Exclusivo: delegado da PF Marcelo Ivo recebeu cantor Gusttavo Lima em aeroporto na Flórida no mesmo dia de mandado de prisão no Brasil
Então oficial de ligação da PF junto ao ICE, Marcelo Ivo foi acionado quando o jato do cantor sertanejo ainda estava no Brasil; horas depois, a Justiça de Pernambuco decretaria sua prisão.
Na madrugada de segunda-feira, 23 de setembro de 2024, Fort Lauderdale, cidade na costa sudeste da Flórida, ainda estava escura. A cidade, conhecida pelas suas belas praias, atravessava uma noite quente e úmida. Foi por volta das 3h que Marcelo Ivo de Carvalho foi acordado.
Naquela madrugada, segundo fontes com acesso direto ao delegado, Marcelo Ivo tinha uma missão fora da rotina: ir ao aeroporto para receber o cantor sertanejo Nivaldo Batista Lima, mais conhecido pelo nome artístico de Gusttavo Lima.
Delegado da Polícia Federal, Marcelo Ivo ocupava desde agosto de 2023 uma das funções mais sensíveis da corporação fora do Brasil: era oficial de ligação junto ao ICE, braço de imigração dos Estados Unidos. Em 20 de abril de 2026, três dias após reportagem de A Investigação revelar operações ilegais realizadas pelo delegado contra brasileiros em solo americano, o Departamento de Estado o expulsou do país.
Na noite anterior ao voo, domingo, 22 de setembro, Gusttavo Lima havia se apresentado no Rock in Rio, no Rio de Janeiro. Seguiu então para Goiânia, onde seu jato particular aguardava. Nas primeiras horas de 23 de setembro, o avião — um Gulfstream G550 matriculado como PS-GSG, registrado na ANAC em nome da empresa Balada Eventos e Produções Ltda. — decolou com destino ao Nordeste. O voo fez escala em Fortaleza, onde a aeronave permaneceu parada por sete horas.
Às 3h, horário de Fort Lauderdale, quando Marcelo Ivo foi acordado, o jato ainda estava em solo brasileiro — parado no aeroporto de Fortaleza. Alguém o alertou antes mesmo de Gusttavo Lima deixar o país. Horas depois, o avião decolou de Fortaleza e seguiu direto para a Flórida, pousando no Aeroporto Internacional de Fort Lauderdale às 14h36 do horário local. As imagens do jato amarelo e laranja estacionado no hangar foram obtidas com exclusividade pelo repórter Fernando Hessel e exibidas pelo Brasil Urgente, da Band
No Brasil, naquele mesmo dia, em Recife, a juíza Andréa Calado da Cruz, da 12ª Vara Criminal, expediria mandado de prisão preventiva contra o cantor no âmbito da Operação Integration, investigação sobre lavagem de dinheiro, apostas ilegais e jogo do bicho. A Polícia Civil de Pernambuco notificaria a Interpol. A ordem seria revogada 24 horas depois, em 24 de setembro, pelo desembargador Eduardo Guilliod Maranhão, em habeas corpus.
Segundo a defesa, Gusttavo Lima estava no ar ou já havia pousado quando a prisão foi decretada. Meses depois, o Ministério Público de Pernambuco pediria o arquivamento do caso por insuficiência de provas. O cantor voltaria ao Brasil sem ter sido detido. O que não havia aparecido até agora era o personagem que o esperava do outro lado da viagem. De acordo com fontes ouvidas por esta reportagem, Marcelo Ivo recebeu Gusttavo Lima no desembarque.
Marcelo Ivo não era um personagem neutro naquele local. Como oficial de ligação junto ao ICE, era o canal formal da PF com autoridades migratórias americanas. Sua presença no aeroporto, no dia em que a Justiça de Pernambuco decretaria a prisão preventiva do cantor, levanta uma pergunta objetiva: por que o representante brasileiro junto ao sistema de imigração dos Estados Unidos foi mobilizado para receber um investigado que ainda nem havia deixado o Brasil quando o alerta chegou?
Como revelou A Investigação, o delegado mantinha relações frequentes com empresários brasileiros e circulava em festas privadas na cidade. Em outubro de 2024, usava como residência um apartamento no SLS Lux Brickell, um dos endereços mais caros de Miami, sem que houvesse registro público de quem alugava o imóvel ou pagava as despesas. Em abril de 2026, enquanto Washington discutia sua permanência nos Estados Unidos, ele foi visto em uma festa no Casa Neos Miami, espaço frequentado pela elite brasileira na cidade.
Oito dias de silêncio
Oito dias antes do mandado de prisão, em 15 de setembro de 2024, a Polícia Civil de Pernambuco indiciou formalmente o cantor por lavagem de dinheiro e organização criminosa, no âmbito da Operação Integration. O indiciamento era sigiloso. Só foi tornado público pelo Fantástico, em 29 de setembro.
A investigação mirava um esquema de lavagem envolvendo apostas esportivas ilegais (bets) e jogo do bicho, com movimentação estimada em R$ 3 bilhões. O nexo com Gusttavo Lima era duplo: ele mantinha contrato de uso de imagem com a empresa Vai de Bet — pagamentos superiores a R$ 8 milhões — e havia transportado no próprio jato, em 1º de setembro, os donos da empresa, José André da Rocha Neto e sua esposa Aislla Sabrina, em viagem à Grécia.
A acusação era de que ele havia ajudado o casal a fugir. A defesa rebateu com o argumento vencedor: os mandados de prisão contra José André e Aislla foram expedidos em 3 de setembro — dois dias depois do embarque para Kavala. O desembargador acatou: “Resta evidente que esses não se encontravam na condição de foragidos no momento do retromencionado embarque.”
O indiciamento sigiloso, porém, já existia desde 15 de setembro. O que permanece sem resposta é quem, além das autoridades diretamente envolvidas, tinha conhecimento desse movimento antes de sua divulgação pública. Oito dias depois, na noite do Rock in Rio, o jato estava pronto para partir.
Fort Lauderdale é a mesma cidade em que a brasileira Flávia Magalhães afirma ter sido monitorada, em fevereiro de 2024, durante uma manifestação contra Alexandre de Moraes. Meses antes, o oficialato da Polícia Federal em Miami, chefiado por Marcelo Ivo, havia sido acionado formalmente para acompanhar o caso dela — uma cidadã americana, residente na Flórida desde 2012, que não era ré em processo criminal no Brasil, mas teve o passaporte brasileiro bloqueado por ordem do ministro.
O episódio ganharia outra camada meses depois. Notório apoiador de Jair Bolsonaro nas eleições anteriores, quando fez campanha pública pelo ex-presidente, Gusttavo Lima afirmou em janeiro de 2025 que pretendia ele próprio disputar a Presidência da República. Não chegou a se filiar a partido e, em março, recuou publicamente.
Esta reportagem não afirma que Gusttavo Lima cometeu crime, nem que sua entrada nos Estados Unidos tenha sido irregular. A ordem de prisão foi revogada no dia seguinte, e o Ministério Público de Pernambuco pediu o arquivamento do caso por insuficiência de provas. O fato novo é outro: no dia em que o mandado seria expedido, o cantor foi recebido na Flórida por um delegado da Polícia Federal lotado no sistema migratório americano — e esse delegado havia sido acordado quando o jato ainda estava parado em Fortaleza.
O segurança, o delator do PCC e o aeroporto
Há uma segunda camada nessa história que conecta os mesmos nomes ao crime organizado. O segurança pessoal de Gusttavo Lima era Rogério de Almeida Felício, conhecido como Rogerinho. Policial civil de São Paulo, estava com o cantor durante os eventos de setembro de 2024. Em dezembro do mesmo ano, a Polícia Federal deflagrou a Operação Tacitus e o incluiu entre os alvos. Rogerinho era suspeito de colaborar com o PCC a partir de dentro da corporação, vazar informações sigilosas de inquéritos em andamento e manipular investigações em favor da facção.
Seu patrimônio chamava atenção. Com salário de pouco mais de R$ 7 mil mensais na Polícia Civil, Rogerinho figurava como sócio de quatro empresas: uma clínica de estética na Vila Clementino, zona sul de São Paulo; uma empresa de segurança privada em Santos; uma construtora no litoral paulista; e uma administradora de bens em Praia Grande. Somadas, as empresas tinham capital social declarado de cerca de R$ 60 mil. A vitrine, porém, era mais vistosa do que os registros formais sugeriam.
A empresa de segurança levava no nome a palavra “Punisher”, apelido usado por Rogerinho nas redes sociais, onde acumulava cerca de 100 mil seguidores. A construtora, chamada Magnata, anunciava empreendimentos imobiliários em Praia Grande, incluindo um conjunto de sobrados vendidos por R$ 230 mil cada unidade.
Quando a PF foi às ruas, em 17 de dezembro, Rogerinho não foi encontrado. Outros alvos da operação foram presos, incluindo um delegado e investigadores da Polícia Civil. Ele permaneceu foragido até 23 de dezembro, quando se entregou.
Rogerinho também havia sido citado na delação premiada de Antônio Vinícius Lopes Gritzbach, empresário que colaborava com o Ministério Público de São Paulo e revelava um esquema de propinas pagas por integrantes do PCC a policiais. Gritzbach foi executado a tiros em 8 de novembro de 2024. O local do assassinato: o Terminal 2 do Aeroporto Internacional de Guarulhos. Guarulhos é o ponto em que as pontas voltam a se encontrar. Foi ali que Marcelo Ivo, por anos, chefiou a delegacia da Polícia Federal. E foi ali que o delator que citara o segurança do cantor acabou morto semanas depois.
A ligação de Rogerinho com o PCC também passava por seu entorno familiar. Em junho de 2025, a Polícia Federal prendeu Danielle Bezerra dos Santos, mulher do policial civil, sob acusação de lavar dinheiro para a facção. Segundo o Ministério Público de São Paulo, ela teria atuado na ocultação de valores ligados ao tráfico de drogas e a outros crimes atribuídos a integrantes do PCC. Antes de se casar com Rogerinho, Danielle manteve relacionamento com dois integrantes da cúpula da facção, ambos já mortos: Felipe Geremias dos Santos, o “Alemão”, apontado como responsável por operações do PCC na Grande São Paulo, e Janeferson Mariano Gomes, o “Nefo”, citado em investigações como líder do plano para sequestrar o senador Sérgio Moro.
Mas a aproximação entre Marcelo Ivo e casos ligados ao PCC não passava apenas por Guarulhos, nem se limitava à trajetória funcional do delegado. A Investigação revelou com exclusividade outro vínculo sensível: em 2007, o Ministério Público de São Paulo denunciou sua única irmã, a advogada Gisele Cristina de Carvalho, sob acusação de integrar uma quadrilha armada ligada à facção na região de São José do Rio Preto. Segundo a denúncia, ela atuaria como elo com integrantes presos, transmitindo recados e repassando informações. O processo citava, entre outros episódios, uma visita feita em 2006 a Valdeci Alves dos Santos, o “Colorido”, apontado como uma das lideranças históricas do PCC.
Gisele também foi abordada em 2010 por agentes antidrogas do Paraguai ao deixar um hotel em Pedro Juan Caballero, na fronteira com o Brasil, no mesmo carro em que estava Ariane dos Anjos, advogada de Marcola e alvo de mandado de prisão no Brasil. Gisele foi liberada por não haver ordem judicial contra ela.
O caso contra a irmã de Marcelo Ivo se arrastou por 16 anos. Nesse intervalo, ele ascendeu na Polícia Federal, comandou a delegacia no maior aeroporto do país e foi enviado a Miami como o representante operacional mais graduado da polícia brasileira em solo americano.
A versão de Gustavo Lima
Em live no Instagram realizada em 30 de setembro de 2024, Gusttavo Lima negou categoricamente que tivesse fugido. Disse que viaja constantemente entre o Brasil e os Estados Unidos desde 2022, onde tem residência e empresas na região de Miami. Afirmou que a viagem havia sido contratada com antecedência — a defesa apresentou documentos apontando datas anteriores ao mandado. Disse ter sabido da ordem de prisão apenas após pousar na Flórida, ao receber uma ligação.
“Eu não preciso disso. Jamais vou fugir das minhas responsabilidades. Ninguém fugiu aqui, não. Foragido do quê? Eu não sou bandido”, declarou na transmissão.
A defesa reforçou o argumento cronológico: o mandado foi expedido quando o cantor já estava no ar ou recém-chegado ao destino. O desembargador que revogou a ordem o acolheu parcialmente, focando na questão da viagem à Grécia, e não na saída de setembro. O MP pediu o arquivamento em novembro. A Justiça de Pernambuco, em decisão de dezembro de 2024, negou o arquivamento na primeira instância.
O que Gusttavo Lima não respondeu — porque nunca foi perguntado publicamente — é se sabia que um delegado da Polícia Federal brasileira o esperaria no desembarque. E o que a cronologia acrescenta é mais incômodo ainda: quando Marcelo Ivo foi acordado às 3h da manhã em Fort Lauderdale, o jato do cantor ainda estava parado em Fortaleza. O alerta chegou antes de Gusttavo Lima sequer deixar o Brasil pela última vez.
Esta reportagem enviou perguntas à assessoria de Gusttavo Lima sobre a presença de Marcelo Ivo no desembarque, a eventual ciência prévia do encontro e a atuação de Rogério de Almeida Felício em sua equipe de segurança. Não houve resposta até a publicação.
Na tarde de 23 de setembro de 2024, enquanto juízes em Recife assinavam papéis, o PS-GSG pousava em Fort Lauderdale às 14h36. Marcelo Ivo havia acordado cedo.
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