A mesma página do Facebook que a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva registrou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2022 como uma das “redes sociais pertencentes ao candidato” está novamente em operação eleitoral. O perfil Evangélicos com Lula, com cerca de 56 mil seguidores na Facebook e 18 mil seguidores no Instagram, publica pedidos de voto e de reeleição do presidente, associa políticas do governo a ensinamentos bíblicos e usa músicas evangélicas para embalar a propaganda.
Embora a página finja ser administrada por admiradores independentes de Lula, em 19 de agosto de 2022, a defesa do petista protocolou no processo de registro da candidatura uma relação de novos endereços digitais. O documento, assinado por Cristiano Zanin, Eugênio Aragão e outros oito advogados, incluiu os perfis Restitui Brasil e Evangélicos com Lula no Facebook, Instagram, TikTok, X, Kwai e Telegram. A petição definiu todos eles expressamente como canais pertencentes ao candidato.
Quatro anos depois, porém, a página Evangélicos com Lula não aparece entre os endereços informados pela campanha presidencial de 2026. Consulta feita por A Investigação ao DivulgaCand em 5 de setembro não encontrou os endereços dos perfis no Facebook e Instagram, embora eles continuem a fazer campanha para Lula atualmente. Pesquisa na base de dados da Meta mostra que ambas as páginas são vinculadas.
A ausência ocorre em pleno período eleitoral, iniciado em 16 de agosto. Nos últimos dias, a página publicou as hashtags #lulareeleito, #lula2026 e #lulapresidente, defendeu abertamente o voto no petista e apresentou a reeleição como uma escolha coerente com a fé cristã. Um ativo digital oficialmente reconhecido pela campanha de Lula como seu em 2022 foi reutilizado, portanto, sem que o endereço aparecesse no cadastro de 2026.


O caso também amplia o contraste revelado por A Investigação na atuação do TSE. Dias Toffoli paralisou atos da campanha de Renan Santos após identificar perfis não informados no registro. Ao mesmo tempo, canais da estrutura pró-Lula, como Pode Espalhar, Lulaverso e redes de WhatsApp, continuam pedindo votos sem aparecer na ficha do candidato sem punição alguma.
A questão central não é se evangélicos podem apoiar Lula. Podem, assim como qualquer grupo religioso pode defender qualquer candidato dentro da lei. O problema é outro: uma página apresentada ao público como mobilização de fiéis foi reconhecida em documento judicial como canal da campanha, voltou a pedir votos e desapareceu da relação oficial de 2026.
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Reportagens como esta têm custo. Além do trabalho de apuração, há toda uma estrutura técnica que permite publicar sem depender de anunciante ou de padrinho político.
Você já sabe o que A Investigação entrega: fizemos o Twitter Files Brasil, a Vaza Toga 2, 4 e 5, o Araponga de Miami, o Radiolão e várias outras investigações que trouxeram à luz o que outros veículos preferiam não ver.
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A página “pertencente ao candidato”
Quando a estrutura foi criada, em agosto de 2022, a campanha tentava reduzir a vantagem de Jair Bolsonaro entre os evangélicos. A petição apresentada ao TSE não descrevia os perfis como páginas independentes de apoiadores. Dizia que Lula vinha informar “os novos endereços de redes sociais pertencentes ao candidato” e listava, na sequência, os canais Evangélicos com Lula.
Naquele momento, Poder360 registrou que os doze perfis haviam sido incluídos na página de Lula no TSE. A CNN Brasil também confirmou que a campanha apresentara os endereços como pertencentes ao petista. Procurada à época, a assessoria alegou que grupos evangélicos interessados em atuar na eleição haviam pedido a criação dos canais e que, por isso, eles foram registrados.
A explicação não altera o vínculo formal. Independentemente de quem sugeriu a iniciativa ou produzia as peças, a própria candidatura assumiu perante a Justiça Eleitoral que aqueles endereços integravam sua estrutura. Entre eles estava o perfil hoje acessível pelo endereço facebook.com/evangelicoscomlula, também identificado dessa forma nos dados oficiais da eleição de 2022.
Em outubro daquele ano, uma reportagem publicada por este autor na Gazeta do Povo revelou como a operação simulava um movimento religioso surgido espontaneamente. A descrição no Facebook afirmava que a página era administrada por “um grupo de evangélicos pró-Lula”, sem informar ao visitante que o canal havia sido declarado pela campanha ao TSE. A titularidade só ficava evidente na documentação eleitoral e na biblioteca de anúncios da Meta.
A reportagem da Gazeta do Povo mostrou que o site Restitui Brasil, também
declarado ao TSE como pertencente a Lula, usava uma paleta azul e amarela, distante do vermelho tradicional do PT. Gritos políticos davam lugar a mensagens de paz, orações e versículos. A mudança visual ajudava a apresentar como movimento de fiéis uma estrutura que a própria candidatura reconhecia como sua.
Em uma das páginas, o site pedia orações pelo Brasil, por Lula e por Geraldo Alckmin e reproduzia apenas a primeira parte de Provérbios 29:2: “Quando os justos governam, alegra-se o povo”. O trecho seguinte — “mas quando o ímpio domina, o povo geme” — era omitido.
O mesmo recorte apareceu na Carta aos Evangélicos de Lula. O texto citava Tiago 1:27 até a passagem sobre cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades, mas deixava de fora o complemento do versículo: “e guardar-se da corrupção do mundo”. Em ambos os casos, a comunicação selecionou a parte da Escritura que permitia ligar a mensagem religiosa à narrativa eleitoral.
O precedente de Verdade na Rede, outro canal declarado por Lula em 2022, ajuda a explicar por que a identificação do patrocinador importa. Naquele ano, o TSE determinou a retirada do site do ar por simular uma agência de checagem independente. A ministra Maria Claudia Bucchianeri afirmou que o usuário precisava saber que estava diante de propaganda antes de decidir se desejava consumi-la.
A aparência de movimento espontâneo permanece. A página ainda se apresenta como uma iniciativa de apoiadores, conserva a marca Evangélicos com Lula e Alckmin e oferece como endereço externo uma seção do site lula.com.br dedicada aos evangélicos. O link atualmente leva a uma página de erro, mas o domínio é o portal oficial usado pelas campanhas do petista. Não há aviso de que o perfil tenha sido transferido, vendido ou entregue a uma organização independente desde 2022.
O roteiro de 2022 voltou inteiro
O método empregado agora repete com precisão a estratégia descrita há quatro anos. Em vez de disputar diretamente pautas de costumes, a comunicação traduz propostas econômicas e programas sociais do PT para a linguagem religiosa. Fome, renda, moradia, jornada de trabalho e proteção à família são apresentados como provas de fidelidade aos ensinamentos cristãos.
Em agosto, o coordenador nacional do Setorial Inter-religioso do PT, Gutierres Barbosa, explicou que a campanha usaria o Pé-de-Meia, o Desenrola, a isenção do Imposto de Renda e o fim da escala 6x1 para sustentar que o partido protege a família. Também anunciou que a música gospel ocuparia um lugar central na aproximação. Segundo Barbosa, deixar esse repertório fora da campanha seria um erro porque ele já alcança as periferias, os trabalhadores e o transporte público.
O plano apareceu quase literalmente na página Evangélicos com Lula. Em uma publicação de 5 de setembro, o perfil comemorou a aprovação do fim da escala 6x1 na Comissão de Constituição e Justiça do Senado e afirmou que a Bíblia ensina que Deus não é indiferente a quem trabalha até a exaustão. A postagem pediu tempo para descanso, família, culto e serviço à comunidade. Como trilha, usou Deus de Obras Completas (Instrumental), creditada no Facebook a Sanfoneiro Apaixonado.
Em outra peça, acompanhada por Eu Confio em Ti Deus (Instrumental), de Vinny Rocha, o perfil desejou um “dia abençoado” e ensinou que cuidar de quem mais precisa seria uma forma de honrar a Deus. Logo depois, inseriu a mensagem eleitoral: “Com Lula, o Brasil saiu do Mapa da Fome duas vezes”. A publicação foi marcada com #evangelicoscomlula, #lulapresidente e #lulareeleito.
Não se trata apenas de mensagens genéricas de apoio. Uma das peças de maior repercussão dizia que o evangélico que vota na esquerda “continua sendo evangélico” e que a fé “não tem partido”. Na legenda, porém, a página concluiu que um cristão deve votar em Lula porque seu governo combate a fome, amplia o acesso à moradia e valoriza os pobres. O conteúdo, acompanhado pela música Árvore de Bons Frutos, do rapper gospel Pregador Luo, acumulava cerca de 2.500 reações, 2.400 comentários e 270 compartilhamentos quando foi capturado pela reportagem.
Louvor, política social e voto
A escolha musical não é um detalhe decorativo. Ela integra uma estratégia reconhecida publicamente pelo próprio PT. A primeira publicação de Lula após a abertura oficial da campanha de 2026 usou o jingle gospel Tapete Vermelho, da cantora evangélica Lina Luz. A música também foi cantada por Janja e pelo pastor Kleber Lucas em atos eleitorais de São Bernardo do Campo e do Rio de Janeiro, conforme noticiou o Metrópoles.
Na página segmentada, o recurso é aplicado de forma ainda mais direta. Canções e instrumentais religiosos criam o ambiente emocional para peças que associam o voto em Lula ao cuidado com os pobres, à dignidade no trabalho e à obediência a Deus. O perfil não se limita a afirmar que evangélicos podem apoiar o candidato; apresenta a plataforma política do governo como consequência prática da fé.
Outra postagem pediu aos seguidores que continuassem orando pela vida de Lula e, na frase seguinte, comemorou uma pesquisa eleitoral que mostrava o presidente na liderança do primeiro turno. Em outra, a página misturou uma mensagem sobre a proteção de Deus às hashtags #lulapresidente e #lulareeleito2026.
O discurso oficial procura estabelecer uma separação que o material torna difícil sustentar. Ao lançar o comitê nacional, a estrutura de campanha afirmou que pretendia dialogar com a fé sem instrumentalizá-la. A página, ao mesmo tempo, emprega orações, referências bíblicas e música evangélica para convencer o seguidor de que votar em Lula é a escolha compatível com sua identidade cristã.
A contradição já aparecia em 2022. Naquele ano, Lula dizia que religião não entraria em sua pauta política e criticava a transformação de igrejas em palanque. Paralelamente, sua campanha criava uma rede própria de canais religiosos, cadastrava administradores de grupos, distribuía conteúdo segmentado e preparava peças que apresentavam o candidato como defensor dos valores cristãos.
A rede criada para parecer espontânea
A reportagem da Gazeta do Povo de 2022 mostrou que a página fazia parte de um conjunto maior. O site Restitui Brasil e os perfis Evangélicos com Lula adotavam cores, linguagem e identidade distintas da comunicação tradicional do PT. As páginas falavam como movimentos religiosos autônomos, embora tivessem sido formalmente anexadas à candidatura.
Um formulário hospedado na Action Network e ainda acessível em setembro de 2026 ajuda a dimensionar a arquitetura montada. Sob o título Evangélicos com Lula, a página pede nome e telefone do administrador, link de convite do grupo de WhatsApp, e-mail e igreja frequentada. Também solicita autorização para enviar informes da campanha e direciona o usuário à política de privacidade do site lula.com.br. O patrocinador identificado é “E4L”.
Outro trabalho deste autor, também publicado pela Gazeta do Povo, mapeou a rede mais ampla de organizações, coletivos e financiadores que ajudou a formar e conectar o campo evangélico progressista. A prova reunida agora é mais específica: diz respeito a um canal eleitoral cuja vinculação foi assumida pela própria defesa de Lula perante o TSE.
Em 2026, a estratégia ganhou uma estrutura nacional. O PT anunciou a meta de criar mais de mil comitês evangélicos para atuar pela reeleição. O material oficial orienta apoiadores a reunir comunidades, abrir núcleos locais, compartilhar conteúdo em grupos de WhatsApp e relacionar políticas públicas a “valores cristãos”.
A atividade da velha página coincide com esse lançamento, mas sua posição formal continua obscura. A campanha não informou publicamente se o perfil integra o novo Comitê Nacional Evangélicos com Lula, se recebe material da equipe de comunicação, se é administrado por militantes, por uma agência contratada ou por uma estrutura partidária. Também não explicou por que um canal reconhecido como pertencente ao candidato em 2022 opera na eleição de 2026 sem aparecer no registro atual.
A regra que vale para páginas de campanha
As normas eleitorais distinguem a manifestação espontânea de uma pessoa natural dos canais ligados a candidaturas, partidos, federações e coligações. Um eleitor identificado pode defender gratuitamente o candidato em seu próprio perfil. Essa liberdade, porém, não dispensa os canais da estrutura eleitoral das obrigações de transparência.
O artigo 28 da Resolução nº 23.610, atualizado para as eleições de 2026, determina que os endereços preexistentes usados por candidatos e partidos sejam informados no Requerimento de Registro de Candidatura ou no Demonstrativo de Regularidade de Atos Partidários. Perfis criados durante a campanha precisam ser comunicados em até 24 horas.
A alteração aprovada pelo TSE em março acrescentou uma trava específica: um endereço preexistente que não tenha sido informado só pode ser usado em campanha 48 horas depois de seu registro na Justiça Eleitoral. O descumprimento pode levar a multa de R$ 5 mil a R$ 30 mil, ou ao dobro do valor gasto quando a quantia for superior.
A eventual defesa de que Evangélicos com Lula é hoje uma iniciativa privada depende de uma informação até agora não apresentada: quando e de que forma a página deixou de pertencer ao candidato que a registrou. A identidade institucional, o link com lula.com.br, a continuidade da marca, o conteúdo pela reeleição e a coincidência com o plano oficial do PT mantêm a vinculação aparente. Sem prova de transferência e independência operacional, não é possível tratar o perfil como se fosse apenas a página pessoal de um eleitor.
O que dizem os envolvidos
A Investigação enviou pedidos de posicionamento para a campanha de Lula, para o TSE e para as páginas Evangélicos com Lula. Até o momento desta publicação não obtivemos retorno. O espaço permanece aberto para manifestações.
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