Em 3 de setembro, Alexandre de Moraes levantou o sigilo de um dossiê apócrifo atribuído à Polícia Federal e classificado pelos próprios autores como documento de trabalho “sem valor probatório”. O ministro usou as peças para pedir que André Mendonça fosse investigado por improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade dentro do Inquérito das Fake News. Desde a divulgação, uma pergunta atravessa a crise: quem produziu o material e autorizou que ele chegasse ao gabinete de um ministro do Supremo para sustentar acusações contra outro? Ainda não temos respostas, mas há algumas pistas.
O nome de Dennis Cali não aparece como autor. Sua importância é institucional. Diretor de Investigação e Combate ao Crime Organizado e à Corrupção desde julho de 2025, ele comanda a estrutura da PF indicada em duas das peças anônimas. A mesma diretoria abriga a cadeia da Informação de Polícia Judiciária de Análise (IPJ-A) nº 3298613/2026, o relatório oficial e assinado que identificou, no celular de Daniel Vorcaro, o contato “Alexandre de Moraes BRASILIA”.
Dez meses antes, Cali havia sido colocado pelo próprio banqueiro no topo de uma lista de sete agentes. A anotação foi feita seis minutos depois de Vorcaro pedir, em mensagem destinada ao contato atribuído a Moraes, que Andrei Rodrigues e Paulo Gonet não deixassem “ninguém de baixo” prejudicá-lo. O diretor que o banqueiro pretendia neutralizar passou, assim, a comandar o ponto de convergência institucional entre o documento que atingiu Moraes e o dossiê usado por Moraes contra Mendonça.
A documentação expôs ainda outros três servidores ligados às apurações. Wedson Cajé Lopes foi citado no dossiê anônimo como o único integrante da equipe com acesso a uma decisão de Mendonça e aparece entre os signatários do relatório oficial sobre Vorcaro e Moraes. Guilherme Alves de Siqueira, outro nome da lista do banqueiro, também assinou esse relatório oficial. Já a agente Letícia Magalhães Espósito foi nominalmente identificada em uma das peças sigilosas, que examinou a concentração de acesso ao acervo da Operação Sem Desconto e um possível vazamento, embora o próprio texto ressalve não haver prova contra ela.
Nenhuma dessas conexões demonstra que Cali tenha escrito, revisado ou autorizado pessoalmente o dossiê. Também não prova que Cajé, Guilherme ou Letícia tenham participado de sua elaboração. O que os documentos revelam é uma cadeia institucional atravessada pelos mesmos nomes e, no caso do material contra Mendonça, alimentada por relatos de reuniões reservadas cuja origem individual não foi informada.
O primeiro nome depois do pedido de blindagem
A Investigação revelou que Vorcaro produziu a lista em 30 de outubro de 2025. Pouco antes, havia escrito que pessoas do Banco Central lhe transmitiam informações confidenciais sobre a pressão exercida pela PF e pelo Ministério Público para a adoção de uma medida contra ele.
Na mensagem destinada ao contato “Alexandre de Moraes BRASILIA”, o banqueiro afirmou que seria importante “reforçar” com o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e com o procurador-geral da República, Paulo Gonet, para impedir que “ninguém de baixo” fizesse uma “sacanagem”. Disse também que enviaria os nomes de quem procurava o Banco Central e anunciava uma medida próxima.
Seis minutos depois, atualizou outra nota com oito nomes, seis foram identificados por A Investigação: Dennis Cali, Wilker Goulart, Guilherme Alves, Janaína Palazzo, Ubiratan Cazetta e Gabriel Pimenta Alves. Daniel de Brito e um segundo Guilherme continuam sem identificação. A expressão “gente de baixo” não foi escrita ao lado da relação. A associação decorre da sequência: primeiro, o pedido para que as cúpulas da PF e da PGR contivessem agentes subordinados; em seguida, a identificação das pessoas vistas como obstáculos.
Cali encabeçava a lista apesar de ocupar um dos postos mais altos da Polícia Federal. Estava havia menos de quatro meses à frente da DICOR. Na estratégia registrada por Vorcaro, até um diretor nacional poderia ser contido mediante contatos com autoridades superiores. A anotação comprova a tentativa do banqueiro de obter proteção vertical, mas não demonstra que Moraes, Andrei ou Gonet tenham atendido ao pedido.
Duas rotas internas chegam à DICOR
O dossiê usado por Moraes reúne quatro peças. Duas exibem no rodapé a sequência “UADIP/CINQ/CGRC/DICOR”. A UADIP é a Unidade de Análise de Dados de Inteligência Policial. A CINQ, Coordenação de Inquéritos nos Tribunais Superiores, concentra casos de autoridades com foro no STF e no STJ. A CGRC é a Coordenação-Geral de Repressão à Corrupção, Crimes Financeiros e Lavagem de Dinheiro. A DICOR, no topo da sequência, é chefiada por Cali.

O encadeamento indica a estrutura reivindicada pelas peças, mas não substitui assinatura nem individualiza responsabilidades. Nenhum dos quatro documentos apresenta autor, revisor ou autoridade responsável pela aprovação. A inscrição no rodapé é uma das poucas pistas sobre o lugar em que parte do material foi produzida.
A IPJ-A nº 3298613/2026, publicizada por Mendonça, identifica outra rota: “NADIP/DFIN/CGRC/DICOR/PF”. O documento informa número de procedimento, objeto, destinatário, data, ferramentas forenses, metodologia e o laudo que originou o exame. Ao final, traz as assinaturas digitais de três agentes e quatro delegados.
As rotas inferiores, portanto, não são iguais. Duas peças do dossiê apócrifo apontam UADIP e CINQ; o relatório oficial sobre o celular de Vorcaro identifica NADIP e DFIN. Os dois caminhos convergem na CGRC e na DICOR. É essa convergência, e não a presunção de que uma única equipe tenha produzido tudo, que coloca a diretoria de Cali no centro da crise.
Foi a IPJ-A assinada que reconstruiu o método usado por Vorcaro para enviar textos como imagens de visualização única, relacionou notas, capturas de tela e arquivos temporários do iPhone e identificou o contato atribuído a Moraes. O relatório também recuperou a lista de sete nomes e reuniu elementos sobre o contrato do Banco Master com o escritório Barci de Moraes.
O dossiê contra Mendonça tem natureza oposta. O arquivo de 50 páginas reúne documentos de trabalho sem autoria declarada. Duas peças repetem que não têm valor probatório, e uma delas atribui “confiança agregada baixa” à cadeia de hipóteses construída. A numeração manuscrita começa na folha 6; as cinco páginas anteriores, que poderiam esclarecer a tramitação e o encaminhamento, não foram publicadas.
Em reportagem anterior, revelamos algo ainda mais grave: Moraes distorceu o material. Mais da metade do texto útil de sua decisão veio dessas peças. O ministro omitiu as 28 graduações de confiança, apagou seis advertências sobre a ausência de valor probatório, eliminou hipóteses alternativas e atribuiu à PF conclusões que o próprio dossiê não apresenta.
A possível origem do vazamento
Em 31 de agosto, Moraes foi pessoalmente ao gabinete de Mendonça depois de descobrir que o colega havia instruído a PF a identificar o destinatário das mensagens de Vorcaro. Segundo a coluna de Andreza Matais, na Metrópoles, o clima esquentou e a discussão quase resultou em agressão física. Mendonça quis saber como Moraes havia tomado conhecimento de uma investigação sigilosa sob sua própria relatoria. A resposta, segundo a coluna, foi: “Eu tenho minhas fontes. Fui ministro da Justiça.”
Segundo o dossiê, uma semana antes, em 24 de agosto, Mendonça convocou investigadores ao gabinete e lhes entregou uma cópia física, ainda sem assinatura, da decisão que determinava a identificação das pessoas mencionadas nas mensagens de Vorcaro. A versão assinada teria ficado disponível no sistema apenas no dia em que a PF concluiu o cumprimento da ordem.
Segundo o texto, o “DPF Cajé”, descrito como “único integrante da equipe com acesso a essa decisão”, fez uma captura da tela e baixou o arquivo por segurança. A documentação oficial confirma que se trata de Wedson Cajé Lopes. Ele assinou o Ofício nº 3305795/2026-CINQ/CGRC/DICOR/PF, de 27 de agosto, como coordenador de Repressão à Corrupção, e também está entre os sete signatários da IPJ-A sobre Vorcaro e Moraes.

A passagem coloca Cajé no centro de uma cadeia ainda sem explicação. O arquivo pode ter chegado aos autores por entrega direta do delegado, por circulação interna depois do download, pelo relato de outro servidor presente ou por acesso realizado sem o conhecimento dele. Não há mensagem, protocolo ou registro público que permita escolher entre essas hipóteses. Cajé é mencionado uma única vez no dossiê, sempre na terceira pessoa, e não aparece como redator, revisor ou responsável por sua circulação.
O caso se torna mais sensível porque as peças reproduzem falas atribuídas a Mendonça em reuniões reservadas. O item Y.6 afirma que o ministro havia perguntado o que os dados do celular de Vorcaro mostravam sobre Moraes. O item X.5 relata que, em um encontro presencial de 13 de agosto, o relator teria comentado a atuação de ACM Neto e sugerido a separação de casos em petições distintas. Outras passagens mencionam comentários sobre colaborações premiadas, advogados, Andrei Rodrigues e Paulo Gonet.
Cláudio Dantas relatou que dois ministros do STF e o assessor de um terceiro suspeitam que Mendonça tenha sido alvo de monitoramento ilegal. O dossiê, contudo, classifica as informações sobre as reuniões com a marca “[R]”, definida no próprio material como relato de servidor presente ao ato e ainda não reduzido a termo. Também recomenda identificar os participantes e colher assinaturas posteriormente.
A explicação mais aderente ao texto é a existência de um circuito de informes internos: um ou mais participantes teriam narrado as conversas a analistas ou superiores. Uma captação ambiental não pode ser excluída, mas não há áudio, transcrição, perícia, registro de equipamento ou outro vestígio técnico divulgado. O documento tampouco informa que Cajé tenha participado das reuniões. Sua única ligação expressa é com a preservação da decisão de 24 de agosto.
O delegado já havia enfrentado uma acusação pública semelhante em outro contexto. Em 2017, quando era responsável pelas investigações da Operação Pegadores, sobre desvios na saúde do Maranhão, Flávio Dino afirmou que Cajé havia inventado 400 funcionários fantasmas e usado um “dossiê falso”. O então governador anunciou que o Estado o representara na Corregedoria da PF e declarou que não aceitaria “abusos e arbitrariedades”.
O Blog do Luís Pablo registrou na época que a decisão judicial invocada por Dino não havia afastado Cajé da investigação. O processo apenas fora retirado da primeira instância e transferido ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região. Dantas relatou ainda que o delegado atuou no inquérito sobre a suposta interferência de Jair Bolsonaro na PF e nos casos do então senador Chico Rodrigues e da ex-governadora Roseana Sarney.
Cali e a investigação de Lulinha
Dantas afirmou que Cali é apontado como o delegado que teria “segurado” a investigação das fraudes do INSS contra Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Também o descreveu como braço direito do diretor-geral da PF.
Em julho, o jornalista já havia relatado que Mendonça fora avisado sobre uma tentativa de retirar o delegado Guilherme Figueiredo Silva do comando do inquérito, que Lulinha teria sido colocado no fim da fila de investigados e que a cúpula da PF tentara separar essa frente do bloco principal da Operação Sem Desconto. Em agosto, registrou que a corporação levou mais de sete meses para enviar ao relator os dados obtidos pelas quebras de sigilo do filho do presidente.
Parte do contexto foi confirmada por outras fontes. A Folha de S.Paulo noticiou a cobrança de Mendonça pela demora, os questionamentos sobre mudanças na equipe e o conflito em torno do fluxo de informações. O jornal também registrou que a PF acionou a Advocacia-Geral da União contra medidas pelas quais o ministro ampliou seu controle sobre a investigação.
Nenhum documento, porém, mostra uma ordem de Cali para paralisar a apuração ou proteger Lulinha. As reportagens corroboram a demora e a disputa institucional, mas não individualizam a responsabilidade do diretor. A afirmação de que ele teria segurado o caso permanece atribuída a Dantas e às fontes ouvidas pelo jornalista.
A cúpula da PF nega favorecimento. Andrei Rodrigues afirmou que a corporação não protege nem persegue ninguém. Cali declarou que os núcleos mais maduros seriam concluídos primeiro e que outras frentes permaneceriam sob análise. A direção sustentou ainda que a Operação Sem Desconto recebia prioridade de pessoal e recursos.
O dossiê que Moraes transformou em acusação
Em 1º de setembro, Moraes determinou que Andrei Rodrigues lhe enviasse imediatamente todas as análises de inteligência que mencionassem ministros do Supremo. A ordem, expedida dentro do Inquérito 4.781, não delimitou fato, investigação ou período. Segundo a decisão posterior, a Direção-Geral da PF respondeu por meio do Ofício nº 40/2026/GAB/PF.
Dois dias depois, o ministro reproduziu extensos trechos do dossiê e apontou “fortes indícios” de três ilícitos atribuídos a Mendonça. Ao fazer isso, converteu documentos internos sem autoria declarada e expressamente destituídos de valor probatório em fundamento de uma acusação pública.
A análise de A Investigação mostrou que a decisão suprimiu ressalvas e graduações de confiança que limitavam as conclusões. Moraes apresentou como consumado o direcionamento de uma diligência contra ele, embora o próprio dossiê classificasse como média a confiança na hipótese de seleção deliberada e explicasse que os nomes examinados decorriam das pessoas mencionadas nas páginas indicadas para a análise.
A PF ainda precisa informar quem determinou a produção das peças, quais servidores as escreveram e revisaram, quem atribuiu os graus de confiança e qual autoridade autorizou sua remessa externa. Também precisa esclarecer de quem partiram os relatos sobre as reuniões, se houve gravação, como o arquivo preservado por Cajé circulou e por que as cinco folhas iniciais não acompanharam o material divulgado.
Fachin retira o caso do Inquérito das Fake News
Em 4 de setembro, Edson Fachin retirou do Inquérito das Fake News o pedido de Moraes para investigar Mendonça. O presidente do STF determinou que as acusações fossem examinadas no procedimento aberto para esclarecer o relatório da PF que revelou a relação entre Vorcaro e Moraes.
Fachin deu cinco dias para que a Procuradoria-Geral da República se manifeste sobre a admissibilidade e a regularidade do procedimento e, se considerar pertinente, sobre as imputações. Depois, Mendonça terá o mesmo prazo para responder. O presidente do Supremo ressaltou que a providência não antecipa avaliação sobre o caminho adotado por Moraes nem sobre o mérito das acusações.
A decisão retirou de Moraes o controle processual sobre a investigação que ele próprio pretendia abrir contra Mendonça. Não resolveu, contudo, a questão que surgiu com o levantamento do sigilo: a identidade dos autores e a cadeia que transformou relatos internos, hipóteses de baixa confiança e documentos sem valor probatório em uma acusação formal no Supremo.
Essa resposta também definirá o alcance da responsabilidade institucional de Cali. O diretor não pode ser apresentado como autor do dossiê com base apenas na sigla DICOR. Mas a estrutura que comanda é o ponto em que se encontram o documento que expôs Moraes, as peças usadas contra Mendonça e os servidores nominalmente arrastados para a crise iniciada pelo pedido de blindagem de Daniel Vorcaro.
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