O PDF de 50 páginas usado por Alexandre de Moraes para acusar André Mendonça não saiu diretamente do sistema em que seus textos foram redigidos. A versão tornada pública nasceu de uma digitalização feita numa multifuncional Hewlett-Packard às 20h45min41s de 3 de setembro — mais de uma hora depois de a decisão do ministro já estar pronta e assinada. Ao recriar o material a partir do papel, o procedimento apagou os metadados do eventual arquivo eletrônico original. Mas deixou outro nome no caminho: “Jefferson.Silva”.
O identificador coincide com o nome de Jefferson Pessoa da Silva, assessor do gabinete de Moraes no STF. Jefferson já havia aparecido na série Vaza Toga, publicada por Glenn Greenwald e Fabio Serapião na Folha de S.Paulo em 2024.
Em áudio de outubro de 2022, o juiz instrutor Airton Vieira disse ter discutido com Jefferson e com a chefe de gabinete Cristina Gomes Kusahara um jeito de mudar a origem formal de relatórios usados no Inquérito das Fake News. O objetivo, nas palavras de Vieira, era evitar que os pedidos diretos do gabinete do STF a um servidor lotado no TSE — então Eduardo Tagliaferro, chefe da Assessoria Especial de Enfrentamento à Desinformação — parecessem “uma coisa muito descarada”.
Desde que Moraes levantou o sigilo do material contra Mendonça, uma pergunta acompanha o dossiê: quem o escreveu? As quatro peças não informam autoria, não têm assinatura e se apresentam como produtos internos de análise, sem valor probatório. Os metadados agora acrescentam uma pista sobre a preparação da cópia que circulou publicamente, mas não resolvem o mistério. Eles não demonstram que Jefferson redigiu, revisou ou aprovou o conteúdo — nem permitem afirmar, sem confirmação do STF, que o perfil gravado no arquivo pertence ao assessor.
Nas redes sociais, passou a circular a hipótese de que o dossiê teria sido escaneado justamente para impedir a identificação de seus autores pelos metadados. O procedimento teve esse efeito técnico: qualquer histórico do documento digital anterior foi substituído pelos registros do scanner. A intenção, porém, não está demonstrada. O dado comprovável é mais delimitado: a versão pública não é o arquivo nativo produzido por seus autores e foi processada em equipamento associado ao usuário ou perfil “Jefferson.Silva”.
O arquivo público foi criado depois da decisão
O arquivo da decisão de Moraes registra criação às 19h37min53s de 3 de setembro e última modificação às 19h40min27s. A peça contém o campo de assinatura digital identificado com o nome do ministro. Quando essa versão foi concluída, o PDF que seria divulgado como anexo ainda não existia na forma em que chegou ao público.
O arquivo original que o Poder360 publicou foi criado às 20h45min41s, numa ferramenta identificada como “Hewlett-Packard MFP”. Os metadados registram “Jefferson.Silva” no campo de autor e “INQ 4781 - novo.pdf” como título interno. O produtor inicial aparece como Acrobat Distiller 17.0 para Windows.
A primeira modificação ocorreu 54 segundos depois, às 20h46min35s. O arquivo registra ainda um novo processamento às 21h12min38s, dessa vez pelo Quartz PDFContext, em ambiente macOS. A versão pública, portanto, passou por pelo menos duas etapas de processamento depois da digitalização e foi concluída uma hora e 32 minutos após a última modificação da decisão.
A Investigação baixou o arquivo diretamente do endereço usado pelo Poder360 e repetiu a leitura dos metadados em dois serviços independentes. Baixe aqui a cópia examinada pela reportagem.
A cronologia não prova que Moraes recebeu o conteúdo somente depois de assinar a decisão. As páginas têm numeração manuscrita e referências internas que indicam a existência de um conjunto físico anterior. O gabinete pode ter trabalhado com os papéis e digitalizado o material apenas para a divulgação. O que a sequência exclui é outra hipótese: a de que o PDF publicado seja o arquivo eletrônico original entregue pelos autores e usado, naquele mesmo formato, para fundamentar a decisão.
O escaneamento apagou o rastro anterior
Transformar páginas físicas em PDF cria um documento novo. Dados como autor, programa de redação, horário de criação e histórico de alterações do arquivo anterior não acompanham o papel. No lugar deles, passam a constar as informações da multifuncional, do usuário configurado e dos programas usados para salvar ou reunir as imagens.
É por isso que o escaneamento pode ser usado para remover a trilha digital de um documento. A técnica não apaga necessariamente o texto, a paginação ou marcas manuscritas, mas rompe a ligação entre o conteúdo e o ambiente eletrônico em que ele foi produzido. No caso do dossiê contra Mendonça, a versão pública permite saber quando o papel foi convertido em PDF; não revela quando cada uma das quatro peças foi escrita nem em quais computadores foram editadas.
Essa limitação ganhou importância depois de A Investigação demonstrar, por meio de perícia independente, que o PDF atribuído ao delegado Fábio Alvarez Shor no caso dos empresários de direita só havia sido criado em 29 de agosto de 2022. O documento aparecia datado de 19 de agosto e foi apresentado como anterior às buscas cumpridas no dia 23. Naquele caso, foi justamente o rastro preservado no arquivo eletrônico que permitiu reconstruir a incongruência temporal.
No material contra Mendonça, essa mesma camada não está disponível. Se existiu um documento nativo da Polícia Federal com nomes de autores, horários de edição e versões anteriores, ele não foi apresentado ao público. O título interno “novo” é compatível com a existência de outra versão, mas não basta para prová-la. Pode ter sido apenas o nome escolhido por quem realizou a digitalização ou reuniu as páginas.
De mensageiro a assessor do ministro
Jefferson Pessoa da Silva integra o gabinete de Alexandre de Moraes. Sua ascensão foi interna: mensageiro entre 2015 e 2016, recepcionista entre 2016 e 2020, assessor a partir de 2020 — um percurso comum a servidores de cargo de confiança que sobem de função sem concurso externo. Ele se formou em Direito pela Universidade Católica de Brasília entre 2011 e 2015, praticamente no mesmo período em que ingressou na Corte como mensageiro. Silva é listado na equipe de Moraes que atuou nos inquéritos do 8 de janeiro.
A Folha de S.Paulo também o identificou como assessor ao revelar, em agosto de 2024, os áudios trocados entre Airton Vieira e Eduardo Tagliaferro. As gravações eram de outubro de 2022, entre os dois turnos da eleição presidencial. Tagliaferro comandava a Assessoria Especial de Enfrentamento à Desinformação do TSE e recebia pedidos informais do gabinete de Moraes para produzir relatórios sobre apoiadores de Jair Bolsonaro. Os documentos eram enviados ao STF e usados no Inquérito 4.781, o mesmo Inquérito das Fake News ao qual Moraes anexou, quatro anos depois, a acusação contra Mendonça.
Em uma das mensagens, Vieira explicou que os novos relatórios deveriam aparecer como produzidos por ordem de Marco Antônio Martins Vargas, juiz auxiliar de Moraes no TSE, e depois encaminhados ao STF. A Gazeta do Povo registrou que Vieira disse ter discutido o modelo com Cristina Gomes e Jefferson Silva. Dessa maneira, segundo o próprio juiz instrutor, ninguém poderia questionar de onde o material havia surgido ou quem o pedira.
Jefferson não é ouvido no áudio. A informação sobre sua participação na conversa vem exclusivamente do relato de Vieira a Tagliaferro. A gravação demonstra que o juiz instrutor atribuiu a Jefferson participação na discussão sobre o formato documental; não permite saber o que o assessor defendeu, se concordou com a solução ou se tomou alguma providência para executá-la.
Na época, o gabinete de Moraes negou irregularidades. Afirmou que os relatórios descreviam publicações ligadas às investigações de milícias digitais e que todos os procedimentos eram oficiais, regulares, documentados nos autos e realizados com participação da Procuradoria-Geral da República.
O nome é uma pista, não uma prova
O campo de autor de um PDF gerado por multifuncional pode ser preenchido pelo usuário autenticado, por um perfil previamente configurado ou por informações herdadas do fluxo de digitalização. Ele vincula o arquivo a essa identificação, mas não funciona como assinatura digital. Também não revela necessariamente quem colocou as páginas no equipamento ou ordenou a operação.
Continuam desconhecidos os autores das quatro peças. Também não foi apresentado o arquivo digital nativo que eventualmente precedeu a impressão. Sem ele, não é possível conferir as datas originais de criação, os programas usados ou os nomes registrados antes que o papel fosse convertido novamente em PDF.
Para resolver a cadeia documental, o STF e a Polícia Federal precisam preservar e apresentar os arquivos anteriores, os registros do equipamento Hewlett-Packard e os dados de acesso do usuário associado a “Jefferson.Silva”. Também precisam explicar por que o anexo foi digitalizado depois de a decisão estar assinada e por que recebeu o título “novo”.
Os metadados não entregaram o autor secreto do dossiê. Entregaram, porém, o primeiro nome tecnicamente ligado à fabricação de sua versão pública — e esse nome já havia aparecido numa discussão interna sobre como impedir questionamentos a respeito da origem de relatórios usados pelo gabinete de Alexandre de Moraes.
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