André Mendonça determinou nesta terça-feira (8) o afastamento preventivo de Andrei Rodrigues do comando da Polícia Federal e de Leandro Almada da Diretoria de Inteligência Policial. Ao acolher parcialmente dois pedidos do Partido Novo, o ministro suspendeu ambos também do exercício do cargo de delegado, mandou a Corregedoria abrir investigações criminais e disciplinares e proibiu a produção ou o compartilhamento de relatórios de inteligência destinados a avaliar o exercício da jurisdição, da advocacia pública ou da própria polícia judiciária. O Novo havia pedido ainda a prisão preventiva de Andrei, mas Mendonça não a decretou.
Em abril de 2020, Alexandre de Moraes impediu a posse de Alexandre Ramagem na Direção-Geral da PF. A nomeação havia sido feita por Jair Bolsonaro. Ao reconhecer indícios de desvio de finalidade, Moraes afirmou que a corporação não é “órgão de inteligência da Presidência da República” e citou como sinal de interferência a intenção atribuída ao então presidente de ter no comando alguém para “ligar, colher informações, colher relatórios de inteligência”.
Seis anos depois, o próprio Moraes teve notícia prévia de relatórios de inteligência produzidos pela PF sobre um colega do Supremo, requisitou o conjunto a Andrei e recebeu seis peças sobre Mendonça e a Advocacia-Geral da União. Usou o material no Inquérito das Fake News para acusar o colega de três ilícitos. Para afastar Andrei, Mendonça apoiou-se justamente em duas decisões de Moraes, entre elas o afastamento de Ibaneis Rocha do governo do Distrito Federal, e sustentou que o poder do cargo pode justificar uma suspensão cautelar destinada a impedir interferências na investigação.
Mendonça foi além dos precedentes sobre afastamento. Para caracterizar a ilegalidade dos dossiês, recuperou o voto do próprio Moraes na ADPF 722, julgamento que proibiu o Ministério da Justiça de produzir relatórios sobre policiais e professores identificados como antifascistas. “Não é permitido a nenhum órgão bisbilhotar, fichar ou estabelecer classificação de qualquer cidadão e enviá-los para outros órgãos”, afirmou Moraes em 2020. “Relatórios de inteligência não podem ser utilizados para punir.” Seis anos depois, Mendonça usou essas palavras contra o circuito que terminou no gabinete do próprio autor da frase: a PF monitorou o relator, Andrei entregou as peças a Moraes e o ministro as transformou em acusação no Inquérito das Fake News.
A reação governista tentou fundir esse episódio à prisão de Daniel Vorcaro. Xico Sá, um dos comentaristas do ICL, escreveu: “André Mendonça querendo castigar o cara que prendeu Vorcaro! Aí tem”. A afirmação é falsa. Quem pediu a primeira prisão do banqueiro foi o Ministério Público Federal; quem a autorizou, em 17 de novembro de 2025, foi o juiz Ricardo Augusto Soares Leite, da 10ª Vara Federal Criminal do Distrito Federal; a investigação policial estava sob responsabilidade da delegada Janaína Palazzo, e o mandado foi cumprido por uma equipe de campo da PF em Guarulhos. Andrei era o diretor-geral da instituição, mas não pediu, autorizou nem executou pessoalmente o mandado.
Palazzo estava entre os nomes que Vorcaro anotou depois de pedir a Moraes que acionasse Andrei e Paulo Gonet para impedir que a “gente de baixo” o prejudicasse. Ricardo Leite também aparecia nas mensagens ao contato atribuído a Moraes: “Aquele mesmo juiz Ricardo?”. As autoridades diretamente ligadas à prisão estavam, portanto, no radar do banqueiro como obstáculos — não como integrantes da cúpula a quem ele recorria em busca de proteção.
“É importante reforçar com Andrei e Paulo pra não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem que aí vai tudo pro saco”, escreveu Vorcaro.
Já a segunda prisão, em 4 de março de 2026, foi determinada por André Mendonça. Foi a primeira decisão dele como novo relator do caso Master, recém-sorteado após a saída de Toffoli em fevereiro por conflito de interesse no resort Tayayá, ligado ao cunhado de Vorcaro. Mendonça mandou prender Vorcaro à revelia do PGR Paulo Gonet, parceiro de whisky Macallan de Moraes, Toffoli e Andrei com Vorcaro em Londres.
O afastamento de Andrei, dez meses mais tarde, trata de outra sequência de fatos. Nasceu da disputa pelo controle das equipes e do material bruto das operações Compliance Zero e Sem Desconto e culminou na descoberta de seis peças apócrifas que registravam reuniões reservadas de Mendonça, avaliavam suas decisões e propunham “monitoramento e coleta dirigida”. O material saiu da estrutura policial, chegou a Moraes e foi transformado em munição contra o relator. É o ponto mais alto de uma guerra que começou antes da prisão de Vorcaro e agora expõe um racha dentro da própria Polícia Federal.
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O aviso que antecedeu a prisão
Em 30 de outubro de 2025, Vorcaro escreveu ao contato salvo em seu celular como “Alexandre de Moraes BRASILIA” que recebia informações confidenciais de “amigos” no Banco Central. Segundo ele, integrantes da PF e do Ministério Público pressionavam a autarquia a aderir a uma nova medida contra o Master. Na mesma sequência, pediu que Moraes reforçasse com Andrei Rodrigues e Paulo Gonet para não deixar “ninguém de baixo fazer uma sacanagem”.
Nas duas semanas seguintes, as mensagens ficaram mais urgentes. Em 15 de novembro, Vorcaro perguntou a Moraes se já deveria estar fora do país na segunda-feira. No dia 16, pediu que o ministro tentasse sensibilizar o diretor-geral da PF: “Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra”. Na segunda-feira, 17, voltou a cobrar: “Conseguiu ter notícia ou bloquear?”. Não foi possível recuperar as respostas de Moraes, enviadas como mensagens de visualização única.
Vorcaro tentava fechar, ao mesmo tempo, a venda do Master para a Fictor. O anúncio foi antecipado para aquela segunda-feira, numa tentativa de colocar de pé a última saída privada antes da liquidação. O banqueiro escreveu que a divulgação do negócio poderia “inibir” a medida que temia. O acordo previa a participação de investidores dos Emirados Árabes Unidos e era apresentado como a solução capaz de manter o banco vivo.
Documentos apresentados depois pela defesa mostram que Vorcaro antecipou de 18 para 17 de novembro a viagem com destino final a Dubai, depois de perguntar a Moraes se deveria sair do Brasil. A PF tratou o embarque num jato particular como tentativa de fuga. A defesa afirma que a viagem tinha finalidade comercial, fora comunicada ao Banco Central e serviria para concluir a venda do banco. As reservas e o itinerário anterior demonstram que uma viagem já era planejada; não resolvem por que ela foi adiantada justamente quando Vorcaro discutia a operação com Moraes.
O juiz Ricardo Augusto Soares Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília, assinou a prisão preventiva às 15h29 daquele dia. Horas depois, por volta das 22h, a PF deteve Vorcaro em Guarulhos antes do embarque. A Compliance Zero e a liquidação do Master seriam anunciadas na manhã seguinte. A prisão não demonstra que Andrei tenha atendido aos pedidos nem que Moraes tenha tentado bloquear a operação. Mostra algo anterior: Vorcaro sabia que uma medida se aproximava, acreditava que a cúpula poderia retardá-la e tentou sair do país antes que ela fosse deflagrada.
Uma rede de informantes já operava
Quando escreveu ao contato atribuído a Moraes que tinha “amigos” no Banco Central, Vorcaro não identificou quem eram eles. A mensagem, porém, se encaixa em uma estrutura que as investigações revelariam depois. A Investigação mostrou que dois servidores instalados no núcleo de supervisão bancária da autarquia foram afastados sob suspeita de agir em favor do Master: Belline Santana, chefe do Departamento de Supervisão Bancária, o DESUP, e Paulo Sérgio Neves de Souza, seu adjunto.
A decisão de Mendonça sobre a terceira fase da Compliance Zero descreve um grupo de mensagens com Vorcaro, Belline e Paulo Sérgio. Os dois revisavam minutas que o banco enviaria ao próprio departamento que comandavam, discutiam a estratégia para reuniões institucionais e, segundo os autos, mantinham o banqueiro informado sobre procedimentos e movimentações internas da supervisão. Paulo Sérgio teria chegado a alertá-lo sobre dados identificados pelos sistemas do Banco Central, permitindo que o Master se preparasse para questionamentos regulatórios. Os elementos não permitem afirmar que eram eles os “amigos” citados na conversa de outubro, mas demonstram que essa rota de informação existia e tinha capacidade de antecipar riscos para o banco.
Havia uma segunda frente, dentro da Polícia Federal. A sexta fase da Compliance Zero revelou o grupo “A Turma”, apontado pela corporação como núcleo de ações presenciais, intimidação, monitoramento de investigações e obtenção de informações sigilosas. O policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva aparece como operador do grupo; Henrique Vorcaro, pai do banqueiro, como financiador e demandante dos serviços. Relatórios policiais afirmam que cerca de R$ 400 mil mensais eram destinados a Marilson.
Segundo a apuração, a delegada Valéria Vieira Pereira da Silva acessou, sem atribuição funcional, procedimentos mantidos pela Superintendência da PF em São Paulo, embora fosse lotada em Minas Gerais. As informações chegariam a Marilson por intermédio de seu marido, o policial aposentado Francisco José Pereira da Silva — arranjo que, na leitura dos investigadores, reduzia o rastro direto entre a delegada e o destinatário final. A defesa do casal nega os acessos indevidos e sustenta que servidores não cadastrados em investigação sigilosa não conseguem consultá-la pelo sistema e-Pol.
Valéria não era o único ponto de acesso apontado pela investigação. A PF atribuiu ao agente da ativa Anderson Wander da Silva Lima, lotado no Rio de Janeiro, consultas indevidas a sistemas internos desde 2023 e o repasse de resultados a Marilson. A estrutura tinha ainda um braço digital, chamado “Os Meninos”, dedicado a invasões de dispositivos e monitoramento de alvos. Segundo a PF, não se tratava da suspeita isolada de um vazamento, mas de uma rede privada que reunia consultas a bases de dados, vigilância física e ações cibernéticas em benefício do grupo Vorcaro.
As duas rotas não devem ser fundidas. A primeira foi exposta pelo próprio Vorcaro ao falar dos “amigos” no Banco Central; a segunda foi reconstruída posteriormente pela PF. Também não há prova pública de que “A Turma” tenha fornecido o aviso que antecedeu a prisão de novembro de 2025. O que a cronologia estabelece é menos especulativo e mais grave: o banqueiro tinha fontes no regulador, uma estrutura privada acusada de acessar dados policiais e, diante da perspectiva de uma operação, procurou transformar informação antecipada em proteção no topo da PF, da PGR e do STF.
Andrei, de Lula ao Macallan
Andrei assumiu a Direção-Geral da PF em janeiro de 2023, depois de comandar a segurança de Lula na campanha presidencial de 2022 e de ter integrado a equipe eleitoral de Dilma Rousseff em 2010. Em outubro de 2024, afirmou que seu cargo estava à disposição do ministro da Justiça e do presidente da República, “e de ninguém mais”, ao mesmo tempo em que defendia a autonomia funcional da corporação.
Sob sua gestão, a PF passou por uma ampla troca de comando. A Investigação mostrou que foram substituídos os titulares das 13 diretorias, da Corregedoria e de 26 das 27 superintendências regionais. Quando a crise com Mendonça se tornou pública, os 27 superintendentes divulgaram uma nota de confiança no diretor-geral. A manifestação partiu, portanto, de uma estrutura regional quase inteiramente reorganizada durante a própria gestão que ela defendia.
A relação social mencionada por Vorcaro tem pelo menos um registro público. Em abril de 2024, Andrei, Moraes, Dias Toffoli, Paulo Gonet e Ricardo Lewandowski participaram, em Londres, de um fórum patrocinado pelo Master. O banco também bancou despesas de hospedagem, alimentação e transporte de Andrei, segundo resposta da PF obtida pela Lei de Acesso à Informação. A corporação afirmou que ele não recebeu diária, cachê, honorário ou ajuda de custo.
Durante a viagem, Andrei, Moraes e Vorcaro estiveram numa degustação privada de Macallan no George Club. A recepção para cerca de 40 pessoas custou US$ 640,8 mil. A presença no evento não prova favorecimento nem interferência em investigação. Documenta, contudo, que o banqueiro, o diretor da PF e o ministro a quem Vorcaro recorreria em 2025 já haviam compartilhado um ambiente privado pago pelo Master.
Em depoimento prestado em 27 de agosto de 2026 ao gabinete de Mendonça, Vorcaro afirmou que mantinha com Andrei uma relação “cordial”, embora não uma amizade. Disse ter encontrado o delegado em eventos de charuto, viagens, compromissos do banco e convites para a Fórmula 1. Acrescentou que o diretor-geral estaria entre as pessoas citadas numa eventual colaboração e que se sentia impedido de negociá-la com subordinados de alguém sobre quem pretendia falar.
Vorcaro alegou ainda que a PF não deu andamento às propostas anteriores por uma pressão “de cima para baixo”. A PGR respondeu que ele não apresentou fatos concretos nem elementos mínimos para sustentar as acusações; integrantes da cúpula policial veem o depoimento como estratégia para desorganizar a investigação. A interlocutores, Andrei afirmou que encontrou Vorcaro apenas uma vez e negou relação de proximidade. Até agora, as acusações do banqueiro não foram corroboradas por provas.
A guerra pelo material bruto
O embate entre Mendonça e a direção da PF cresceu na Operação Sem Desconto, que apura as fraudes contra aposentados do INSS e passou a alcançar Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. A corporação retirou Guilherme Figueiredo Silva da coordenação depois de o delegado pedir a quebra dos sigilos bancário e fiscal do filho do presidente. A direção classificou a mudança como burocrática, decorrente da transferência do caso para a Coordenação de Inquéritos nos Tribunais Superiores. Mendonça considerou insuficiente a justificativa e passou a controlar novas alterações na equipe.
O relator também determinou que todo o material bruto obtido nas quebras de sigilo fosse remetido a seu gabinete e que as providências policiais fossem juntadas imediatamente aos autos. Andrei interpretou a ordem como interferência na autonomia investigativa e pediu que a Advocacia-Geral da União a contestasse. Jorge Messias decidiu não recorrer.
O conflito produziu uma inversão reveladora. A PF resistia à entrega integral dos dados ao relator sob o argumento de autonomia; ao mesmo tempo, unidades da corporação passaram a registrar falas reservadas de Mendonça, avaliar suas decisões, examinar sua relação com Messias e especular sobre consequências políticas para uma indicação ao STF. Um dos dossiês chegou a tratar a “matriz religiosa comum” entre o ministro e o advogado-geral como elemento analítico.
Reportagem da Veja acrescentou outra suspeita: Lula teria recebido antecipadamente informações sobre frentes que envolviam Lulinha e seu chefe de gabinete, Marco Aurélio Santana. A mesma apuração registrou a desconfiança de Mendonça depois que o senador Jaques Wagner solicitou audiência no mesmo dia em que representações da PF contra ele chegaram ao gabinete — algumas, segundo o despacho do ministro, antes mesmo da distribuição formal. Esses episódios ainda não individualizam a origem dos vazamentos, mas explicam por que a disputa pelo fluxo de dados deixou de ser meramente administrativa.
A PF passou a produzir dossiês sobre o relator
A decisão de Mendonça enumera seis peças elaboradas entre 3 e 31 de agosto. Elas não se limitavam a auditar diligências. Reuniam avaliações sobre a conduta do relator, a atuação da AGU, possíveis alianças dentro do Supremo e falas atribuídas a reuniões presenciais. Uma delas reconhecia “confiança agregada baixa” na cadeia de hipóteses, mas dizia que o cenário autorizava “monitoramento e coleta dirigida”.
Na mesma decisão, Mendonça foi além da leitura das peças. Escreveu que o monitoramento e a “coleta dirigida” não recaíram só sobre ele. Nos parágrafos 22 e 24, afirmou que o alvo incluía o advogado-geral da União, Jorge Messias, e que essa coleta ocorria “ao menos há mais de um mês”. O relatório, segundo o ministro, trazia elementos “ainda não registrados em relatórios anteriores” e mantinha avaliações já feitas sobre a relação entre os dois.
É nesse ponto que aparece o delegado Wedson Cajé Lopes. Segundo o próprio dossiê, Mendonça convocou investigadores ao gabinete em 24 de agosto e entregou uma cópia física, ainda sem assinatura, da decisão que mandava identificar os interlocutores de Vorcaro. O texto afirma que Cajé era o único integrante da equipe com acesso ao arquivo eletrônico e que, “por segurança”, fez uma captura de tela e baixou a decisão.
A passagem prova que os autores do dossiê conheciam a existência do arquivo preservado por Cajé. Não prova que o delegado o entregou nem que participou da redação. O material pode ter circulado por iniciativa dele, ter sido obtido por superior ou colega autorizado, ter chegado por relato de outro participante ou ter sido acessado sem seu conhecimento. Cajé aparece uma única vez e sempre na terceira pessoa.
Cajé também está entre os sete signatários da IPJ-A nº 3298613/2026, a análise oficial que reconstruiu o celular de Vorcaro e identificou o contato atribuído a Moraes. Assinou ainda o ofício que entregou o trabalho a Mendonça como coordenador de Repressão à Corrupção. Ele aparece, portanto, nos dois lados da crise: como autor identificado do documento que expôs Moraes e como personagem citado no dossiê anônimo contra Mendonça. Essa sobreposição é uma pista sobre a circulação do material, não uma prova de que tenha escrito as peças apócrifas.
Há uma ironia anterior. Em 2017, quando Cajé investigava desvios na saúde do Maranhão na Operação Pegadores, o então governador Flávio Dino o acusou publicamente de inventar 400 funcionários fantasmas e usar um “dossiê falso”. O Blog do Luís Pablo registrou que, ao contrário do que Dino dizia, o delegado não havia sido afastado: o processo apenas fora transferido da primeira instância para o TRF-1. Nove anos depois, o nome de Cajé reaparece numa disputa sobre outro dossiê — desta vez produzido dentro da estrutura comandada por Andrei, indicado para a direção da PF pelo próprio Dino.
O problema é maior que esse arquivo. As peças reproduzem comentários atribuídos a Mendonça em encontros reservados sobre Moraes, Andrei, Gonet, ACM Neto, advogados e propostas de colaboração. Os próprios dossiês marcam parte dessas informações com “[R]”, código definido como relato de servidor presente ainda não reduzido a termo. Isso indica que os dossiês foram alimentados por relatos internos de servidores. Não há áudio, equipamento, perícia ou outro vestígio que permita atribuir essas informações a uma captação clandestina.
O conjunto ainda registra outro vazamento. Em 8 de agosto, a revista piauí publicou uma fotografia extraída do celular do senador Weverton Rocha que não integrava os autos. Segundo o dossiê, a imagem aparecera numa minuta de Informação de Polícia Judiciária e fora retirada antes da versão final, o que restringiria o universo de pessoas com acesso a um grupo “pequeno e determinável”. Os autores recomendaram identificar nominalmente quem consultou a minuta, mas ressalvaram que não havia prova contra servidor específico e que a origem poderia estar fora da PF.
Outra peça expôs a agente Letícia Magalhães Espósito ao examinar a concentração de acesso ao acervo da Sem Desconto e a possibilidade de vazamento. O próprio texto, porém, reconheceu não haver elemento suficiente para responsabilizá-la. O padrão se repete: nomes, falas e suspeitas foram reunidos em documentos internos sem que a autoria dos analistas ou a origem de cada informação fossem identificadas.
Do papel da PF ao gabinete de Moraes
Em 31 de agosto, Moraes foi ao gabinete de Mendonça depois de descobrir a diligência sigilosa que buscava identificar o destinatário das mensagens de Vorcaro. Segundo a coluna de Andreza Matais, no Metrópoles, Mendonça perguntou como o colega sabia da apuração. Moraes teria respondido: “Eu tenho minhas fontes. Fui ministro da Justiça”.
No dia seguinte, Moraes requisitou a Andrei todas as análises de inteligência que mencionassem ministros do Supremo. A ordem foi expedida no Inquérito 4.781 e não delimitou operação, fato ou período. Às 18h45, o diretor-geral encaminhou o conjunto por meio do Ofício nº 40/2026/GAB/PF. Dois dias depois, Moraes reproduziu extensos trechos, afirmou haver “fortes indícios” de abuso de autoridade, improbidade e crime de responsabilidade e pediu a investigação de Mendonça dentro do próprio Inquérito das Fake News.
As peças não têm assinatura, data de elaboração individualizada nem autoria declarada. Duas se classificam como documentos de trabalho “sem valor probatório”. A Investigação mostrou que Moraes omitiu 28 graduações de confiança, seis advertências sobre a ausência de valor probatório, hipóteses alternativas e trechos que contrariavam a acusação.
A trilha documental também foi interrompida antes da divulgação. A versão pública não é o PDF nativo eventualmente produzido na PF: foi formada pela digitalização de folhas impressas numa multifuncional Hewlett-Packard, às 20h45 de 3 de setembro, mais de uma hora depois de a decisão de Moraes estar assinada. Converter o papel em um novo PDF elimina os metadados de autoria, criação e revisão do arquivo eletrônico anterior. Esse pode ter sido o objetivo do escaneamento, mas a intenção não está provada; o efeito técnico, porém, foi esconder a origem digital das quatro peças reunidas no arquivo público — parte do conjunto de seis documentos enumerado posteriormente por Mendonça.
Os metadados deixaram o identificador “Jefferson.Silva”, coincidente com o nome de um assessor de Moraes citado na Vaza Toga em uma discussão sobre como alterar a origem formal de relatórios do TSE usados pelo gabinete. O dado liga o perfil à produção da cópia pública, não à redação do conteúdo. A identidade dos autores continua desconhecida.
A “PF confiável” e a Corregedoria
A ideia de um circuito de policiais “confiáveis” para determinados gabinetes já havia aparecido em 2022. Na Vaza Toga 4, Letícia Sallorenzo perguntou a Eduardo Tagliaferro se o celular do empresário Meyer Nigri estava com uma “PF confiável” e sugeriu acesso ao aparelho. Em outro episódio, A Investigação revelou que um relatório atribuído ao delegado Fábio Alvarez Shor e usado por Moraes contra empresários de direita trazia data anterior à operação, embora os metadados apontassem que o PDF fora criado seis dias depois das buscas. Hoje Shor é assessor no gabinete de Moraes.
Esses casos não provam que os seis dossiês de 2026 tenham sido produzidos pela mesma equipe. Mostram a recorrência de um problema: informações e relatórios policiais circulando por canais cuja origem, cronologia ou cadeia de solicitação só se tornam visíveis depois que o material já produziu efeitos judiciais.
Mendonça mandou agora a própria Corregedoria-Geral da PF investigar Andrei, Almada, os autores, os mandantes, as datas e a existência de outros documentos com a mesma finalidade. A solução contém uma dificuldade interna. Disney Rosseti, que dirigiu a estrutura policial do TSE sob Moraes e participou de episódios anteriores revelados pela Vaza Toga e pelo Radiolão, atua hoje na Corregedoria. Ele não chefia o órgão e não há indicação de que integrará a apuração, mas sua presença reforça a necessidade de distribuição transparente e de identificação nominal dos responsáveis pelo caso.
O que a decisão resolve
Mendonça atribuiu a Andrei responsabilidade pela posição hierárquica, pelo conhecimento público da existência dos dossiês e pelo ofício que os autenticou e encaminhou a Moraes. Em relação a Almada, apontou a responsabilidade técnica da Diretoria de Inteligência sobre a cadeia indicada nos documentos. A decisão não apresenta, porém, ordem assinada por nenhum dos dois determinando a elaboração das peças, nem prova de que tenham redigido ou revisado seu conteúdo.
Essa lacuna não torna os documentos regulares. Explica por que a investigação determinada à Corregedoria precisa reconstruir a cadeia antes de converter responsabilidade institucional em responsabilidade individual. Será necessário identificar quem pediu cada relatório, quem participou das reuniões, quem repassou os relatos, quem escreveu, quem revisou, quem guardou os arquivos nativos e quem decidiu remetê-los a Moraes.
O presidente do STF, Edson Fachin, já havia retirado do Inquérito das Fake News a acusação formulada por Moraes e aberto procedimento próprio para ouvir os envolvidos. Agora, a Segunda Turma analisa o afastamento. Formou-se maioria para manter a medida, mas Gilmar Mendes pediu vista e interrompeu a conclusão do julgamento. A liminar de Mendonça não foi revogada.
A Advocacia-Geral da União anunciou que recorrerá da decisão e deverá sustentar que o afastamento do diretor-geral da PF invade uma competência da Presidência da República. William Murad, diretor-executivo e número dois da corporação, declarou publicamente confiança em Andrei. A reportagem procurou Andrei Rodrigues, Leandro Almada, a Polícia Federal e Alexandre de Moraes.
O afastamento de Andrei não encerra a guerra dentro da PF. Pela primeira vez, desloca o centro da apuração: em vez de discutir apenas se Mendonça excedeu seus poderes ao cobrar a polícia, a corporação terá de explicar como informações sobre o relator foram coletadas, transformadas em dossiês sem autoria, autenticadas pela Direção-Geral, entregues a Moraes e convertidas em acusação no inquérito que o próprio ministro controla.
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