No último domingo (18), durante o debate presidencial da Band, Lula desafiou Flávio Bolsonaro a abrir os sigilos bancário e telefônico e a comparar as movimentações dos dois. No dia seguinte, repetiu a provocação em vídeo: “Vamos fazer avaliação patrimonial de cada um de nós e vamos ver quem é que roubou nesse país”.
Flávio aceitou o desafio eo acordo foi selado nesta quinta (22). A pedido do PT, o acordo incluiu a Alcazar Holdings, de Willer Tomaz, que aceitou abrir seus dados e negou que Flávio tenha sido sócio, administrador ou beneficiário. Segundo a coluna de Cláudio Humberto, no Diário do Poder, o verdadeiro sócio de Tomaz seria Eugênio Aragão, ministro da Justiça no governo Dilma que atuou como advogado de Fernando Haddad em 2018 e de Lula em 2022.
Em meio a essa guerra de cobranças por transparência, A Investigação obteve duas notas emitidas pela Eficat Assessoria Comercial, empresa de Carla Ariane Trindade, ex-nora de Lula e mãe de seu neto Thiago, à Federação Interestadual dos Urbanitários do Sudeste (FRUSE). São R$ 20 mil em 9 de setembro e mais R$ 20 mil em 13 de outubro. As cobranças atravessam os dois turnos da eleição e repetem a descrição: “Prestação de serviços administrativos referente a NR-1.”


A nova apuração se soma a duas reportagens de A Investigação: uma revelou R$ 30 mil mensais em notas da empresa de Thiago à consultoria do lobista Roberto Bertholdo; a outra mostrou R$ 325 mil faturados por uma fornecedora do PT ao Sindicato dos Bancários de São Paulo. Nesta quinta, a Veja publicou mensagens nas quais Daniel Vorcaro buscou um uísque avaliado em R$ 500 mil para presentear Lula.
Carla é investigada pela Polícia Federal na Operação Coffee Break, sobre suspeitas de irregularidades em contratos de material escolar. Ela nega as acusações. As notas registram a cobrança à FRUSE, não a efetiva transferência bancária.
A FRUSE se apresenta como federação orgânica à CUT e representa 17 sindicatos de trabalhadores de energia, saneamento, gás e meio ambiente em quatro estados do Sudeste. Tem CNPJ e direção próprios: a tomadora das notas é a federação, não a CUT nacional. Seu presidente, Esteliano Gomes Neto, integra a Executiva nacional da CUT ao lado de Neiva Ribeiro, presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo. O que a Eficat entregou por R$ 40 mil é a questão aberta nos documentos.
A Eficat foi aberta em 30 de julho de 2026, com capital de R$ 10 mil e Carla como sócia-administradora. O cadastro reúne serviços de escritório e apoio administrativo, preparação de documentos e treinamento profissional. A primeira cobrança veio 41 dias após a abertura; a segunda, 34 dias depois da primeira. Os dois documentos têm a FRUSE, sediada em Campinas, como tomadora, o mesmo valor e o mesmo texto sobre a NR-1.
A NR-1 estabelece diretrizes gerais de segurança e saúde no trabalho. A versão em vigor desde 26 de maio passou a explicitar os fatores de risco psicossociais no gerenciamento dos riscos ocupacionais. Esse contexto torna plausível um serviço ligado à NR-1, mas a nota não diz qual. Não há nela identificação dos sindicatos atendidos, lista de reuniões, levantamento de riscos, material produzido ou prazo de execução.
Outro detalhe pede explicação: o código nacional escolhido nas duas notas, 17.02.01, corresponde a “datilografia, digitação, estenografia e congêneres”, enquanto a descrição fala genericamente em serviços administrativos referentes à norma. A lista oficial distingue esse código do 17.02.02, que inclui apoio administrativo e secretaria.
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A investigação que já envolvia Carla e os Bittar
Em novembro de 2025, Carla foi alvo de busca na Operação Coffee Break. A PF apura sua possível atuação para obter acesso a verbas federais destinadas a uma empresa de materiais didáticos que mantinha contratos sob suspeita com prefeituras paulistas. Kalil Bittar, antigo sócio de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, também apareceu entre os investigados. A defesa de Carla nega irregularidades.
A empresa investigada é a Life Tecnologia Educacional, de André Gonçalves Mariano, fornecedora de livros didáticos e kits de robótica a prefeituras paulistas. Segundo a PF, Carla e Kalil teriam sido contratados para facilitar o acesso da Life a recursos e contratos do MEC e do FNDE. A polícia apontou ao menos duas viagens de Carla a Brasília com passagens custeadas por Mariano. A defesa de Kalil nega a intermediação e afirma que ele prestou serviços de tecnologia.
Em levantamento dos registros de entrada, o UOL identificou ao menos dez visitas de Carla e Kalil ao Planalto entre 2023 e 2025, sem compromissos correspondentes nas agendas públicas. Em 19 de dezembro de 2023, Kalil entrou com Mariano e o então secretário de Educação de Hortolândia. Dois dias depois, Mariano transferiu R$ 30 mil a Kalil. Bertholdo, advogado dele, disse ao UOL que o trabalho contratado se limitava a aplicativos de design gráfico e conteúdo de comunicação. A transferência foi a Kalil, não a Carla.
Em novembro de 2025, Flávio Bolsonaro apresentou ao TCU uma representação pedindo apuração de suposto favorecimento da Life no MEC por intermédio de Carla. Em 26 de maio de 2026, a 2ª Câmara do tribunal arquivou o pedido por unanimidade: considerou que faltavam indícios mínimos e identificação de contratos específicos na petição e que a contratação examinada usava recursos do Fundeb sem complementação federal. Enviou cópia ao TCE-SP, competente para avaliar aquela despesa municipal. O arquivamento dessa representação não encerrou o inquérito da PF sobre a Coffee Break.
A relação familiar explica por que o novo faturamento atrai atenção na semana em que Lula oferece abrir dados de parentes. Carla foi casada com Marcos Cláudio Lula da Silva e é mãe de Thiago Trindade Lula da Silva. Em reportagem anterior, A Investigação publicou seis notas da T L Innovations, empresa de Thiago, à consultoria do advogado Roberto Bertholdo, que somam R$ 182 mil entre abril e outubro. As cobranças do filho e da mãe têm tomadores diferentes e objetos declarados diferentes. Não há documento que mostre circulação de recursos entre as duas empresas.
Bertholdo defende Kalil Bittar na Operação Coffee Break. Em publicação no LinkedIn, Thiago afirmou ter desenvolvido o aplicativo Amazon Vision pela HarmonyBR, da qual Kalil é sócio. O advogado que contratou a empresa de Thiago representa, portanto, um empresário investigado ao lado de Carla e ligado a outro trabalho do neto de Lula.
As notas da Eficat têm uma pergunta própria: que trabalho uma federação de 17 sindicatos recebeu em setembro e outubro por R$ 40 mil?
O dinheiro sindical na disputa eleitoral
Em 14 de outubro, Flávio levou ao TSE uma ação em que acusa dirigentes de sindicatos e entidades de usar dinheiro, pessoal, sedes e canais de comunicação em benefício da chapa Lula–Alckmin. A petição cita dirigentes da CUT e a presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Neiva Ribeiro. Como exemplo de suposta coordenação, mostra uma publicação do sindicato em 6 de outubro e outra da CUT, três minutos depois, com a mesma frase contra Flávio.
O texto repetido documenta circulação de mensagem; não identifica quem pagou pela publicação. Carla, Eficat e FRUSE não aparecem no trecho da ação examinado por A Investigação. A decisão inicial exigiu que a campanha individualizasse fatos atribuídos a outros dirigentes e rejeitou restrições genéricas à manifestação das entidades. O corregedor ressaltou que a liberdade de expressão não autoriza custeio eleitoral com dinheiro sindical.
A lista da direção nacional da CUT registra Esteliano e Neiva na mesma Executiva para o período de 2023 a 2027. Em 27 de agosto de 2025, um congresso da FRUSE com 134 delegados reconduziu Esteliano à presidência. O vínculo entre os dirigentes é institucional; os contratos foram firmados por entidades distintas.
Em 17 de março de 2026, a Confederação Nacional dos Urbanitários (CNU), da qual a FRUSE faz parte, aprovou uma resolução de participação dos urbanitários da CUT nas eleições para contribuir com a reeleição de Lula. Dirigentes da FRUSE também ocupam cargos na CNU. Na federação, o secretário de Administração e Finanças, Hélio José Anomal Almeida, foi candidato pelo PT a vereador em 2012. A questão sobre a despesa é quem autorizou a contratação e aprovou os serviços apresentados pela Eficat.
Nesta quinta, A Investigação revelou cinco notas de R$ 65 mil da Embaúba ao Sindicato dos Bancários de São Paulo, entre maio e setembro: R$ 325 mil por serviços de inteligência digital e governança tecnológica. A mesma fornecedora cobrou R$ 2,1 milhões do PT nacional em 2026 e aparece na prestação de contas da campanha de Lula por R$ 400 mil. A contratação simultânea demonstra uma fornecedora em comum, sem mostrar que o serviço pago pelo sindicato foi aproveitado eleitoralmente.
A Investigação enviou pedidos de informação aos envolvidos, mas até o momento não obteve retorno. O espaço permanece aberto para manifestações.
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