Na manhã de sábado, 15 de novembro de 2025, Cármen Lúcia registrou o quarto voto da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) para receber a denúncia contra Eduardo Bolsonaro por coação no curso do processo. O Globo noticiou naquele dia que a unanimidade já estava formada. Relator do caso, Alexandre de Moraes sustentava que o deputado havia articulado, nos Estados Unidos, tarifas, cassações de vistos e a aplicação da Lei Magnitsky para pressionar os ministros responsáveis pelo julgamento de Jair Bolsonaro.
Horas depois, ainda naquele sábado, Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, redigiu uma nota no iPhone, fotografou a tela e a enviou em visualização única ao contato salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. O banqueiro queria saber se já era hora de deixar o país e se “Paulo” e “Andrei” — referências, no contexto das mensagens, ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, e ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues — poderiam “reverter” uma medida contra o banco.
O relatório da Polícia Federal tornado público em 1º de setembro de 2026 reconstituiu essa e outras 51 notas a partir da extração forense do celular apreendido com Vorcaro. O material revela que, nas três semanas anteriores à prisão, o banqueiro tratava o número atribuído a Moraes como um canal capaz de chegar à cúpula do Banco Central, da PF e da PGR justamente quando essas instituições aumentavam a pressão sobre o Master.
O relatório não demonstra, por si só, que as intervenções pedidas por Vorcaro tenham sido realizadas. Há registros de respostas em parte das comunicações, mas o ponto central documentado pela perícia é outro: repetidamente, o banqueiro recorria ao contato salvo em nome do ministro para tentar obter informações, adiar medidas e mobilizar autoridades responsáveis ou relacionadas à investigação. Dois dias depois da mensagem de sábado, Vorcaro foi preso. No dia seguinte, o Banco Central liquidou o Master. Nove meses e meio depois, Gonet — uma das autoridades citadas nos pedidos do banqueiro — pediu a anulação do relatório.
O pedido para conter a pressão
Três semanas antes da prisão, em 30 de outubro, o tom das mensagens já era operacional. Vorcaro afirma ter colocado R$ 800 milhões no banco, com outros R$ 400 milhões a entrar, e diz que o Fundo Garantidor de Créditos “começou a fazer aos poucos”. Em seguida, relata ter recebido “informações informais e em confidência de turma do Banco Central” de que “G e os diretores estão na pressão máxima de novo pra uma medida”, porque o BC estaria “sendo muito pressionado pela PF e MP”.
É nesse contexto que aparece um dos pedidos mais diretos encontrados pela Polícia Federal. Vorcaro escreve: “É importante reforçar com Andrei e Paulo pra não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem que aí vai tudo pro saco.” Andrei é Andrei Rodrigues, então diretor-geral da Polícia Federal. Paulo é Paulo Gonet, procurador-geral da República. “G”, pelo contexto das notas, refere-se ao comando do Banco Central, presidido por Gabriel Galípolo, que assinaria em 18 de novembro a liquidação extrajudicial do Master.
Seis minutos depois, enviou uma lista negra com nomes de integrantes da PF e do MP que investigavam o Master e teriam, segundo ele, procurado o Banco Central afirmando que fariam algo em breve. Disse que suas fontes eram “pessoas de dentro do Bacen que são meus amigos” e pede cuidado na forma como o assunto seria conduzido com “G”.
Entre 4 e 7 de novembro, os pedidos ficam mais explícitos. Vorcaro pergunta se havia “algo que dê para bloquear” e pede ajuda para impedir uma medida que, segundo ele, quebraria o banco de forma irreversível. Também relata que os advogados Pierpaolo Bottini e José Roberto Podval teriam conversado com Gonet e consulta o destinatário sobre a conveniência de protocolar uma petição para colocar o Master à disposição das autoridades. Em uma das notas, condiciona a própria estratégia à opinião do interlocutor: “Não vou fazer nenhum movimento que você não achar produtivo.”
O método das mensagens
As 52 notas foram reconstruídas pela perícia porque Vorcaro adotava um procedimento praticamente idêntico para enviá-las. Em vez de digitar o conteúdo diretamente no WhatsApp, redigia a mensagem no aplicativo Notas do iPhone, fazia uma captura de tela, abria o WhatsApp e enviava a imagem ao número 556192664093, quase sempre no modo de visualização única. Depois, fechava o aplicativo.
A PF identificou esse padrão entre 28 de outubro e 17 de novembro de 2025. O intervalo entre a captura da tela e o envio era de poucos segundos. Nos três exemplos usados pela própria perícia para demonstrar o método, foram registrados 32 segundos na nota que mandava “reforçar com Andrei e Paulo”, 23 segundos na mensagem com os nomes ligados ao Banco Central e 13 segundos em outra nota sobre as mesmas pessoas, todas enviadas em 30 de outubro.
O recurso de visualização única dificultava a permanência das mensagens no banco de dados ativo do WhatsApp, mas não eliminou os vestígios do aparelho. A perícia encontrou arquivos temporários e registros do sistema relacionados às capturas de tela, o que permitiu recuperar o conteúdo mesmo depois de as notas originais ou as mensagens temporárias deixarem de estar disponíveis no aplicativo.
A extração foi realizada com ferramenta forense Cellebrite e processada pelo Indexador e Processador de Evidências Digitais (IPED) 4.2.2, conforme o Laudo nº 4281/2025-SETEC/SR/PF/SP. O cruzamento entre arquivos residuais, horários das capturas e registros de utilização do WhatsApp permitiu aos investigadores associar as notas aos respectivos envios.
Há também registros de respostas no canal. O Times Brasil relatou que o recurso de imagens em visualização única aparecia dos dois lados da conversa. Isso, porém, não demonstra que Moraes tenha realizado as intervenções solicitadas por Vorcaro junto à PF, à PGR ou ao Banco Central.
A casa e o voo
Na sexta-feira, 14 de novembro, Vorcaro escreve que um encontro estaria marcado para o dia seguinte em sua casa, às 14h. No sábado, volta ao assunto e informa que chegaria às 14h30. Horas mais tarde, envia uma mensagem de agradecimento ao destinatário, dizendo que sua família, funcionários, parceiros e amigos tinham uma “dívida de vida” com ele e sua família.
O relatório da PF apresenta outros episódios em que referências a encontros contam com elementos adicionais. Fábio Faria aparece intermediando contatos desde dezembro de 2023. Foi o ex-ministro das Comunicações quem compartilhou com Vorcaro, em 26 de dezembro de 2023, o número posteriormente salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. Também há mensagens de terceiros relacionadas à presença de Moraes, como uma de Stella, filha de Vorcaro, em novembro de 2024, e outra do motorista Sidney, em fevereiro de 2025.
No domingo, 16, Vorcaro escreve de um avião que pousaria às 14h20 e iria “direto pra aí”. Mais tarde, pede ajuda para que Andrei Rodrigues adiasse a operação para a semana seguinte, em razão do feriado, e pergunta se Galípolo estaria pressionando por uma intervenção. Também menciona investidores e uma carta da “família real de Abu Dhabi”.
Na segunda-feira, 17, Vorcaro intensifica os contatos. A coluna de Malu Gaspar, de O Globo, reconstituiu nove mensagens enviadas ao longo daquele dia, entre 7h19 e 20h48. Em uma delas, o banqueiro pergunta se o interlocutor havia conseguido obter alguma novidade ou “bloquear” a medida. Na última, informa que estava indo assinar com investidores estrangeiros.
Pouco mais de uma hora depois, por volta das 22h, a Polícia Federal prendeu Vorcaro no Aeroporto Internacional de Guarulhos quando se preparava para deixar o país em um avião particular. Sua defesa sustentou que ele seguia para os Emirados Árabes Unidos para negociar a venda do banco; investigadores afirmaram que o voo integrava uma tentativa de deixar o Brasil antes da operação. No dia seguinte, a Compliance Zero foi formalmente deflagrada e o Banco Central liquidou o Master.
O contraste com o caso Eduardo Bolsonaro
Eduardo Bolsonaro foi denunciado por coação no curso do processo, crime previsto no artigo 344 do Código Penal. Desde que se estabeleceu nos Estados Unidos, em março de 2025, o então deputado dizia atuar internacionalmente contra o que classificava como perseguição política, censura e violações de direitos cometidas por Alexandre de Moraes. Eduardo afirmou que havia permanecido no país para “desempenhar a defesa das liberdades dos brasileiros” e sustentou que uma eventual aplicação da Lei Magnitsky seria uma resposta a violações de direitos humanos atribuídas ao ministro. Também negou, naquele período, que estivesse trabalhando por sanções econômicas contra o Brasil.
A Procuradoria-Geral da República deu outra interpretação à atuação. Para Paulo Gonet, Eduardo e Paulo Figueiredo buscaram sanções americanas para pressionar as autoridades responsáveis pela ação penal contra Jair Bolsonaro. A acusação incluiu a suspensão de vistos de ministros, a aplicação da Lei Magnitsky contra Moraes e as medidas comerciais impostas pelo governo americano. Moraes acolheu a denúncia e considerou que a “grave ameaça” teria se materializado com a obtenção dessas sanções.
O julgamento virtual começou em 14 de novembro. Houve formação de maioria. Cármen Lúcia apresentou o último voto no sábado, 15, completando os quatro votos pelo recebimento da denúncia. Embora a posição unânime da turma já estivesse definida, a sessão virtual permaneceu formalmente aberta até 25 de novembro, e o resultado foi proclamado no dia seguinte.
É nesse ponto que as duas histórias se cruzam. Enquanto Moraes julgava uma acusação segundo a qual sanções externas haviam sido utilizadas para pressionar autoridades brasileiras, o celular de Daniel Vorcaro registrava pedidos enviados ao contato salvo em nome do próprio ministro justamente para tentar mobilizar PF, PGR e Banco Central em favor do Master diante das investigações que avançavam contra o banco.
No sábado em que a unanimidade contra Eduardo foi formada, Vorcaro perguntou se “segunda já tenho que estar fora” e se a situação poderia ser revertida com “Paulo ou Andrei”. No domingo, pediu que Andrei Rodrigues adiasse a operação para depois do feriado. Na segunda-feira, voltou a perguntar se o interlocutor havia conseguido alguma informação ou “bloquear” a medida. Naquela noite, foi preso.
Gonet, que acusou Eduardo de tentar interferir no processo por meio de autoridades americanas, aparece repetidamente nas mensagens de Vorcaro como uma das autoridades que o banqueiro esperava que o destinatário pudesse alcançar. Em 30 de outubro, Vorcaro pede para “reforçar com Andrei e Paulo”. Depois, relata que seus advogados haviam conversado com o procurador-geral e que ele estaria “olhando pessoalmente” o caso. Já às vésperas da prisão, pergunta novamente se seria possível “reverter isso com Paulo ou Andrei”.
No dia 1º de setembro de 2026, poucas horas depois de André Mendonça tornar público o relatório da PF, o próprio Gonet pediu sua anulação. A PGR não contestou, nesse pedido, o conteúdo individual das mensagens, mas questionou a legalidade do caminho processual adotado para investigar fatos relacionados a Moraes e sustentou que a questão deveria ter passado previamente pelo plenário do Supremo.
Moraes, por sua vez, negou ter recebido as mensagens atribuídas ao contato salvo em seu nome e classificou a informação como uma “ilação mentirosa”. A negativa entra em choque com a reconstrução apresentada pela Polícia Federal, que associou os arquivos recuperados no aparelho de Vorcaro aos registros de envio pelo WhatsApp para o terminal identificado no celular como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. O relatório, contudo, não demonstra que os pedidos de intervenção feitos pelo banqueiro tenham sido atendidos.
Hoje, após a divulgação de novas conversas entre o ministro do STF e o banqueiro Daniel Vorcaro, Eduardo Bolsonaro afirmou ter pedido aos EUA retomada de sanções contra Moraes.
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O relatório de análise da Polícia Federal (IPJ-A nº 3298613/2026), produzido a partir da extração forense do iPhone de Daniel Vorcaro e liberado nesta terça-feira, 1º de setembro de 2026, por decisão do ministro André Mendonça, contém uma lista de sete nomes anotada pelo próprio banqueiro em 30 de outubro de 2025 — seis minutos depois de escrever que er…







