Exclusivo: encontramos o apartamento de luxo usado pelo delegado da PF Marcelo Ivo em Miami
Mensagens mostram que o delegado da PF, recentemente expulso dos EUA, usava como residência um apartamento em Brickell, um dos endereços mais caros de Miami, onde realizava festas privadas
Em 25 de outubro de 2024, sexta-feira, o delegado Marcelo Ivo de Carvalho abriu o Instagram e mandou uma mensagem a um contato: “SLS LUX, 801 S Avenue, unit 2301, Miami, Florida, ZIP 33130.” Era o próprio endereço. Junto veio um áudio de onze segundos:
“Fala, meu amigo. Tudo bem? Vou fazer uma festinha com os amigos hoje à noite lá em casa — se quiser dar um pulo, fica à vontade. Se quiser levar alguém também, fica tranquilo.”
A voz foi identificada por esta reportagem como consistente com a de Marcelo Ivo de Carvalho. Ele queria companhia para uma festa em casa. O que ele não sabia — ou não imaginava que importaria — é que a mensagem seria guardada.
O condomínio de luxo
O SLS Lux Brickell não é um endereço qualquer. A torre de 57 andares erguida na 801 S Miami Ave, inaugurada em 2018, é um dos condomínios mais caros e visualmente reconhecíveis do coração financeiro de Miami. Foi desenvolvida pela Related Group e projetada pelo escritório Arquitectonica — responsável por boa parte da skyline atual de Brickell. As áreas comuns foram decoradas pelo escritório de design de interiores Yabu Pushelberg, cuja carteira de clientes inclui hotéis Four Seasons e Park Hyatt em três continentes. Nas áreas internas há obras originais de artistas internacionais.
São 450 residências e 85 suítes de condo-hotel. Os apartamentos padrão têm entre 89 e 163 m²; as coberturas, nos três andares superiores, chegam a 394 m² — duas delas com piscina privativa no terraço. As unidades são entregues mobiliadas e equipadas, com cozinhas Italkraft, eletrodomésticos Wolf, refrigerador Sub-Zero, automação residencial integrada, serviço de quarto 24 horas e elevador privativo.

O apartamento 2301 fica no 23º andar. Tem três quartos, quatro banheiros, cerca de 150 m² de área interna, janelas do chão ao teto voltadas para a skyline de Brickell e terraço externo. O valor de mercado estimado pelo Zillow é de US$ 1.288.400, cerca de R$ 7,3 milhões. Só o imposto predial de 2024 foi de US$ 22.858, aproximadamente R$ 130 mil. O custo do imóvel e do edifício o coloca muito acima do padrão associado, em regra, à remuneração de um delegado da Polícia Federal em missão no exterior.
O prédio oferece estrutura compatível com esse padrão. No 9º andar, há duas piscinas — uma de quase 23 metros e outra rasa, com mais de 34 metros —, além de cabanas privativas, bar à beira da água e área de churrasco. Nos andares 44 e 45, há um sky lounge para eventos privados. No 57º andar, um rooftop com piscina e vista panorâmica para a Baía de Biscayne e o Atlântico. O complexo inclui ainda quadra de tênis iluminada, parede de escalada, teatro ao ar livre, academia, spa, adegas, salão de charutos, serviço de mordomo 24 horas, manobrista e equipe multilíngue. O hotel integra a rede Accor e aparece no Guia Michelin como hospedagem de alto padrão.

Em junho de 2024, o apartamento 2301 foi colocado para aluguel por US$ 9.500 mensais — cerca de R$ 52 mil na cotação da época. O proprietário reduziu o preço duas vezes ao longo de julho. Em 21 de agosto, o contrato foi fechado por US$ 8.750 mensais — aproximadamente R$ 48 mil. O anúncio desapareceu do mercado. Alguém havia se mudado.
O imóvel pertence à PH1500 LLC, sociedade registrada na Flórida em nome de Jeffrey Paul Camp, gestor americano de investimentos radicado em Brickell, ex-Managing Director da Morgan Stanley e sem conexão documentada com o Brasil. Camp comprou o apartamento em 2018 por US$ 1.083.900 — cerca de R$ 3,9 milhões na cotação da época — e transferiu o imóvel para a LLC em 2022, estrutura patrimonial padrão entre profissionais financeiros americanos.
Camp é simplesmente o locador. Quem alugou o imóvel em agosto de 2024 e quem pagava as contas não aparecem em nenhum registro público. O que se sabe é que, em outubro daquele mesmo ano, Marcelo Ivo de Carvalho usava o endereço como casa — e como sede de festas privadas. O perfil de morador esperado era o de executivos de alto escalão das maiores empresas financeiras e de tecnologia do mundo. O delegado da PF havia se encaixado nessa vizinhança
O vizinho master
Em 30 de julho de 2024 — pouco mais de um mês antes do apartamento ser retirado do mercado —, o Banco Master de Daniel Vorcaro assinou o contrato de locação mais caro já registrado na Flórida: 2.415 m² nos andares 44 e 45 do 830 Brickell Plaza, por US$ 2.045 por metro quadrado ao ano (cerca de R$ 11.250 por m² ao ano, na cotação da época). A renda efetiva anual do contrato foi calculada em US$ 5,6 milhões — aproximadamente R$ 30,8 milhões.
O Banco Master nunca chegou a ocupar o espaço. As obras de adaptação começaram e não terminaram. Em novembro de 2025, quando o Banco Central do Brasil interveio na instituição e Daniel Vorcaro foi preso ao tentar alegadamente embarcar para Dubai no Aeroporto de Guarulhos, o escritório mais caro de Miami estava vazio — com o nome do banco ainda afixado na fachada do prédio.
A Investigação esteve em Miami no final de março explorando os endereços ligados a Daniel Vorcaro na cidade, incluindo as duas unidades de Brickell. Segundo funcionários do Brickell Plaza, hoje no andar 44 há um restaurante e o andar 45 ainda está vazio.
Não há evidência, até aqui, de ligação direta entre Marcelo Ivo e Daniel Vorcaro em Miami. O dado objetivo é que ambos gravitaram em torno do mesmo circuito de alto padrão em Brickell.
A conta que não fecha
Segundo apuração do portal Direita Ativa, durante o período que esteve em Brickell, o delegado mantinha na região um padrão de vida que destoava, ao menos em aparência, do esperado de um representante da Polícia Federal no exterior. Circulava com frequência pela vida noturna de Miami, em ambientes de alto padrão como o Club Mila — o restaurante independente de maior faturamento dos Estados Unidos, com jantar de degustação e serviço de garrafas que começa em quatro dígitos.
Fontes ouvidas por esta reportagem descrevem festas privadas organizadas por Marcelo Ivo com convidados da alta sociedade, autoridades e mulheres — um ambiente, nas palavras de uma fonte, “mais solto”. A informação teria partido do próprio delegado, que a compartilhou “contando vantagem” após beber além da conta.
O custo de tudo isso pede explicações. O salário de um delegado federal em missão no exterior — mesmo com as verbas adicionais previstas para cargos de oficial de ligação — não comporta o aluguel de R$ 48 mil mensais em um condomínio de luxo em Brickell.
E agora, José?
A festa acabou de uma forma que ele certamente não havia planejado. Na tarde de 20 de abril de 2026, o Bureau of Western Hemisphere Affairs do Departamento de Estado dos Estados Unidos publicou uma nota em sua conta oficial no X. Sem citar o nome do delegado, o texto era inequívoco: “Nenhum estrangeiro tem o direito de manipular nosso sistema de imigração para, simultaneamente, contornar pedidos formais de extradição e estender perseguições políticas ao território dos Estados Unidos. Hoje, solicitamos que o oficial brasileiro em questão deixe o nosso país por ter tentado fazer exatamente isso”.
Era a expulsão formal de Marcelo Ivo de Carvalho — anunciada pelo próprio Departamento de Estado americano, sete dias após a prisão de Alexandre Ramagem e três dias após sua soltura pelo ICE. A Polícia Federal e o Itamaraty não se manifestaram.
Marcelo Ivo, porém, não parecia com pressa. Enquanto Washington deliberava sobre seu destino, ele estava numa festa no Casa Neos Miami — um complexo à beira do Miami River que reúne restaurante mediterrâneo, beach club exclusivo com festas de pôr do sol, lounge com DJs e rooftop privativo, um dos ambientes mais frequentados pela elite brasileira em Miami. Os vídeos circularam nas redes sociais. O delegado bebia, ria e se movia entre os convidados como se nada tivesse acontecido — como se a maior crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos em anos não tivesse o seu nome no centro.
Ele chegou a Miami em agosto de 2023 como o único delegado da Polícia Federal lotado dentro do ICE nos Estados Unidos. Saiu expulso pelo governo americano, com o Departamento de Estado chamando sua operação de perseguição política disfarçada de cooperação migratória. O apartamento no 23º andar do SLS Lux Brickell ficou para trás. As festas, também.
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A Bruxa não imagina o favor que ela fez ao decidir perseguir o Ágape. Graças a ela, o nosso Investigador resolveu mudar para os USA e facilitar este tipo de investigação. Parabéns, Ágape!
Precisa-se descobrir os jornalistas que estão no esquema do Master também. Toda essa perseguição promovida pelo STF não teria acontecido sem a cumplicidade da imprensa. Investiga, por favor, David.