O relatório de análise da Polícia Federal (IPJ-A nº 3298613/2026), produzido a partir da extração forense do iPhone de Daniel Vorcaro e liberado nesta terça-feira, 1º de setembro de 2026, por decisão do ministro André Mendonça, contém uma lista de sete nomes anotada pelo próprio banqueiro em 30 de outubro de 2025 — seis minutos depois de escrever que era preciso “reforçar” com autoridades da cúpula da República para que “ninguém de baixo” atrapalhasse seus planos. A lista completa, extraída dos metadados forenses do aparelho, traz: Dennis Cali, Wilker Goulart, Guilherme Alves, Janaína Palazzo, Daniel de Brito, Ubiratan Cazetta e Gabriel Pimenta Alves.
Cinco desses nomes já haviam sido publicados em reportagem da CNN Brasil. A análise integral do documento, cruzada coberturas anteriores sobre a Operação Compliance Zero, identifica os sete nomes da lista e revela que dois deles ocupam posições que tornam o desdém do banqueiro ainda mais grave: Ubiratan Cazetta é chefe de gabinete do procurador-geral da República (PGR), Paulo Gonet — a mesma autoridade a quem Vorcaro pedia proteção — e Gabriel Pimenta Alves, procurador que assinou o pedido de prisão preventiva do próprio banqueiro.
A soma dos sete nomes desenha um padrão consistente: Vorcaro não classificava como adversários processuais os agentes que investigavam o Banco Master, mas como obstáculos pessoais a serem contornados por meio de contatos privados com o topo das instituições. O caso de Ubiratan Cazetta é o mais revelador desse padrão, porque expõe a contradição central da estratégia do banqueiro — pedir a Paulo Gonet que controlasse “gente de baixo” significava, na prática, pedir ao PGR que policiasse o próprio chefe de gabinete. Não havia, na lógica de Vorcaro, distinção entre um agente de ponta com sete anos de investigação sobre o caso e o auxiliar mais próximo da autoridade máxima do Ministério Público: todos eram, igualmente, gente a ser neutralizada.
Como Vorcaro tentava se comunicar sem deixar rastro
Vorcaro não escrevia diretamente para “Alexandre de Moraes BRASILIA” pelo campo de texto do WhatsApp. Ele usava um método de três etapas, repetido de forma quase idêntica em pelo menos 52 ocasiões distintas identificadas pela perícia entre outubro e novembro de 2025: escrevia o conteúdo no aplicativo nativo “Notas” do iPhone, tirava um print da tela e enviava essa imagem — não o texto — pelo WhatsApp, em muitos casos configurado para desaparecer em 24 horas ou para abertura única.
A lógica por trás da escolha é evidente. O WhatsApp permite enviar fotos, vídeos e áudios em modo de visualização única, mas não permite o mesmo recurso para texto puro. Para aplicar esse grau de efemeridade a uma mensagem escrita, era preciso transformá-la em imagem primeiro. Vorcaro contornava, assim, duas camadas de proteção ao mesmo tempo: evitava deixar o conteúdo salvo no histórico de conversa do aplicativo de mensagens e, ao usar o recurso de visualização única, impedia — em tese — que a própria imagem permanecesse acessível após a leitura pelo destinatário.
O padrão seguia sempre a mesma sequência: abertura do Bloco de Notas, edição do texto, captura de tela, fechamento das Notas, abertura imediata do WhatsApp, envio da imagem e fechamento do aplicativo — tudo em questão de segundos. Na nota com a lista de nomes, por exemplo, o intervalo entre a captura de tela e o envio da mensagem foi de apenas 23 segundos.
O plano falhava, porém, em um ponto que ele não controlava: o próprio sistema operacional do iPhone gera, de forma automática e involuntária, uma cópia em PDF de tudo que é capturado em tela, armazenada temporariamente em uma pasta interna do sistema. Foi esse resíduo técnico — combinado com os registros de abertura e fechamento de aplicativos e com os logs de envio de mensagens no WhatsApp — que permitiu à Polícia Federal reconstruir o conteúdo das notas mesmo depois de apagadas ou configuradas para desaparecer, e validar essa reconstrução por meio de um teste cruzado que confirmou a exatidão do método.
O que a nota diz
Segundo a tabela de metadados reproduzida no relatório, a nota com a lista de nomes foi criada em 21 de outubro de 2025, às 22h08min34s UTC, e teve sua última modificação em 30 de outubro de 2025, às 16h38min12s UTC. O conteúdo integral, extraído do campo “ufed:Body” da perícia Cellebrite, é: “Pf Dennis cali Wilker / guilherme - sp Janaina - brasilia daniel de brito Mp - ubiratan Gabriel pimenta Guilherme”.
Seis minutos antes, às 16h32min25s UTC, Vorcaro havia modificado outra nota, endereçada ao contato salvo em seu celular como “Alexandre de Moraes BRASILIA”: “O problema agora é que tive informações informais e em confidência de turma do banco central, que G e os diretores estão na pressão máxima de novo pra uma medida, pois o bacen está sendo muito pressionado pela PF e MP, alegando que farão algo contra mim”.
“É importante reforçar com Andrei e Paulo pra não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem que aí vai tudo pro saco. Estou disponível pra tratar e explicar qq coisa, só não pode ter sacanagem. Vou te mandar os nomes que tem ido ao Bacen alegando que farão algo em breve”, escreveu.
Os codinomes “Andrei” e “Paulo”, segundo a própria análise policial, correspondem a Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF, e Paulo Gonet, PGR.
A sequência das duas notas — primeiro o pedido de blindagem à cúpula, depois a lista nominal de quem deveria ser contido — estabelece o roteiro que Vorcaro seguia: identificar cada agente público envolvido na apuração e tratá-lo como obstáculo individual a ser neutralizado por pressão política de cima para baixo, não como parte de um processo institucional legítimo.
Os alvos
Dennis Cali: foi nomeado pelo governo federal em 11 de julho de 2025 para o cargo de diretor de Investigação e Combate ao Crime Organizado (DICOR) da Polícia Federal — o terceiro posto na hierarquia nacional da corporação, subordinado apenas ao diretor-geral e ao diretor-executivo. Ocupava a função havia menos de quatro meses quando Vorcaro o classificou, na prática, como “gente de baixo”.
Wilker Goulart: é agente da Polícia Federal e integrou a Operação Fundo Fake, deflagrada em 2020 contra fraudes em institutos de previdência municipais que já apontavam suspeitas contra o banqueiro. O próprio Vorcaro o citou pelo nome em depoimento ao STF, no fim de dezembro de 2025, ao dizer que “o Wilker, que pelo que eu entendi tá desde 2019 tentando me pegar de alguma forma”, segundo relato da coluna do Cezar, no SBT News, que revelou nesta semana o afastamento do agente por três meses para concluir a formação de perito criminal federal.
Guilherme Alves — grafado no relatório também como Guilherme Alves de Siqueira: é delegado da Polícia Federal e um dos signatários da própria IPJ-A nº 3298613/2026, o relatório que revelou as mensagens entre Vorcaro e o contato atribuído a Alexandre de Moraes. Em outubro de 2025, ele se reuniu com os diretores do Banco Central para discutir o fortalecimento da fiscalização de fundos de investimento. A coincidência de datas e de tema — fiscalização de fundos, núcleo da fraude do Master — sugere que essa foi exatamente a reunião vazada a Vorcaro por seus contatos dentro do Bacen.
Janaína Palazzo: é a delegada responsável pela condução da Operação Compliance Zero e pela primeira prisão do banqueiro. Uma narrativa de confronto pessoal entre ela e o então relator do caso, Dias Toffoli, ganhou força após o depoimento de Vorcaro ao STF em 30 de dezembro de 2025, mas o vídeo da oitiva desfez essa versão: segundo análise do Valor, Palazzo manteve tom de voz baixo e ameno durante as duas horas e 39 minutos de depoimento. O atrito real era institucional: o gabinete de Toffoli enviava à delegada listas de perguntas a serem feitas ao banqueiro, levando-a a registrar formalmente quais questões partiam dela e quais vinham por ordem do ministro, segundo reportagem do site O Bastidor.
Ubiratan Cazetta: é procurador da República desde 1996, graduado em Direito pela USP e mestre em Direitos Humanos pela UFPA. Ocupa atualmente o cargo de chefe de gabinete do procurador-geral da República, Paulo Gonet. Também integra, como titular, a representação do MPF junto ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o Cade. Cazetta esteve presente, segundo reportagem do O Globo, na tomada de depoimento de um diretor do Banco Central que revelou a real situação financeira do Master pouco antes da liquidação.
Gabriel Pimenta Alves: é procurador da República e autor da representação de 102 páginas que pediu, em 20 de novembro de 2025, a prisão preventiva e temporária de dirigentes do Banco Master e do BRB, classificando a atuação do grupo como “uma verdadeira organização criminosa” que operava “consistentemente há anos, com divisão de tarefas e possível corrupção de agentes públicos”.
Daniel de Brito é o único dos sete nomes sem identificação segura até o momento. Nenhum registro público, decisão judicial ou reportagem consultada permitiu associar esse nome a um cargo específico na estrutura da Polícia Federal, do Ministério Público ou do Banco Central ligado ao caso Master.
A rede de informantes e o desfecho
As mesmas notas de 30 de outubro documentam como Vorcaro soube da movimentação da PF junto ao Banco Central antes que ela se tornasse pública. O banqueiro escreveu que a informação vinha “de pessoas de dentro do bacen que são meus amigos e ficaram preocupados”, acrescentando que não poderia “queimá-los” porque eram poucas as pessoas presentes nas reuniões, e que seria necessário cuidado ao lidar depois com “o G” — Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central.
A estratégia era de triangulação: obter garantias de Andrei Rodrigues e Paulo Gonet de que não haveria “sacanagem” por parte da PF, para então usar esse respaldo político e tranquilizar Galípolo de que o Master não sofreria medida punitiva imediata.
Dias depois, em mensagem ao mesmo contato, Vorcaro perguntou ao contato "Alexandre de Moraes BRASILIA" se deveria antecipar sua saída do país — “Acha que segunda já tenho que estar fora?” — e tentou adiantar em um dia sua viagem a Abu Dhabi. A Polícia Federal expediu o mandado de prisão preventiva antes do embarque, e Vorcaro foi detido de madrugada no aeroporto, em 17 de novembro de 2025.
O caso segue sob relatoria de André Mendonça no STF, que já determinou que a Procuradoria-Geral da República se manifeste sobre o conteúdo das mensagens que citam a cúpula da própria PF e do Ministério Público Federal. Gonet pediu a nulidade da investigação e afirmou que Mendonça não deveria pedir apurações sobre o destinatário das mensagens de Vorcaro, Alexandre de Moraes, sem um pedido do MP ou da PF. O PGR não se manifestou, no entanto, sobre as mensagens que mostram proximidade entre ele e Daniel Vorcaro.
Não há, até o momento, nenhum registro público de retaliação, monitoramento ilegal ou ameaça dirigida especificamente aos sete nomes da lista.
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