em nota ao O Tempo, a Vale afirmou que a compra de minério é uma prática comum no setor, que adota preços de mercado e que submete fornecedores e parceiros a avaliações de integridade, segurança e compliance. A companhia não respondeu, na manifestação publicada, como seus controles avaliaram a Empabra nem a razão dos descontos identificados pela PF.
A Empabra declarou que não comercializou minério da Mina Corumi sem autorização da Agência Nacional de Mineração (ANM) e dos órgãos ambientais. A empresa afirmou que as vendas foram acompanhadas de documentação fiscal, identificação dos compradores e declaração de origem. Também confirmou que a Vale foi sua cliente antes da paralisação das atividades, em 2018.
Não há, até o momento, acusação de que a Vale soubesse da origem ilegal do minério. O que os novos documentos estabelecem é o elo comercial: o terceiro manuscrito colocou a mineradora no fim da cadeia; as reportagens seguintes expuseram a estrutura empresarial e seus controladores; os relatórios finais da PF confirmaram o grupo; e os registros da Empabra agora mostram quanto minério a Vale comprou, em quais anos, por qual valor e com que desconto.
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