Documentos que o Ministério da Fazenda tornou públicos em 13 de agosto mostram que a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) autorizou a 1xBet a operar no Brasil sem registrar, nos pareceres que fundamentaram a decisão, o resultado de uma verificação que o próprio órgão havia considerado necessária. A exigência era identificar os donos da empresa cipriota apresentada como proprietária da marca e comprovar que eles não tinham relação com os três fundadores russos da casa de apostas.
Os pareceres só se tornaram públicos depois de o Ministério da Fazenda negar o acesso a eles pela Lei de Acesso à Informação e invocar a regra que protege informações pessoais por até cem anos. A negativa, que impedia inclusive a divulgação de trechos não sigilosos, gerou forte repercussão. No dia seguinte à revelação do caso, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, anunciou uma força-tarefa com a Controladoria-Geral da União para rever a postura e prometeu a liberação dos processos já concluídos.
Segundo a documentação agora divulgada, em 7 de fevereiro de 2025 o coordenador-geral de Autorização de Apostas da SPA, André Luiz Gonçalves Garcia, reverteu o indeferimento inicial do pedido da Defy Ltda. e determinou que a empresa comprovasse a vigência do contrato de cessão da marca e a ausência de vínculos entre os sócios da Navasard Limited e Roman Semiokhin, Dimitri Kazorin e Sergey Karshkov. A nota técnica afirma que essa documentação era necessária para a “correta instrução do processo”.
Navasard e os fundadores não voltam a ser citados. Nos meses seguintes, a SPA analisou a composição societária da Defy, a idoneidade dos responsáveis, a origem dos recursos e o pagamento da outorga de R$ 30 milhões. Em 16 de julho, declarou cumpridas todas as exigências legais e regulamentares. Treze dias depois, a Portaria SPA/MF nº 1.666 autorizou a empresa a explorar a marca 1xBet por cinco anos. Em maio, o Estadão revelou que a 1xBet recebeu o aval do governo Lula depois de continuar aceitando apostas sem licença e de negar, em ações de consumidores, relação com sites ligados à marca.
A ausência não prova que a Defy tenha deixado de entregar os documentos. A Fazenda ressalva que publicou versões preparadas para divulgação e que os originais permanecem nos processos administrativos. O que se pode afirmar é que a prova não foi tornada pública, a diligência não foi descrita e os pareceres finais não explicam como a condição foi superada.
A reportagem anterior desta série mostrou como a Fazenda aceitou participações brasileiras sem direito a voto e empresas nacionais controladas por estrangeiros para cumprir a exigência legal de 20% de capital brasileiro. Na Defy, os arquivos não indicam que a participação de Carlos Eduardo Ferreira, sócio brasileiro com 20%, tivesse restrição de voto. O ponto específico da 1xBet é a barreira de segurança criada depois do relatório da PF — e a falta de registro público sobre seu cumprimento.
O silêncio recai sobre uma marca submetida a restrições em vários mercados. Em 2023, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky incluiu empresas associadas à 1xBet e seus fundadores em uma lista de sanções, sob suspeita de apoio financeiro à Rússia. A empresa deixou o mercado britânico em 2019, quando a plataforma que a hospedava sob licença suspendeu o site após investigação do Sunday Times e apuração do regulador, e é proibida ou bloqueada em países como França, Estados Unidos e Austrália. Corentin Segalen, presidente do Grupo de Copenhague — braço da Convenção de Macolin, à qual o Brasil aderiu em setembro —, chamou a companhia de “Grupo Wagner das apostas esportivas” em entrevista ao Byline Times.
Relatórios privados vão além. A Callisto Research estimou movimentação global de US$ 2 bilhões por ano e classificou a 1xBet como provavelmente o maior esquema de apostas ilegais do mundo em receitas; o documento reproduz investigação do Bellingcat segundo a qual a rede transmite até 1,2 mil eventos esportivos falsos por dia, alguns com crianças, na Ucrânia e em Belarus. Outro levantamento, da Muddy Waters Research, afirma que os fundadores são procurados na própria Rússia por organizar jogos de azar ilegais. Foram esses antecedentes, somados a um alerta da Polícia Federal, que levaram a SPA a criar a barreira de segurança que depois desapareceu dos autos.
Os três nomes que a SPA mandou checar
A determinação de fevereiro não citou os nomes por acaso. Semiokhin, Kazorin e Karshkov criaram a 1xBet em 2007 em Bryansk, cidade russa próxima à fronteira com a Ucrânia. Em agosto de 2020, a filial regional do Comitê Investigativo da Rússia os apontou como suspeitos de organizar e explorar jogos de azar sem licença e os incluiu na lista de procurados internacionais. Segundo a investigação, entre outubro de 2014 e maio de 2019 o grupo obteve receita superior a 63 bilhões de rublos, cerca de US$ 860 milhões na cotação da época.
Semiokhin, tratado pelos investigadores russos como o chefe da operação, e Kazorin obtiveram cidadania cipriota pelo antigo programa de passaporte dourado e passaram a viver na ilha — o mesmo país onde estão registradas a Lutum, controladora da Defy, e a Navasard, apontada como dona da marca. Karshkov era major da polícia russa e chefiou em Bryansk o setor de combate a crimes cibernéticos do Ministério do Interior. Morreu em junho de 2023, aos 42 anos, na Suíça, durante um exame de imagem.
Em 14 de março de 2025 — cinco semanas depois de a SPA fixar a exigência e quatro meses antes de conceder a licença —, um tribunal de Moscou bloqueou bens avaliados em mais de 61 bilhões de rublos no processo contra Semiokhin, que continua em busca internacional. Segundo a acusação, ele transferiu à empresa da mulher de seu pai a fatia de quase 88% que detinha na companhia originalmente chamada Bookmaker Pub, embrião da 1xBet, para escapar do bloqueio.
Nada disso aparece nos pareceres brasileiros. A própria nota técnica de fevereiro trata como hipótese um fato público desde 2023: ao mandar checar os vínculos com os três fundadores, o coordenador escreveu que Karshkov estaria “aparentemente já falecido”.
O alerta da PF e o primeiro veto
O Requerimento SIGAP nº 0104/2024 foi apresentado em 20 de agosto de 2024. A análise de idoneidade coube conjuntamente à Subsecretaria de Autorização e à Subsecretaria de Monitoramento e Fiscalização, que fez exame complementar em fontes abertas e oficiais com o objetivo declarado de identificar indícios de lavagem de dinheiro e de crimes correlatos. Foi essa unidade que consultou a Diretoria de Combate ao Crime Organizado da Polícia Federal sobre dados existentes na PF e na Interpol a respeito de supostas práticas delituosas relacionadas à requerente.
A PF respondeu com um Relatório de Informação cujo número e cujo conteúdo aparecem cobertos por tarja preta na versão publicada — uma mancha que ocupa quase uma página inteira. O trecho visível registra apenas que havia informações sobre “supostas práticas delituosas relacionadas com a requerente”. Também está tarjado o item em que a subsecretaria descreve o que o exame complementar identificou antes de recomendar, pelo Despacho SEI nº 46720134, a não aprovação da idoneidade.
Em 27 de dezembro de 2024, a Coordenação-Geral de Autorização de Apostas acolheu a recomendação e indeferiu o pedido, invocando o caráter discricionário da licença, o interesse nacional, a proteção da coletividade e o dever de cautela do gestor público diante de indícios de atos ilícitos.
A Defy recorreu em 8 de janeiro de 2025. Alegou que investigações sem decisão definitiva não poderiam impedir a autorização e que não mantinha relação societária com as pessoas mencionadas pela PF. Informou que Carlos Eduardo Ferreira detinha 20% do capital e que os outros 80% pertenciam à Lutum Limited, do Chipre. Documentos traduzidos e apostilados apontavam a ucraniana Olena Hanych como única proprietária da Lutum e beneficiária final indireta da operação brasileira.
O recurso foi instruído com informação privilegiada: a coordenação-geral havia dado à empresa ciência dos “principais trechos” do relatório da Polícia Federal, para garantir o contraditório. A Defy sabe, portanto, o que está sob a tarja. O público, não.
Carlos Eduardo acumulava as funções de sócio, administrador e representante da controladora cipriota no Brasil — nos documentos da SPA, ele aparece simultaneamente como detentor de 20% e como procurador dos 80% da Lutum. A nota que julgou o recurso registrou “indícios de incapacidade econômico-financeira do sócio brasileiro”, mas considerou que a dúvida deveria ser examinada na etapa de origem dos recursos, e não usada para manter o veto por falta de idoneidade.
A condição sobre a Navasard e o erro da SPA
Para explicar o uso da marca, a Defy afirmou que a 1xBet fora fundada por Semiokhin, Kazorin e Karshkov, mas posteriormente adquirida pela Navasard. A relação entre Lutum e Navasard seria apenas comercial, restrita ao contrato que permitia explorar o nome e a identidade visual no Brasil. Cabia à SPA verificar a versão nos termos que ela própria fixou.
André Garcia aceitou os documentos que identificavam Olena Hanych como dona da Lutum e julgou procedente o recurso. Ao registrar essa conclusão, anotou que a estrutura societária da Defy era o “objeto das principais preocupações externadas pela Polícia Federal”. A decisão, porém, não parou nessa cadeia: no item 11 da Nota Técnica SEI nº 496/2025/MF, o coordenador determinou que a empresa provasse a vigência do contrato entre Lutum e Navasard e demonstrasse que os sócios da licenciadora não tinham relação com os fundadores russos.
A conclusão da nota contém um erro material. Ao listar o que deveria ser apresentado antes da continuidade do processo, Garcia remeteu às “informações de que trata o item 10” — item que aborda apenas os documentos sobre a propriedade da Lutum, e que a própria nota considera já entregues. A exigência sobre a Navasard está no item 11.
Lida literalmente, a conclusão mandava a empresa indicar papéis que a nota acabara de dar por apresentados. Se a intenção era remeter ao item 11, a Defy ainda precisava identificar os donos da Navasard, afastar a conexão com os três fundadores e comprovar o contrato de cessão. Os pareceres posteriores não esclarecem qual leitura prevaleceu.
Nada indica que o erro tenha provocado o abandono da diligência — inconsistências formais aparecem em outros pontos do mesmo processo. O parecer de habilitação jurídica, por exemplo, registra datas divergentes para a 8ª alteração do contrato social, ato pelo qual a Defy nomeou um diretor de Integridade e Compliance e um diretor Contábil e Financeiro entre o indeferimento e o recurso: fala em registro na Junta Comercial do Rio Grande do Sul em 26 de dezembro de 2024 e, adiante, em alteração ocorrida em 7 de janeiro de 2025.
O que a remissão equivocada fez foi tornar ambígua a única checagem dirigida à empresa que cedia a marca. Identificar Olena Hanych respondia quem controlava a Defy por meio da Lutum; identificar os sócios da Navasard esclareceria quem está por trás da marca russa licenciada para uso no Brasil. São cadeias distintas, e o fato de a Navasard não integrar o quadro societário da Defy explica por que ela não apareceria numa análise padronizada de beneficiário final — mas não dispensa a diligência específica criada pela SPA.
Da exigência à licença
O primeiro parecer posterior ao recurso foi assinado em 4 de abril de 2025 e tratou da habilitação jurídica. Descreveu a divisão do capital entre Carlos Eduardo Ferreira e a Lutum, identificou Hanych como beneficiária final e relacionou administradores e instituições financeiras cadastradas. Não mencionou a Navasard, o contrato de cessão ou os fundadores.
Em 12 de maio, o parecer de idoneidade examinou declarações de reputação ilibada, certidões da Controladoria-Geral da União e do Tribunal de Contas da União e antecedentes criminais expedidos pela Polícia Federal e pelas polícias civis. Concluiu que os requisitos estavam atendidos sem citar uma única vez o relatório policial que havia motivado o indeferimento cinco meses antes. A Navasard também não aparece ali, nem nas análises de origem dos recursos, pagamento da outorga e reserva financeira.
A Defy pagou a outorga de R$ 30 milhões em 13 de junho. Na Nota Técnica nº 2.915, de 16 de julho, a SPA declarou cumpridas “todas as exigências legais e regulamentares” e recomendou a autorização do domínio 1xbet.bet.br. A portaria saiu em 29 de julho. A nota final não leva a assinatura de André Garcia: foi firmada pelo coordenador-geral substituto, Emerson Luiz Gazzoli, e pela subsecretária de Autorização, Daniela Olimpio de Oliveira. Antes dela, o pedido passou também pela anuência do Ministério do Esporte, prevista na Portaria Interministerial nº 28/2024.
Um detalhe da tramitação ajuda a entender, sem resolver, o desaparecimento da exigência: a condição do item 11 foi fixada no processo SEI do recurso, enquanto a autorização foi concluída em outro processo SEI, aberto ainda em 2024. Mas a nota de fevereiro mandou apresentar as informações “previamente à continuidade do Processo”, e a nota final afirma que tudo foi cumprido. Nenhuma das duas remete a qualquer diligência sobre a Navasard.
O salto documental também não era inevitável. No processo da DigiPlus Brazil Interactive, ao considerar incompleta a identificação da cadeia societária, a SPA pediu documentos adicionais e depois registrou o controlador indireto encontrado nas Filipinas. Os casos não são idênticos — na DigiPlus, a dúvida atingia a própria operadora; na Defy, a Navasard aparecia como licenciadora da marca. A comparação mostra que a secretaria sabia cobrar complementação e registrar o resultado. No processo da 1xBet, publicou o risco, a exigência e a licença, sem a etapa que deveria ligá-los.
O alerta financeiro que terminou sob tarja
A segunda pendência aberta pela nota de fevereiro teve destino semelhante. Ao afastar o veto, Garcia registrou os “indícios de incapacidade econômico-financeira do sócio brasileiro” e transferiu o exame para a fase de origem dos recursos, por entender que a matéria transcendia a idoneidade.
Os documentos públicos mostram como a Defy chegou à composição atual. Pela 4ª alteração do contrato social, de 9 de abril de 2024, a Lutum cedeu a Carlos Eduardo Ferreira cotas no valor de R$ 62,7 mil; o capital total da empresa era então de R$ 330 mil, dos quais R$ 66 mil ficaram com o sócio brasileiro. Para obter a licença, a Defy precisaria integralizar capital social de R$ 30 milhões e comprovar patrimônio líquido do mesmo valor.
O parecer que examinou esse ponto foi assinado em 16 de julho de 2025, o mesmo dia da nota que recomendou a autorização. Nele, o relatório com os nomes de quem aportou recursos, os valores integralizados por cada um e a descrição da origem de cada aporte — precisamente os dados que a SPA exigira pelo Informe SPA nº 0002/2024 — aparece integralmente coberto por tarja preta, assim como os documentos complementares e a declaração de origem lícita. Resta a conclusão padronizada: a análise não identificou “elementos capazes de afastar a presunção de veracidade legal” do que foi declarado.
O mesmo parecer adverte que a SPA não tem natureza fiscalizatória nem as competências de investigação atribuídas às autoridades policiais, judiciais ou fiscais. A ressalva se repete nos processos de outras bets. Na Defy, ela encerrou uma dúvida que a própria secretaria havia levantado por escrito.
A operação clandestina que antecedeu a autorização
A cautela adotada pela SPA em dezembro de 2024 não era abstrata. Reportagem do Estadão publicada em 17 de maio de 2026 mostrou que a 1xBet continuou recebendo apostas de brasileiros no início de 2025, já sob o mercado regulado e sem licença definitiva, enquanto o pedido tramitava na Fazenda. Em ações movidas por apostadores em Santa Catarina, Goiás, Minas Gerais e Rio de Janeiro, a Defy negou relação com domínios da marca, mas a Justiça rejeitou o argumento; uma análise de domínios anexada pela própria empresa vinculava o endereço questionado a um site que ela também dizia desconhecer — e que hoje redireciona o apostador para o domínio oficial 1xbet.bet.br.

Enquanto negava essa ligação nos tribunais, Carlos Eduardo Ferreira circulava em eventos do setor como gerente nacional da 1xBet. Os documentos da SPA o identificam como sócio de 20%, administrador, diretor de atendimento aos apostadores e ouvidoria e diretor de relacionamento com o Ministério da Fazenda. A empresa também trocou de nome durante a tramitação das ações: antes se chamava 1xBet Intermediação de Negócios Ltda.
Em abril de 2025, com a licença ainda em análise, um oficial de Justiça tentou intimar a Defy no endereço informado à Receita Federal e à Fazenda, em Caxias do Sul, e relatou ter sido avisado de que a empresa havia deixado o local sem informar novo endereço. Ter sede e administração no País é condição para a autorização. Ao jornal, o ministério afirmou não ter constatado irregularidades durante o licenciamento e disse que fatos novos poderiam gerar fiscalização e sanções; a 1xBet declarou que a operação brasileira é independente da estrutura internacional questionada e que segue a legislação, a governança corporativa e as regras de jogo responsável.


Da LAI ao sigilo de cem anos
A negativa de acesso alcançou pareceres e notas produzidos por servidores públicos — documentos que registram as razões administrativas para autorizar empresas a movimentar bilhões de reais em apostas no País. O ministério recusou até mesmo fornecer a parte não sigilosa, com CPFs, endereços e dados bancários ocultados, sob o argumento de que o sistema não permitia anonimizar trechos e que o tratamento manual exigiria esforço administrativo desproporcional diante da falta de pessoal.
Ao anunciar a força-tarefa com a CGU, Durigan reconheceu que informações pessoais poderiam ser tarjadas sem impedir o acesso ao restante dos processos. Segundo ele, o estoque reunia cerca de 25 mil documentos, entre declarações de origem de capital, informações fiscais e dados dos dirigentes das casas de apostas.
A primeira etapa saiu em 13 de agosto, mais de dois meses depois do anúncio: 582 documentos e 2.240 páginas relativos a 85 processos de empresas autorizadas, com pareceres de habilitação jurídica, idoneidade, origem de recursos, pagamento da outorga e relatórios finais. O ministério ressalvou que são versões destinadas à divulgação e que os originais continuam nos processos administrativos.
Essa limitação impede afirmar que a prova sobre a Navasard nunca foi entregue. Não impede constatar que ela não aparece nem é resumida nos documentos que o governo escolheu como resposta pública ao pedido de transparência — e que o portal da própria Fazenda apresenta como o meio de conhecer as análises realizadas e os fundamentos das decisões administrativas.
A prova que a Fazenda ainda deve mostrar
A Defy declarou ser independente dos fundadores da 1xBet, e isso está escrito no recurso. Falta saber se o Ministério da Fazenda verificou a declaração nos termos que ele próprio fixou: identificação dos sócios da Navasard, exame de eventual relação com Semiokhin, Kazorin e Karshkov e conferência do contrato que levou a marca ao Brasil.
Para preencher a lacuna, o ministério precisa divulgar, sob as tarjas legalmente necessárias, a documentação apresentada em resposta ao item 11 da Nota Técnica nº 496 ou informar por que deixou de exigi-la. Também precisa esclarecer se a menção ao item 10 foi um erro material corrigido no curso do processo, qual unidade técnica examinou a composição societária da Navasard e como se afastou a ligação com os fundadores russos.
Antes da abertura dos arquivos, a Fazenda disse ao Estadão que a Defy havia apresentado documentos capazes de revelar sua estrutura societária até o beneficiário final. Os pareceres confirmam a cadeia Defy–Lutum–Olena Hanych. Não respondem quem controlava a empresa que cedeu a marca 1xBet. A distância entre as duas cadeias é exatamente o ponto que a SPA identificou em fevereiro — e que sua decisão final não explicou ao público.
O que diz a secretaria
A Investigação enviou à Assessoria do Ministério da Fazenda perguntas sobre os pontos abordados nesta reportagem. Em 19 de agosto, a SPA respondeu especificamente sobre o Requerimento nº 0104/2024, da Defy Ltda., operadora da 1xBet.
A secretaria afirmou que os processos seguem o rito da Portaria nº 827, de 21 de maio de 2024, e passam por diferentes etapas de análise. Disse que a área técnica examinou a idoneidade em fontes oficiais e abertas e consultou a Diretoria de Combate ao Crime Organizado da Polícia Federal. “A análise dos elementos relacionados à marca 1XBET resultou, naquele momento, no indeferimento do pedido, por meio do Parecer nº 1172/2024.”
Sobre a reversão, a nota informa que, no recurso de janeiro de 2025, a empresa “apresentou novos documentos oficiais, apostilados e traduzidos”, com “novos elementos sobre a estrutura societária declarada”. Esses papéis, segundo a SPA, foram considerados na reavaliação e levaram a área técnica a revisar o posicionamento na Nota Técnica nº 496/2025/MF, “dando continuidade à instrução do processo”.
A resposta confirma o veto inicial e o recuo no recurso. Não diz se a Defy identificou os sócios da Navasard, se afastou o vínculo com Roman Semiokhin, Dimitri Kazorin e Sergey Karshkov — a condição que a própria Nota Técnica nº 496 fixou — nem por que essa verificação não aparece nos pareceres publicados. Também não explica a seção em branco sobre a origem dos recursos nem o funcionamento da marca sem licença enquanto o pedido tramitava.
Colaboraram com esta apuração Cândido Neto e Pâmela Costa.
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Reportagem publicada em 8 de setembro de 2023









