Observação: Relatório detalhado. Tempo de leitura estimado: 25 minutos.
Em 17 de outubro de 2026, a oito dias do segundo turno, a lobista Roberta Luchsinger questionou, em entrevista à CNN Brasil, os contratos do grupo português Mota-Engil com o poder público. Apontou a amizade entre Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e Amauri Rodrigues Pinha, presidente do conselho da ECB — Empresa Construtora Brasil, controlada pelo grupo. A Mota-Engil tem negócios bilionários com a Petrobras e venceu a concessão do túnel Santos–Guarujá, financiado pelos governos federal e paulista.
Roberta relatou encontros de Lulinha com Amauri e afirmou que ministros procuravam a ajuda dela e do filho do presidente para conseguir agendas com Lula. Roberta disse ter decidido falar depois de Lula chamá-la de “pilantra” e anunciou a intenção de fazer uma delação premiada, embora ela negue irregularidades. A lobista é investigada pela Polícia Federal por suspeitas de corrupção e tráfico de influência.
A suspeita levantada na entrevista é que a proximidade com Lulinha tenha ajudado Amauri a abrir portas e favorecer interesses empresariais no governo. A Investigação seguiu a pista indicada por Roberta: examinar as visitas do executivo ao Planalto, ao Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) e à Petrobras. Agendas, contratos e registros cadastrais mostram quem o recebeu e quais interesses representava.



No DNIT, Amauri foi recebido pelo diretor-geral, Fabrício de Oliveira Galvão, como consultor da Construtora Brasil em julho de 2024. Nos encontros de dezembro e janeiro, tratou de uma ação do Consórcio Brasil-Mota-Engesur sobre obrigações em obras da BR-381. Aos contratos discutidos, o DNIT vinculou multas de cerca de R$ 5 milhões e impedimentos de contratar por 36 meses. A autarquia registra as punições como suspensas até o fim da tentativa de conciliação.
Em setembro de 2024, entre os encontros pela Construtora Brasil, Amauri esteve com Fabrício Galvão, atual Diretor-Geral do DNIT, em nome de outra empreiteira, a EDP Infraestrutura e Pavimentação. Cinquenta dias depois, a EDP pagou R$ 2,2 milhões à consultoria de Roberta, segundo comprovantes divulgados pelo Metrópoles. A apuração chegou, assim, a uma empresa representada pelo executivo citado por Roberta e que remunerou sua consultoria.
As reuniões posteriores com a Casa Civil e o Ministério dos Transportes mostram o acesso de Amauri às autoridades que coordenavam investimentos e concessões de interesse do grupo. Os cadastros também associam o executivo e Lulinha ao mesmo condomínio em São Paulo. A defesa do filho do presidente reconhece a amizade e nega negócios entre os dois.
Os registros esclarecem a atuação de Amauri, mas não demonstram que Lulinha tenha obtido encontros ou contratos para ele. Roberta disse desconhecer o conteúdo das conversas entre os dois e se basear na imprensa ao questionar os contratos. A Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom) afirmou que Lula nunca recebeu demandas da lobista.
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O consultor no DNIT
As agendas confirmam uma parte verificável do relato de Roberta: Amauri tinha acesso à direção do DNIT — autarquia federal vinculada ao Ministério dos Transportes e responsável por obras e manutenção da infraestrutura federal de transportes — e representava empreiteiras. A Investigação identificou ao menos seis encontros dele com a direção do órgão entre julho de 2024 e fevereiro de 2025. As pautas vão da apresentação de obras à discussão de obrigações de contratos já assinados. A atuação pela Construtora Brasil começou antes da reunião em nome da EDP.
Em 3 de julho de 2024, dois meses antes da reunião pela EDP, Amauri esteve no gabinete de Fabrício Galvão. A agenda o identifica como consultor da Construtora Brasil e informa como assunto as obras da BR-381, em Minas Gerais, nos lotes 3.1 e 7. Otaviano Albuquerque, diretor comercial da Estratégica Engenharia, também participou.
Uma semana depois, “Amauri Rodrigues” voltou ao DNIT com o diretor-presidente da Construtora Brasil, Miller Rufino, e o gerente comercial Haroldo Nunes. A pauta identificava os contratos 817/2013 e 412/2016 da BR-381.
Em 10 de setembro, os dois voltaram ao gabinete. Amauri representava a EDP como consultor, numa apresentação da empreiteira sobre obras nas regiões Norte e Nordeste. Estavam na sala o diretor-presidente da EDP, Eduardo José Barros Costa, conhecido como Eduardo DP e Eduardo Imperador, e identificado na agenda como Eduardo José Costa; João Magalhães, diretor comercial da empresa; e Jimmy Kleber Mendes, chefe de gabinete do DNIT. O objetivo informado era “tratar sobre obras federais”.
Em 5 de dezembro, Amauri reapareceu como consultor da Construtora Brasil, acompanhado de dirigentes da empresa, para tratar de uma ação judicial do Consórcio Brasil-Mota-Engesur. Em 23 de janeiro de 2025, voltou ao DNIT para discutir a mesma ação, desta vez identificado como presidente do conselho da ECB. Em 13 de fevereiro, Renan Filho e Fabrício Galvão receberam o novo presidente do conselho, registrado na agenda como “Amari Pinha”, novamente acompanhado de Haroldo Nunes.
A alternância das empresas representadas permite identificar os clientes de Amauri, mas as agendas não informam a duração das consultorias nem se os trabalhos se sobrepunham. Tampouco registram a participação de Lulinha nesses encontros.
Nas agendas de julho e dezembro de 2024 e de janeiro de 2025, o DNIT registra o nome como “Amauri Rodrigues”. A identificação com Pinha é sustentada pela continuidade da empresa representada, dos assuntos e dos acompanhantes, entre eles Haroldo Nunes e Bruno Rodrigues, que aparecem com o nome completo do executivo em reuniões posteriores.
A disputa da BR-381 e as sanções suspensas
A ação judicial citada nas agendas tramita na 16ª Vara Federal Cível do Distrito Federal e foi distribuída em 5 de setembro de 2023. O autor é o Consórcio Brasil-Mota-Engesur, inscrito no CNPJ 25.168.896/0001-43. As atas do DNIT relacionam o processo aos contratos 817/2013 e 412/2016, de duplicação e ampliação de capacidade da BR-381, em Minas Gerais.
Uma ata de setembro de 2025 explica o interesse econômico da ação: o consórcio contestava a interpretação de cláusulas pelo DNIT sobre quem deveria arcar com custos e riscos das obras. Alegava encargos excessivos e sustentava que as irregularidades apontadas pela autarquia não integravam suas obrigações contratuais. O contrato de 2013 também foi auditado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e pela Controladoria-Geral da União (CGU), segundo a ata.
A planilha de penalidades do DNIT, atualizada em 16 de outubro de 2026, registra uma multa de R$ 3,6 milhões pelo descumprimento de cláusula do contrato de 2016 e outra de R$ 1,4 milhão referente ao de 2013. Cada decisão previu ainda impedimento de licitar e contratar com a administração pública federal, direta e indireta, por 36 meses.
Nos dois casos, o consórcio recorreu e pediu a suspensão dos efeitos das punições enquanto seus pedidos fossem examinados. O DNIT suspendeu as penalidades até o fim da tentativa de conciliação, vinculada ao mesmo processo administrativo mencionado nas atas. A planilha aponta a publicação dos atos em 15 de janeiro de 2025 e classifica ambas as punições como suspensas por decisão administrativa. Suspender os efeitos não equivale a cancelar as multas.
A negociação já estava em curso antes da reunião de dezembro com Amauri. Em 15 de outubro de 2024, a diretoria colegiada autorizou Fábio Pessoa da Silva Nunes, diretor de Infraestrutura Rodoviária, a participar de audiência de conciliação com poderes para negociar em nome do DNIT. A audiência estava marcada para 22 de outubro. Em novembro de 2025, o colegiado renovou a autorização para as audiências seguintes.
A interlocução de Amauri com o DNIT, portanto, envolvia uma disputa capaz de alterar os encargos do consórcio nas obras e ocorria no contexto de punições que restringiriam sua contratação pelo governo federal. As agendas não detalham qual providência ele pediu a Fabrício Galvão. A negociação já autorizada antes do encontro de dezembro impede atribuir seu início à visita do executivo.
As punições atingem o consórcio, e o cadastro do DNIT registra seus efeitos como suspensos. Embora o impedimento previsto alcançasse a administração federal direta e indireta, a planilha não identifica o CNPJ do sancionado nem estabelece um impedimento vigente da ECB ou da Mota-Engil para contratar com a Petrobras. A suspensão das penalidades e a assinatura posterior de contratos não demonstram, por si, que os encontros de Amauri produziram esse resultado.
A EDP e o empreiteiro investigado
Eduardo DP, sócio da EDP, foi preso pela Polícia Federal em julho de 2022 na investigação sobre desvios de emendas destinadas à Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf). A PF o apontou como sócio oculto da Construservice, conforme noticiou a Folha. A empreiteira recebeu recursos para asfaltar, em Vitorino Freire, no Maranhão, uma estrada em frente à fazenda do então deputado federal Juscelino Filho, que depois se tornou ministro das Comunicações.

Eduardo DP e Juscelino foram indiciados pela PF. A denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o deputado precedeu sua saída do ministério, em abril de 2025. Juscelino nega irregularidades. Conforme reportagem do Estadão, Eduardo DP é réu em ações penais, mas não havia sido condenado.
Enquanto a Construservice reduzia sua participação em licitações, a EDP ampliava os contratos com o poder público. Um levantamento da Folha, publicado em abril de 2025, identificou ao menos R$ 526 milhões em contratos de pavimentação assinados desde 2023 com estados e municípios de cinco estados. Desse total, cerca de R$ 10 milhões correspondiam a convênios com verba federal.
A EDP está impedida de contratar com o poder público desde junho de 2026, segundo a reportagem do Estadão. A restrição decorre de uma medida preventiva do Supremo Tribunal Federal (STF), em processo sob sigilo relatado pelo ministro Flávio Dino. É posterior ao encontro de setembro de 2024 e aos pagamentos à consultoria de Roberta.
Pagamentos e pedidos de verba pro Maranhão
Em 30 de outubro de 2024, 50 dias depois da reunião no DNIT, a EDP fez cinco pagamentos que somaram R$ 2,2 milhões à RL Consultoria e Intermediações, de Roberta. A data e o número de transferências aparecem em reportagem do Metrópoles sobre mensagens e comprovantes analisados pela PF.
O vínculo de Amauri com a EDP e os pagamentos à consultoria de Roberta foram reunidos pelo Estadão, em reportagem de Luiz Vassallo, Aguirre Talento e Gustavo Côrtes. O jornal identificou repasses em relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf): entre setembro de 2024 e março de 2025, a EDP pagou R$ 2,2 milhões, e a Pentágono Comércio e Engenharia, outra empresa apontada pela PF como controlada por Eduardo DP, transferiu R$ 1,9 milhão. Juntas, somaram R$ 4,1 milhões.
Os pagamentos da EDP coincidem com o período em que Roberta negociava a liberação de recursos federais para o Maranhão. Segundo o Metrópoles, mensagens reunidas na investigação relacionam ao menos R$ 5,9 milhões recebidos por ela e pelo pai, entre outubro de 2024 e janeiro de 2025, à intermediação de verbas na Saúde e na Casa Civil. Os R$ 2,2 milhões da EDP integram esse levantamento; não são um valor adicional.
Os comprovantes da EDP chegaram a Roberta por Pablo Pereira Munhoz, que se apresentava como assessor de Carlos Brandão, governador do Maranhão. Em 7 de novembro de 2024, ele também encaminhou a ela documentos sobre um pedido de R$ 115 milhões para procedimentos de saúde no estado. Roberta repassou o material a Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, então chefe de gabinete de Lula. A conversa registra a solicitação de recursos, sem comprovar que o valor foi liberado.
Marcola recebeu de Roberta pagamentos de contas e presentes que sua defesa descreveu como um empréstimo de R$ 249 mil, quitado com juros e correção. Na entrevista, ela tratou a ajuda como um favor a um amigo, admitiu que sua conduta poderia ser amadora ou imoral e negou contrapartida. Invocou o sigilo para não detalhar as operações. Marcola nega ter intermediado negociações em benefício de interesses privados. O cruzamento identifica, assim, um canal pessoal usado para encaminhar uma demanda de recursos: Roberta levou o pedido a um assessor a quem também prestava ajuda financeira. Isso não comprova uma troca de favores, negada por ambos.
As mensagens sobre a expectativa de receber R$ 100 milhões em 2024 e a atuação política por meio do Palácio do Planalto foram trocadas com Gustavo Marques Gaspar, ex-assessor da liderança do PDT no Senado, conforme publicação da Veja. Gaspar trabalhou no posto por indicação de Weverton Rocha, senador pelo Maranhão.
As emendas de Weverton financiaram contratos de R$ 34,4 milhões com a Construservice e a Pentágono, empresas ligadas a Eduardo DP, segundo levantamento da Folha. Gaspar também foi sócio do haras da família de Juscelino.
Em fevereiro de 2026, o ministro do STF André Mendonça autorizou a substituição da prisão preventiva de Gaspar por domiciliar. Ele era investigado por suspeitas de ligação com o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS e investigado no caso dos descontos ilegais em benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Gaspar também foi acusado de ser funcionário fantasma enquanto trabalhou na liderança do PDT no Senado. A defesa de Gaspar negou as acusações.
A defesa de Roberta afirmou ao Estadão que os pagamentos das empreiteiras correspondiam à prestação regular de serviços privados e não tinham relação com as fraudes do INSS. Não detalhou os serviços. Na mesma reportagem, a defesa de Lulinha declarou que ele não tinha relação com esses recebimentos. Eduardo DP não respondeu ao jornal sobre os motivos da contratação. À CNN Brasil, Roberta afirmou nunca ter tido um contrato público.
“Não estou dentro dessa história, mas conheço essa história”, disse Roberta ao tratar da Mota-Engil. A checagem das visitas que sugeriu encontrou um cliente comum a ela e a Amauri. Isso aproxima profissionalmente os personagens da entrevista, mas não esclarece se os dois trabalharam juntos nem demonstra que ela conhecia os contratos da ECB. O pagamento pela EDP, por si, não desmente sua declaração sobre os negócios da outra construtora.
A vizinhança e os encontros em Brasília
As consultas cadastrais reunidas por A Investigação associam Amauri e Lulinha ao mesmo condomínio na zona sul de São Paulo. A vizinhança também foi noticiada pelo Estadão. No caso do executivo, o endereço aparece ainda como sede da Arpinha Consultoria Empresarial, sociedade limitada que mantém com a esposa para serviços de assessoria, consultoria e gestão empresarial.
O empreendimento é o Hemisphere Juriti, também anunciado como Hemisphere Ibirapuera, em Vila Uberabinha, na região de Moema. Os anúncios imobiliários descrevem apartamentos de cerca de 335 m², quatro suítes, piscinas, quadra e sauna, próximo ao Parque Ibirapuera. Uma unidade de 335 m² e quatro vagas está anunciada por R$ 11,9 milhões. É o valor pedido pelo anunciante para aquela unidade.
Os cadastros associam os dois ao mesmo empreendimento, mas não esclarecem desde quando cada endereço foi utilizado. Lulinha mudou-se para Madri em julho de 2025. A oposição o acusa de estar foragido. Ao Estadão, seu advogado, Marco Aurélio Carvalho, afirmou que ele e Amauri são apenas amigos e nunca fizeram negócios juntos.
Roberta situou os encontros de Amauri e Lulinha na casa que ela alugava em Brasília. Perguntada se os dois tratavam de negócios, disse não saber o assunto das conversas a portas fechadas: “Eu na sala, eles ali fazendo reunião, e não cabe a mim ouvir. Se eu não sou chamada, eu não vou escutar”.
A lobista descreveu amizade e convívio frequente com Lulinha em Brasília, onde, segundo ela, os quartos dos dois ficavam um em frente ao outro. Disse que ajudou a organizar a mudança dele para Madri, com viagens, busca de escola e apartamento, mas negou ter financiado a mudança. Relatou que também alugou um apartamento na capital espanhola e depois se desfez dele.
Na mesma entrevista, Roberta afirmou que ministros buscavam sua ajuda e a de Lulinha para conseguir agendas com Lula ou prioridade para projetos, por intermédio de Marcola. Citou Leonardo Barchini, ministro da Educação, e Frederico de Siqueira Filho, ministro das Comunicações. Disse que prestava essa ajuda sem cobrar. Ao falar de Camilo Santana, senador e ex-ministro da Educação, fez a ressalva: “Fábio tinha relação com o ministro Camilo, não eu”.
As declarações estendem a questão da amizade ao possível uso de relações pessoais para atender demandas no governo. Os ministérios da Educação e das Comunicações negaram tratativas com Roberta ou Lulinha para obter agendas na Presidência. A assessoria de Camilo também negou conversas sobre negócios ou ações do governo com Lulinha e relação com a lobista.
Estratégica e HLPM
A Estratégica Engenharia liga dois encontros de Amauri no DNIT: seu diretor comercial, Otaviano Albuquerque, participou tanto da reunião pela Construtora Brasil quanto da apresentação da EDP. A empresa tem como sócio-administrador Diogenes Luiz da Silva Soares. O cadastro empresarial consultado registra a entrada dele na administração da HLPM Engenharia em 13 de agosto de 2024, quatro semanas antes do encontro de setembro com Fabrício Galvão.
Aberta em dezembro de 2023, a HLPM tem como sócia a China Hualong International Construction Corporation. Wang Jianxun também aparece entre seus administradores. Os cadastros situam a HLPM e a Estratégica no mesmo prédio comercial na Chácara Santo Antônio, em São Paulo: a primeira no conjunto 2106; a segunda no conjunto 2101, no 21º andar.
Dados cadastrais obtidos pela reportagem indicam vínculo anterior de Amauri com a HLPM. O registro não permite estabelecer se ele e Diogenes atuaram simultaneamente na empresa. A Estratégica também recebe recursos do Executivo federal. Na consulta de 19 de outubro de 2026, o perfil da empresa no Portal da Transparência exibia R$ 257,3 milhões em recursos recebidos desde 2014.
No governo Lula 3, a Estratégica Engenharia recebeu R$ 90,5 milhões da União, quase tudo do DNIT, em 1.234 pagamentos entre janeiro de 2023 e outubro de 2026, 40% deles por serviços em rodovias do Piauí.
As visitas ao Planalto e à Casa Civil
As reuniões na Casa Civil levam a atuação de Amauri além do órgão responsável pelas rodovias. Ele foi recebido pelas áreas que coordenavam investimentos, concessões e prioridades de infraestrutura do governo federal. Isso esclarece a dimensão do acesso mencionado por Roberta: o executivo apresentava interesses das empresas tanto ao DNIT quanto a autoridades que articulavam projetos entre ministérios. As pautas não permitem medir sua influência sobre as decisões.
O controle de acesso do Palácio do Planalto e de seus anexos registra o cadastro de Amauri às 9h29 de 19 de março de 2025, uma quarta-feira. Ele já era identificado como presidente do conselho da ECB na agenda do DNIT de janeiro. No mesmo minuto foi cadastrado João Manuel Silva Sequeira da Costa Figueiredo, representante da Mota-Engil numa arbitragem contra o Paraguai na Corte Permanente de Arbitragem. Às 9h30 aparece Haroldo Nunes da Silva, identificado nas agendas seguintes como diretor de relações institucionais da ECB.
Também às 9h30 foi cadastrado Federico Goñi; às 9h31, Roberto Barbosa Vidal Ferreira. Ambos aparecem como executivos da Mota-Engil em agenda do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) de janeiro de 2026: Goñi como diretor comercial, e Vidal Ferreira como diretor de Negócios Estruturados. Essa fonte posterior não confirma seus cargos na data das entradas de março. Os horários próximos documentam acessos, sem esclarecer se os visitantes participaram da mesma reunião.
O cadastro ocorreu 20 dias depois de Lula e Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, lançarem o edital do túnel Santos–Guarujá, que a Mota-Engil venceria em setembro. A lista traz apenas nome, data e hora: não identifica quem recebeu os visitantes nem o assunto tratado. Segundo a agenda presidencial, Lula estava em viagem ao Rio Grande do Norte e ao Ceará no horário das entradas. A Investigação apresentou três pedidos pela Lei de Acesso à Informação e aguarda resposta.
As reuniões com a Casa Civil identificadas pela reportagem começam em maio. No dia 22, Amauri foi recebido por Maurício Muniz Barretto de Carvalho, então secretário especial do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), acompanhado de Haroldo Nunes. Quatro dias depois, os dois participaram de uma apresentação da Mota-Engil e da ECB a Maurício Muniz e Marcus Cavalcanti, então secretário especial do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI). Participou também um representante da Mota-Engil identificado na agenda como Manoel Mota.
Em 30 de maio, Amauri participou de reunião com Rui Costa, então ministro da Casa Civil, Maurício Muniz, Jerônimo Rodrigues, governador da Bahia, e representantes da Mota-Engil, sobre projetos de infraestrutura. Em 25 de agosto, outra agenda registra Amauri, um representante do grupo identificado como Manuel Mota e Haroldo Nunes com Rui Costa e Maurício Muniz, também para tratar de infraestrutura.
Há ainda registros de reuniões com Amauri, Rui Costa, Renan Filho, então ministro dos Transportes, e integrantes da Casa Civil em 17 de setembro e 22 de outubro de 2025. O registro de outubro identifica Amauri como presidente do conselho de administração e Bruno Rodrigues como diretor-presidente executivo da ECB. São funções distintas: presidir o conselho não equivale a dirigir a operação cotidiana da empresa. Essa diferença importa para examinar a associação feita por Roberta entre a chegada de Amauri à “presidência” e os contratos.
Nos compromissos citados nesta reportagem, Lulinha não é listado entre os participantes. As agendas comprovam a interlocução de Amauri com o governo, mas não identificam uma atuação do filho do presidente na obtenção dos encontros ou dos contratos.
Os contratos da Mota-Engil
Amauri preside o conselho de administração da ECB, construtora fundada em 1945 em Belo Horizonte. A Mota-Engil comprou metade da empresa em 2012 e adquiriu os 50% restantes em maio de 2025. Na entrevista, Roberta associou a chegada dele à presidência à obtenção de contratos, mas não identificou o negócio de R$ 2 bilhões que mencionou nem informou quando o executivo assumiu o cargo.
Quando os entrevistadores perguntaram se tinha informação sobre irregularidade nesse contrato, Roberta disse não dispor de informação privilegiada e afirmou se basear no que havia lido na imprensa. Ao questionarem se a amizade com Lulinha facilitava o acesso de Amauri ao governo, ela cobrou explicações do filho do presidente, sem descrever uma intervenção específica dele.
Na cobertura da entrevista, o jornalista André Shalders, na coluna da jornalista Andreza Matais no Metrópoles, associou a cifra de R$ 2 bilhões ao túnel Santos–Guarujá. Roberta não identificou esse contrato ao responder aos entrevistadores. Os registros permitem examinar a cronologia dos negócios, sem atribuir a ela a identificação de uma obra que não nomeou.
Os contratos do grupo têm escala bilionária. Em comunicado de 6 de outubro de 2025, a Mota-Engil informou que a ECB, por meio de um consórcio em que participa com 33%, celebrou um contrato de R$ 4,4 bilhões com a Petrobras para intervenções na Refinaria Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. O valor informado é o do contrato do consórcio. No mesmo documento, o grupo anunciou a extensão de outro contrato da ECB com a estatal, por cerca de R$ 200 milhões.
O processo de contratação do projeto GASLUB, de integração entre o complexo de processamento de gás em Itaboraí e a Refinaria Duque de Caxias (Reduc), começou antes de Amauri aparecer como presidente do conselho. O aviso da licitação nº 7004269219 foi publicado em 24 de abril de 2024. A assinatura posterior à sua chegada ao cargo, portanto, não significa que o negócio tenha começado com ele.
Em maio de 2026, o grupo português integrou o consórcio que venceu a concessão da Rota dos Sertões, formada por trechos das BRs 116 e 324 entre Bahia e Pernambuco.
No balanço do primeiro semestre de 2026, a carteira de contratos a executar no Brasil chegou a cerca de R$ 14,6 bilhões, segundo reportagem do InvestNews. O número dimensiona os negócios do grupo no país; não representa pagamentos já recebidos nem corresponde apenas à ECB.
Em 22 de abril de 2026, a agenda da Advocacia-Geral da União (AGU) registrou Amauri e representantes da Mota-Engil Brasil numa reunião sobre contratos no DNIT. Participaram Igor Lins, subprocurador-geral federal; Leila de Morais, chefe de gabinete do advogado-geral da União, Jorge Messias; e Maria Lúcia Squillace, procuradora-chefe junto ao DNIT. Amauri aparece como presidente do conselho de administração do grupo no país. A agenda não identifica os contratos discutidos nem lista Messias entre os participantes.
Há também uma negociação que chegou ao gabinete presidencial. Em 26 de janeiro de 2026, Lula recebeu Manuel António da Mota, vice-presidente do conselho da Mota-Engil, para discutir ativos da Bahia Mineração (Bamin): o trecho 1 da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol), o Porto Sul e uma mina em Caetité, na Bahia. Segundo reportagem da Folha, o encontro ocorreu fora da agenda e reuniu Rui Costa, Renan Filho, Jaques Wagner, senador pela Bahia, e Jerônimo Rodrigues. A estatal chinesa China Communications Construction Company (CCCC), dona de cerca de 32% da Mota-Engil, foi apontada como possível financiadora da operação.
Quatro dias antes daquele encontro, em 22 de janeiro de 2026, a agenda oficial registrou Amauri e Haroldo Nunes numa reunião sobre a Bamin e a Fiol no Ministério dos Transportes. Entre os participantes estavam George Santoro, então secretário executivo do ministério; Marcus Cavalcanti; e representantes da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), da Bamin e do grupo controlador da mineradora, a ERG. Amauri representava a Mota-Engil como presidente do conselho de administração.
No dia seguinte ao encontro de Lula, em 27 de janeiro, a agenda do BNDES registrou uma reunião de Amauri com a área de Infraestrutura. A pauta informa apenas o nome da Mota-Engil Brasil, sem identificar o projeto discutido. No dia 28, o governo paulista assinou o contrato do túnel Santos–Guarujá.
O túnel prometido há 100 anos
A Mota-Engil venceu em setembro de 2025 o leilão da parceria público-privada do túnel Santos–Guarujá, conduzida pelo governo paulista. Foram duas concorrentes: a vencedora ofereceu desconto de 0,5% sobre a contraprestação pública máxima anual — o pagamento do poder público à concessionária —, fixada em R$ 438,3 milhões; a espanhola Acciona propôs 0%. O contrato de concessão foi assinado em 28 de janeiro de 2026 com a TSG Concessionária, responsável pelo empreendimento.
O investimento total foi estimado em R$ 6,8 bilhões. O aporte público previsto no contrato é de cerca de R$ 5,1 bilhões, dividido igualmente entre União e São Paulo — aproximadamente R$ 2,6 bilhões para cada um.

O aporte federal foi objeto de uma medida cautelar do TCU. Em 6 de maio de 2026, o tribunal revogou a restrição aos depósitos em conta vinculada, mas manteve os desembolsos condicionados à formalização de regras de governança para o uso do dinheiro. A Autoridade Portuária de Santos e o governo paulista assinaram o termo em 14 de julho.
A construção ainda não começou. Em reportagem de 13 de outubro de 2026, a revista O Empreiteiro informou que a concessionária fazia levantamentos topográficos e cadastrais e não implantava canteiros. À revista, Ricardo Andrade, diretor técnico da TSG, disse que o projeto funcional deveria estar aprovado e certificado até julho de 2027. A fabricação dos seis módulos de concreto em dique seco estava prevista para começar em fevereiro de 2028.
A portuguesa Quadrante integra o consórcio de engenharia contratado pela TSG para dar apoio técnico à concessionária, com revisão dos projetos e supervisão da obra. Em comunicado de setembro de 2026, a empresa situou o empreendimento na fase de projeto executivo, licenciamento complementar e preparação, com construção a partir de 2027 e operação comercial em 2031. Em maio, o ministro de Portos e Aeroportos, Tomé Franca, disse à Câmara que trabalhava para iniciar as obras em janeiro de 2027.
O primeiro projeto da ligação foi desenhado em 1927, segundo o histórico divulgado pela Prefeitura de Santos. O início agora previsto coincidiria com os cem anos daquela proposta. A versão atual prevê ciclovia, passagem para pedestres e espaço reservado para um futuro veículo leve sobre trilhos (VLT).
O que dizem os envolvidos
Em nota à CNN, a defesa de Lulinha negou irregularidades, afirmou que suas relações com políticos são pessoais e declarou que as acusações de Roberta são incompatíveis com o depoimento que ela prestou às autoridades. Disse ainda que ele teve os sigilos abertos e se colocou à disposição da Justiça.
Ao Estadão, a defesa de Lulinha também negou negócios com Amauri e declarou que ele está disposto a prestar esclarecimentos aos investigadores. A reportagem informou que Amauri não respondeu aos questionamentos do jornal. A defesa da EDP afirmou que a empresa cumpre a legislação e colabora com as autoridades quando solicitada.
A Secom afirmou que Lula desconhece os fatos relatados, nunca recebeu demandas de Roberta e não teve conhecimento das tratativas mencionadas. A nota também questionou a divulgação das acusações às vésperas do segundo turno. A CNN Brasil informou que procurou a Mota-Engil e não recebeu resposta até a publicação de sua reportagem.
A Investigação enviou pedidos de esclarecimento a Amauri, à ECB e à Mota-Engil, à EDP e a Eduardo DP, ao DNIT e a Fabrício Galvão, à Presidência e à Casa Civil, à Estratégica e a Diogenes Soares, à Petrobras e às defesas de Roberta e de Lulinha. Até o fechamento desta reportagem, não houve resposta. O espaço permanece aberto.
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