Neste domingo, 27, exatamente uma semana antes do primeiro turno das eleições de 2026, Lula usou a morte de mulher em um vídeo de campanha para justificar a proibição das bets. Na gravação publicada pelo perfil oficial do presidente, Jéssica Lobo, irmã de Ângela Maria Camilo da Paz, relata como o vício em jogos destruiu a vida financeira da irmã.
“Essa história é mais uma das que me motivaram a dar um fim para as BETS no Brasil”, escreveu o presidente. “Por trás das promessas de dinheiro fácil, existiam vidas sendo destruídas.”
A peça foi publicada dois dias depois de Lula assinar a Medida Provisória 1.394, que extingue em 30 dias as autorizações concedidas às bets, proíbe os jogos on-line e impede a devolução das outorgas. O combate às apostas havia sido colocado no centro da campanha à reeleição de Lula, com propaganda na televisão, vídeos para as redes e depoimentos de pessoas atingidas pelo vício.
A cronologia desmonta a encenação eleitoreira. Ângela morreu em 12 de dezembro de 2023, depois de acumular R$ 500 mil em dívidas em jogos de cassino da Blaze. No mesmo dia de sua morte, o Senado aprovou por 37 votos a 27 uma emenda de Carlos Portinho (PL-RJ) que retirava os cassinos on-line do projeto das bets. O senador queria limitar a lei a eventos reais e argumentou que o jogo virtual emprega fora do país e se presta mais à manipulação. O PT e o governo orientaram voto contrário.
Jaques Wagner, então líder do governo, disse que o Planalto não estava “criando nem autorizando”, mas “regulamentando” os jogos. Nove dias depois, na madrugada de 22 de dezembro, a Câmara restabeleceu os cassinos virtuais por 261 votos a 120. O relator Adolfo Viana (PSDB-BA) afirmou que excluí-los “acabaria com o projeto”; a Fazenda calculava perda de cerca de 70% da arrecadação prevista. A bancada evangélica obstruiu a sessão, pediu adiamento e tentou manter o corte do Senado. Perdeu. Nenhum dos 58 deputados petistas presentes votou para barrá-los.
Em 29 de dezembro, Lula sancionou a lei que autorizou jogos definidos por geradores aleatórios, como Crash, Double e caça-níqueis virtuais. Os mesmos que levaram à morte de Ângela duas semanas antes. E os mesmos que seu governo lutou para manter.
Assim, o governo Lula licenciou 85 empresas e cobrou R$ 30 milhões de cada uma por autorizações de cinco anos. Só em 2025, as bets renderam R$ 12,2 bilhões em tributos federais; as outorgas somaram R$ 2,55 bilhões. Agora, sem devolver o dinheiro das licenças, Lula explora a morte de uma cliente da Blaze para posar de inimigo do setor que seu governo ajudou a consolidar.
A Investigação analisou as 27 páginas do processo de autorização da Foggo Entertainment — operadora da Blaze e da Jonbet no Brasil — e cruzou os documentos com registros da Receita e arquivos de Curaçao revelados pela Follow the Money. A apuração mostrou que a Foggo e a antiga operadora da Blaze terminam nos mesmos dois donos estrangeiros: Nick van Gorsel e Nicholas Beugg. Quatro meses depois da licença, a Prolific Trade N.V. entrou na cadeia societária brasileira.
Van Gorsel declarou € 800 milhões — cerca de R$ 4,7 bilhões — e Beugg, € 500 milhões — aproximadamente R$ 3 bilhões. Ou seja, disseram possuir juntos R$ 7,7 bilhões. No Brasil, o governo Lula considerou suficiente, para cumprir a exigência de um sócio nacional, uma empresa de R$ 10 mil controlada do exterior. A área técnica da Fazenda afirmou que não conseguia avaliar a origem dos R$ 35 milhões da Foggo; a SPA depois aprovou o capital pela “presunção de veracidade”.
Foi essa decisão administrativa do governo Lula que abriu o mercado brasileiro à Blaze. A Fazenda recebeu R$ 30 milhões pela outorga — pagos exatamente no primeiro aniversário da morte de Ângela — e concedeu à Foggo uma licença de cinco anos.
Antes disso, o governo manteve os processos das bets sob sigilo de até cem anos. Após pressão da sociedade, abriu apenas parte dos arquivos, ainda com extensas tarjas de censura. As 27 páginas da Foggo integram o lote que embasou a série Bet Files de A Investigação.
Em 2023, A Investigação já havia documentado famílias arruinadas, apostadores endividados e a falta de transparência da Blaze. As denúncias precederam a lei e o processo que, sob Lula, transformaram a plataforma antes operada de Curaçao em uma empresa licenciada pela União.
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A morte que virou argumento eleitoral
Ângela tinha 39 anos, era mãe de três filhos e administrava as finanças da família em Missão Velha, no Ceará. Segundo Jéssica, ela contraiu mais de R$ 500 mil em empréstimos e dívidas de cartão.
A família só descobriu a dimensão do vício depois da morte. Em 12 de abril de 2024, o UOL relatou que Ângela fazia depósitos diários no Crash, conhecido como “jogo do aviãozinho”, e no Fortune Double. Os dois jogos eram oferecidos pela Blaze. No celular, a família encontrou 55 páginas de depósitos, com cerca de 40 operações em cada uma. Procurada naquela ocasião, a empresa não respondeu.
Jéssica passou a organizar grupos de apoio para pessoas atingidas pelo vício. Em julho de 2026, ao depor no Senado, contou que a irmã havia sido tratada pela casa como cliente VIP, acreditava ter descoberto um método para ganhar e continuou depositando até o dia da morte. Disse também que Ângela deixou um áudio para a plataforma avisando que morreria e que pretendia alertar outras pessoas.
O caso não surgiu nesta campanha. A morte ocorreu em 2023 e a história ganhou repercussão nacional em abril de 2024. Nos dois anos seguintes, a administração Lula concluiu a regulamentação, cobrou a outorga e manteve a Blaze na lista de empresas autorizadas. Em 25 de setembro de 2026, o presidente proibiu o setor; dois dias depois, transformou o relato de Jéssica em material eleitoral.
A Folha de S.Paulo já havia informado que a Secretaria de Comunicação defendia uma medida mais drástica para recuperar popularidade, enquanto a Fazenda alertava para a perda de arrecadação.
A Blaze já era denunciada antes da lei de Lula
Em 8 de setembro de 2023, A Investigação publicou a reportagem “Da euforia à ruína”, assinada por Rachel Diaz. O texto mostrou pessoas que perderam economias, patrimônio e relações familiares em cassinos on-line. Uma das entrevistadas calculava ter perdido R$ 50 mil na Blaze, havia contraído dívidas com agiotas e tentado tirar a própria vida três vezes.
A reportagem mostrou ainda que a empresa promovida no Brasil por celebridades não identificava donos, funcionários ou representante formal no país. A Blaze alcançava milhões de brasileiros a partir de uma estrutura hospedada no exterior, enquanto consumidores enfrentavam dificuldades para descobrir quem deveria responder pela plataforma.
Quatro meses antes, em maio de 2023, Daniel Penin havia publicado o vídeo “Blaze — Tire dos pobres e dê aos influencers”. Ele seguiu os rastros corporativos até a Prolific Trade N.V., sediada em Curaçao, mas terminou a apuração sem conseguir associar pessoas físicas ao emaranhado de empresas.
Entre os alvos centrais de Penin estava o YouTuber Felipe Neto, que havia feito campanha para Lula em 2022. Em janeiro de 2023, o influenciador anunciou a Blaze como possibilidade de “renda extra”. Diante da repercussão negativa, disse que o texto fora enviado pelo marketing, pediu desculpas e, mais tarde, encerrou a parceria. Penin sustentava que os divulgadores davam credibilidade a uma empresa de donos ocultos e poderiam receber comissões ligadas às perdas dos seguidores. A piauí relatou que Felipe passou a criticar esse tipo de publicidade.
Na mesma época, o influenciador Daniel Scott viajou ao endereço informado pela Blaze em Curaçao. Não encontrou escritório, funcionários ou qualquer instalação identificada como sede do cassino. O endereço o levou à Trustmoore, empresa que prestava serviços corporativos na ilha. A Blaze respondeu depois que ele deveria ter atravessado a rua.
Em 2023, descobrir quem controlava a Blaze e quem responderia por ela no Brasil havia se tornado uma das principais perguntas sobre a plataforma. A própria empresa se recusou a divulgar os donos e afirmou que a atenção dada às pessoas por trás do negócio desviava o foco da qualidade e da segurança dos jogos. Três anos depois, os arquivos de Curaçao permitiram associar a Prolific Trade a van Gorsel e Beugg.
As dúvidas que cercavam a estrutura da Blaze em 2023 não impediram a entrada da empresa no mercado regulamentado. O governo Lula criou as regras que permitiram à operadora obter uma licença federal.
Depois das denúncias, Lula regulamentou os cassinos on-line
A origem legal das apostas esportivas de quota fixa remonta ao governo Michel Temer, em 2018. Foi no governo Lula, porém, que a legislação passou a admitir expressamente os jogos on-line definidos por gerador aleatório — a base de produtos como Crash, Double, roletas e caça-níqueis virtuais.
Não foi criada uma segunda modalidade: ampliou-se o objeto da mesma quota fixa. No esporte, o resultado depende de um evento real e externo — o jogo, o gol, o placar. No cassino on-line, nasce dentro do sistema, por um gerador de números, símbolos ou figuras. A diferença está no que decide a sorte: o campo ou o algoritmo.
Para o apostador, esse gerador funciona como uma caixa-preta: ele vê o resultado, não o código que determina a rodada. Em jogos resolvidos em segundos, a próxima aposta está sempre a um clique. Foi nesse tipo de produto — o Crash e o Fortune Double da Blaze — que Ângela acumulou as dívidas descritas pela família.
Em 19 de dezembro de 2023, uma semana depois da morte de Ângela, foi aberta em São Paulo a Purple & Green Ltda. A empresa tinha capital social de apenas R$ 10 mil e depois se tornaria a peça brasileira usada na estrutura de controle da Blaze.
Dez dias depois, em 29 de dezembro, Lula sancionou a Lei 14.790. O texto permitiu que as apostas tivessem como objeto tanto eventos esportivos quanto “eventos virtuais de jogos on-line”. Também entregou ao Ministério da Fazenda o poder de autorizar as empresas em ambiente concorrencial, sem limite máximo de operadores, por até cinco anos. Em 21 de maio de 2024, pouco mais de um mês depois da publicação nacional do caso de Ângela, a Fazenda editou a Portaria 827 e abriu o processo de autorização. Em 29 de julho, a Portaria 1.207 estabeleceu os requisitos técnicos para o funcionamento e a homologação dos jogos on-line.
Em 9 de agosto de 2024, nasceu a Foggo Entertainment Ltda., com capital declarado de R$ 35 milhões. A empresa recém-criada apresentou o requerimento SIGAP 0053/2024 para operar as marcas Blaze e Jonbet. O governo desenhou o filtro, definiu a licença, cobrou a entrada e escolheu quais cassinos poderiam operar legalmente no país. A Blaze foi um deles.
O labirinto cromático da Blaze
O processo oficial entregue à Fazenda revela uma cadeia societária que parece ter saído de uma paleta de cores. A Foggo era controlada pela Purple & Green Ltda., registrada no Brasil. A dona da Purple & Green era a Red & Blue Ltd., da Ilha de Man. Acima dela, o capital se dividia igualmente entre a Black & White Ltd., também da Ilha de Man, e a Beugg Family Office LLC, de Porto Rico.
No fim da pirâmide estavam o holandês Nick van Gorsel e o norte-americano Nicholas Beugg, com 50% cada. Nenhuma pessoa física brasileira aparecia entre os beneficiários finais apresentados à Fazenda.
A lei sancionada por Lula exigia “brasileiro como sócio detentor de ao menos 20% do capital social”. A Secretaria de Prêmios e Apostas considerou o requisito cumprido porque a sócia direta da Foggo, Purple & Green, tinha CNPJ brasileiro. O fato de ela ser integralmente controlada por uma empresa da Ilha de Man e terminar nas mãos de dois estrangeiros não impediu a aprovação.
O elemento brasileiro existia apenas na primeira camada da estrutura; o controle permanecia no exterior. Foi esse mecanismo que a primeira reportagem da série Bet Files revelou: grupos estrangeiros conseguiram satisfazer formalmente a exigência legal por meio de sociedades abertas no Brasil, ainda que os beneficiários finais e o comando econômico permanecessem fora do país.
No caso da Blaze, a sequência colorida serviu para colocar uma empresa brasileira entre a operadora e seus donos estrangeiros.
Os donos da Blaze aparecem nos arquivos de Curaçao
A cadeia apresentada durante o licenciamento não permaneceu igual. Dados da Receita Federal, reproduzidos pelo site CNPJá, registram que a Prolific Trade N.V. ingressou em 17 de julho de 2025 como sócia estrangeira da Purple & Green. A mudança ocorreu pouco mais de quatro meses depois de o governo conceder a autorização definitiva à Foggo.
Era a mesma Prolific Trade encontrada por Daniel Penin em Curaçao em 2023 e que, antes da regulamentação brasileira, enviava notificações em nome da Blaze e aparecia como responsável pela operação do cassino. Durante o licenciamento, a rota apresentada ao governo era Foggo, Purple & Green, Red & Blue, Black & White e Beugg Family Office. Depois da licença, o cadastro brasileiro passou a mostrar uma sequência mais curta: Foggo, Purple & Green e Prolific Trade.
O elo que faltava em 2023 apareceu em 22 de setembro de 2026. A organização jornalística Follow the Money publicou uma investigação baseada em dezenas de milhares de documentos retirados do sistema da autoridade de jogos de Curaçao. O material expôs cerca de 800 proprietários de quase 650 empresas licenciadas na ilha.
Os arquivos identificam Nick van Gorsel e Nicholas Beugg como os dois donos da Prolific Trade. São os mesmos beneficiários finais, com 50% cada um, apresentados no processo aprovado pelo Ministério da Fazenda. O vazamento confirmou por uma fonte independente os nomes que apareciam no processo brasileiro mantido sob sigilo e depois liberado com tarjas.
Van Gorsel declarou € 800 milhões — cerca de R$ 4,7 bilhões — e Beugg, € 500 milhões — aproximadamente R$ 3 bilhões. Juntos, disseram possuir € 1,3 bilhão, ou R$ 7,7 bilhões. Nenhum dos dois respondeu às perguntas enviadas pela Follow the Money.
Os documentos de Curaçao, o processo da SPA e o cadastro da Receita contam partes diferentes da mesma história. O vazamento identifica os donos da Prolific; o processo brasileiro coloca os mesmos dois homens no fim da cadeia de holdings coloridas; e o cadastro mostra a velha operadora caribenha entrando na estrutura brasileira depois da licença. A Foggo não rompeu com a operação anterior da Blaze: tornou-se a face licenciada de uma cadeia que continuou sob o mesmo controle.
A escala do patrimônio declarado no exterior também contrasta com os documentos brasileiros. Os dois donos afirmaram possuir € 1,3 bilhão, enquanto a empresa apresentada como sócia brasileira tinha R$ 10 mil de capital. A Foggo declarou R$ 35 milhões, mas a própria equipe técnica da Fazenda concluiu inicialmente que não conseguia avaliar a origem desses recursos.
A origem do capital e os R$ 30 milhões da licença
A ressalva sobre o capital apareceu no Parecer Técnico 1145, de 27 de dezembro de 2024. A equipe concluiu que a documentação “não permite avaliar a origem dos recursos que compõem o capital social” da Foggo, pediu nova complementação e recomendou suspender o processo de autorização.
Três dias depois, a Foggo apareceu na lista de empresas autorizadas provisoriamente pela Portaria 2.104, com as marcas Blaze e Jonbet. Em 25 de fevereiro de 2025, o Parecer Técnico 355 mudou o resultado. A Secretaria de Prêmios e Apostas afirmou que o procedimento não tinha natureza fiscalizatória e que o órgão não possuía competência de investigação policial, judicial ou fiscal. Depois da entrega de documentos complementares, concluiu que não havia encontrado elementos capazes de “afastar a presunção de veracidade legal atribuída ao declarante quanto à origem dos recursos”.
A secretaria aprovou a origem do capital sem investigação policial, judicial ou fiscal. Aceitou as declarações porque não encontrou elementos para afastar a presunção de veracidade dos documentos apresentados pelos interessados. Em 10 de março de 2025, a Portaria 471 concedeu a autorização definitiva. A lista oficial da Fazenda identifica a Foggo, o CNPJ 56.431.248/0001-61 e as marcas Blaze e Jonbet.
Antes da licença, a Foggo precisou pagar a outorga. O comprovante analisado pela Fazenda registra o recolhimento de R$ 30 milhões em 12 de dezembro de 2024, exatamente no primeiro aniversário da morte de Ângela. Enquanto a família completava um ano da tragédia associada aos jogos da Blaze, a empresa entregava ao governo o pagamento que abriria o caminho para operar legalmente no mercado brasileiro. A autorização provisória veio 18 dias depois; a definitiva, em março.
Agora, a Medida Provisória 1.394, assinada por Lula em 25 de setembro de 2026, extingue as autorizações em 30 dias e determina que não haverá devolução total ou parcial das outorgas nem indenização pelo poder público. O texto produz efeitos desde a publicação, mas ainda precisa ser aprovado pelo Congresso para não perder a validade.
Segundo o próprio governo, 85 autorizações renderam R$ 2,55 bilhões aos cofres federais. As licenças foram cobradas para um período de cinco anos. O governo agora encerra o mercado antes do prazo e diz que ficará com o valor integral. As empresas já anunciaram que pretendem discutir a devolução na Justiça. A cláusula escrita por Lula tenta impedir o reembolso, mas a questão ainda será disputada com o dinheiro já nos cofres públicos.
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