Exclusivo: senador Rogério Marinho aciona TCU para apurar auxílio de R$ 48 mil pago a Marcelo Ivo com base em reportagem de A Investigação
A representação pede a intimação do diretor-geral da Polícia Federal e questiona se o custeio de um apartamento em um dos endereços mais caros de Miami respeitou as normas para servidores no exterior.
O senador Rogério Marinho (PL-RN), líder da oposição no Senado, acionou o Tribunal de Contas da União (TCU) para apurar se o custeio do apartamento de luxo usado pelo delegado da Polícia Federal Marcelo Ivo de Carvalho em Miami foi bancado com recursos públicos. Marcelo Ivo atuava como oficial de ligação do Brasil junto ao ICE, o serviço de imigração dos Estados Unidos. O imóvel, localizado em Brickell, uma das áreas mais valorizadas da cidade, era alugado por US$ 8.750 mensais — cerca de R$ 48 mil.
A iniciativa foi tomada após uma sequência de reportagens de A Investigação sobre a atuação do delegado em território americano. Três dias após a publicação da primeira reportagem, que revelou seu papel na operação contra Alexandre Ramagem nos Estados Unidos, Marcelo Ivo foi convidado a se retirar do país pelo Departamento de Estado americano por “tentar manipular o sistema de imigração dos EUA, contornar pedidos formais de extradição e estender perseguições políticas ao território americano”.
A nova frente aberta por Marinho se apoia em outra apuração de A Investigação: a reportagem que localizou o apartamento de luxo usado por Marcelo Ivo em Brickell, uma das áreas mais caras de Miami. O imóvel, no SLS Lux Brickell, era alugado por US$ 8.750 mensais — cerca de R$ 48 mil.
No pedido ao TCU, o senador solicita que a Corte verifique a legalidade do pagamento, apure eventuais inconsistências no custeio e investigue possível desvio de finalidade ou dano ao erário. Marinho também pede que sejam intimados o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o próprio Marcelo Ivo.
“O valor de R$ 48.000,00 a título de auxílio-moradia pago para o Delegado Marcelo Ivo, decorrente do pagamento de aluguel de apartamento de luxo em Miami, parece destoar das normas sobre o tema e da razoabilidade”, afirma a representação.
A representação se apoia nas normas que permitem ao TCU fiscalizar gastos públicos e apurar possíveis irregularidades na administração federal. Marinho também cita a Lei nº 5.809/1972 e o Decreto nº 71.733/1973, que regulam os pagamentos feitos a servidores brasileiros em missão no exterior. Com base nessas regras, o senador pede que o Tribunal verifique se o custeio da moradia de Marcelo Ivo em Miami respeitou os limites legais e os critérios de razoabilidade aplicáveis ao caso.
Caso o TCU entenda que houve pagamento fora das normas, poderá determinar apuração de responsabilidades, devolução de valores e medidas administrativas.
A conta questionada pelo senador
A reportagem de A Investigação identificou a unidade 2301 do SLS Lux Brickell como residência de Marcelo Ivo. A torre de 57 andares fica na 801 S Miami Avenue, no coração financeiro de Miami. O apartamento, no 23º andar, tem três quartos, quatro banheiros, cerca de 150 m² de área interna, janelas do chão ao teto, terraço externo e vista para a skyline de Brickell. O valor de mercado estimado pelo Zillow supera R$ 7 milhões. O imóvel foi alugado em 21 de agosto por US$ 8.750 mensais, aproximadamente R$ 48 mil na cotação da época.
A ligação do delegado com o apartamento aparece em uma mensagem enviada por ele em 25 de outubro de 2024, na qual encaminhou o endereço do SLS Lux Brickell e convidou uma pessoa para uma festa em sua casa. Em 23 de abril, A Investigação esteve no edifício e ouviu de funcionários da portaria a confirmação de que Marcelo Ivo havia morado no local.
O apartamento pertence à PH1500 LLC, sociedade registrada na Flórida em nome de Jeffrey Paul Camp, gestor americano de investimentos radicado em Brickell e ex-Managing Director da Morgan Stanley. A Investigação não encontrou conexão documentada entre Camp e o Brasil. Também não há registro público que mostre quem efetivamente pagava o aluguel.




Para dimensionar o valor questionado, A Investigação ouviu Fabrício Scarpelli, delegado que exerceu antes de Marcelo Ivo a função de oficial de ligação nos Estados Unidos. Scarpelli afirmou que não morava em endereço de padrão semelhante e que recebia cerca de R$ 15 mil de salário, além de aproximadamente R$ 4 mil em auxílios — menos de um terço do aluguel mensal do apartamento em Brickell. Questionada sobre o imóvel usado pelo irmão, Gisele Cristina de Carvalho afirmou a esta publicação que o custo “faz parte do pacote” e que o Estado arcaria com as despesas.
Na representação ao TCU, Marinho usa a Instrução Normativa PRF nº 82, de 25 de março de 2022, como régua comparativa. O normativo estabelece limites de auxílio-moradia para servidores da Polícia Rodoviária Federal em missão no exterior. Para Miami, na categoria equivalente a conselheiro do Ministério das Relações Exteriores, o teto é de US$ 5.600 mensais — cerca de R$ 28 mil. Pelo parâmetro citado pelo senador, o aluguel do imóvel usado por Marcelo Ivo ficaria cerca de R$ 20 mil acima do limite previsto para a cidade.
Marinho também menciona precedentes do próprio TCU. A Corte já identificou falhas no cumprimento do limite remuneratório constitucional em auditorias sobre a folha de servidores do Ministério das Relações Exteriores desde 2012. Outro processo, sob relatoria do ministro Benjamin Zymler, ainda analisa a estrutura remuneratória de servidores brasileiros em missão fora do país.
A saída dos EUA e o que ficou para trás
Marcelo Ivo chegou a Miami em agosto de 2023 como oficial de ligação da Polícia Federal junto ao ICE. Em março de 2025, sua missão foi prorrogada por mais um ano, até agosto de 2026. Antes de atuar nos Estados Unidos, ele havia sido superintendente da PF na Paraíba, delegado regional de Investigação e Combate ao Crime Organizado em São Paulo e chefe da delegacia da PF no Aeroporto Internacional de Guarulhos.
A permanência do delegado nos Estados Unidos terminou depois da prisão de Alexandre Ramagem pelo ICE — e três dias após A Investigação revelar seu papel na operação contra o ex-deputado em território americano. Em 20 de abril de 2026, o Bureau of Western Hemisphere Affairs, do Departamento de Estado americano, publicou nota afirmando que “nenhum estrangeiro” poderia manipular o sistema de imigração dos EUA para contornar pedidos formais de extradição e estender perseguições políticas ao território americano.
A Polícia Federal tentou reduzir o alcance do episódio. O diretor-geral Andrei Rodrigues afirmou que Marcelo Ivo não havia sido formalmente expulso, mas que teve suas credenciais negadas e, por isso, seria “mais prudente” que retornasse ao Brasil. Em reação, Rodrigues retirou as credenciais de um agente americano que trabalhava em Brasília. O presidente Lula também tratou o caso como uma questão de reciprocidade diplomática.
O perfil do delegado ganhou outra dimensão com uma terceira reportagem de A Investigação. A irmã de Marcelo Ivo, a advogada Gisele Cristina de Carvalho, foi denunciada em 2007 pelo Ministério Público de São Paulo por suposta integração a uma quadrilha vinculada ao PCC, detida no Paraguai em 2010 ao lado da advogada de Marcola e absolvida em 2023 por insuficiência de provas, após 16 anos de processo.
O histórico expõe uma pergunta que a Polícia Federal ainda não respondeu: esse entorno familiar foi avaliado antes das nomeações de Marcelo Ivo para funções sensíveis em Guarulhos, na Paraíba e em Miami?
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Parabéns pela reportagem. Pois é, é uma esbórnia com o dinheiro do pagador de impostos. Sem "accountability".