A tentativa de um delegado da Polícia Federal de esvaziar o Pixuleco antes da passagem de Lula por Natal não foi um episódio isolado. Em 24 de agosto, A Investigação revelou que o agente era Rolff Keven Santos Ferreira, coordenador de Doutrina e Capacitação da Diretoria de Proteção à Pessoa (DPP) e integrante de uma comitiva oficial de Janja nas Olimpíadas de Paris. A abordagem expôs em público o funcionamento de um dispositivo que, até então, circulava apenas nos bastidores da corporação.
Fontes da PF ouvidas por A Investigação revelaram a existência da chamada “PJ Móvel” — Polícia Judiciária Móvel. Durante viagens presidenciais, uma viatura acompanha o escalão avançado com um delegado e um escrivão preparados para identificar manifestantes, qualificá-los e abrir procedimentos no próprio local do protesto. O arranjo, que não aparece como unidade autônoma no organograma público da corporação, permite que a capacidade de investigação criminal seja levada até quem insulta ou constrange Lula durante seus deslocamentos.
A análise de vídeos, documentos policiais, dados obtidos pela Lei de Acesso à Informação, decisões do Ministério Público Federal e episódios registrados em diferentes estados e no Distrito Federal mostra um fenômeno mais amplo: no terceiro governo Lula, parte da estrutura mobilizada para a segurança presidencial passou a se ocupar também da honra do presidente. Agentes foram à casa de cidadãos, anotaram placas, conduziram pessoas a superintendências, determinaram a retirada de manifestações e ameaçaram apreender faixas e bonecos. Até o nome de uma rede de wi-fi e o compartilhamento de um meme provocaram apurações.
Os casos não são juridicamente idênticos. Alguns envolvem apenas insultos e caricaturas; outros incluem suspeitas autônomas, como direção perigosa ou injúria racial. O padrão está na incorporação da crítica política à rotina da segurança presidencial. Em vários episódios, as investigações terminaram arquivadas ou sem indiciamento, mas o efeito intimidatório já havia ocorrido: identificação, visita domiciliar, condução, interrogatório ou abertura de procedimento.
Esse aparato começou a ser formado ainda na campanha de 2022. Fontes da PF identificam como GISP — Grupo de Inteligência de Segurança de Presidenciáveis — o núcleo que produzia informações sobre agendas, deslocamentos e manifestações. Depois da posse, a antiga Coordenação de Proteção à Pessoa foi elevada a diretoria pelo decreto que criou a DPP, em outubro de 2023. Alexsander Castro de Oliveira, integrante da segurança eleitoral de Lula e chefe da segurança imediata do presidente nos primeiros meses do governo, assumiu o comando da nova estrutura em janeiro de 2024.
Relatos internos descrevem uma expansão acelerada da DPP, com o recebimento de policiais recém-formados, aumento das viagens e interesse na aquisição de equipamentos de inteligência e varredura. Também houve uma proposta, posteriormente abandonada, para transferir à diretoria inquéritos do STF que estavam concentrados na Diretoria de Inteligência Policial. A proteção direta do presidente continua formalmente sob coordenação do Gabinete de Segurança Institucional; a PF atua no perímetro, na antecipação de riscos e na resposta policial.
O policiamento da honra também cresceu fora das viagens. Dados obtidos pelo SBT News mostram que o Ministério da Justiça enviou à PF 63 requisições para apurar possíveis ofensas a Lula até o primeiro semestre de 2026, ante 16 durante o governo Jair Bolsonaro. As requisições não equivalem a inquéritos: em outro recorte, a corporação informou ter aberto 20 investigações entre 2023 e 2025, contra dez nos quatro anos anteriores. A diferença não permite atribuir todos os casos à PJ Móvel, mas revela que a defesa penal da honra presidencial se tornou uma atividade recorrente do Estado.
É nesse sentido que esta reportagem emprega a expressão “guarda pretoriana”. Não se trata de atribuir o comportamento a toda a Polícia Federal. Pelo contrário, há muitos bons profissionais na corporação. Mas a chamada “PF confiável tem pervertido os ideais desta instituição para atender os interesses do governante da vez. Descrevemos, portanto, uma estrura próxima a Lula, formada de policiais de sua confiança e utilizada para reagir a críticas políticas como se fossem incidentes de segurança.
A PF nega qualquer orientação para reprimir opositores. Em resposta enviada à Câmara em outubro de 2025, o diretor-geral Andrei Rodrigues afirmou não existir determinação do Ministério da Justiça relacionada à repressão de manifestações políticas críticas. A corporação sustenta que as abordagens preventivas integram a proteção de autoridades e mantém seus protocolos operacionais sob sigilo. A obrigação de proteger Lula não está em discussão. O que os casos expõem é a conversão de insultos, memes, caricaturas e palavras de ordem em matéria de segurança presidencial sem demonstração de ameaça física.
A Investigação enviou um pedido de informações para a Polícia Federal, até o momento não obteve resposta. O espaço segue aberto para manifestações.
O modus operandi: a PJ Móvel
A PJ Móvel não aparece como unidade autônoma no organograma público da PF. Trata-se de um arranjo operacional acionado durante viagens presidenciais. Segundo fontes da corporação ouvidas por A Investigação, uma viatura acompanha o chamado escalão avançado com delegado e escrivão preparados para agir. Quando alguém chama Lula de “ladrão” ou profere ofensa equivalente, a dupla pode identificar o autor, qualificá-lo, colher informações e instaurar o procedimento ainda na rua.
O escalão avançado reúne as equipes que chegam antes ou acompanham o presidente no destino. Dele participam militares, policiais da DPP e servidores de inteligência e operações responsáveis por varreduras e identificação de riscos. Nesse ambiente, a PJ Móvel funciona como o braço de polícia judiciária da segurança: não espera que a manifestação gere uma notícia-crime posterior. Leva a capacidade de abrir o caso até o manifestante.
O roteiro observado nas gravações corresponde à descrição das fontes. O agente se identifica como delegado; anuncia a possibilidade de crime contra a honra; pede que a manifestação cesse; e apresenta a consequência — apreensão, condução ou registro imediato — caso o cidadão se recuse. Foi o que ocorreu em Natal e em Presidente Prudente, com agentes diferentes e a mesma progressão verbal.
As fontes apontam Pedro Magalhães Roncisvalle como o responsável por coordenar essas equipes móveis. A identificação institucional confere com o cadastro oficial da PF: Roncisvalle é o coordenador-geral de Segurança Presidencial e Autoridades Federais da DPP. Seu currículo registra que ele foi diretor de Segurança Imediata do Presidente da República entre fevereiro e junho de 2023 e assumiu a coordenação-geral em janeiro de 2024. Acima dele está Alexsander Castro, diretor da DPP.
Fontes descrevem ainda uma expansão acelerada da DPP. A diretoria recebeu grande quantidade de servidores recém-formados na Academia Nacional de Polícia, orçamento elevado para viagens e interesse na aquisição de equipamentos de inteligência e varredura. Houve resistência de setores que entendiam que essas atribuições pertenciam à Diretoria de Inteligência Policial. Também circulou internamente a proposta de transferir para a DPP inquéritos do STF então concentrados na DIP; a mudança, segundo as fontes, acabou não sendo executada.
O crescimento não é neutro. Uma coordenação antes dedicada a missões delimitadas tornou-se diretoria com acesso direto às agendas presidenciais, capacidade de inteligência e polícia judiciária embarcada. A PJ Móvel completa esse desenho: a mesma equipe que define o perímetro de segurança passa a decidir, no calor do protesto, quando uma crítica deve entrar no sistema penal.
O mapa das abordagens contra críticos
Os episódios abaixo foram organizados em ordem cronológica reversa, começando pela tentativa de recolher o Pixuleco em Natal. A lista reúne abordagens presenciais, conduções, identificação de cidadãos e investigações iniciadas por manifestações políticas. Quando as fontes públicas não demonstram participação da PF, essa limitação é registrada.
Os casos não são juridicamente idênticos. Alguns envolvem insulto político; outros incluem suspeita de direção perigosa, ameaça ou injúria racial. Misturá-los esconderia tanto os excessos policiais quanto delitos autônomos eventualmente praticados por manifestantes. O padrão está na reação institucional ao conteúdo contra Lula, não na afirmação de que todo abordado era inocente de qualquer conduta.
Em quase todos os episódios de campo, repete-se a sequência descrita pelas fontes: detecção da crítica, identificação do autor e apresentação de uma consequência policial imediata. Os casos arquivados depois pelo MPF são especialmente reveladores porque separam o efeito da diligência de seu resultado judicial. A apuração termina; o constrangimento já ocorreu.
O Pixuleco que a PF tentou esvaziar — 20 de agosto de 2026 | Natal (RN)
Um delegado mostrou a carteira funcional e pediu a retirada do boneco de Lula vestido como presidiário. Afirmou que a peça poderia configurar crime contra a honra e ameaçou apreendê-la se os manifestantes não a esvaziassem. O deputado federal General Girão pediu o mandado e recusou a ordem. O policial se afastou sem recolher o objeto. A Investigação identificou o delegado como Rolff Keven Santos Ferreira, bacharel em Direito pela UnB, aprovado no concurso de 2021 da PF, com trajetória entre o Rio Grande do Sul e Brasília e integrante da DPP e das equipes móveis de viagens presidenciais. Ferreira já havia acompanhado, em 2024, a comitiva oficial da primeira-dama Rosângela da Silva nas Olimpíadas de Paris.
A faixa de “LADRÃO” na janela — 26 de abril de 2026 | Presidente Prudente (SP)
Policiais federais foram a um apartamento por causa de uma faixa com a palavra “LADRÃO” pendurada na janela antes de uma visita de Lula. O morador disse que o cartaz não mencionava o presidente. Um agente respondeu que participantes do evento poderiam fazer a associação, pediu a retirada e avisou que superiores voltariam “com mais rigor”. A PF disse ter realizado diligências iniciais e orientação preventiva. A 7ª Câmara de Coordenação e Revisão do MPF arquivou uma notícia de abuso de autoridade e considerou a abordagem preventiva e orientativa.
A rede de wi-fi “Lula Ladrão” — agosto de 2025 | Porto Velho (RO)
Durante reunião sobre a segurança presidencial na 17ª Brigada de Infantaria de Selva, a equipe detectou uma rede de wi-fi chamada “Lula Ladrão”. O sinal foi associado ao telefone de um policial militar, convidado a deixar o local porque o nome possuía, segundo documento da PF, “conotação ofensiva e potencialmente atentatória à imagem” do presidente. O episódio virou apuração apesar de não envolver aproximação, objeto perigoso ou ameaça.
O manifestante agredido por apoiadores — 25 de julho de 2025 | Osasco (SP)
Um homem interrompeu discurso de Lula e lembrou que o presidente havia sido preso. Apoiadores do governo o agrediram e ele foi retirado do evento. As fontes públicas não demonstram que agentes da PF participaram da agressão. O caso integra o ambiente de hostilidade em torno das agendas presidenciais, mas não pode ser apresentado como ação policial sem prova adicional.
O motorista levado pela PF — 14 de abril de 2025 | Campos dos Goytacazes (RJ)
Igor de Oliveira Rodrigues dirigiu ao lado do comboio presidencial e gritou “ladrão” e “vagabundo”. Foi detido e liberado depois do registro de injúria e direção perigosa. O MPF propôs transação penal de 60 horas de serviço comunitário. A solução evitava sentença condenatória e não exigia pedido de desculpas. Andrei afirmou à Câmara que o termo circunstanciado envolveu tanto a ofensa agravada quanto a condução perigosa.
A mulher do megafone — 8 de abril de 2025 | São Paulo (SP)
Uma mulher usou um megafone dentro de um Audi para chamar Lula de ladrão perto da residência presidencial no Alto de Pinheiros. Agentes anotaram a placa e foram à casa dela. Em junho, Ricardo Lewandowski requisitou a abertura de inquérito. A mulher confirmou a frase, disse ter agido por impulso e afirmou que não imaginava que o episódio lhe causaria problema.
O grito que o motorista negou — 2025 | Contagem (MG)
A segurança afirmou ter ouvido um homem chamar Lula de ladrão ao colocar a cabeça para fora de um veículo perto do comboio. Ele foi levado à Superintendência da PF em Minas Gerais e negou a ofensa. Disse ter gritado apenas para que o trânsito voltasse a andar porque estava com pressa para concluir uma mudança. Foi ouvido e liberado sem indiciamento.
Os cartazes e a injúria racial — dezembro de 2024 | São Paulo (SP)
Uma mulher apareceu perto da casa de Lula com cartazes contra o presidente e Alexandre de Moraes. Durante a abordagem, teria dirigido uma ofensa racial a um agente da PF e acabou denunciada pelo MPF. A crítica política dos cartazes e a injúria racial atribuída à manifestante são fatos distintos. O caso não pode ser usado para criminalizar o conteúdo dos cartazes nem para minimizar a acusação contra a autora.
O protesto do MBL na Unifesp — 5 de julho de 2024 | Osasco (SP)
Seis integrantes do MBL, entre eles Amanda Vettorazzo, gritaram “Lula, ladrão, seu lugar é na prisão” numa agenda presidencial. Antes do evento, agentes da segurança tentaram dissuadir manifestações e advertiram sobre possíveis crimes contra a honra. A investigação foi arquivada em outubro de 2025. O MPF invocou a proporcionalidade diante da polarização política e tratou o Direito Penal como ultima ratio.
O meme de Zé Pilintra — julho de 2024 a dezembro de 2025 | Mato Grosso do Sul e Distrito Federal
Uma montagem mostrava Lula caracterizado como Zé Pilintra e o chamava de “Zé Pilantra”. A denúncia começou no Disque 100 como possível intolerância religiosa, passou pelo Ministério Público e chegou ao Ministério da Justiça, que requisitou investigação. A PF mobilizou equipes de dois estados e ouviu um pintor sul-mato-grossense que havia compartilhado a imagem. O MPF arquivou o inquérito, reconheceu o cunho político e afirmou que o presidente deve suportar maior escrutínio.
A lei protege a honra, a Constituição protege a crítica
O Código Penal define calúnia, difamação e injúria nos artigos 138 a 140. O artigo 141 aumenta em um terço a pena quando a vítima é o presidente da República. O parágrafo único do artigo 145 estabelece que, nessa hipótese, a persecução depende de requisição do ministro da Justiça. O artigo 141, portanto, não autoriza por si só a abertura de inquérito nem funciona como ordem genérica para remover manifestações.
A requisição ministerial explica a participação de Flávio Dino e Ricardo Lewandowski em vários casos. O Ministério da Justiça afirma avaliar conveniência e oportunidade antes de acionar a PF. O volume — 63 pedidos até junho de 2026 — mostra que a pasta usou essa prerrogativa de forma recorrente. O que deveria ser uma avaliação excepcional tornou-se uma linha contínua de reação à crítica presidencial.
A ausência de mandado judicial não torna toda abordagem automaticamente ilegal. Policiais podem agir diante de flagrante, risco concreto ou necessidade de identificação. Nos casos examinados, porém, a controvérsia está na própria existência do crime. Faixas, caricaturas, memes e frases ásperas contra autoridades ocupam a área de proteção mais ampla do debate político. O fato de Lula ter recuperado seus direitos políticos após a anulação das condenações da Lava Jato não apaga que ele foi preso e condenado, nem impede adversários de mencionar esses fatos históricos.
Os arquivamentos do protesto na Unifesp, do meme de Zé Pilintra e da fala de Pablo Marçal convergem num ponto: autoridades públicas estão submetidas a escrutínio mais duro, e o Direito Penal deve ser a última resposta. Quando a PF chega antes dessa avaliação, o procedimento produz efeito próprio. O cidadão contrata advogado, presta depoimento e passa meses sem saber se o protesto se converterá em processo.
É nesse intervalo que a polícia da honra funciona. Ela não precisa obter condenações em série. Basta tornar plausível que chamar o presidente de ladrão perto de uma agenda oficial levará um delegado à janela, ao veículo ou ao boneco. O processo deixa de ser apenas meio de apuração e passa a integrar o mecanismo de dissuasão.
A cúpula, o STF e a proteção da própria tropa
O policiamento da honra se desenvolveu sob Andrei Augusto Passos Rodrigues, nomeado diretor-geral da PF em 2 de janeiro de 2023. Andrei havia comandado a segurança de Lula na campanha de 2022 e participado da equipe eleitoral de Dilma Rousseff em 2010. Em outubro de 2024, declarou que seu cargo estava à disposição do ministro da Justiça e do presidente Lula, “e de ninguém mais”. Ele sustenta que a relação decorre da hierarquia constitucional e que a PF atua com autonomia.
Andrei foi citado diretamente por Daniel Vorcaro em um depoimento prestado na última semana, em 27 de agosto, ao gabinete do ministro André Mendonça. O ex-controlador do Banco Master afirmou que o diretor-geral da PF seria um dos nomes incluídos caso conseguisse retomar sua proposta de colaboração premiada. Vorcaro disse que Andrei participou de eventos ao seu lado, viajou com ele e com a então namorada, recebeu ingressos e manteve uma relação que incluía encontros de lazer, eventos de charuto, atividades do banco e convites para a Fórmula 1.
Questionado por um representante do Ministério Público sobre se essa relação integrava os fatos que pretendia narrar na colaboração, Vorcaro respondeu afirmativamente. Disse que se aproximou de pessoas do núcleo do atual governo para se proteger dos ataques sofridos pelo banco e alegou que, durante esses relacionamentos, foram ultrapassadas “linhas de moralidade” e “linhas de ilicitude”. Ao ser perguntado especificamente se Andrei seria citado numa eventual delação, confirmou que sim. Vorcaro também afirmou que se sentia impedido de negociar com a PF porque os delegados responsáveis por receber e corroborar sua colaboração estavam subordinados a uma das pessoas que seriam mencionadas. Relatou pedidos de reuniões não atendidos e atribuiu o fracasso das tentativas anteriores a uma pressão “de cima para baixo”.
Uma fonte, que acompanhou a formação da estrutura de segurança do novo governo, relata que a proximidade entre Andrei e Alexsander Castro não eliminou uma disputa interna por protagonismo. “Os cabeças da segurança eram Andrei e, abaixo dele, Alexsander Castro. Eles tiveram discussões por vaidade, porque Castro ficou mais colado à Janja. E Janja também gosta muito do Andrei”, afirmou sob reserva.
A preferência pessoal da primeira-dama pela equipe policial tem confirmação pública. Em julho de 2023, Janja resistiu à transferência de sua proteção exclusiva para o GSI. No mês seguinte, a Folha de S.Paulo mostrou que Lula e Janja continuavam acompanhados por policiais da campanha mesmo sem regra específica. A DPP formalizou depois um arranjo que já se organizava em torno de confiança pessoal, além da hierarquia funcional.
Sob a gestão de Andrei Rodrigues, a Polícia Federal passou pela maior troca recente de comandos. O diretor-geral substituiu titulares nas 13 diretorias, na Corregedoria e em 26 das 27 superintendências regionais — a única que não mudou foi a do Rio Grande do Sul, estado de origem de Andrei. Nos três primeiros meses de governo, foram 21 trocas de superintendentes. Depois, outras 18 substituições ocorreram nesses postos. Para comparação: Maurício Valeixo, diretor-geral no governo Bolsonaro, havia mudado 12 superintendentes nos três primeiros meses e mais três até deixar o cargo, em abril de 2020. Mesmo considerando apenas o período inicial, a gestão Lula-Andrei promoveu mais trocas de chefia do que a de Bolsonaro-Valeixo.
O contraste com Alexandre Ramagem é direto. Em abril de 2020, Alexandre de Moraes suspendeu sua nomeação para a direção-geral da PF, citando proximidade de Ramagem com a família presidencial e o risco de desvio de finalidade. No governo seguinte, um delegado que havia chefiado a segurança eleitoral de Lula assumiu a PF, substituiu mais comandos que o antecessor e colocou outros nomes ligados à campanha e à transição em postos estratégicos. Não houve intervenção semelhante do STF.
Em junho de 2026, um dia após a Polícia Federal deflagrar a operação que atingiu o senador Jaques Wagner (PT-BA), então líder do governo no Senado, o Ministério da Justiça enviou ofícios determinando o retorno de dezenas de policiais federais que estavam cedidos a outros órgãos, inclusive do Judiciário. O alvo mais comentado nos bastidores era o delegado Thiago Marcantonio, que atua no gabinete do ministro André Mendonça e auxilia nas investigações do Banco Master e do INSS. A medida foi amplamente interpretada como tentativa de afetar a equipe que assessorava o ministro nesses casos. Embora o gabinete de Mendonça tenha acabado preservado, o episódio reforçou a percepção de que a cúpula da PF e o Planalto reagiam com movimentações institucionais sempre que as apurações se aproximavam de aliados do presidente.
Quando Andrei entrou em choque com André Mendonça nos inquéritos que mencionam Lulinha, os 27 superintendentes divulgaram uma defesa pública da direção-geral. A nota afirmava confiança na chefia e dizia que a atividade investigativa não se submete a interesses políticos. O gesto teve uma circularidade incômoda: chefes regionais de uma estrutura em que 26 das 27 superintendências haviam sido alteradas por Andrei vieram a público defender o responsável pela própria configuração do comando.
No caso Lulinha, a PF disse ao STF que a retirada do delegado Guilherme Figueiredo Silva da coordenação das investigações sobre o INSS ocorreu por uma mudança “burocrática”. A corporação transferiu a apuração da Divisão de Repressão a Crimes Previdenciários para a Coordenação de Inquéritos em Tribunais Superiores e alegou busca de eficiência e continuidade. Mendonça considerou a substituição sem justificativa suficiente e passou a cobrar controle sobre novas mudanças na equipe.
O atrito aumentou quando a PF defendeu livre distribuição de um novo inquérito sobre suspeitas de tráfico de influência e corrupção envolvendo Fábio Luís Lula da Silva. A PGR concordou, Moraes determinou o sorteio e o sistema escolheu o próprio Mendonça. O ministro exigiu os dados brutos das quebras de sigilo e a juntada imediata dos atos; a PF invocou autonomia investigativa e buscou a AGU para contestá-lo. A defesa de Lulinha nega irregularidades, e a abertura de inquérito não significa culpa. O contraste permanece: para memes e faixas, a máquina se move rapidamente; quando a investigação alcança o filho do presidente, a cúpula discute relatoria, equipe e limites do controle judicial.
O vínculo com setores do STF aparece também nas revelações de A Investigação sobre as conversas entre Eduardo Tagliaferro e Letícia Sallorenzo, a Vaza Toga 4. Em agosto de 2022, Sallorenzo perguntou se o telefone apreendido do empresário Meyer Nigri estava com uma “PF confiável” e sugeriu acesso ao aparelho. O diálogo não prova uma rede formal subordinada a Moraes, mas expõe a linguagem de um circuito que separava policiais considerados confiáveis dos demais.
Outra reportagem de A Investigação mostrou que o relatório assinado pelo delegado Fábio Alvarez Shor e usado nas buscas contra empresários de direita trazia data de 19 de agosto de 2022, embora os metadados apontassem criação do PDF em 29 de agosto, seis dias depois da operação. Peritos contratados pela reportagem constataram a “retrodatação” e também identificaram assinaturas graficamente idênticas inseridas como imagens e ausência de certificação ICP-Brasil. O gabinete de Moraes respondeu que os relatórios foram oficiais, regulares, juntados aos inquéritos e enviados à PF com ciência da PGR.
Um dos encontros públicos que ajudam a contextualizar a relação mencionada por Vorcaro ocorreu em abril de 2024. Andrei, Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Paulo Gonet e Ricardo Lewandowski participaram de uma degustação privada de Macallan em Londres paga pelo então controlador do Banco Master. Documentos revelados pelo Poder360 mostram que a recepção para cerca de 40 convidados custou US$ 640,8 mil. A presença no evento não prova favorecimento, mas confirma a convivência social entre o banqueiro, o diretor-geral da PF e integrantes da cúpula judicial que mais tarde participariam de investigações e decisões relacionadas ao Master.
Na frente internacional, A Investigação revelou que Marcelo Ivo de Carvalho, oficial de ligação da PF no ICE em Miami, atuou no episódio que levou à detenção migratória de Ramagem em abril de 2026. O Departamento de Estado anunciou a expulsão de um agente brasileiro por tentar manipular o sistema de imigração e contornar canais formais numa ação de perseguição política. Andrei negou a expulsão, disse ter determinado o retorno do delegado e reconheceu a suspensão de sua credencial. A primeira reação da direção foi defender a própria versão e o subordinado.
O posto ocupado por Marcelo Ivo não é uma adidância policial. É um oficialato de ligação instalado dentro das dependências do ICE em Miami, não numa embaixada, e destinado à troca de informações e à cooperação em extradição e imigração. A função existe desde ao menos 2019. Ela abre canais com autoridades americanas, mas não entrega ao brasileiro acesso autônomo aos sistemas do ICE: esse acesso depende da agência anfitriã. A distinção torna mais grave — e não menos — qualquer tentativa de converter cooperação em operação informal fora dos canais previstos.
O antecessor de Marcelo Ivo no oficialato, Fabrício Scarpelli, ouvido por A Investigação, afirmou que, no início do governo Lula, recebeu ordens informais para realizar operações no exterior e se recusou sob o argumento de que o posto servia à troca de informações; uma ação operacional, sustentou, teria de chegar por pedido oficial.
Segundo esse ex-oficial, a recusa desencadeou pressão interna, crises de ansiedade e problemas de saúde. Ele pediu licença sem remuneração, o que foi negado, e acabou submetido a processo disciplinar e exonerado por abandono do cargo. A Portaria de Pessoal nº 49, de 20 de março de 2026 determinou o arquivamento do PAD e já o identificava como “ex-Agente de Polícia Federal”. O arquivamento não reverteu a demissão.
Há ainda Rodrigo de Melo Teixeira, promovido por Andrei ao posto de diretor de Polícia Administrativa — o terceiro cargo na hierarquia da PF — no início do governo Lula. Teixeira foi preso em setembro de 2025 na Operação Rejeito, sob suspeita de integrar uma organização criminosa ligada a mineração ilegal, corrupção regulatória e lavagem de dinheiro. A defesa afirmou que a prisão não apontava ato concreto de obstrução e atribuiu as acusações a desavenças internas. Dias Toffoli o soltou em dezembro, impondo tornozeleira e outras medidas cautelares.
Em O Negócio da Lama, A Investigação mostrou que Teixeira comandava a PF em Minas Gerais quando a barragem de Brumadinho se rompeu e a primeira fase do inquérito foi conduzida. Segundo a própria PF, ele e Gilberto Horta negociaram por meio da Gmais Ambiental, registrada em nome da esposa do delegado, direitos minerários da Topázio Imperial numa operação que poderia render cerca de R$ 27 milhões sem investimento. Dados telemáticos indicaram que o grupo tratava sua chegada ao número três da PF como ativo para influenciar a corporação.
Os casos são diferentes e não formam, por simples justaposição, prova de um comando único. Juntos, revelam a cultura que se consolidou no topo: ampla liberdade para reorganizar a corporação, relações de confiança com o Planalto e Moraes, defesa coletiva da chefia e reação corporativa quando investigações atingem integrantes do círculo. É nesse ambiente que a PJ Móvel e o policiamento da honra de Lula ganharam espaço.
César e a sua guarda pretoriana
Lula deve receber segurança presidencial. A função impõe exposição, deslocamentos frequentes e riscos que obrigam o Estado a antecipar ameaças. Essa proteção existe por causa do cargo, não para impedir que o ocupante seja chamado de ladrão, representado como presidiário ou lembrado de que já esteve na prisão.
A linha é objetiva. Segurança identifica armas, aproximações suspeitas, planos de violência e riscos ao trajeto. Polícia da honra identifica opiniões, caricaturas, palavras e nomes de redes de wi-fi. Quando a mesma equipe faz as duas coisas, o insulto passa a ser tratado como ameaça e o poder armado do Estado entra numa disputa política em favor de um dos lados.
A PF precisa explicar quantas PJs Móveis existem, quem autorizou o modelo, quais atos o regulamentam, quantas pessoas foram qualificadas durante agendas de Lula e quantos procedimentos terminaram arquivados. Também deve informar que equipamentos de inteligência foram incorporados à DPP, quanto a diretoria gasta em viagens e diárias e quais critérios separam risco físico de crítica. O sigilo operacional não pode encobrir uma política de policiamento do discurso.
A guarda pretoriana romana ajuda a compreender o risco da proximidade entre força e governante. Consolidada por Augusto como tropa de elite encarregada de proteger o imperador e manter a ordem em Roma, ela acumulou poder para interferir na sucessão. Participou do assassinato de Calígula, matou Pertinax em 193 e, depois, colocou o trono em leilão. Dídio Juliano venceu ao prometer a maior recompensa aos soldados.
Circula como lema atribuído à guarda, embora não haja fonte antiga segura para tratá-lo como fórmula histórica oficial: “A guarda pretoriana cuidará de César enquanto César cuidar dos interesses de Roma; quando César não mais cuidar de Roma, haverá outro César.” A frase pode ser apócrifa. A trajetória da corporação romana — capaz de proteger, aclamar, depor e assassinar imperadores — não é.
A analogia não está na escala nem na violência da Roma imperial. Está na degradação da lealdade institucional. Quando policiais são promovidos pela confiança do governante, acompanham suas viagens, decidem quais críticas devem ser enquadradas e defendem coletivamente a chefia que os nomeou, a guarda começa a confundir César com Roma. O problema deixa de ser apenas quem ela protege. Passa a ser o poder que adquire para decidir quem pode desafiar César — e, um dia, quem será o próprio César.
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