Em 24 de setembro de 2026, perfis ligados à militância de Lula transformaram em campanha digital a alegação de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. A história havia começado a circular no X na noite anterior, sem proposta do senador nem manifestação dos evangélicos apontados como interessados na mudança.
O salto de alcance ocorreu na noite de quinta-feira. Maria Cristina Fernandes, jornalista do Valor Econômico, afirmou no Em Pauta, da GloboNews, que uma parcela de evangélicos mobilizava um projeto para alterar a condição da santa e que a reação católica poderia favorecer Lula. O comentário foi recortado e distribuído como confirmação da história. Horas depois, a emissora corrigiu a informação e pediu desculpas.
A retratação não encerrou a ofensiva. No dia seguinte, o comunicador William de Lucca, do ICL, compartilhou uma montagem que imitava uma notícia do G1 e do Jornal Nacional e atribuía a Flávio a intenção de “bombardear o Santuário de Nossa Senhora Aparecida”. “SERÁ VERDADE?”, perguntou de forma cínica. A notícia era fabricada. Outros perfis continuaram a associar o senador a um projeto de lei abandonado havia 18 anos.
A Investigação refez a cronologia. O primeiro post que encontramos no X sobre o voto católico e a suposta ameaça à padroeira foi publicado às 21h50 de 23 de setembro por Jeferson de Oliveira Monteiro, criador do Dilma Bolada. “Católico não vota em nenhum Bolsonaro e nem em nenhum candidato que queira retirar o título de Nossa Senhora Aparecida”, escreveu. Cinco minutos e 38 segundos depois, o perfil WagLegal alegou que representantes evangélicos pressionariam Flávio e que a CNBB já reagira. Não citou pastor, organização ou nota dos bispos.
Jeferson não é um militante ocasional. Na campanha de 2014, a marqueteira Mônica Moura afirmou em delação que lhe entregou R$ 200 mil em espécie para reativar a personagem Dilma Bolada; ele negou a acusação. Em 2023, recebeu um cargo comissionado na Empresa Brasil de Comunicação, também conhecida como TV Lula, e foi exonerado após viajar à Europa sem direito a férias, segundo o então presidente da estatal. Voltou à comunicação de Eduardo Paes no Rio e participou da estratégia digital da reeleição do prefeito em 2024. Não identificamos contrato seu com a campanha presidencial de Lula em 2026. Quem paga, se alguém paga, por sua atuação eleitoral agora?
O percurso do boato lembra o método descrito pelo publicitário americano Ryan Holiday, ex-diretor de marketing da American Apparel, no livro Trust Me, I’m Lying. Holiday contou como forjou memorandos, pichou os próprios outdoors e alimentou blogs com denúncias para levar histórias fabricadas a veículos maiores. Chamou a técnica de trading up the chain: cada degrau usa o anterior como se a apuração já tivesse sido feita.
Neste caso, o material usado para dar corpo à história era autêntico, mas estava arquivado desde 2008: o Projeto de Lei 2.623/2007, de Victório Galli. Pretendia alterar a expressão “Padroeira do Brasil” na lei que institui o feriado de 12 de outubro. Mesmo que tivesse sido aprovado, não poderia cassar o título religioso. Foi o papa Pio XI quem proclamou Nossa Senhora Aparecida padroeira do Brasil em 1930; a lei brasileira dispõe sobre o feriado e menciona a santa nessa condição. O projeto de lei tampouco acabava com o feriado.
Flávio Bolsonaro negou a intenção de mudar o título e divulgou um mapa da circulação do boato. Chamou o conjunto de “rede criminosa” alinhada ao PT. Segundo noticiou Claudio Dantas, sua campanha prepara uma notícia-crime ao Ministério Público Eleitoral para pedir a investigação do caso. Na tarde de 25 de setembro, o ministro André Mendonça, relator do processo no TSE, reconheceu como notoriamente inverídica a narrativa e determinou a remoção de milhares de publicações nas principais plataformas. É a mesma conclusão a que esta reportagem chegou de forma independente, ao reconstituir a cronologia do boato.
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Reportagens como esta têm custo. Além do trabalho de apuração, há toda uma estrutura técnica que permite publicar sem depender de anunciante ou de padrinho político.
Você já sabe o que A Investigação entrega: fizemos o Twitter Files Brasil, a Vaza Toga 2, 4 e 5, o Araponga de Miami, o Radiolão e várias outras investigações que trouxeram à luz o que outros veículos preferiam não ver.
Fazemos isso de forma independente — e independência tem preço.
De Jeferson ao operador no Paraguai
O post de Jeferson transformou a hipótese em orientação de voto. WagLegal procurou dar a ela aparência de informação apurada: escreveu que “representantes de grupos evangélicos” prometiam pressão e que a CNBB intensificara uma campanha após tomar conhecimento da articulação. Nenhum representante foi identificado. Na véspera, o presidente da conferência, dom Jaime Spengler, dissera que a Igreja não declara preferência por candidatos.
O perfil trabalhou para multiplicar o próprio texto. A Investigação encontrou republicações em conversas de outras contas e, depois da retratação da GloboNews, uma sequência em que WagLegal voltou a inserir o material em numerosos fios com intervalos de segundos. Nos stories do Instagram, seu operador apresentou a repercussão na televisão como confirmação e comemorou a entrada do tema entre os assuntos mais comentados.
Identificamos o responsável pela conta como Wagner Fidelis Moreno, apoiador de Lula radicado em Pedro Juan Caballero, no Paraguai. Ele distribuiu repetidamente uma alegação eleitoral brasileira estando fora do país. O nome usado em seu perfil no Instagram coincide com os registros que ligam Wagner à conta no X.
O boato alcançou contas maiores. Uma delas é a de Tauat Augusto da Cunha Resende Oliveira, assessor comissionado da Procuradoria-Geral de Justiça do Rio, designado para prestar assessoramento à 1ª Promotoria Criminal de Barra Mansa, titulada pelo promotor Marcelo Abramovitch. Às 12h47 de 24 de setembro, ele juntou a hipótese de pressão sobre Flávio ao PL de Galli. O número e a imagem de um projeto verdadeiro deram aparência documental ao alerta. Flávio não era o autor e não figura na tramitação.
A proposta foi rejeitada e arquivada em 2008. Tauat mencionou a rejeição no próprio post, mas continuou a apresentar o texto como elemento de uma ameaça atual. Depois, mudou o nome de exibição para “Viva Nossa Senhora da Conceição Aparecida” e chegou a fechar o perfil no X. A versão de que o feriado acabaria nem sequer consta do projeto usado como prova.
Às 12h49, a conta oficial do Dilma Bolada publicou uma imagem da santa pisando uma serpente com a frase “Maria passa na frente e pisa na cabeça da serpente”. O personagem criado por Jeferson entrava na campanha poucas horas depois da postagem feita pelo próprio publicitário. A coluna e o comentário televisivo ainda não tinham sido publicados.
Na tarde de quinta, Vinicius Rodrigues Vieira escreveu no JOTA que havia “rumores” de Flávio atender a uma reivindicação evangélica contra o título de Aparecida. O perfil Otavio (@otavi0XI) descobriu que o link associado ao rumor levava a um post de Tauat; o endereço também consta de uma reprodução da coluna. Ao leitor que encontra a coluna numa busca, o tuíte ganha a autoridade de uma referência publicada pelo JOTA. Se a busca volta a citar o artigo como prova, fecha-se o circuito descrito por Holiday.
Vieira é colunista do JOTA e professor da FAAP, da FGV e do IDP-SP, instituição fundada pelo ministro Gilmar Mendes. Participou do Manhattan Connection com Felipe Moura Brasil e foi ouvido pela Jovem Pan dois dias antes da coluna. Em março, numa análise sobre Flávio nos Estados Unidos, disse que não existe “bolsonarismo moderado” e vinculou o senador à direita internacional de Trump. No artigo sobre Aparecida, afirma que Flávio tende a implantar a “teologia do domínio”. O rumor sobre a santa entra nessa leitura política.
A TV se corrige, mas a campanha continua
Na noite de 24 de setembro, Maria Cristina Fernandes afirmou no Em Pauta que evangélicos mobilizavam um projeto para retirar a condição de padroeira de Aparecida. Ligou o eventual voto católico contra Flávio a uma vantagem para Lula. Ela não atribuiu a Flávio a autoria do projeto de 2007, mas descreveu como articulação presente um movimento cujos representantes não foram identificados. A GloboNews pediu desculpas na madrugada seguinte.
O corte virou uma fonte pronta para circular. O mapa apresentado por Flávio registra pouco mais de 2 mil publicações sobre o tema, de cerca de 1,7 mil contas, no período escolhido por sua equipe; quase 300 mencionam a emissora. Entre os perfis mapeados estão Evangélicos com Lula, Mídia Ninja, 342 Artes e páginas de militância petista. O próprio rodapé do gráfico adverte que as interações observadas não demonstram operação conjunta. O desenho captura sobretudo a onda posterior à televisão.
Depois da correção, Murilo Ribeiro, conhecido como FalaMuka, voltou a exibir o projeto arquivado e escreveu que Flávio estaria comprometido com a medida. Era uma afirmação mais forte que a hipótese inicial de pressão futura. Muka apresenta o Matinal, do Amado Mundo, com Guilherme Amado e Beatriz Bulla e participa do Sem Censura, da TV Brasil.
William de Lucca também publicou sua montagem do suposto bombardeio depois da retratação. O comunicador do ICL escreveu “SERÁ VERDADE?” e respondeu ironicamente quando usuários lhe apontaram a falsidade. O histórico de William acrescenta uma pergunta sobre financiamento. Em 2018, O Intercept Brasil revelou uma operação em que uma agência oferecia dinheiro a influenciadores para publicações políticas, episódio conhecido como Mensalinho do Twitter.
William elogiou Wellington Dias, candidato à reeleição no Piauí, e disse depois ter participado durante um mês de uma ação com ativistas, da qual saíra por discordar da agência. Ainda não sabemos quem pagou, caso tenha havido pagamento, pelos posts sobre Aparecida.
O vice-presidente Geraldo Alckmin disse na sexta-feira que recebera mensagens de católicos preocupados e prometeu proteger as tradições religiosas num governo Lula. A primeira-dama Janja publicou uma fotografia do presidente segurando uma imagem da santa, acompanhada da legenda: “Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, olhai por nós!” Naquele momento, a televisão já havia corrigido a informação que impulsionara a campanha.
De “Jair Maçonaro” à disputa pelos católicos
Uma das contas incluídas no mapa de Flávio é Evangélicos com Lula. Seu nome liga o episódio atual a uma frente digital que A Investigação já examinou. Na eleição de 2022, a campanha de Lula declarou os perfis Evangélicos com Lula ao TSE como endereços do candidato. Em 2026, o canal voltou a pedir votos, mas não constava entre os endereços encontrados no cadastro eleitoral que consultamos. Agora reaparece no gráfico de circulação sobre Aparecida. É um canal eleitoral com atuação identificada em duas disputas religiosas diferentes.
Em 2022, a batalha era pelo voto evangélico. Na reportagem “Jair Maçonaro satanista”, publicada na Gazeta do Povo, mostrei como a visita real de Jair Bolsonaro a uma loja maçônica em 2017 foi recombinada com imagens manipuladas e insinuações sobre satanismo. André Janones participou da exploração eleitoral do tema. Desta vez, o papel do vestígio antigo coube ao PL de Galli: um projeto arquivado transformado em ameaça aos católicos para atingir Flávio.
A disputa não começou com Aparecida. Na reportagem “Lula vai à guerra”, revelamos como grupos, conteúdos e influenciadores foram organizados em torno do Pode Espalhar. O PT e a Fundação Perseu Abramo anunciaram a iniciativa, com curadoria e produção em parceria. Em outra investigação, identificamos empresas e recursos empregados em campanhas digitais que reuniram PT e PSOL. E documentamos um grupo pró-Lula instruindo participantes a reproduzir o mesmo comentário contra Flávio, seguido de respostas que obedeciam à orientação.
Na mesma semana do boato sobre Aparecida, circulou um vídeo apresentado por Fábio Porchat sobre a Lagoinha, o Banco Master e a política. Mídia Ninja e 342 Artes participaram de sua distribuição e aparecem no mapa posterior divulgado por Flávio. O conteúdo do vídeo era outro, mas a coincidência de canais revela o esforço daquela semana para disputar a atenção de eleitores cristãos.
Resta seguir o dinheiro. Quem produziu a história sobre uma suposta pressão de pastores e reação da CNBB? Há contratos de Jeferson, Wagner ou dos perfis que distribuíram cards e cortes em 2026? Quem manteve a circulação depois da retratação? A campanha de Flávio anunciou uma medida para pedir investigação eleitoral. Os horários, os posts, o link descoberto por Otavio e a distribuição posterior à televisão oferecem um caminho concreto para apurar essas perguntas.
A reação de Flávio e a decisão do TSE
Enquanto esta reportagem era fechada, o caso chegou ao TSE. Em 25 de setembro, o ministro André Mendonça ampliou a tutela na Representação 0602260-84.2026.6.00.0000 e classificou como “notoriamente inverídica” a afirmação de que Flávio ou a família propôs, apoiou ou articulou a retirada de Nossa Senhora Aparecida da condição de padroeira. É o mesmo núcleo a que A Investigação chegou, por conta própria, ao reconstruir a origem e a circulação do boato.
A campanha juntou ao processo 2.086 publicações, de 1.674 contas, vistas mais de 21 milhões de vezes. Segundo os autos, 1.301 peças novas surgiram depois da correção da GloboNews. Mendonça concluiu que a história deixara de ser um post isolado e virara replicação em massa, em várias plataformas.
Mandou X, Facebook, Instagram, TikTok e YouTube retirar as URLs listadas e qualquer cópia idêntica ou substancialmente equivalente — sem ordem nova para cada clone. Determinou a preservação de dados de alcance, compartilhamento e impulsionamento e deu 48 horas para as empresas informarem quantos conteúdos saíram do ar. Multa de R$ 50 mil por dia, por provedor. Fora da ordem: reportagem, crítica, sátira, opinião e desmentido que não apresentem aquela acusação como fato.
No mesmo dia a campanha protocolou notícia-crime na Procuradoria-Geral Eleitoral. A peça nomeia Jeferson de Oliveira Monteiro e Wagner Fidelis Moreno — as mesmas identidades que localizamos no começo da escada — e inclui Elias Pereira Freitas da Silva Júnior, Jean Wyllys, Leonel Querino e o deputado Rogério Correia (PT-MG), vice-líder do governo na Câmara. Os advogados pedem a X e à Meta cadastro e IP de dezenas de contas. Isso pode abrir os perfis que ainda operam no escuro.
A reação foi escandalosa. A defesa de Antonio Tabet, alvo da primeira ordem, falou em “censura” e anunciou recurso. O Diário do Centro do Mundo usou a mesma palavra. Leonardo Sakamoto, no UOL, também. O texto de Mendonça, porém, não manda calar Nossa Senhora nem o debate religioso: veda só o fato inventado. Quem agora grita censura passou anos aplaudindo o derrube de perfis inteiros sob a relatoria de Alexandre de Moraes.
O TSE resolveu, por ora, uma questão desta reportagem: a associação de Flávio à cassação do título é falsa. Restam as que importam para a apuração. Quem escreveu a fábula dos pastores e da CNBB? Houve caixa para espalhar o card? Os registros que Mendonça mandou guardar são o caminho para responder.
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