Entre 19 de janeiro e 16 de outubro deste ano, a LLF Tech Participações, empresa de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, emitiu quinze notas fiscais contra a produtora Academy Tech. As cobranças somam R$ 686 mil. Os documentos, obtidos com exclusividade por A Investigação, enquadram o trabalho como suporte técnico em informática, mas repetem uma descrição que não permite identificar o que foi entregue: “Serviço prestado conforme contrato assinado”.
O nome de quem contratou leva a um antigo parceiro do filho do presidente. Na Receita Federal, a Academy Tech Tecnologia, Comunicação e Marketing tem Vitor de Lara Blasques como único sócio-administrador. Já o domínio academytech.com.br está registrado em nome de Kalil Bittar, que também aparece como contato técnico. O CNPJ exibido no site é o mesmo das quinze notas.
Kalil e Lulinha são amigos desde a infância. Dividiram os negócios da Gamecorp e, anos depois, foram sócios na FFK Participações, ao lado de Fernando Bittar, irmão de Kalil. As sociedades ficaram para trás, mas os repasses entre os antigos parceiros são recentes. Entre janeiro de 2024 e outubro de 2025, Kalil recebeu R$ 750 mil da conta pessoal de Lulinha, em quinze transferências de R$ 50 mil, como revelou André Shalders, no Metrópoles. O último repasse identificado ocorreu em 27 de outubro de 2025.
Quatro meses antes, a lobista Roberta Luchsinger havia alertado Lulinha de que Kalil usava seu nome para tentar fechar negócios na Telebras. Nas mensagens reveladas por Veja, ela contou que procurou um interlocutor da estatal para desmentir que o empresário falasse pelo filho do presidente. “Típico dele”, respondeu Lulinha. Os repasses pessoais continuaram depois daquela conversa. Em janeiro seguinte, a LLF começou a emitir as notas agora examinadas contra a Academy.
A LLF também foi uma das principais fontes de recursos da conta pessoal de seu proprietário: transferiu R$ 2,37 milhões a Lulinha entre 2022 e 2025, segundo a quebra de sigilo encaminhada à CPMI do INSS e revelada pelo Metrópoles. As novas notas identificam uma contratante em 2026. Não explicam, porém, a origem dos recursos que sustentaram os repasses dos anos anteriores.
As relações com Kalil alcançam outra geração da família. Thiago Trindade Lula da Silva, sobrinho de Lulinha e neto de Lula, declarou ter desenvolvido um aplicativo pela HarmonyBR, empresa do empresário. A firma de Thiago também emitiu seis notas, que somam R$ 182 mil, à consultoria de Roberto Bertholdo, advogado de Kalil. A Investigação já documentou essas conexões.
A mãe de Thiago, Carla Ariane Trindade, é investigada ao lado de Kalil na Operação Coffee Break, da Polícia Federal. Os investigadores suspeitam que ambos atuaram para obter recursos da Educação destinados a municípios que contrataram a Life Tecnologia Educacional, fornecedora de livros e kits de robótica sob suspeita de superfaturamento. Registros de entrada mostram idas de Carla e Kalil ao Planalto; ela também foi recebida pelo ministro da Educação de Lula em uma reunião fora da agenda. Os dois negam ter feito lobby.
O antigo sócio de Lulinha aparece, assim, tanto nas apurações sobre a ex-nora do presidente quanto nas relações profissionais do neto — e, agora, no registro eletrônico da produtora cobrada pela empresa do filho.
Nas quinze notas da LLF, o contrato invocado não tem número nem data. Os documentos tampouco identificam os sistemas atendidos, os responsáveis pelo trabalho ou as entregas que justificaram os R$ 686 mil.
A investigação enviou pedidos de manifestação para os envolvidos, mas até o momento não obteve retorno. O espaço permanece aberto.
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Quinze cobranças, um contrato sem identificação
A primeira nota foi emitida em 19 de janeiro, por R$ 22,2 mil. Onze dias depois outra de R$ 30 mil. Em fevereiro e abril, as cobranças somaram R$ 80 mil por mês. A última do conjunto, de 16 de outubro, registra R$ 30.129,90.
Em cinco meses — janeiro, fevereiro, abril, agosto e setembro — há duas notas. Nas de agosto e setembro, a LLF passou a identificar expressamente os valores como parcelas “1/2” e “2/2”. As duas de agosto totalizam R$ 77,8 mil; as de setembro, R$ 76 mil. O conjunto registra cobranças recorrentes, com valores variáveis.
A frase se repete nos quinze documentos: “Serviço prestado conforme contrato assinado”. Nenhum deles informa número ou data do contrato. O código tributário aponta suporte técnico, instalação, configuração e manutenção de programas de computador, mas não há identificação do programa, da equipe responsável, das horas trabalhadas ou do produto entregue.
As notas remetem a um contrato que não acompanha os documentos obtidos. Sem ele e os registros de execução, não é possível saber como a remuneração foi calculada ou qual trabalho corresponde a cada cobrança. A série examinada vai da nota nº 55 à nº 69, sem lacunas. Isso permite acompanhar esse conjunto de cobranças, mas não identificar os clientes das notas anteriores nem concluir que a Academy seja a única contratante da LLF em toda a sua existência.
O contato da LLF nas notas usa o domínio g4brasil.com.br. O mesmo e-mail consta no cadastro da G4 Entretenimento e Tecnologia Digital, outra empresa de Lulinha, que já teve Kalil Bittar entre seus sócios. LLF e G4 também compartilham endereço e telefone. Do outro lado das cobranças, a Academy Tech e a HarmonyBR, empresa de Kalil, informam o e-mail da Kesef Contábil como contato cadastral.
A administração da LLF foi transferida a Renata de Abreu Moreira, esposa de Lulinha, em dezembro de 2025. Ele manteve a condição de sócio único. Na ocasião, o advogado Marco Aurélio Carvalho descreveu a mudança como burocrática, destinada a facilitar a atividade profissional, e negou relação de Fábio e suas empresas com os fatos investigados.
Em janeiro de 2026, Lulinha se mudou para a Espanha — movimento interpretado pela PF como possível evasão. Em fevereiro, abriu a empresa Synapta em Madri em um “contrato de gaveta”. O ministro André Mendonça autorizou a quebra de seus sigilos em janeiro de 2026. O ministro Flávio Dino, por sua vez, bloqueou o acesso da CPMI do INSS a esses mesmos dados.
Um mês depois, em 26 de fevereiro, a CPMI do INSS aprovou a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Lulinha em votação em bloco. O ministro Flávio Dino suspendeu os efeitos da deliberação por “falta de fundamentação individualizada”. A medida tratava da pessoa física, não dos negócios da LLF em 2026.
Em 16 de março, a deputada Adriana Ventura (NOVO-SP) pediu relatórios financeiros e a quebra dos sigilos da LLF relativos ao período de 2022 a janeiro de 2026. O requerimento ficou sem apreciação; o pedido para ouvir Renata também não foi votado. A CPMI encerrou os trabalhos em 28 de março sem aprovar relatório final. A série de notas à Academy prosseguiu até outubro.
O domínio de Kalil e a empresa de Blasques
A Academy Tech está inscrita no CNPJ 26.291.082/0001-64. A consulta ao quadro de sócios e administradores da Receita, emitida em 23 de outubro de 2026, lista somente Vitor de Lara Blasques, com capital social de R$ 100 mil. O site institucional apresenta a empresa como especializada em presença digital e eventos de esportes eletrônicos e atribui a Blasques sua administração e a gestão da FGC São Paulo.
O registro do domínio conta outra parte da relação. No WHOIS, Kalil Bittar aparece nos campos de titular e de contato técnico. O endereço foi criado em 11 de agosto de 2021; a última alteração informada é de 14 de julho de 2023. Essas datas são do registro eletrônico e não identificam, isoladamente, quando começou a relação de Kalil com a Academy.
Em 2008, a Folha de S.Paulo revelou que o domínio da Flexbr, empresa de Marcos Cláudio e Sandro Luís Lula da Silva, estava registrado em nome da G4, da qual Kalil era sócio com Lulinha e Fernando Bittar. Kalil afirmou que apenas “emprestou” o CNPJ para reservar o endereço. O paralelo é o registro de um domínio por alguém fora do quadro formal da empresa que o utiliza; não esclarece o papel de Kalil na Academy.
As notas também mostram uma mudança de endereço da contratante. Até março, ela constava na Avenida Washington Luís, em Santo Amaro. A partir de abril, passou a indicar a Avenida Engenheiro Luiz Carlos Berrini. O cadastro empresarial atual situa a Academy no nono andar, conjunto 91, do nº 1645.
É exatamente o endereço que o Grupo Kesef Contábil anuncia como sua sede. O cadastro da Academy também utiliza um e-mail do escritório. A coincidência localiza seu endereço cadastral em uma estrutura de contabilidade; não informa onde trabalham as equipes ou são produzidos os serviços contratados.
Blasques se apresenta como profissional com experiência em eventos, marketing e análise de negócios, incluindo passagens por IBM e Philips. A empresa tem atuação pública em games e produção audiovisual. A questão que os documentos deixam aberta é qual serviço a LLF presta a essa operação e quem decidiu contratá-la.
Kalil já estava no caminho do dinheiro
O nome de Kalil não surge apenas no domínio. Em outra reportagem baseada na quebra de sigilo, o Metrópoles mostrou que Lulinha transferiu R$ 750 mil a ele entre janeiro de 2024 e outubro de 2025. Foram quinze pagamentos de R$ 50 mil. Essa movimentação saiu da conta pessoal de Lulinha e antecede as notas da Academy examinadas nesta apuração.
Kalil foi sócio de Lulinha na Gamecorp e é irmão de Fernando Bittar, um dos proprietários formais do sítio de Atibaia frequentado por Lula. Em novembro de 2025, tornou-se alvo da Operação Coffee Break, que apura suspeitas de irregularidades em contratos de material escolar. A investigação envolve a Life Tecnologia Educacional e também Carla Ariane Trindade, ex-nora do presidente.
A relação societária entre eles não se limitou à Gamecorp. Um quadro da Receita de 2022 lista Lulinha, Kalil e Fernando Bittar como sócios-administradores da FFK Participações, aberta em 2015 e baixada em 2023. A FFK também figurou na relação de alvos da Operação Aletheia, em 2016.
Como A Investigação já detalhou, a PF atribui a Kalil e Carla atuação para facilitar o acesso da Life a recursos e contratos da Educação. A defesa de Kalil nega intermediação e afirma que ele prestou serviços de tecnologia. Carla também nega irregularidades.
A Life Tecnologia Educacional, de André Gonçalves Mariano, fornecia livros e kits de robótica a prefeituras paulistas. Em 19 de dezembro de 2023, Kalil, Mariano e o então secretário de Educação de Hortolândia entraram juntos no Planalto, como o UOL identificou nos registros de acesso. O secretário reuniu-se com o chefe de gabinete de Lula; depois, ele e Mariano estiveram no FNDE. Dois dias mais tarde, Mariano transferiu R$ 30 mil a Kalil. Esse episódio mostra um pagamento a Kalil, não uma transferência à Academy ou à LLF.
Em mensagens de 29 de junho de 2025 reveladas com exclusividade pela Veja, Roberta Luchsinger alertou Lulinha de que Kalil usava seu nome para tentar fechar negócios na Telebras. Ela disse ter procurado um interlocutor da estatal para negar que Kalil falasse por ele. Ao ler a crítica ao antigo sócio, Lulinha respondeu: “Típico dele”. As mensagens expõem uma divergência sobre a atuação de Kalil naquele negócio.
A divergência não interrompeu imediatamente as transferências pessoais: em 27 de outubro de 2025, quatro meses depois das mensagens, Lulinha fez o último repasse conhecido a Kalil, de R$ 50 mil. Kalil foi alvo da Operação Coffee Break em novembro; em dezembro, Renata de Abreu Moreira assumiu a administração da LLF. A primeira das quinze notas examinadas contra a Academy foi emitida em 19 de janeiro de 2026. Kalil é titular do domínio da produtora, mas os documentos obtidos não mostram se participou da contratação da LLF nem comprovam o pagamento das notas.
O mesmo cerco alcança o neto e a ex-nora de Lula
Thiago Trindade Lula da Silva, filho de Carla Ariane Trindade e de Marcos Cláudio Lula da Silva, declarou ter desenvolvido o aplicativo Amazon Vision pela HarmonyBR Desenvolvimento de Sistemas. Kalil é sócio-administrador da empresa. A relação foi apresentada pelo próprio neto do presidente e detalhada por A Investigação.
A T L Innovations, de Thiago, emitiu seis notas à Bertholdo Consult entre abril e outubro de 2026, no total de R$ 182 mil. O serviço mudou de publicidade para treinamento, com valores próximos de R$ 30 mil e descrições genéricas. Roberto Bertholdo, responsável pela consultoria, defende Kalil na Coffee Break e foi condenado por participar da interceptação ilegal dos telefones de Sergio Moro.
Carla, mãe de Thiago e ex-nora de Lula, também entrou no levantamento de notas fiscais. Sua Eficat Assessoria Comercial faturou R$ 40 mil à Federação Interestadual dos Urbanitários do Sudeste, a FRUSE, ligada à CUT. As duas cobranças, de setembro e outubro de 2026, descrevem serviços administrativos referentes à NR-1, sem identificar as entregas.
Thiago é sócio da Identita Comércio de Vestuário e Acessórios, cujo quadro cadastral também inclui Renata de Abreu Moreira, mulher de Lulinha e administradora da LLF. A responsável pela administração da empresa que emitiu as quinze notas à Academy também figura, portanto, na empresa do sobrinho de seu marido.
O cadastro da HarmonyBR informa um e-mail do Kesef, o escritório de contabilidade cujo endereço e contato também aparecem na Academy. Esse ponto de contato administrativo se soma aos vínculos profissionais e familiares, embora não esclareça quem negociou o contrato com a LLF.
As relações se cruzam em Kalil: ele é titular do domínio da cliente de Lulinha, sócio da empresa pela qual Thiago desenvolveu um aplicativo e investigado ao lado de Carla. Seu advogado, por uma consultoria distinta do escritório de advocacia, contratou a firma do filho dela. As novas notas colocam a LLF nessa rede de contratações já exposta por A Investigação.
A produtora que aparece na TV Cultura
A Academy também realiza o Cultura Tech, programa de cerca de um minuto sobre tecnologia, games e cultura geek, apresentado por Luciano Amaral, conhecido pelo personagem Lucas Silva e Silva, de Mundo da Lua. Os créditos de um dos vídeos atribuem a realização e o roteiro à Academy, a direção a Renato Antiqueira e a edição a Felipe Leite.
A presença na emissora não depende apenas da apresentação comercial da produtora. Um roteiro oficial da Fundação Padre Anchieta, de 15 de julho de 2024, registra duas inserções do Cultura Tech, cada uma com um minuto, nos intervalos do Jornal da Tarde e do Jornal da Cultura.
Há também uma oferta comercial pública. Um mídia kit do projeto na TV Cultura Paulista anuncia patrocínio mensal de R$ 18 mil, com assinaturas de oferecimento e comerciais vinculados aos dois jornais. É um preço oferecido a patrocinadores; o material não comprova contratação, pagamento ou quanto caberia à produtora.
A presença na grade e a oferta de patrocínio não identificam se a Fundação Padre Anchieta paga à Academy, recebe pela distribuição, divide receitas ou mantém uma cessão ou permuta. Esse acordo é uma das peças necessárias para esclarecer o modelo de negócios da produtora.
A defesa de Lulinha já afirmou, em manifestação publicada em março, que a LLF não possui escritório externo e que sua sede era sua residência, alterada após a mudança para o exterior. Aquela explicação tratava do endereço da empresa. As quinze cobranças agora identificadas colocam outra questão concreta: qual suporte técnico foi contratado pela Academy por R$ 686 mil.
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