Em 19 de outubro de 2026, Thiago Trindade Lula da Silva e sua mulher, a atriz Renata Gasparim, compartilharam nos stories do Instagram o desafio do presidente Lula a Flávio Bolsonaro sobre a abertura dos sigilos bancário e telefônico. Na publicação de Thiago, o avô dizia: “Flávio, abra seu sigilo bancário e telefônico. Vamos fazer uma avaliação patrimonial de cada um de nós e vamos ver quem é que roubou nesse país”.
Renata publicou outro vídeo do presidente, com o desafio estendido às contas das famílias. A legenda comemorava: “BOTOU O P4U NA MESA E MANDOU MEDIR”. O advogado e lobista Roberto Bertholdo também aderiu: compartilhou uma publicação de Guga Noblat com a imagem de uma mão na qual estava escrito “ABRE O SIGILO, FLÁVIO”.
Bertholdo é contratante da empresa do neto de Lula. A T L Innovations Soluções Ltda., da qual Thiago é sócio-administrador, emitiu notas de aproximadamente R$ 30 mil por mês para a Bertholdo Consult. O lobista foi condenado por participar da interceptação ilegal dos telefones do então juiz Sergio Moro.
A Investigação consultou as notas no portal nacional de notas fiscais de serviço. Seis cobranças, emitidas entre abril e outubro de 2026, somam R$ 182 mil e identificam a mesma contratante. Até julho, o serviço declarado era publicidade. A partir de agosto, passou a ser treinamento. Os valores permaneceram próximos de R$ 30 mil, e a descrição das atividades se limitou a “Serviços prestados”. Segundo fontes, a consultoria de Bertholdo é o único cliente da empresa de Thiago em todo 2026.
Em 20 de outubro, Thiago também anunciou a assinatura de autorizações para abertura de seus dados fiscais, bancários e telefônicos. A página 342 Artes divulgou o gesto em uma postagem conjunta com o neto de Lula e outros dois perfis. Segundo a publicação, ele mostrou nos stories os arquivos “Procuração Fiscal” e “Procuração Bancária Telefônica”, datados daquele dia, e escreveu: “Assinados”.
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O nome do contratante leva a outras relações profissionais do neto do presidente. Bertholdo é advogado de Kalil Bittar, sócio da HarmonyBR, empresa pela qual Thiago declarou ter desenvolvido um aplicativo. Kalil também é investigado ao lado de Carla Ariane Trindade, mãe de Thiago, em apurações sobre contratos de material escolar e acesso a recursos da Educação.
O lobista já apareceu em outro levantamento de A Investigação: em um jatinho com Brunno Sarttori, conhecido pelos vídeos de deepfake favoráveis a Lula, e em encontros com interlocutores chineses. As notas acrescentam a empresa de um integrante da família presidencial às relações comerciais da consultoria de Bertholdo.
Em 20 de outubro, Thiago também anunciou a assinatura de autorizações para abertura de seus dados fiscais, bancários e telefônicos. O anúncio foi amplificado pelo movimento 342 Artes, liderado pela produtora Paula Lavigne, mulher de Caetano Veloso, que mobiliza artistas em apoio a Lula. Na lista de colaboradores do post, Thiago aparece como @thiago_lula_; os outros perfis são @eutocomlula e @brasilforadacaverna.
O perfil de Thiago saiu do ar no endereço @thiago_tlsilva e depois voltou a ficar acessível com a arroba @thiago_lula_ após questionamentos de A Investigação. A disposição de abrir as contas tem agora um ponto de partida concreto: explicar os R$ 182 mil faturados à consultoria de Bertholdo.
A investigação entrou em contato com os envolvidos solicitando esclarecimentos, até o momento não obteve retorno.
O valor permanece, o serviço muda
A T L Innovations foi aberta em 6 de dezembro de 2024, com capital social de R$ 50 mil. Thiago consta como seu único sócio-administrador. O cadastro empresarial inclui desenvolvimento de software, publicidade, produção audiovisual, consultoria em tecnologia e treinamento profissional.
Na nota nº 6, de 17 de abril de 2026, a empresa cobrou R$ 33 mil da Bertholdo Consult pela rubrica de inserção de materiais de propaganda e publicidade. As notas nº 7 e nº 8, de junho e julho, repetiram o enquadramento, por R$ 30 mil cada. As três cobranças de publicidade somam R$ 93 mil.
Em 12 de agosto, a nota nº 9 passou a registrar instrução e treinamento, novamente por R$ 30 mil. O mesmo serviço apareceu na nota de setembro, pelo mesmo valor, e na de outubro, por R$ 29 mil. Essa segunda etapa soma R$ 89 mil.
Os documentos não identificam campanha, anunciante, veículo, curso, conteúdo, carga horária ou participantes. A mudança de publicidade para treinamento não veio acompanhada de uma descrição que permitisse reconhecer uma nova atividade.
A contratante, inscrita no CNPJ 49.768.446/0001-50, foi aberta em março de 2023. Roberto Bertholdo consta como sócio desde setembro daquele ano. Seu cadastro reúne consultoria em gestão empresarial, intermediação de negócios e cobrança. É essa pessoa jurídica, distinta do escritório de advocacia, que aparece nas notas de Thiago.
De assessor a desenvolvedor de aplicativos
Ao relatar sua trajetória profissional no Instagram, Thiago misturou a comemoração de uma conquista com a defesa política da família. Afirmou que os oito anos anteriores haviam sido os mais difíceis de sua vida, atribuiu os problemas a perseguições e disse que o avô havia sido preso injustamente.
Na mesma publicação, contou que estudou ciências sociais e trabalhou como assessor do deputado federal Vicentinho (PT-SP). Agradeceu ao parlamentar pela oportunidade de continuar os estudos e colocar em prática o que havia aprendido com o avô. A passagem pelo gabinete consta dos registros da Câmara: a Portaria nº 795, publicada em 4 de março de 2024, o exonerou do cargo de secretário parlamentar a partir de 29 de fevereiro daquele ano.
Thiago escreveu que decidiu trabalhar com tecnologia durante a pandemia e começou com uma hora diária de estudos. Disse ter criado mais de dez jogos, entre eles um sobre Lula subindo a rampa do Planalto para receber a faixa presidencial. Como não conseguiu entrar no mercado de jogos, passou a estudar o desenvolvimento de sites e aplicativos. O relato termina com a conquista de trabalho com aplicativos para o Apple Vision e uma lembrança das cobranças do avô: “E aí, já conseguiu um emprego? Não desista, vai conseguir!”.
Antes de abrir a T L Innovations, Thiago já apresentava uma relação profissional com uma empresa de Kalil Bittar. Em publicação no LinkedIn, descreveu o Amazon Vision como um “aplicativo que desenvolvi pela HarmonyBR para o VisionPro da Apple”.
O produto afirma oferecer uma experiência imersiva sobre a Amazônia a partir de fotografias de Ricardo Stuckert, o fotógrafo oficial do Lula. Seu lançamento foi 15 de agosto de 2024. A ficha indexada da App Store identifica como responsável a HarmonyBR Desenvolvimento de Sistemas Ltda.
Kalil aparece como sócio-administrador da HarmonyBR desde sua abertura, em agosto de 2021. O quadro societário identifica o empresário na companhia de software, inscrita no CNPJ 43.201.850/0001-60. A relação de Thiago com uma empresa dele foi apresentada pelo próprio desenvolvedor.
A sequência reúne três relações: Thiago trabalhou em um aplicativo pela empresa de Kalil; Kalil é cliente de Bertholdo; e a consultoria de Bertholdo aparece como contratante da empresa de Thiago.
A mãe de Thiago e os contratos da Educação
Carla Ariane Trindade, mãe de Thiago, também aparece nas investigações que atingem Kalil. Ela foi casada com Marcos Cláudio Lula da Silva, filho adotivo de Lula. Em novembro de 2025, Carla e Kalil foram alvos de buscas na Operação Coffee Break, sobre suspeitas de corrupção em contratos de material escolar no interior paulista.
A Polícia Federal os apontava como interlocutores de André Gonçalves Mariano para obter influência na liberação de recursos destinados a prefeituras que contratavam a Life, uma empresa que fornecia livros e kits de robótica. A defesa de Kalil negou a intermediação e atribuiu os recebimentos ao desenvolvimento de produtos tecnológicos.
Os registros de acesso ao governo acrescentaram datas a essa apuração. O UOL mostrou, em janeiro de 2026, que Kalil e Carla estiveram ao menos dez vezes no Planalto entre 2023 e 2025. Seus nomes apareciam nos registros de entrada, mas não nas agendas dos compromissos. Em 19 de dezembro de 2023, Kalil entrou com Mariano e com o então secretário de Educação de Hortolândia, Fernando Gomes de Moraes.
Dois dias depois dessa visita, Mariano transferiu R$ 30 mil a Kalil, conforme outra reportagem do UOL. Na agenda do empresário, a PF encontrou o nome de Kalil e uma anotação sobre restabelecer o pagamento na data da ida ao palácio.
Ao veículo, Bertholdo afirmou que seu cliente trabalhou exclusivamente no desenvolvimento de aplicativos de design gráfico e conteúdos de comunicação. O Planalto respondeu que receber representantes do setor privado e de outros entes públicos faz parte das atribuições institucionais dos servidores.
Em março, a Folha de S.Paulo relatou que a investigação foi dividida em 25 inquéritos. Naquele momento, a primeira denúncia do MPF não incluía Kalil e Carla. Bertholdo voltou a negar que seu cliente tivesse aproximado a Life de entidades públicas.
Os Bittar, Lulinha e Roberta
A relação dos Bittar com a família presidencial antecede essas investigações. Kalil e Fernando são filhos de Jacó Bittar, fundador do PT e amigo de Lula. Os dois cresceram próximos de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e se tornaram seus parceiros nos negócios de tecnologia e entretenimento. A trajetória empresarial foi reconstituída pela Gazeta do Povo.
Fernando também ficou conhecido como um dos proprietários formais do sítio de Atibaia frequentado por Lula. A relação financeira entre Lulinha e Kalil prosseguiu nos anos recentes: o Metrópoles revelou transferências de R$ 750 mil entre janeiro de 2024 e outubro de 2025, em parcelas de R$ 50 mil. Segundo a reportagem, os repasses ocorriam geralmente a cada dois meses até maio de 2025 e depois passaram a ser mensais. Thiago mantém ainda uma sociedade com Renata de Abreu Moreira, esposa de Lulinha, na Identita Comércio de Vestuário e Acessórios, aberta em 2020.
Nas investigações recentes, Fernando Bittar aparece ao lado de Lulinha e da lobista Roberta Luchsinger. A Veja publicou mensagens nas quais ela descrevia a proximidade entre os três: “Fefe, Fábio e eu somos uma coisa só”. Segundo a revista, a PF investiga se essa relação servia à interlocução de interesses privados no governo. A defesa de Lulinha nega irregularidades.
A proximidade não impedia disputas. Em mensagens de junho de 2025, também divulgadas pela Veja, Roberta reclamou que Kalil usava o nome e a influência atribuída a Lulinha para tentar fechar um negócio na Telebras. Ela relatou ter procurado um interlocutor para desmentir que Kalil falasse pelo filho do presidente. Na mesma conversa, atribuiu ao empresário a criação de um perfil falso contra Janja.
Esses vínculos colocam Thiago em duas relações empresariais com o círculo do tio: como sócio da mulher de Lulinha na Identita e como desenvolvedor de um aplicativo pela empresa de Kalil. A contratação pela consultoria de Bertholdo acrescenta uma terceira relação, desta vez com o advogado do empresário.
O que registram os processos tributários
Pagamentos entre empresas desse círculo já foram examinados pela Receita Federal sob outra perspectiva: se remuneravam serviços empresariais ou o trabalho pessoal de seus sócios. A Investigação localizou julgamentos recentes no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, o CARF, sobre operações anteriores às notas de Thiago.
Na Resolução 2102-000.220, de janeiro de 2026, o CARF examinou uma autuação contra a Editora Gol que incluía pagamentos fixos e mensais à Coskin, empresa de Fernando Bittar. A fiscalização apontou falta de contrato formal e atuação dele como diretor da filial paulista. O julgamento foi convertido em diligência para separar provas atingidas por decisões judiciais das obtidas por fonte independente.
Em outro acórdão, de novembro de 2025, o CARF manteve, por voto de qualidade, cobrança tributária contra Kalil e reduziu a multa qualificada para 100%. O processo descreve aportes de Jonas Suassuna na Gol Mídia, pagamentos dessa companhia à PDI e recebimentos de Kalil como lucros e dividendos. O voto vencedor considerou demonstrada remuneração pelo trabalho pessoal do empresário.
O mesmo documento registra uma comissão por intermediação entre a Bell Brasil e a Andrade Gutierrez recebida pela PDI. A fiscalização questionou o enquadramento do pagamento na pessoa jurídica e sua tributação.
Já o Acórdão 2302-004.399, de março de 2026, registrado no índice oficial do CARF, trata de contribuições sobre pagamentos da Gamecorp/PlayTV entre 2013 e 2015. A discussão incluía serviços contratados de empresas ligadas a Lulinha que, segundo o Fisco, correspondiam à sua atuação como diretor-presidente. O colegiado deu provimento parcial aos recursos para reduzir a multa qualificada a 100%.
São operações próprias, com provas e resultados distintos. Nas cobranças posteriores da empresa de Thiago, a descrição genérica não permite identificar qual trabalho foi remunerado.
O lobista que grampeou Moro
Bertholdo chega a essa relação comercial com um histórico que inclui condenação pela interceptação ilegal dos telefones do gabinete e da residência de Sergio Moro. No HC 70.878, julgado em abril de 2008, o STJ negou o pedido de anulação do processo. O acórdão reproduz a fundamentação sobre quatro fitas com 41 conversas e a participação atribuída ao advogado.
Tony Garcia, ex-deputado estadual do Paraná, é parte dessa história. Bertholdo havia sido seu advogado e suplente na disputa ao Senado em 2002. Após firmar um acordo de colaboração com o Ministério Público Federal, Garcia gravou conversas e prestou depoimentos usados nas investigações contra o antigo aliado, inclusive no caso do grampo de Moro. A Folha de S.Paulo apurou indícios de que Bertholdo recebeu ao menos R$ 715 mil de Garcia sob a promessa de obter decisões favoráveis no STJ. Bertholdo afirmou à Justiça que R$ 600 mil de uma das transferências foram empregados na campanha eleitoral.
Em 2020, ele voltou ao noticiário nas investigações sobre contratos do Iabas durante a pandemia. Três anos depois, em 2023, o Metrópoles o identificou entre os participantes da missão empresarial brasileira à China, na lista de convidados da Apex. Bertholdo disse que acompanhava interesses de um cliente do setor energético e invocou sigilo profissional para não detalhar os negócios.
Em setembro de 2025, A Investigação mostrou Bertholdo em um jatinho com Brunno Sarttori, conhecido pelas montagens digitais contra Bolsonaro e pela militância favorável a Lula e com a influenciadora Aline Bardy Dutra, a “Esquerdogata”. As imagens apareceram no levantamento sobre a condenação civil do influenciador a indenizar integrantes do movimento Gays com Bolsonaro. Sarttori seguia para Brasília, onde acompanharia o julgamento de Bolsonaro no STF.
Dois meses antes, Bertholdo havia recebido em sua residência no Rio um encontro com interlocutores chineses e Leonardo Attuch, editor do Brasil 247. A reunião durante a cúpula dos Brics foi relatada por Hildegard Angel. Entre os presentes estavam Li Bo, do Guancha, e Helen Han, do Beijing Club for International Understanding.
Bertholdo também defendeu “Esquerdogata”, em dois episódios distintos: assinou com Douglas Campos Marques uma nota após a prisão dela numa ocorrência registrada como desacato, resistência e racismo em outubro de 2025. Aline, aparentemente alcoolizada, disse a um PM que fazia uma blitz: “Um preto querendo foder outro preto”, disse, ao ver a PM abordar um homem negro. “Você é sem consciência de classe e prende outros da sua cor?”. Em maio de 2026, Bertholdo atuou como advogado da influenciadora na denúncia do MP paulista sobre rifas sem autorização, que ele classificou como perseguição política.
Agora, o lobista também aparece ao lado de Thiago e Renata na divulgação da cobrança por abertura dos sigilos. No story de Bertholdo, a provocação a Flávio foi reproduzida sem qualquer referência à contratação da empresa do neto do presidente.
Casos de família
A discussão sobre as contas da família presidencial ocorre após a entrevista de Roberta Luchsinger à CNN Brasil, em 17 de outubro . Ela afirmou que ministros procuravam sua ajuda e a de Lulinha para conseguir agendas com o presidente ou prioridade para projetos.
Roberta também indicou a amizade de Lulinha com Amauri Rodrigues Pinha, presidente do conselho da ECB, controlada pela Mota-Engil. A Investigação apurou encontros do executivo no DNIT, na Casa Civil e no Planalto. Em setembro de 2024, Amauri esteve na direção do DNIT como consultor da EDP Infraestrutura e Pavimentação.
Cinquenta dias depois, a empreiteira fez pagamentos de R$ 2,2 milhões à consultoria de Roberta. O levantamento encontrou uma empresa representada pelo executivo citado na entrevista e que também remunerou a lobista.
Enquanto Thiago, Renata e o próprio lobista compartilham a cobrança por transparência, as notas registram os valores e a contratante sob a mesma descrição: “Serviços prestados”.
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Vizinho de Lulinha citado por Luchsinger atuou por empreiteiras no DNIT e esteve no Planalto
Observação: Relatório detalhado. Tempo de leitura estimado: 25 minutos.














Que merreca!!! Esse menino precisa de um aumento gordo. Chega de descriminação!!!!