Uma mensagem extraída do celular de Daniel Vorcaro mostra que o portal Metrópoles e o escritório Barci de Moraes Sociedade de Advocacia, da advogada Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, foram pagos na mesma noite pelo grupo do banqueiro.
O registro consta do relatório de análise da Polícia Federal IPJ-A nº 3298613/2026, produzido a partir da extração forense do iPhone de Vorcaro. O documento foi tornado público nesta terça-feira, 1º de setembro de 2026, por decisão do ministro André Mendonça, relator do caso Banco Master no STF.
Às 21h35 de 1º de outubro de 2025, Alberto Felix de Oliveira Neto, funcionário responsável por operacionalizar pagamentos de Vorcaro, informou ao banqueiro: “Chegou btg. Pagamsos metropoles e barci”. BTG seria o banco de André Esteves.
Sete minutos depois, Vorcaro quis saber como o escritório havia recebido: “Mas nao faz barci pix ne” e “Fez?”. Alberto Felix confirmou: “Fez, nao pode?” e “Foi pix para os mesmos dados da ted”. A resposta de Vorcaro foi direta: “Nao e bom”.
A mensagem acrescenta um dado até agora desconhecido: os pagamentos ao Metrópoles e ao escritório da mulher de Alexandre de Moraes circulavam, ao menos naquela noite, pela mesma estrutura financeira de Vorcaro. Quando soube que o repasse ao Barci de Moraes ocorrera por Pix, Vorcaro demonstrou preocupação.
O registro torna necessário que o Metrópoles esclareça qual pagamento recebeu naquele dia, qual era o valor, a que contrato correspondia e quais serviços foram prestados. A conversa não contém nenhuma referência a reportagens, jornalistas, pautas ou tratamento editorial.
O pagamento, portanto, não constitui necessariamente indício de interferência na linha editorial do portal. A relação comercial e a cobertura jornalística são fatos distintos. Até agora, o relatório da PF não apresentou uma mensagem que estabeleça ligação entre eles.
Há um contraponto relevante: o Metrópoles tornou-se um dos veículos que mais publicam revelações prejudiciais a Vorcaro e ao grupo Master. Em vez de proteger o banqueiro, o portal tem divulgado acusações graves, documentos da investigação e informações de bastidores que ampliaram o desgaste político e criminal do empresário.
O pagamento que “não pode atrasar um dia”
A conversa aparece na Figura 156, à página 157 do relatório. Na legenda, a própria PF registra que “Daniel Vorcaro orienta Alberto Felix que os pagamentos para o Escritório Barci de Moraes não devem ser por Pix”. Na página anterior, os investigadores resumem a sequência: Alberto Felix informou que o escritório havia sido pago e, em seguida, Vorcaro determinou que os valores não fossem transferidos por Pix.
O documento não informa quanto o Metrópoles e o Barci de Moraes receberam naquela noite. Também não permite concluir que as duas transferências ocorreram no mesmo minuto. Mostra, porém, que os dois pagamentos foram processados na mesma rotina operacional, pelo mesmo funcionário, e comunicados a Vorcaro na mesma mensagem.
A preocupação com a forma de pagamento do escritório não surgiu naquele dia. O relatório reproduz uma sequência de conversas, iniciada em março de 2024, nas quais Vorcaro tratava o contrato com o Barci de Moraes como prioridade máxima do grupo.
Em 15 de março de 2024, ao descobrir que o pagamento não havia sido realizado, o banqueiro escreveu: “Pqp. Não pagaram barci de moraes”. Em seguida, acrescentou: “Surreal” e “Vamos ter problemas”. Vorcaro mandou que a transferência fosse feita imediatamente.
Poucos minutos depois, escreveu a uma funcionária identificada como “Romy Banco Master” que o repasse não poderia “atrasar um dia”, por ser “o pgto mais importante que temos”. E ordenou: “Pode pagar sempre, sem nota” e “Do jeito que for”. A funcionária enviou então o comprovante de uma transferência de R$ 3.422.268,14 ao escritório de Viviane Barci de Moraes.
Outra mensagem do mesmo dia ajuda a delimitar o sentido da ordem. Ângelo Silva informou a Vorcaro que o pagamento seria antecipado e que a nota fiscal seria obtida depois: “Vamos pagar antecipado e depois pegamos a NF”. Em abril de 2025, o banqueiro também determinou que ninguém tivesse acesso ao contrato.
O pagamento de 1º de outubro ocorreu quando a investigação sobre o Banco Master já avançava. A Operação Compliance Zero seria deflagrada em 18 de novembro de 2025, seis semanas depois. Vorcaro foi preso na noite anterior, no Aeroporto Internacional de Guarulhos.
Os R$ 27,2 milhões pagos ao Metrópoles
O Metrópoles já aparecia ligado ao Banco Master antes da divulgação deste novo relatório. Em abril de 2026, veio a público que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) havia classificado como suspeitos repasses de R$ 27,2 milhões feitos pelo banco ao portal entre 2024 e 2025.
Segundo o relatório do Coaf, os valores recebidos eram seguidos por débitos quase imediatos em favor de outras empresas ligadas à família de Luiz Estevão, dono do Metrópoles. O órgão apontou que o padrão poderia representar movimentação de recursos em benefício de terceiros e considerou o volume incompatível com o faturamento médio mensal declarado pela empresa.
Ao todo, o Banco Master transferiu R$ 27.283.800 para a empresa Metrópoles Marketing e Propaganda Ltda. Dois pagamentos, que somaram R$ 838,8 mil, foram feitos no segundo semestre de 2024. O restante foi repassado entre janeiro e outubro de 2025.
Luiz Estevão afirmou que os pagamentos se referiam ao patrocínio do Will Bank, fintech do grupo Master, à transmissão da Série D do Campeonato Brasileiro de 2025 e à venda dos direitos sobre o nome da competição. Também sustentou que poderia dar aos recursos recebidos a destinação que desejasse.
Os repasses, porém, começaram em janeiro de 2025. As transmissões do campeonato pelo Metrópoles só tiveram início em julho, e a logomarca do Will Bank passou a aparecer nas placas de publicidade dos estádios no fim daquele mês, seis meses depois de o Master começar a enviar dinheiro ao portal.
Ex-senador cassado em 2000, Luiz Estevão foi condenado por peculato e corrupção ativa no escândalo do desvio de recursos da construção do Fórum Trabalhista de São Paulo. O Metrópoles é administrado por integrantes de sua família.
Um dos veículos que mais expõem Vorcaro
Em março de 2026, o Metrópoles revelou que a Polícia Federal dividia a organização atribuída a Vorcaro em quatro núcleos: financeiro, corrupção institucional, ocultação patrimonial e lavagem de dinheiro, além de intimidação e obstrução da Justiça. O portal também publicou que a PF tratava o banqueiro como líder de uma “milícia privada” voltada à coerção de adversários, autoridades e jornalistas.
O veículo revelou ainda que Vorcaro teria recebido antecipadamente informações sobre diligências da própria Polícia Federal. Em outra frente, mostrou diálogos que, segundo os investigadores, indicavam uma rede clandestina de monitoramento e influência alimentada por vazamentos do Banco Central e do Poder Judiciário.
As reportagens avançaram sobre o patrimônio e as operações do banqueiro. O portal mostrou que Vorcaro se tornou acionista do Banco de Brasília por meio da Titan Capital, holding sediada nas Ilhas Cayman, em uma operação de R$ 194 milhões. Também detalhou as sucessivas tentativas frustradas de acordo de delação premiada e revelou que a Procuradoria-Geral da República exigia a devolução de R$ 60 bilhões à vista para negociar.
Nesta terça-feira, após a retirada do sigilo do relatório, o Metrópoles publicou uma sequência de novas revelações contra Vorcaro. Mostrou mensagens enviadas a Alexandre de Moraes três dias antes da prisão, o almoço preparado para o ministro e Viviane Barci em Campos do Jordão como uma “experiência completa” para convidados “ultra vips”, a ida do banqueiro ao prédio onde Moraes mantém apartamento em São Paulo e quatro mensagens autodestrutivas enviadas pelo ministro no dia da prisão.
O portal também revelou diálogos sobre a organização conjunta de um evento jurídico em Londres, mensagens atribuídas ao procurador-geral Paulo Gonet e o relato de que Moraes e André Mendonça quase chegaram às vias de fato durante uma discussão sobre a investigação. São publicações que atingem diretamente Vorcaro, expõem sua rede de relações e aprofundam as suspeitas reunidas pela PF.
Esse histórico impede que o pagamento registrado em 1º de outubro seja apresentado, sem outros elementos, como prova de favorecimento editorial. A mensagem revela uma relação financeira que precisa ser explicada pelo Metrópoles. A cobertura do próprio veículo, porém, aponta na direção oposta à de uma blindagem jornalística do banqueiro.
O espaço permanece aberto para manifestações de Daniel Vorcaro, do Banco Master, do escritório Barci de Moraes e do Metrópoles.
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