As digitais de Lula e do PT nos escândalos do INSS e Banco Master
Como um modelo de crédito consignado criado em governos petistas se expandiu, capturou estruturas públicas e terminou em um rombo de R$ 51 bilhões.
A implosão do Banco Master virou um jogo de empurra em Brasília. Desde que Daniel Vorcaro foi preso e a extensão do rombo veio à tona, apoiadores do governo Lula repetem na CPMI do INSS o apelido “BolsoMaster”, como se a história começasse em 2019, com a autorização dada pelo Banco Central para a compra do Banco Máxima. Não começa. Essa é só a fase em que o esquema ganha escala bancária. A origem política, a arquitetura do produto e a rede de proteção que permitiu sua expansão têm outro endereço.
O caso Master tem as digitais do PT desde a fundação. A estrutura que deu lastro ao banco foi desenhada na Bahia, sob os governos petistas de Jaques Wagner (hoje senador pelo estado e líder do governo no Senado) e Rui Costa (ministro-chefe da Casa Civil, o segundo cargo mais poderoso do governo Lula), a partir da transformação de um cartão vinculado à folha de servidores em uma máquina de crédito consignado em massa. Foi esse ativo que Augusto Lima levou ao negócio — e com ele Daniel Vorcaro encontrou o combustível para transformar o Banco Máxima no Banco Master.
Ao longo da ascensão do banco, diversos outros nomes centrais do campo lulista surgem de forma recorrente:
Walfrido dos Mares Guia, ex-ministro de Lula, é acionista da Biomm — ao lado de Vorcaro e do empresário Lucas Kallas — empresa que acumulou R$ 303,65 milhões em contratos com o governo Lula em 2025;
Márcio Pochmann, indicado por Lula para presidir o IBGE, entrou para o conselho de administração da mesma empresa meses depois de o Master se tornar seu maior acionista;
A nora de Jaques Wagner recebeu R$ 11 milhões do Master pela BK Financeira, empresa fundada no mesmo ano do contrato, por serviços de prospecção de crédito consignado;
Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda de Lula e Dilma, foi contratado pelo banco por cerca de R$ 1 milhão mensais, também por articulação de Wagner;
Ricardo Lewandowski, ex-ministro do STF, recebeu R$ 250 mil mensais via escritório da família — contrato igualmente articulado por Wagner — e continuou recebendo depois de tomar posse como ministro da Justiça, pasta que supervisiona a PF que investigava o banco;
Quando o banco já estava sob cerco regulatório, Vorcaro não foi buscar socorro no bolsonarismo. Foi ao Palácio do Planalto e reuniu-se com Lula, com ministros do governo e com operadores de confiança do presidente.
Antes de mapear os arquitetos, é importante registrar sobre o papel do governo Bolsonaro nessa história. Em outubro de 2022, Fabiano Zettel — cunhado de Vorcaro e operador financeiro central do grupo — doou R$ 3 milhões para a campanha de Bolsonaro e R$ 2 milhões para a de Tarcísio. Não há, porém, evidência de que Bolsonaro ou Tarcísio tenham agido ativamente em benefício do esquema.
Reduzir o caso Master a um produto do bolsonarismo é falsificar a cronologia para salvar a biografia política de quem ajudou a erguer o edifício. O banco pode ter crescido com aliados variados. Mas sua origem, sua base operacional e seus principais padrinhos políticos apontam todos para o mesmo lado: o Master carrega, desde a largada, a assinatura do PT.
Não à toa, a reação da base governista combina blindagem, negação e acusações de “fake news”. Setores ligados ao PT atuam para conter o avanço do caso e defender envolvidos, incluindo Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, enquanto jornalistas que expõem o escândalo são alvo de ataques e tentativas de descredibilização.
A origem do esquema na Bahia
A Empresa Baiana de Alimentos, a Ebal, foi criada em 1979 pelo governo da Bahia para garantir acesso da população de baixa renda a itens básicos de consumo. Sua principal marca era a rede de supermercados Cesta do Povo. Em seu auge, operava mais de 300 lojas em 229 dos 417 municípios baianos e mantinha frigoríficos, armazéns e centros de processamento. O ativo mais estratégico da Ebal, no entanto, não estava nas prateleiras. Estava no CredCesta, programa de crédito vinculado diretamente à folha de pagamento dos servidores públicos estaduais.
Ao longo dos anos de governos do PT na Bahia, a empresa entrou em deterioração. Em 2012, faturava cerca de R$ 600 milhões anuais e liderava o varejo estadual. O Tribunal de Contas do Estado calculou rombo acumulado de ao menos R$ 381,8 milhões no período que incluiu a gestão do petista Jaques Wagner como governador. Em 2016, registrou perda de R$ 158,1 milhões em um único exercício. Rui Costa, sucessor de Wagner, iniciou formalmente o processo de privatização por decreto em outubro de 2015.
Dois leilões fracassaram. Quando o terceiro foi realizado, em 13 de abril de 2018, a empresa já havia encolhido para 49 lojas e o valor mínimo havia caído para R$ 15 milhões. Surgiu um único interessado: a NGV Empreendimentos e Participações, empresa fundada no próprio ano do leilão, com capital social de R$ 500. O representante foi Ignacio Morales, ligado à Ginso, grupo espanhol que já mantinha interlocução com o governo baiano e com Augusto Ferreira Lima, o “Guga” Lima.
Formalmente, o nome de Augusto Lima não aparecia na operação. O que se vendia ali não era uma rede de supermercados em declínio. Era o acesso a uma base cativa de servidores públicos, com desconto automático em folha e margem para expansão agressiva do consignado. O varejo era o invólucro. O CredCesta era o prêmio.
A condução política do processo passou por Jaques Wagner, então secretário de Desenvolvimento Econômico da Bahia. Em fala pública no início de 2026, Wagner descreveu com naturalidade a lógica do negócio:
“Apareceu o Augusto Lima, que nem era do banco. Era um cabra que vendia consignado em sindicato. Ele se interessou porque na venda da Cesta do Povo, estava embarcado o cartão cesta, que o estado dava para todos os funcionários e aposentados. Comprava no cartão e ia ser descontado na folha no mês seguinte.”
— Jaques Wagner, em podcast, início de 2026.
A privatização foi apenas a primeira etapa. Duas semanas depois do leilão, Rui Costa assinou decreto que ampliou a margem consignável dos servidores vinculada ao cartão para até 75% da renda disponível: 30% de margem consignável exclusiva, mais 50% para expansão de serviços financeiros. Em janeiro de 2019, os cartões passaram a ser distribuídos automaticamente a todos os servidores ativos e inativos do estado, sem pedido prévio e sem autorização expressa individualizada. Associações de servidores, como a Asteba e a Asseba, passaram a operar como intermediárias.
Em janeiro de 2022, Rui Costa assinou novo decreto — agora proibindo a portabilidade de empréstimos consignados dos servidores públicos baianos para outros bancos. O efeito prático foi criar barreira de saída: servidores endividados com o CredCesta não podiam migrar para instituições com taxas menores. O monopólio foi juridicamente blindado.
Em 2020, Augusto Lima levou a carteira do CredCesta para o Banco Master, tornando-se sócio de Daniel Vorcaro e assumindo a presidência executiva. A carteira chegou a representar a totalidade do portfólio de varejo do banco — participação que só recuou para cerca de 80% com o crescimento posterior do Will Bank. O CredCesta se expandiu para 176 municípios em 24 estados.
Em novembro de 2023, com Augusto Lima na presidência do banco e a captação agressiva de CDBs no auge, o governador baiano Jerônimo Rodrigues (PT) foi convidado de honra no lançamento do Instituto Terra Firme — ONG criada por Lima — no Museu de Arte Moderna da Bahia, onde anunciou parceria oficial do governo estadual com a entidade. No mesmo período, a Assembleia Legislativa da Bahia concedeu a Lima a maior honraria da casa.
Enquanto isso, o Portal da Transparência do estado registrava uma relação financeira paralela: entre 2023 e fevereiro de 2026, o governo da Bahia realizou 207 pagamentos ao Banco Master, totalizando R$ 49,2 milhões — sendo R$ 47,4 milhões concentrados em 2024, quando o banco já estava sob escrutínio do mercado e do Banco Central. O governo afirma que os repasses decorrem de antecipação de precatórios do Fundef por livre escolha de servidores da educação, nos termos da EC 114/2021, e que o Master foi regularmente credenciado para operar nesse mercado. O processo de credenciamento e as condições oferecidas aos servidores não foram detalhados pelo governo até o fechamento desta reportagem.
Com o colapso do Master e Lima preso, a margem consignável que o CredCesta ocupava nos contracheques de milhares de servidores baianos — cerca de 30% da renda — ficou disponível. Em dezembro de 2025, o governo regulamentou um programa habitacional para servidores prevendo o uso exato dessa margem liberada. O CredCesta havia nascido num governo petista baiano, crescido com suporte estatal e, depois do colapso, servia de argumento para uma nova política pública do mesmo grupo. Em 6 de fevereiro de 2026, questionado pela imprensa sobre sua relação com Lima, Jerônimo respondeu com uma palavra: “fake news”. Disse que o diálogo havia sido “meramente institucional”.
O Banco Master também estendeu seus tentáculos à oposição baiana. Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) revelou que a empresa de consultoria do ex-prefeito de Salvador ACM Neto, vice-presidente do União Brasil e pré-candidato ao governo da Bahia, recebeu R$ 3,6 milhões do Master e da Reag em partes aproximadamente iguais, entre dezembro de 2022 e maio de 2024. ACM Neto confirma os pagamentos e diz que referem-se a consultoria em análise da agenda político-econômica nacional.
O Banco Central capturado
Para entender por que o Banco Central não fechou o Master anos antes de 2025, é preciso recuar ao período em que a cadeia de captura regulatória começou a ser montada — e essa cadeia começa em governos petistas.
Em 2007, durante o segundo mandato de Lula, Anthero de Moraes Meirelles foi indicado ao Conselho de Administração do Banco Central, com aval do então presidente da autarquia, Henrique Meirelles. Em 2011, sob Dilma Rousseff, Anthero foi promovido à Diretoria de Fiscalização — a posição mais sensível do BC, responsável pela supervisão de todo o sistema bancário.
Em 2015, ainda sob Dilma, Anthero promoveu Paulo Sérgio Neves de Souza à chefia do Departamento de Supervisão Bancária, o DESUP — o departamento que monitora o sistema financeiro em tempo real, de onde saem os alertas de liquidez e os indícios de deterioração. Em 2017, Michel Temer nomeou Paulo Sérgio para a Diretoria de Fiscalização. Na vaga que ele deixou no DESUP, indicou Belline Santana.
Em outubro de 2019, o BC, já sob Roberto Campos Neto, autorizou a transferência de controle do Banco Máxima para Daniel Vorcaro. O documento foi assinado por Paulo Sérgio, na condição de Diretor de Fiscalização — o mesmo homem que, segundo a PF, mantinha “relacionamento ilícito” com Vorcaro durante todo o processo regulatório. A garantia financeira apresentada por Vorcaro era um laudo de imóvel avaliado em R$ 57 milhões. A PF chegou ao valor real: cerca de R$ 2,5 milhões. Diferença de 2.280%.
Em fevereiro de 2021, o governo Bolsonaro renovou o mandato de Paulo Sérgio como Diretor de Fiscalização — período de expansão mais agressiva do Master. Esse é o fato que o argumento do “BolsoMaster” usa como âncora. Mas em fevereiro de 2023, quando o mandato expirou, o governo Lula não investigou, não demitiu, não afastou. Paulo Sérgio retornou ao DESUP como adjunto — com acesso pleno às informações sensíveis sobre o banco que continuava supervisionando. Permaneceu lá até ser administrativamente afastado em janeiro de 2026, três meses depois da liquidação do Master.
Belline Santana, que substituiu Paulo Sérgio na chefia do DESUP em 2017, foi nomeada em dezembro de 2024 por Gabriel Galípolo para o conselho fiscal da Centrus — o fundo de pensão dos servidores do Banco Central — para um mandato de quatro anos. A nomeação ocorreu no mesmo mês em que Vorcaro se reunia com Lula no Palácio do Planalto.
A cronologia é clara: a cadeia de indicações que tornou possível a captura do regulador foi construída em governos petistas. A autorização formal veio em 2019, sob Campos Neto. Os homens que a assinaram e os que ficaram calados chegaram a suas posições numa linhagem que começa em 2007.
É inegável que o Banco Central demorou a impor um freio definitivo às manobras de Vorcaro sob a administração de Roberto Campos Neto, indicado por Bolsonaro. Mas vale lembrar que foi também nesse período que se consolidou a autonomia formal do Banco Central, com a Lei Complementar nº 179/2021, que instituiu mandatos fixos para a diretoria e reduziu a influência direta do governo de plantão sobre a política monetária. Na prática, a medida buscou dar mais previsibilidade à economia e afastar decisões técnicas de pressões políticas imediatas.
Wagner, o intermediário
Ao longo de 2023, o Banco Master já estava sob monitoramento diferenciado do Banco Central. Mesmo assim, em 28 de agosto, Jaques Wagner articulou a aproximação do banco com o campo governista, viabilizada pela contratação do escritório Lewandowski Advocacia por R$ 250 mil mensais para consultoria jurídica e institucional. Ricardo Lewandowski havia deixado o Supremo Tribunal Federal quatro meses antes.
Em 17 de janeiro de 2024, ao ser indicado para o Ministério da Justiça, Lewandowski se desligou formalmente do escritório. O contrato com o Banco Master, no entanto, permaneceu ativo sob gestão dos filhos Enrique e Yara Lewandowski. Em 1º de fevereiro de 2024, Lewandowski tomou posse como ministro da Justiça e Segurança Pública do governo Lula. A pasta supervisiona a Polícia Federal, que investigava o conglomerado. O contrato seguiu em vigor por mais 21 meses. A maior parte dos R$ 6,5 milhões pagos ao escritório foi recebida enquanto Lewandowski chefiava o ministério.
No primeiro semestre de 2024, após o fracasso da tentativa do governo Lula de emplacar Mantega no conselho da Vale — rejeitada pelo mercado —, Wagner articulou nova posição para o ex-ministro. Mantega — chefe da política econômica dos governos Lula e Dilma, o ministro da Fazenda mais longevo desde o Plano Real — foi contratado como consultor estratégico do Banco Master. Remuneração: aproximadamente R$ 1 milhão mensais. O papel declarado era facilitar a venda do banco ao BRB e abrir canal com o presidente da República. Mantega cumpriu a segunda parte: foi ele quem articulou a reunião de dezembro de 2024 entre Vorcaro e Lula.
Em 2022, o Master contratou a BK Financeira, empresa fundada naquele mesmo ano, por serviços de prospecção de operações de crédito consignado. A sócia da empresa é Bonnie Toaldo Bonilha, casada com Eduardo Mendonça Sodré Martins — filho da companheira de Jaques Wagner e atual secretário de Meio Ambiente do governo da Bahia. O valor pago foi de R$ 11 milhões, segundo o Metrópoles. O sócio de Bonnie confirmou a parceria e afirmou que todos os valores foram formalizados por nota fiscal.
Questionado pela imprensa, Wagner confirmou a indicação de Lewandowski, mas negou categoricamente qualquer envolvimento na contratação de Guido Mantega pelo Banco Master e que “jamais participou de qualquer intermediação ou negociação” em favor da a BK Financeira. Guido Mantega negou irregularidades e afirmou que sua atuação foi técnica e dentro da legalidade. Lewandowski confirmou o contrato, mas disse que foi firmado após deixar o STF, quando “retornou às atividades de advocacia”, e que ao ser convidado para o ministério “retirou-se do escritório e suspendeu o registro na OAB, deixando de atuar em todos os casos.” Não explicou por que os pagamentos continuaram por 21 meses depois.
Paulo Gala, economista-chefe do Banco Master entre setembro de 2021 e julho de 2025, ministrou curso de extensão na Fundação Perseu Abramo — o braço de formação política do PT —, em parceria com a Unicamp, segundo reportagem da Folha de S.Paulo. O curso era voltado a filiados, militantes e servidores públicos. A Fundação classificou a parceria como de “caráter acadêmico”.
Todos os caminhos levam a Brasília
Todos os encontros de Daniel Vorcaro no Palácio do Planalto têm uma característica em comum: nenhum apareceu na agenda oficial. A existência de cada visita foi revelada retroativamente por meio dos registros do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), obtidos via Lei de Acesso à Informação:
4 de dezembro de 2023. Às 15h42, Vorcaro e o empresário Lucas Kallas entraram no Palácio no mesmo minuto. Kallas é sócio de Vorcaro na Biomm S/A e havia sido indicado cinco meses antes pelo ministro Alexandre Silveira (Minas e Energia) para o Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável — o “Conselhão” do presidente Lula. A indicação partiu exatamente pelo administrador da pasta responsável pela Agência Nacional de Mineração, que investigaria as empresas de Kallas na Operação Parcours da PF. Nenhuma pauta registrada.
A empresa de biotecnologia na qual Vorcaro era o maior acionista individual via Fundo Cartago acumulou R$ 303,65 milhões em contratos com o governo Lula em 2025, para fornecimento de insulina ao SUS. Em 26 de abril de 2024, Lula foi pessoalmente a Nova Lima (MG) inaugurar a fábrica da Biomm. Na cerimônia, elogiou Kallas publicamente, disse tê-lo conhecido numa reunião no Planalto e que costumava avaliar as pessoas “mais pelos olhos do que pelas palavras”. Walfrido dos Mares Guia, ex-ministro de Lula e acionista da Biomm, estava no palanque. Em abril de 2024, Márcio Pochmann, presidente do IBGE indicado por Lula, passou a integrar o conselho de administração da empresa.
1º de março de 2024. Vorcaro voltou ao Palácio. Sem pauta.
3 de abril de 2024. Às 17h29, Vorcaro entrou no Palácio. Às 17h51 — 22 minutos depois —, Jaques Wagner foi registrado na mesma portaria, para reunião sem registro oficial. Wagner era, naquele momento, o articulador ativo do contrato de Lewandowski (sete meses em vigor) e do contrato de Mantega (em negociação final).
6 de novembro de 2024. Henrique Vorcaro, pai do banqueiro, entrou no Palácio. Sem pauta.
4 de dezembro de 2024. Vorcaro se reuniu diretamente com o presidente Lula. A reunião não foi registrada oficialmente. Foi articulada por Mantega — que recebia do banco R$ 1 milhão mensais para exatamente isso. Presentes: Rui Costa (ministro da Casa Civil, ex-governador da Bahia que privatizou a Ebal), Alexandre Silveira (ministro de Minas e Energia), Gabriel Galípolo (já indicado para presidir o Banco Central) e Augusto Lima (CEO do Master). Segundo reportagens do Poder360, — não contraditas pelo Palácio —, Vorcaro relatou que o BTG Pactual havia manifestado interesse em comprar o banco por valor simbólico e perguntou ao presidente se devia vender. Lula o aconselhou a não vender. Criticou Roberto Campos Neto. Criticou André Esteves. Em mensagem apreendida pela PF e enviada à então namorada Martha Graeff logo após a reunião, Vorcaro descreveu a reunião como “ótima”.
Em entrevista ao UOL, Lula minimizou o encontro: "Eu chamei o Galípolo, chamei o Rui Costa, que é da Bahia, que conhecia ele, e ele então me contou da perseguição que estava sofrendo, que tinha gente interessada em derrubar ele, não sei das quantas.” Rui Costa classificou o encontro como “institucional”, dizendo que “um presidente que quer governar de forma democrática tem que estar aberto à sua agenda.” O Planalto informou via LAI que “não foram produzidas atas, registros, filmagens, gravações ou outros documentos” das reuniões.
As conexões jurídicas
Walfrido Warde, advogado ligado ao Grupo Prerrogativas que já doou R$ 400 mil ao PT, era o advogado de Daniel Vorcaro. Em 17 de novembro de 2025, horas antes de o juiz Ricardo Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília, decretar a prisão de Vorcaro, Warde telefonou para Leite e trocou mensagens de WhatsApp com ele na tentativa de dissuadi-lo. Às 18h08, enviou ao próprio Vorcaro o print da conversa que estava tendo com o magistrado, acompanhado da mensagem: “Estamos infernizando o cara.” A troca foi apreendida pela PF no celular do banqueiro e integra o relatório enviado ao ministro André Mendonça. A PF concluiu que o episódio evidencia que “Vorcaro tomou conhecimento prévio da futura operação policial, por meios ilícitos”.
Em 28 de novembro de 2025, o ministro do STF Dias Toffoli viajou em um jatinho particular para assistir à final da Copa Libertadores, em Lima. No mesmo voo estava o advogado Augusto de Arruda Botelho — ex-secretário nacional de Justiça (cargo que deixou em janeiro de 2024) — que atua na defesa de Luiz Antônio Bull, diretor de Compliance do Banco Master alvo de Operação Compliance Zero.
Nos dias seguintes, Toffoli proferiu decisões favoráveis ao Master: impôs sigilo máximo ao processo, determinou o acesso da defesa a provas apreendidas e transferiu a supervisão das investigações para o STF. Acabou se declarando suspeito após vir a público o investimento no resort Tayayá, vinculado à sua família no Paraná, por meio do FIP Arleen — fundo cujo único cotista era o Fundo Leal, do qual Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, era cotista. A empresa familiar Maridt havia vendido parte da participação por R$ 3,2 milhões em 2021 e o restante por R$ 3,5 milhões em 2025. No total, o FIP Arleen injetou R$ 35 milhões no empreendimento. O processo foi redistribuído ao ministro André Mendonça.
O escritório Barci de Moraes Advogados, dirigido por Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, firmou contrato com o Banco Master no valor de R$ 129 milhões para o período de 2024 a 2027 — cerca de R$ 3,6 milhões mensais —, com escopo que incluía representação em matérias junto ao Banco Central.
Segundo reportagens do Metrópoles, Alexandre de Moraes contatou o presidente do BC, Gabriel Galípolo, em pelo menos quatro ocasiões — três telefonemas e uma reunião presencial — para discutir a situação do banco. Moraes descreveu Vorcaro positivamente e sugeriu que havia resistência dos grandes bancos privados contra o Master. Galípolo respondeu com os números das irregularidades identificadas.
As conexões com o escândalo do INSS
O principal lobista identificado no esquema de descontos fraudulentos no INSS é Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”. Segundo documentação apreendida pela PF, Antunes operava como intermediário entre o Banco Master e o aparelho do governo federal, conectando operadores, entidades e agentes políticos.
Edson Claro, ex-funcionário de Antunes, declarou à PF que Fábio Luís Lula da Silva — o “Lulinha”, filho do presidente — recebia R$ 300 mil mensais provenientes do Careca do INSS. A informação é corroborada por mensagens apreendidas trocadas entre Antunes e a empresária Roberta Luchsinger, nas quais o operador se refere ao pagamento como destinado ao “filho do rapaz”.
Cinco repasses foram documentados, com Luchsinger recebendo R$ 1,5 milhão de Antunes pela intermediação, via empresa chamada Brasília Consultoria. A PF também suspeita que Roberta Luchsinger, amiga íntima de Lulinha, funcionou como elo entre Antunes e Lulinha. Segundo o Metrópoles, ela gastou R$ 474,5 mil em joias no período investigado, com suspeita de lavagem de dinheiro.
As movimentações encontram correspondência em dados do Coaf, que registrou R$ 1,5 milhão em transferências associadas a Fábio Luís no período investigado. A própria defesa confirmou que Antunes custeou uma viagem a Portugal, em novembro de 2024, sob a justificativa de visita a uma fábrica de cannabis medicinal. Paralelamente, a PF identificou coincidência de deslocamentos entre Lulinha e o “Careca do INSS” em três ocasiões, com passagens simultâneas por Madri e Lisboa, segundo o Metrópoles. Na CPMI do INSS, o relator Alfredo Gaspar (União-AL) afirmou haver indícios de conexão entre a teia de lavagem do Banco Master e o caso de Lulinha.
Em janeiro de 2026, Lulinha se mudou para a Espanha — movimento interpretado pela PF como possível evasão. Em fevereiro, abriu a empresa Synapta em Madri em um “contrato de gaveta”. O ministro André Mendonça autorizou a quebra de seus sigilos em janeiro de 2026. O ministro Flávio Dino, por sua vez, bloqueou o acesso da CPMI a esses mesmos dados. Quando a oposição aprovou a quebra de sigilo de Lulinha na comissão, deputados da base governista partiram para confronto físico, gerando confusão que levou à suspensão da sessão.
O presidente Lula declarou publicamente que “se tiver filho meu envolvido nisso, será investigado” — formulação condicional proferida ao menos um mês depois de o nome de Lulinha já estar formalmente nas investigações.
O esquema no INSS
O Banco Master aparece no centro do esquema do INSS não apenas como ofertante de crédito consignado, mas como a estrutura financeira que absorvia e convertia esses fluxos em ativos negociáveis. Créditos originados — inclusive sem comprovação adequada de autorização — eram integrados a fundos e reempacotados no sistema financeiro. O que começava como desconto no contracheque de um aposentado terminava como componente de portfólio. Em março de 2026, o INSS identificou 251.718 contratos sem documentação vinculados ao banco, e o bloqueio de R$ 2 bilhões em repasses, em janeiro, marcou o primeiro reconhecimento formal de que as investigações convergiam na mesma engrenagem.
Esse padrão já era perceptível anos antes. Relatos de servidores e consumidores sobre o CredCesta apontavam assédio comercial, falta de transparência e dificuldade de cancelamento, além da contratação de crédito rotativo sob a aparência de consignado, com efeito de endividamento crescente. Também surgiam queixas sobre cobranças inesperadas e sobre a dificuldade de identificar os responsáveis, diante de estruturas fragmentadas em diferentes CNPJs. O que começou na folha de servidores estaduais reaparece, em escala ampliada, no INSS: mesma lógica — acesso direto à renda, desconto automático e baixa inadimplência — agora aplicada a mais de 39 milhões de beneficiários dentro da própria estrutura federal.
No início do terceiro mandato de Lula, o Ministério da Previdência foi entregue a Carlos Lupi (PDT). Segundo reportagem do Metrópoles que revelou o conteúdo das delações premiadas de André Fidelis e Virgílio de Oliveira Filho — ex-diretores do INSS que firmaram acordos de colaboração com a PF —, o ministro foi alertado diversas vezes sobre o crescimento anormal dos descontos associativos, mas levou cerca de um ano para adotar qualquer providência. Nesse intervalo, segundo os mesmos delatores, os valores descontados irregularmente passaram de R$ 80,6 milhões para R$ 248,1 milhões mensais.
O quadro mais amplo, medido pela CGU sobre o universo total de repasses a sindicatos e associações — legítimos e irregulares —, confirma a trajetória de explosão: os descontos saíram de R$ 706,2 milhões em 2022 para R$ 1,3 bilhão em 2023 e R$ 2,8 bilhões em 2024, alta de R$ 2,1 bilhões em dois anos. Os dados constam do relatório da Controladoria que embasou a Operação Sem Desconto.
O presidente do INSS nomeado por Lupi, Alessandro Stefanutto, foi apontado pela PF como facilitador do esquema. Segundo as investigações, recebia R$ 250 mil mensais em propina entre junho de 2023 e setembro de 2024 — período que coincide integralmente com sua gestão. A Operação Indébito ampliou a estimativa para R$ 4 milhões totais, com repasses partindo de contas vinculadas à advogada Cecília Rodrigues Mota, via escritório do advogado Eric Douglas Martins Fidélis — filho de André Fidelis, então diretor de Benefícios do INSS e igualmente investigado.
André Fidelis, nomeado na mesma gestão, foi apontado pela CPMI como o diretor que mais liberou acordos de cooperação técnica com entidades em toda a história do órgão. Sob sua gestão, 14 entidades movimentaram R$ 1,6 bilhão em descontos. A investigação aponta R$ 11,9 milhões em propinas a Fidelis, além de evolução patrimonial incompatível com a renda, incluindo tentativa de compra de imóvel de R$ 28 milhões em Balneário Camboriú.
Lupi, ao ser questionado no dia da operação que afastou Stefanutto, afirmou: “A indicação do Stefanutto é de minha inteira responsabilidade. Doutor Stefanutto é um servidor que tem me dado todas as demonstrações de ser exemplar.” Resistiu à demissão determinada por Lula e deixou o ministério nove dias após a deflagração da Operação Sem Desconto, citado em duas delações. À CPMI, também confirmou ter recebido representantes do Sindnapi em seu gabinete, mas disse que “nunca fez qualquer pedido”.
O Sindnapi — que tem como vice-presidente José Ferreira da Silva, o Frei Chico, irmão do presidente Lula, desde 2023 — é um dos principais alvos das investigações. Entre 2020 e 2025, movimentou R$ 507,5 milhões, com arrecadação saltando de R$ 23 milhões em 2019 para R$ 154 milhões em 2024. Auditoria indicou que 96% dos associados entrevistados negaram ter autorizado os descontos, e o STF determinou o bloqueio de R$ 389 milhões da entidade.
Na renovação do Acordo de Cooperação Técnica com o INSS, em 2023, o sindicato omitiu a presença de Frei Chico na diretoria, enquanto a base governista rejeitou sua convocação para depor na CPMI. Ainda assim, mesmo diante desse conjunto de evidências já documentado, a Advocacia-Geral da União optou por não incluir o Sindnapi nem a Contag na lista inicial de entidades com bens bloqueados, apesar dos indícios apontados pela CGU.
Nesse cenário, a tese de que o problema teria sido herdado da gestão Bolsonaro perde força diante dos dados: a CGU identificou 59 ocorrências em que uma mesma entidade incluiu mais de 50 mil descontos em benefícios em um único mês, das quais 39 — dois terços — ocorreram entre abril de 2023 e agosto de 2024, já no governo Lula. No mesmo período, a arrecadação das entidades associativas saltou de R$ 544 milhões em 2021 para R$ 2,1 bilhões em 2024, enquanto o número de queixas de aposentados passou de pouco mais de 24 mil no biênio 2019-2020 para quase 460 mil nos dois primeiros anos do governo atual.
Parte da diferença em relação ao período Bolsonaro tem explicação documentada: em 2019, a Procuradoria da República no Paraná expediu recomendação ao INSS para suspender repasses a entidades com crescimento suspeito, o que conteve ocorrências atípicas naquele momento. Essa contenção não se repetiu sob Lula — mesmo após alertas formais do TCU em 2021 e da CGU em 2023.
A própria agência de checagem Aos Fatos verificou que a afirmação de Lula de que “a quadrilha foi criada em 2019” não encontrava respaldo documental nas investigações, com indícios de ocorrências já no governo Temer. Pesquisa Datafolha de junho de 2025 mostrou que 50% dos brasileiros consideravam o governo Lula com “muita responsabilidade” nas fraudes — contra 41% para o governo Bolsonaro.
A ascensão e queda de Vorcaro
Ao longo de uma década, o Banco Master cresceu em ritmo incompatível com qualquer padrão bancário reconhecível. Captava recursos pagando entre 130% e 180% do CDI, sustentado na garantia do FGC, e alocava esses valores em ativos de baixa transparência. O próprio Vorcaro descreveu o modelo à Polícia Federal com uma objetividade desconcertante: era “100% baseado no FGC”.
A engrenagem funcionava assim: o banco emitia CDBs com rentabilidade acima do mercado, captava depósitos de investidores atraídos pelo retorno e pela cobertura do fundo garantidor, e usava esses recursos para inflar ativos fictícios que serviam de lastro para novas operações. Um dos casos mais emblemáticos foi a compra de R$ 6 bilhões em créditos da empresa Tirreno, uma carteira que não tinha qualquer substância: não houve pagamento identificado, não havia tomadores verificáveis e, quando o Banco Central realizou verificação amostral nos CPFs listados, constatou que todos eram inexistentes. Esses mesmos créditos foram depois revendidos ao Banco de Brasília por R$ 12,2 bilhões — o dobro do valor de aquisição, em ativos que não existiam.
A estrutura era complementada por operações via Reag Investimentos, cujos reflexos aparecem nas declarações de imposto de renda do próprio Vorcaro de forma difícil de explicar de outra maneira. Em dezembro de 2023, cotas adquiridas por R$ 2,5 milhões foram vendidas no dia seguinte por R$ 294,5 milhões. Em outra operação, R$ 10 milhões se converteram em R$ 160 milhões em uma semana. Somadas, essas transações geraram R$ 441,9 milhões. Em 2025, R$ 700 milhões em ativos foram transferidos para uma offshore nas Ilhas Cayman, com parte relevante circulando por fundos interligados à própria estrutura. A Reag seria liquidada pelo Banco Central em janeiro de 2026 e passou a ser investigada por suspeita de lavagem de dinheiro, inclusive em apurações que envolvem organizações criminosas.
O patrimônio de Vorcaro espelhava essa trajetória: menos de R$ 3 milhões declarados em 2015, mais de R$ 2,5 bilhões em 2024. A cadeia societária que sustentava esse crescimento recorria a fundos sucessivos que convergiam para um mesmo núcleo familiar, construída camada por camada ao longo dos anos em que o banco crescia e a fiscalização não intervinha.
Do lado de fora, o que o mundo via era outra coisa. Em agosto de 2023, a festa de 15 anos da filha reuniu 500 convidados numa mansão no condomínio Miguelão, em Nova Lima. O custo estimado foi de R$ 15 milhões. Para que os vizinhos não se incomodassem com o barulho, Vorcaro enviou garrafas de Sassicaia safra 2011, avaliadas em R$ 6 mil cada, e ofereceu estadia no hotel Fasano. Alok, The Chainsmokers e Dennis DJ foram as atrações.
Em abril de 2024, Vorcaro estava em Londres, no George Club, em Mayfair, patrocinando uma degustação de uísque Macallan que custou cerca de US$ 640 mil. Entre os convidados estavam o ministro Alexandre de Moraes, o ministro Dias Toffoli, o diretor-geral da Polícia Federal e o então ministro da Justiça Ricardo Lewandowski. Naquela noite, Vorcaro comentou com a namorada pelo WhatsApp: “Todos os ministros do Brasil, do STF, STJ etc, e euzinho discursando.”
Menos de dois anos depois, em 17 de novembro de 2025, ele foi preso no Aeroporto de Guarulhos ao tentar embarcar em seu jato particular com destino a Malta. No dia seguinte, o Banco Central decretou a liquidação das instituições do conglomerado Master. Um aporte anunciado às vésperas da intervenção nunca se concretizou.
O colapso expôs a dimensão do dano: R$ 51,8 bilhões a serem cobertos pelo FGC, R$ 1,86 bilhão perdido por fundos de pensão sem cobertura, cerca de 1,6 milhão de pessoas afetadas e centenas de milhares de contratos irregulares vinculados ao INSS. A PF identificou milhares de empresas relacionadas e quebrou sigilos de mais de uma centena de alvos. Augusto Lima, que havia deixado o grupo em 2024 e assumido o controle do Banco Pleno, foi preso na mesma operação; a instituição foi igualmente liquidada em fevereiro de 2026. Hoje, Lima responde em liberdade sob medidas cautelares. Vorcaro permanece preso em presídio federal.
A rede política e empresarial que o cercava se dissipou com a mesma velocidade com que se formou. Os ministros que provaram o Macallan em Londres distanciaram-se. Os consultores que receberam milhões por mês deixaram de atender o telefone. O empresário que circulava entre Brasília e a Faria Lima como símbolo de um capitalismo dinâmico e bem-relacionado terminou onde começou — sozinho com o que construiu.
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David and Pamela,
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