Em 8 de outubro, enquanto Eduardo Bolsonaro voltava do Bahrein para os Estados Unidos, tornou-se conhecida a ordem de Alexandre de Moraes para prendê-lo e cancelar seus passaportes brasileiros. O ex-deputado fez escala em Abu Dhabi e chegou ao país onde mora usando um passaporte italiano que havia obtido antecipadamente. Para ele, a decisão foi mais uma tentativa de “pegá-lo” — desta vez, durante uma viagem internacional.
Eduardo interpreta o arquivamento das investigações contra Allan dos Santos e Oswaldo Eustáquio como parte dos “acenos” de Moraes à direita antes de uma tentativa de acordo. Formalmente, a decisão atendeu a um pedido da Procuradoria-Geral da República, que considerou insuficientes os elementos daquela investigação. Para Eduardo, a sequência política importa: depois que a aproximação foi rejeitada, Moraes ordenou sua prisão e o cancelamento de seus passaportes brasileiros.
O ex-deputado foi condenado a quatro anos e dois meses por coação no curso do processo. A acusação tratou sua atuação nos Estados Unidos por sanções contra autoridades brasileiras como uma ameaça aos ministros que julgavam Jair Bolsonaro. Eduardo afirma que denunciava censura e violações de direitos.
A Investigação já examinou as duas interpretações desse trabalho e refutou a construção da chamada “trama golpista”, usada como contexto da condenação.
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A viagem e o passaporte italiano
Eduardo estava no Bahrein, onde se reuniu com o príncipe herdeiro e primeiro-ministro Salman bin Hamad Al Khalifa. Ele afirma que a notícia do mandado saiu poucas horas depois de publicar sua presença no país. A decisão de Moraes foi assinada no dia 7 e divulgada no dia 8. É a divulgação durante sua viagem que Eduardo associa à suposta armadilha.
O ex-deputado diz que havia estudado os movimentos de Moraes e, por ser descendente de italianos, providenciou o passaporte dessa nacionalidade antes de precisar dele. O documento permitiu que continuasse a viagem apesar do cancelamento dos passaportes brasileiros. Eduardo publicou imagens de sua saída do Bahrein, da escala nos Emirados Árabes Unidos e da chegada aos Estados Unidos. Ele diz que queria estar em casa para o aniversário da filha, em 10 de outubro.
O passaporte, porém, era apenas uma parte de sua preparação. Eduardo suspeita que o mandado pudesse ser encaminhado pela cooperação policial internacional e resultar numa abordagem ao sair do Bahrein, ao fazer a escala ou ao entrar nos Estados Unidos. Em sua avaliação, a ordem foi divulgada naquele momento para criar essa oportunidade. “Moraes talvez possa ter tentado fazer uma jogada ensaiada”, afirmou.
Os encontros entre a PF e a Interpol
Ao aprofundar a hipótese, Eduardo apontou para Valdecy Urquiza, brasileiro e delegado da Polícia Federal desde 2004. Urquiza foi eleito secretário-geral da Interpol em 2024, quando Andrei Rodrigues já comandava a PF.
“Pode não ter nada demais ou pode ter tudo demais”, disse Eduardo sobre a relação entre Urquiza e Andrei. Num dos vídeos, ele mostrou uma resposta do ChatGPT que apontava três encontros entre os dois em 2026. A Investigação conferiu as datas: eles se reuniram em 17 de junho para discutir cooperação contra o crime organizado; a agenda do BNDES registra ambos numa reunião em 18 de agosto; e o advogado-geral da União, Jorge Messias, relatou a presença dos dois num almoço na AGU em 27 de agosto.
O caminho imaginado por Eduardo começa com uma solicitação brasileira. A Interpol poderia então circular um alerta para localizar o procurado e pedir sua detenção provisória, enquanto se decide uma extradição. A organização explica que uma notificação vermelha depende de pedido de um país e passa por exame próprio; cada Estado decide, segundo suas leis, se efetua a prisão. Eduardo atravessou os aeroportos sem ser detido.
O precedente que Eduardo vê no caso Ramagem
O outro nome mencionado pelo ex-deputado é Marcelo Ivo de Carvalho, delegado da PF que trabalhava como oficial de ligação junto ao serviço de imigração americano, o ICE. Eduardo recordou a detenção de Alexandre Ramagem na Flórida, em abril, como exemplo de uma tentativa de alcançar no exterior um condenado pelo STF. A Investigação identificou a atuação de Ivo nos alertas que antecederam a abordagem de Ramagem.
Naquele episódio, havia um pedido de extradição em discussão, mas a detenção ocorreu pela via migratória: Ramagem estava com o visto vencido e o passaporte cancelado. Eduardo sustenta que essa rota permitiria contornar a análise diplomática da extradição e tentar uma remoção mais rápida. Ramagem foi solto dois dias depois. Em seguida, os Estados Unidos pediram que Marcelo Ivo deixasse o país.
Para Eduardo, o passaporte italiano reduziu a possibilidade de que o cancelamento de seus documentos brasileiros produzisse uma situação semelhante à de Ramagem. A eventual detenção por um alerta internacional seria outra frente. É por isso que ele vê na escolha do momento da ordem de prisão uma tentativa de alcançá-lo quando ainda passava por fronteiras.
Em entrevista concedida depois de voltar aos Estados Unidos, Eduardo afirmou que não aconselharia ninguém a negociar com Moraes nem mesmo se fosse preso. Disse esperar que o Congresso aprove uma anistia durante a transição, caso Flávio Bolsonaro vença a eleição. Se isso não ocorrer, afirmou que o irmão prometeu conceder indulto aos condenados que são perseguidos pelo ministro.
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