Exclusivo: conheça Marcelo Ivo de Carvalho, o delegado da PF por trás da armadilha que colocou Ramagem na mira do ICE
Oficial de ligação da PF no ICE em Miami, Marcelo Ivo tem no histórico atropelamento fatal com CNH vencida e embriaguez no Brasil, e operações de monitoramento de brasileiros em território americano.
Alexandre Ramagem, ex-deputado federal e ex-diretor da ABIN, foi detido na segunda-feira, 13 de abril de 2026, pelo Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos Estados Unidos (ICE), em Orlando, na Flórida. No mesmo dia, o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, comemorou a detenção e apresentou o caso como resultado de “cooperação internacional”, que teria levado à captura de um foragido da Justiça brasileira, condenado pelo STF por “tentativa de golpe de Estado”.
O documento que embasou a detenção — o Notice to Appear, obtido pelo jornalista Samuel Pancher do Metrópoles — não menciona cooperação com o Brasil, não cita crimes praticados em território brasileiro nem faz referência a pedido de extradição. Na quarta-feira, 15 de abril, Ramagem foi solto sem fiança, procedimento padrão em casos de processo de remoção com pedido de asilo pendente.
Segundo reportagem da BBC News Brasil, investigadores brasileiros admitiram que a via migratória foi usada como alternativa ao caminho formal da extradição. A detenção via ICE seria uma forma de contornar o processo diplomático tradicional, considerado mais incerto e politicamente sensível


A liberação confirma informações divulgadas pelo jornalista Paulo Figueiredo — sócio da Immigrex, empresa responsável pelo pedido de asilo de Ramagem— de que a detenção teve início após uma infração de trânsito leve. Segundo ele, Ramagem apresentou carteira de habilitação brasileira, já fora do prazo de validade para uso nos Estados Unidos, o que levou o ICE a verificar sua situação migratória. Ramagem havia entrado no país em 11 de setembro de 2025 com visto de turista (B-2), com permanência autorizada até 10 de março de 2026, e permaneceu após o vencimento — situação conhecida como overstay.
A soltura transformou a derrota da PF de Lula em espetáculo público. No mesmo dia, Figueiredo anunciou nas redes: “Às 22h vou fazer uma live e tomar um Macallan com vocês comentando a liberdade do grande Alexandre Ramagem.” A escolha da bebida não foi aleatória. Em 25 de abril de 2024, Andrei participou de uma degustação privada de uísque Macallan no George Club, em Londres. O evento foi pago por Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e custou cerca de R$ 3,3 milhões. Estavam presentes os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, e o procurador-geral Paulo Gonet. Andrei Rodrigues, como diretor-geral da PF, comanda toda a estrutura de investigação criminal do país — incluindo eventuais apurações que envolvam o setor financeiro.
Na manhã seguinte à soltura de Ramagem, Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo comemoraram em vídeo gravado em frente ao Departamento de Estado, em Washington DC. Eduardo afirmou que a Polícia Federal perdeu credibilidade por não conseguir viabilizar a extradição de cerca de 70 nomes incluídos em pedidos do ministro Alexandre de Moraes à Argentina, nem de Oswaldo Eustáquio, que está na Espanha, e de Allan dos Santos, nos Estados Unidos.
“Com certeza, se tivessem conseguido a extradição do Allan dos Santos, teriam ido atrás do Paulo Figueiredo, Rodrigo Constantino, eu, e todo mundo que está aqui nos Estados Unidos. É por isso que eu entendo que houve tanta energia do Andrei, que comanda a Polícia Federal do Lula, no caso do Ramagem”, disse Eduardo. Figueiredo acrescentou que não vê o mesmo empenho do governo brasileiro no combate a organizações criminosas como o Comando Vermelho e o PCC.
Embora a narrativa de Andrei não tenha resistido, suas próprias declarações à imprensa gabando-se da vitória revelaram os bastidores da operação. Ao blog da jornalista Ana Flor, no G1, o diretor-geral da PF confirmou que “um delegado brasileiro que atua no ICE contribuiu para a prisão de Ramagem em Orlando” e que esse agente “deu alertas sobre Ramagem que auxiliaram na detenção”.
Há um único delegado da Polícia Federal lotado dentro do ICE nos Estados Unidos. Ele atua no escritório de Miami, no endereço 11226 NW 20th Street — o mesmo centro a partir do qual o órgão coordena operações migratórias em toda a Flórida, inclusive em Orlando. Seu nome aparece na página oficial da PF no portal do governo federal: Marcelo Ivo de Carvalho.
Este é o mesmo agente que, em 2024, monitorou uma cidadã americana em Pompano Beach por ordem de Alexandre de Moraes, sem que ela fosse ré em qualquer processo. É também o mesmo agente que, segundo apuração desta investigação, conduzia operações de vigilância discreta na Flórida sem mandado judicial americano — práticas que a CNN Brasil confirmou ao relatar a campana feita sobre a esposa de Ramagem em solo americano.
Se confirmadas, essas condutas deixam de ser mera irregularidade e passam a enfrentar limites diretos da legislação americana. O Foreign Agents Registration Act exige que qualquer pessoa que atue no país em nome de um governo estrangeiro — inclusive em atividades de monitoramento ou coleta de informações — esteja formalmente registrada junto ao Departamento de Justiça.
Além disso, a prestação de informações falsas a autoridades migratórias pode configurar violação da lei federal de declarações falsas (18 U.S.C. § 1001) que tipifica a omissão ou falsidade em declarações a agentes federais. A legislação americana não reconhece poder investigativo a forças policiais estrangeiras sem acordo formal, credenciamento e observância das autoridades locais. Em casos que envolvem vigilância, a prática também está sujeita ao controle judicial dos Estados Unidos.
Procuramos a Assessoria de Imprensa da Polícia Federal e o delegado Marcelo Ivo de Carvalho, sem resposta até a publicação.
O modus operandi
O episódio recente não é o primeiro em que Marcelo Ivo aparece em uma ação de pressão sobre brasileiros em solo americano. Em 3 de janeiro de 2024, Moraes ordenou prisão e acionou o oficialato de Miami contra Flávia Magalhães — brasileira naturalizada americana desde 2012 e residente em Pompano Beach, na Flórida. O motivo foi uma publicação nas redes sociais em que ela acusava, sem provas, o ministro de ter visitado Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder do PCC, em uma unidade prisional em Brasília. Em março de 2024, um ofício assinado pelo delegado Fábio Mertens, da Coordenação-Geral de Cooperação Policial Internacional da PF (CGCPI), acionou formalmente o oficialato de Miami para monitorá-la.
Flávia não era ré em nenhum processo criminal. Ainda assim, Moraes bloqueou seu passaporte brasileiro e a classificou como "evadida" do território nacional, desconsiderando que ela era cidadã americana com residência legal nos Estados Unidos desde 2012. O acionamento chegou por canal formal, por ofício assinado pelo delegado Fábio Mertens, da Coordenação-Geral de Cooperação Policial Internacional da PF (CGCPI). O documento registra expressamente que o "Oficialato de Ligação da PF em Miami/EUA (DPF Marcelo Ivo)" foi notificado no caso.
Em 25 de fevereiro de 2024, Flávia relatou ter sido monitorada durante uma manifestação em Fort Lauderdale por um homem que “ficava rondando a barraca” onde ela estava. Não há prova de que o próprio Marcelo Ivo tenha feito essa vigilância em campo, mas ele era o responsável pelo escritório da PF em Miami acionado no caso. Flávia afirma que, a partir dali, passou a temer pela própria segurança. “Eu não sou uma criminosa. Eu só queria o meu nome limpo”, disse.
Flávia Magalhães relata que, em fevereiro de 2024, durante um passeio nos parques da Universal Orlando Resort, foi abordada por homens que teriam se identificado como agentes da Polícia Federal. Segundo ela, um deles afirmou tê-la reconhecido — “a menina do passaporte” — e disse que o ministro Alexandre de Moraes teria mobilizado cerca de mil agentes para monitorar brasileiros nos Estados Unidos.
Em outubro de 2025, o advogado de Flávia, Paulo Faria, afirmou ter entregue documentos à Casa Branca relatando as perseguições e monitoramentos transnacionais promovidos pelo STF em solo americano. “O monitoramento de um cidadão americano, em solo americano, é o ápice da violação. A possibilidade de uma prisão ilegal na verdade foi um verdadeiro sequestro”, declarou. O caso de Flávia tornou-se um dos fundamentos para as sanções impostas pelos Estados Unidos a Alexandre de Moraes sob a Lei Magnitsky.
O X recusou inicialmente cumprir a ordem de Moraes para bloquear o perfil de Flávia. Como ela era cidadã americana, vivia legalmente nos Estados Unidos e havia publicado em solo americano, a empresa sustentou que a ordem do STF ultrapassava a jurisdição brasileira. Depois, a rede social passou a defendê-la por entender que o caso se encaixava na promessa anunciada por Elon Musk, em 2023, de dar suporte jurídico a usuários perseguidos por postagens no próprio X.
Quem é Marcelo Ivo
Marcelo Ivo de Carvalho nasceu em 20 de agosto de 1976 em Santos, no litoral paulista. Ingressou na Polícia Federal em junho de 2003 como delegado. Antes da transferência para Miami, residia na Vila Leopoldina, em endereço de alto padrão na capital paulista.
Hoje, Ivo ocupa o posto mais estratégico da Polícia Federal nas Américas: é o único delegado federal brasileiro lotado dentro das dependências do ICE nos Estados Unidos. Opera no escritório de Miami, no endereço 11226 NW 20th Street — o centro a partir do qual o ICE coordena operações migratórias em toda a Flórida, inclusive em Orlando. É esse o homem que, segundo o próprio diretor-geral Andrei Rodrigues, “deu alertas que auxiliaram na detenção” de Alexandre Ramagem em 13 de abril de 2026.
Marcelo Ivo iniciou sua carreira na Delegacia Regional da PF de Sorocaba. Em outubro de 2016, já era o delegado-chefe da Delegacia da Polícia Federal no Aeroporto Internacional de Guarulhos, a maior e mais estratégica unidade desse tipo no Brasil. A posição lhe conferia poder sobre a rotina operacional do principal ponto de entrada e saída internacional do país, com acesso a sistemas de identificação de passageiros e capacidade de decisão sobre áreas sensíveis do maior terminal aéreo da América Latina.
Neste período, sua face pública era a de um delegado duro no combate ao tráfico internacional. Em maio de 2016, coordenou a Operação Carga Extra, que desmantelou uma rede de funcionários terceirizados que embarcava cocaína em voos para a Europa — resultado de oito meses de investigação, 15 mandados de busca, 14 prisões e a apreensão de cerca de meia tonelada de droga. Foi nesta posição que Ivo passou a cultivar uma rede extensa de relações com empresários, contatos que teria mantido e acionado ao longo dos anos seguintes.
Bebeu, atropelou, matou, mas ficou no cargo
Em outubro de 2016, Marcelo Ivo de Carvalho atropelou e matou um trabalhador numa rodovia de Sorocaba, dirigindo embriagado e com a carteira de habilitação vencida havia mais de um ano — mas não perdeu o cargo nem foi responsabilizado criminalmente.
Ironicamente, a irregularidade usada como desculpa para derrubar Ramagem foi justamente a falta de habilitação válida para dirigir nos Estados Unidos. No caso de Marcelo Ivo, porém, a ausência de uma carteira regular não impediu que escapasse da prisão, mantivesse o cargo e mais tarde ascendesse ao posto mais estratégico da Polícia Federal nas Américas.
Marcelo Ivo saiu de São Paulo na madrugada de domingo de 23 de outubro de 2016 em uma Mercedes-Benz branca apreendida pela PF, autorizada para seu uso como chefe da delegacia aeroportuária. Seguia pela Rodovia Raposo Tavares para visitar os pais no interior de São Paulo — uma viagem pessoal, com viatura de serviço.
No km 94, em Sorocaba, por volta das 6h, o veículo atingiu a motocicleta de Francisco Lopes da Silva Neto, 36 anos, vigilante que voltava para casa em Votorantim após o turno noturno em uma indústria. Francisco havia emigrado do Ceará e conciliava dois empregos. O impacto destruiu a moto, lançou Francisco contra a barreira metálica e o matou no local. O carro parou a 100 metros do ponto de colisão.
A Polícia Rodoviária aplicou o bafômetro no local. O resultado foi 0,49 miligramas de álcool por litro de ar expirado — valor que supera o limite criminal de 0,34 mg/L estabelecido pela Resolução Contran nº 432/2013. A Carteira Nacional de Habilitação de Marcelo Ivo estava vencida havia um ano e três meses no momento do acidente. Ele foi preso em flagrante por homicídio culposo sob influência de álcool. O delegado plantonista que o atendeu, Régis Campos Vieira, afirmou que Ivo “não apresentava sinais aparentes de embriaguez” e o liberou mediante fiança de R$ 2.000.
A PF abriu sindicância interna. Marcelo Ivo não foi afastado do cargo. O processo penal tramitou em segredo de Justiça pelo TJSP. Em 22 de setembro de 2020 — quatro anos depois —, a Justiça paulista julgou a ação improcedente por insuficiência de provas. O argumento da defesa que pesou no tribunal: um laudo toxicológico produzido no processo cível — e não no penal — descartou alteração psicomotora; uma perícia de local indicou que o veículo trafegava dentro dos limites de velocidade; e câmeras da empresa onde Francisco trabalhava teriam registrado a lanterna traseira da moto apagada antes de ele sair. O processo transitou em julgado em 5 de outubro de 2020.
A viúva de Francisco, Verlange Xavier da Silva, declarou em entrevista que “ninguém esquece” e que a dor pela morte do marido — pai de duas filhas que tinham 4 e 12 anos na época — permanece presente. Como único resultado concreto para a família: uma pensão mensal de R$ 800, determinada judicialmente. Fontes descrevem o desfecho como resultado de articulação intensa dentro e fora da corporação.
A ascensão na PF
Para entender como Marcelo Ivo chegou ao posto mais sensível da Polícia Federal nas Américas, é preciso detalhar como funciona a Superintendência de São Paulo. A estrutura tem três postos centrais: o superintendente no topo; o delegado regional executivo no meio, responsável pela parte administrativa; e o diretor de investigação na ponta operacional, que comanda os inquéritos e as operações contra o crime organizado.
Desde setembro de 2015, o superintendente de São Paulo era Disney Rosseti, delegado federal de Campo Grande (MS). O segundo no comando (ou “número 2”) era Luiz Roberto Ungaretti de Godoy — que em 2016 seria removido pelo ministro da Justiça Alexandre de Moraes para dirigir o Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional (DRCI) em Brasília, descrito pela Época como “uma pessoa de sua confiança”. A relação entre Rosseti e Moraes se consolidou nesse período.
Para o “número 2” vago, Rosseti trouxe Lindinalvo Alexandrino de Almeida Filho — o “Dr. Filho” —, delegado com três décadas de carreira, que assumiu o posto em fevereiro de 2016. Com Dr. Filho no posto administrativo, Marcelo Ivo se consolidou como “número 3” — diretor de investigação e combate ao crime organizado —, cargo que exerceu de março de 2018 a maio de 2021.
Em janeiro de 2019, o governo Bolsonaro nomeou Rosseti para a Diretoria Executiva da PF em Brasília — a Direx, estrutura que coordena as superintendências regionais e responde pela gestão de toda a corporação, segundo posto mais alto, subordinado apenas ao diretor-geral Maurício Valeixo. Dr. Filho assumiu a Superintendência de SP em março de 2019. Marcelo Ivo permaneceu onde estava — “Número 3”, com autonomia sobre investigações sensíveis do maior estado do país.
Em 19 de março de 2019 — apenas cinco dias após a abertura do Inquérito das Fake News (INQ 4781) —, Alexandre de Moraes designou o delegado federal Alberto Ferreira Neto para auxiliar nas investigações. No despacho, o ministro relator deixou registrado que a escolha foi feita por indicação de Disney Rosseti. Tratava-se de um dos primeiros atos concretos do inquérito que se tornaria um dos mais controversos da história do STF.
Em 24 de abril de 2020, Sérgio Moro renunciou ao Ministério da Justiça em protesto à demissão de Valeixo — ato que descreveu como tentativa de Bolsonaro de interferir nas investigações da PF. O presidente queria nomear Ramagem, então diretor da ABIN, para o posto. O STF bloqueou a nomeação por liminar concedida por Alexandre de Moraes, a pedido do PDT. Com Valeixo exonerado e Ramagem impedido, quem assumiu interinamente o comando da PF foi Rosseti — o homem que Moro havia levado a Brasília e o mesmo delegado cuja trajetória estava atada a Moraes desde 2016. A interinidade durou até maio de 2020.
Rosseti saiu da Direx. Mas não saiu da rede. Em maio de 2020, o ministro Luís Roberto Barroso, então presidente do TSE, criou a Assessoria Especial de Segurança e Inteligência do tribunal. Rosseti foi o escolhido para dirigi-la. Permaneceu no posto mesmo depois que Moraes assumiu a presidência do TSE, em agosto de 2022 — e em março de 2023 ainda era designado por portaria interna para comissões do tribunal. Foi sob Moraes que a Assessoria se converteu em Secretaria de Polícia Judicial, com Rosseti na chefia. Saiu em junho de 2024, quando Cármen Lúcia assumiu a presidência do TSE. Hoje está na Corregedoria-Geral da PF.
Da Paraíba à Miami
Marcelo Ivo foi nomeado superintendente regional da Polícia Federal na Paraíba em 21 de janeiro de 2022, durante o governo Jair Bolsonaro. A nomeação se deu no contexto das mudanças de comando promovidas pela gestão bolsonarista na estrutura regional da corporação. Tomou posse em 6 de maio daquele ano, em João Pessoa, substituindo o delegado Gustavo Paulo Leite de Souza, designado para função nos Estados Unidos. Permaneceu no cargo por cerca de oito meses.
Em 13 de janeiro de 2023, já no início do governo Lula, Ivo foi exonerado junto com outros 17 superintendentes da PF em todo o país, em uma troca ampla de comando regional promovida pela nova gestão. Meses após a exoneração, em julho, o Portal da Transparência registrou o pagamento de quase R$ 96 mil pela Coordenação-Geral de Administração da Polícia Federal, em Brasília. O valor era compatível com ajuda de custo para remoção ao exterior. Um mês depois, em agosto de 2023, Ivo assumiu o posto de oficial de ligação da Polícia Federal em Miami.
O posto é um oficialato de ligação da Polícia Federal instalado nas dependências do ICE em Miami. Não se confunde com uma adidância policial, categoria distinta dentro da própria estrutura da PF, com credenciamento junto ao Itamaraty. O oficial de ligação trabalha dentro de uma agência americana, não numa embaixada. O cargo abre canais de contato com autoridades migratórias e de segurança dos Estados Unidos, mas o acesso a sistemas depende, na prática, do lado americano. O cargo não é novidade. Desde ao menos 2019, a PF mantém um oficial de ligação junto ao ICE em Miami, com atribuição formal de troca de informações e cooperação em casos de extradição e imigração.
Em março de 2021, o governo Bolsonaro enviou para a vaga o agente da PF Fabrício Scarpelli — com extenso currículo operacional na corporação: integrou o GPI de São Paulo desde 2008, participou de mais de 60 operações e atuou como instrutor de armamentos químicos, menos letais e táticas operacionais. À época, a imprensa destacou sua proximidade com o ex-deputado Eduardo Bolsonaro e o fato de estar afastado da PF para exercer o cargo de assessor especial da Casa Civil no Palácio do Planalto.
Ouvido por esta reportagem, Scarpelli nega que tenha sido indicado pelo deputado. Segundo ele, a aplicação foi realizada pelo sistema interno da PF como qualquer outro candidato. Ele diz que a indicação que recebeu foi anterior, para atuar no SINC, o Sistema de Informações do Congresso — convite feito por Onyx Lorenzoni, que conheceu em seu posto no aeroporto de Campinas durante a campanha presidencial de 2018, antes de ele ser nomeado ministro-chefe da Casa Civil.
Segundo Scarpelli, já no início do governo Lula, começaram a chegar ordens informais — não por canal oficial — para que ele realizasse operações no exterior. Ele se recusou. Disse que o cargo tinha função exclusiva de troca de informações e que qualquer operação precisaria ser solicitada formalmente. A recusa desencadeou, segundo ele, um processo de pressão que culminou em crises de ansiedade e problemas de saúde.
Scarpelli pediu licença não remunerada. O pedido foi negado. Pediu demissão. O pedido ficou retido. Um colega o alertou que a corporação aguardava completar 30 dias de ausência para instaurar PAD por abandono de emprego. Quando chegou aos 28 dias, contratou advogado. Mesmo assim, o PAD foi instaurado. Em 20 de março de 2026, o Ministério da Justiça determinou o arquivamento do processo — mas Scarpelli já figurava no ato como “ex-Agente de Polícia Federal”. O arquivamento não reverteu a demissão: extinguiu a punibilidade do processo remanescente.
Houve também inquérito do Ministério Público por recebimento de recursos públicos — a ajuda de custo para retornar ao Brasil, que ele afirma ter tentado devolver e que a PF se recusou a aceitar. O caso terminou em Acordo de Não Perseguição Penal, após o MP constatar que não havia evidência de que ele exercia atividade remunerada nos EUA. Ele detinha licença de corretor de imóveis na Flórida, mas afirma que não trabalhava na área. Scarpelli permanece nos EUA.
Marcelo Ivo já está no posto há cerca de dois anos e oito meses. O prazo padrão das missões de oficial de ligação da Polícia Federal no exterior é de até dois anos e, pelas regras internas da corporação, pode ser prorro gado conforme as especificidades da missão, a critério da administração. Mesmo após ultrapassar esse prazo original, Ivo segue em Miami, na região de Brickell, centro financeiro da cidade — a mesma área em que foram instalados os escritórios de luxo ligados a Daniel Vorcaro e o Banco Master.
O espião espionado
Alexandre Ramagem já havia cruzado o caminho de ministros do STF muito antes de ser detido nos Estados Unidos. Delegado da Polícia Federal desde 2005, ele entrou no radar político de Brasília ao comandar, em 14 de novembro de 2017, a Operação Cadeia Velha, que prendeu Jacob Barata Filho, o Rei do Ônibus, e os deputados estaduais Jorge Picciani, Paulo Melo e Edson Albertassi, todos investigados por corrupção no esquema de propinas do transporte público fluminense.
A ofensiva atingia um círculo sensível. Barata Filho era ligado ao ministro Gilmar Mendes, padrinho de casamento de sua filha, amigo pessoal da família e, à época, sócio indireto do empresário por meio do cunhado. Nos meses seguintes, Gilmar concedeu habeas corpus a Barata três vezes, e o Ministério Público Federal chegou a pedir sua suspeição nos processos.
Menos de um ano depois, em setembro de 2018, Ramagem ganharia projeção nacional ao assumir a segurança pessoal de Jair Bolsonaro após o atentado em Juiz de Fora. A partir dali, consolidou-se como homem de confiança do então candidato e, depois, do presidente eleito. Em 2019, Bolsonaro nomeou Ramagem diretor-geral da Abin, cargo que ocupou até 2022, quando se filiou ao PL e foi eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro. Em 2020, Bolsonaro tentou nomeá-lo para a direção-geral da Polícia Federal. Alexandre de Moraes bloqueou a nomeação, sob o argumento de que Ramagem representaria interferência política na corporação.
A ironia é que Moraes vetou o comando da PF a um delegado de carreira com base numa suposta interferência institucional que, segundo o próprio inquérito reaberto a seu pedido, não se comprovou. Em abril de 2026, na véspera da prisão de Ramagem nos Estados Unidos, a Polícia Federal concluiu pela segunda vez consecutiva que não havia elementos para justificar imputação penal no caso. O delegado Carlos Henrique Pinheiro de Melo, da Diretoria de Inteligência Policial, registrou em relatório que o próprio Moraes, quando consultado, informou não haver provas de interferência nos inquéritos sob sua relatoria. Moraes recebeu o documento e o encaminhou ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, sem arquivar nem decidir. O inquérito sem provas segue aberto.
Em setembro de 2025, Ramagem foi condenado pela 1ª Turma do STF, sob relatoria de Alexandre de Moraes, a 16 anos, 1 mês e 15 dias de prisão por organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado. A acusação central é a chamada “Abin paralela”: o uso da infraestrutura da agência, inclusive o software de espionagem FirstMile, para monitorar adversários políticos, ministros do STF e familiares de autoridades, produzindo relatórios de desinformação que teriam alimentado a narrativa de fraude eleitoral e os eventos de 8 de janeiro de 2023.
Não existem, porém, logs de acesso de Ramagem ao FirstMile. Foi justamente durante sua gestão que a Abin realizou a correição do sistema, apurou irregularidades no uso da ferramenta e produziu o relatório que a própria PGR usaria depois como prova contra ele. O software foi desativado em maio de 2021. O ministro Luiz Fux, em votos em processos análogos, já havia sinalizado que a ausência de prova direta de dolo fragilizava a base condenatória. A defesa recorreu e sustenta que a condenação equivale a responsabilidade objetiva disfarçada de direito penal.
A fuga e a armadilha
Ramagem saiu do Brasil em 9 de setembro de 2025 pela fronteira de Roraima com a Guiana, com apoio de aliados que viabilizaram sua rota de fuga. Da Guiana, embarcou para Miami. O documento usado foi o passaporte diplomático — que o ministro Alexandre de Moraes havia cancelado em 9 de junho de 2025, meses antes da fuga, mas que continuava aparecendo como “ativo” no sistema da Câmara por uma falha burocrática que não havia repassado a ordem ao Itamaraty. O Itamaraty confirmou formalmente, em 21 de novembro, que havia cumprido a determinação de Moraes desde junho — ou seja, Ramagem cruzou a fronteira e embarcou com documento que o próprio sistema brasileiro ainda não havia bloqueado nas bases de controle internacionais. O DHS registrou sua entrada nos EUA no dia 11 de setembro de 2025, com visto B-2 de turista, com prazo de permanência autorizado até 10 de março de 2026.
Em 17 de novembro de 2025, sua esposa Rebeca Ramagem — procuradora do Estado de Roraima havia 22 anos —, embarcava no Aeroporto Internacional do Galeão com as duas filhas, de 7 e 14 anos, em voo para Miami. Na entrada da aeronave, agentes da PF executaram um mandado de busca pessoal expedido por Moraes. Todas as bagagens foram retiradas do porão para revista. Os agentes apreenderam o celular e o computador de Rebeca — e o celular da filha de 7 anos. Rebeca não era ré, não era investigada e não respondia a nenhum processo. “O único e ilegal motivo apontado para essa ação é o fato de ser casada com Alexandre Ramagem”, escreveu ela nas redes sociais. O que os agentes não revelaram publicamente foi o elemento decisivo encontrado na inspeção: malas de Ramagem entre a bagagem — prova de que ela ia ao encontro do marido nos EUA. Nenhuma irregularidade foi formalmente declarada. Rebeca seguiu viagem. O alarme havia sido acionado em silêncio.
A partir do desembarque na Flórida, a PF teriam monitorado os deslocamentos. No aeroporto, Ramagem apareceu com um carro para buscar a família. O veículo foi identificado. Os agentes passariam a segui-lo até chegar ao endereço: o condomínio Solé Mia, em North Miami. Em paralelo, a PF descobriu que Ramagem havia comprado um carro nos EUA usando o passaporte diplomático já cancelado pela Justiça brasileira — argumento que tentaria usar para obter um mandado de prisão americano por fraude.
Dois dias depois, em 19 de novembro, o PlatôBR publicou reportagem assinada por Guilherme Amado revelando que Ramagem havia fugido do Brasil em setembro, estava nos EUA usando passaporte diplomático já cancelado por Moraes e se encontrava hospedado no Solé Mia, condomínio em North Miami. No mesmo dia, o PSOL entrou no STF com pedido de prisão preventiva. Dois dias depois, o tribunal decretou a prisão. Forçado pela exposição pública do endereço, Ramagem se mudou para a região de Orlando.
Não era a primeira vez que Amado aparecia como pivô em ações contra alvos do campo bolsonarista. Em agosto de 2022, quando era colunista do Metrópoles, publicou mensagens do grupo de WhatsApp "Empresários & Política" — material que Alexandre de Moraes usou como base para ordenar mandados de busca e apreensão contra oito empresários. Em outubro de 2023, sua reportagem afirmando que Filipe Martins havia viajado a Orlando e "evaporado" foi posteriormente usada pela PF para justificar sua prisão preventiva — embora o registro de entrada de Martins nos EUA tenha sido contestado e o juiz do caso federal em Jacksonville reconhecesse irregularidades no sistema do CBP. Em todos os três casos, a publicação antecedeu a ação institucional. Em nenhum deles Amado respondeu publicamente sobre a origem das informações.
Segundo Eduardo Tagliaferro, ex-chefe da Assessoria de Enfrentamento à Desinformação do TSE, a documentação que embasou a operação contra os empresários foi produzida a posteriori, com datas retroativas. A afirmação é corroborada por perícia contratada por A Investigação, segundo a qual o relatório atribuído ao delegado Fábio Alvarez Shor, embora datado de 19 de agosto de 2022, só foi gerado em PDF em 29 de agosto, seis dias após o cumprimento dos mandados.
Em dezembro de 2025, a PF notificou a Interpol com a restrição do passaporte cancelado de Ramagem — que até então não constava nos sistemas internacionais. No mesmo período, a PF submeteu à Justiça americana um pedido de mandado de prisão com base no argumento de fraude: a compra do veículo com passaporte cancelado. O pedido foi negado. A Câmara formalizou o cancelamento protocolar do passaporte diplomático em 19 de dezembro de 2025, após cassar o mandato. Sem passaporte válido — o diplomático cancelado por Moraes desde junho, o comum sem validade —, Ramagem permanecia nos EUA amparado exclusivamente pelo visto B-2, que venceu em 10 de março de 2026, e pelo pedido de asilo protocolado antes dessa data.
Segundo a BBC News Brasil, investigadores brasileiros temiam que o pedido formal de extradição fosse rejeitado pelo secretário de Estado Marco Rubio — cargo com poder de decisão final sobre extradições nos EUA, ocupado por um nome politicamente simpático à direita brasileira. A detenção via ICE era o atalho: contornar Rubio e forçar a remoção de Ramagem sem passar pelo crivo diplomático americano. Os próprios investigadores admitiram à CNN Brasil que a detenção não tem relação com a condenação no STF. Desde dezembro de 2025, Ramagem participava regularmente do programa Conversa Timeline, com Allan dos Santos, fundador do portal Terça Livre, também exilado nos EUA por perseguição judicial.
Trinta e quatro dias depois do vencimento do visto, em 13 de abril de 2026, Marcelo Ivo deu os alertas que resultaram na abordagem. Agentes do ICE pararam Ramagem numa rua de Orlando com a justificativa de uma infração de trânsito — constataram o passaporte cancelado e o visto vencido, e o levaram ao Centro de Detenção de Orange County. A infração de trânsito foi o pretexto formal. A operação que o levou até ali durou meses.
A libertação e o final feliz
Dois dias depois, em 15 de abril de 2026, Ramagem foi solto sem fiança. O ICE comunicou à PF que ele pode aguardar em liberdade a conclusão do processo de asilo. Em vídeo gravado ao ar livre logo após a saída do centro de detenção, Ramagem agradeceu ao governo Trump pela liberação e afirmou que sua situação “é absolutamente regular”.
A soltura de Ramagem pegou a PF de surpresa. A corporação havia agendado uma reunião com autoridades do ICE para 16 de abril e, antes disso, preparava um dossiê para entregar ao Enforcement and Removal Operations, divisão responsável por deportações, com o objetivo de impedir a liberação de Ramagem e acelerar sua remoção para o Brasil. A soltura, porém, ocorreu um dia antes da reunião, sem comunicação formal prévia ao governo brasileiro. Quando a liberação veio a público, a corporação ainda aguardava esclarecimentos — e o dossiê não chegou a ser entregue.
A PF informou à imprensa que solicitou explicações sobre as circunstâncias da decisão. O ICE não detalhou nem os motivos da detenção nem os da liberação. Segundo autoridades do governo brasileiro ouvidas pela imprensa, a estratégia é demonstrar à Justiça de imigração em Jacksonville que a condenação de Ramagem decorre de crimes comuns, e não de perseguição política.
A prisão, apresentada pelo diretor-geral Andrei Rodrigues como resultado de cooperação internacional, durou dois dias e terminou com Ramagem em liberdade, ao lado da família.


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Esqueceu de mencionar a cor da calcinha do gajo conforme prometido.