Festa de Augusto Lima na Bahia reuniu PT, oposição e operadores do Banco Master em Miami
lançamento do Instituto Terra Firme no Museu de Arte Moderna da Bahia reuniu governador Jeronimo, oposição, executivos do Banco Master e a futura gestora das empresas americanas do grupo.
Em 6 de novembro de 2023, o Museu de Arte Moderna da Bahia recebeu o lançamento do Instituto Terra Firme — ONG fundada por Augusto Lima, então sócio e presidente executivo do Banco Master. Registros do evento mostram que pessoas hoje centrais na apuração sobre a estrutura americana e brasileira do Master, revelada com exclusividade por A Investigação, circulavam naquele salão:
Nara Peres de Aguiar, que seis semanas depois se tornaria gestora da CredCesta USA e, mais tarde, a única responsável formal por quatro empresas do grupo em Miami;
Luiz Antonio Bull, então diretor de Riscos, Compliance, RH, Operações e Tecnologia do banco, vestindo a camiseta oficial da nova ONG;
Matheus Kruschewsky Silva, gerente comercial do próprio Banco Master e familiar de André Kruschewsky Lima, o ex-diretor jurídico do banco apontado pela Polícia Federal como articulador da tentativa de blindar o Fundo Garantidor de Créditos antes do colapso da instituição;
e Eduardo Centola, ex-Goldman Sachs e ex-ModalMais, que havia ingressado no Banco Master um ano antes com a missão explícita de liderar a internacionalização do grupo — e que, um mês depois da festa na Bahia, se tornaria o arquiteto prático de toda a estrutura americana do Master.
Pouco mais de um mês depois do evento no MAM-BA, em 18 de dezembro de 2023, Centola e Nara fundaram simultaneamente, em Miami, a CredCesta USA LLC e a Master RIA LLC — a mesma semana em que o Banco Central convocara Daniel Vorcaro a Brasília para o primeiro ultimato formal contra o banco.
A Investigação já revelou, em reportagens anteriores, o que esse grupo fez a partir dali: uma estrutura de quatro empresas na Flórida — Banco Master LLC, Master Holdings USA (hoje Altura Holding), Master RIA (hoje Altura Private Capital) e CredCesta USA (hoje Salarly) — construída para replicar nos Estados Unidos o modelo de crédito consignado operado no Brasil. A operação era financiada pelo próprio Banco Master, mas formalmente declarada como não pertencente a ele.
Entre abril e agosto de 2024, à medida que o Banco Central intensificava a supervisão, os quatro executivos que assinavam pelos documentos americanos — Bull, Centola, Angelo Antonio Ribeiro da Silva e André Kruschewsky Lima — foram sistematicamente removidos dos registros da Flórida e substituídos por um único nome: Nara Peres de Aguiar, corretora de imóveis em Miami sem qualquer histórico público no banco no Brasil.
O produto que a estrutura tentava vender a trabalhadores americanos tinha origem conhecida: o CredCesta, mecanismo de crédito consignado nascido dentro da estatal baiana Ebal em 2018, levado por Augusto Lima ao Banco Master em 2020 e que chegou a representar quase 100% da carteira de crédito ao consumidor antes de se expandir para o INSS — onde a Operação Sem Desconto identificou 338 mil contratos irregulares. No fim de 2024, a CredCesta USA mudou de nome para Salarly e passou a mirar trabalhadores da saúde nos Estados Unidos, sem qualquer menção pública ao Banco Master ou à crise que se aproximava no Brasil.
A festa reuniu também o governador Jerônimo Rodrigues (PT) e lideranças de oposição como Bruno Reis e ACM Neto (União Brasil) — adversários políticos declarados, sob o mesmo teto, na mesma noite em que o governo estadual assinou uma parceria formal com a ONG recém-criada. Menos de um ano depois, essa parceria se transformaria em um fluxo de R$ 140,1 milhões em recursos públicos, dos quais R$ 101,3 milhões retornariam ao próprio Banco Master.
O quebra-cabeça político
Na superfície, o lançamento do Instituto Terra Firme foi uma festa de sociedade baiana. Teve buffet do Mignon, tradicional restaurante em Salvador, apresentação da Orquestra Neojiba e do Olodum, mestre de cerimônias famoso — o ator Luís Miranda—, e serviu também de apresentação pública do relacionamento entre Augusto Lima e a ex-deputada federal Flávia Peres (ex-Flávia Arruda), que assumiram namoro naquela mesma semana e passariam a presidir a ONG juntos.
Mas, por trás do verniz social, o evento tinha uma segunda função, institucional e financeira. Segundo o próprio site do Instituto, foi naquela noite que o governador Jerônimo Rodrigues e os responsáveis pelo Terra Firme fecharam formalmente a parceria que vincularia a ONG ao programa estadual Bahia Sem Fome. O lançamento de uma ONG fundada por um sócio do Master era, simultaneamente, a cerimônia de assinatura de um convênio com o Estado da Bahia.
A cobertura da imprensa baiana registrou, entre os presentes: o governador Jerônimo Rodrigues (PT); o prefeito de Salvador, Bruno Reis, e o ex-prefeito ACM Neto (ambos União Brasil); ACM Júnior; José Ronaldo (União Brasil); o deputado federal João Roma (PL); o deputado federal Cacá Leão (então PP); e o deputado federal Otto Alencar Filho (PSD), filho do senador Otto Alencar (PSD). À primeira vista, a lista não faz sentido político — reunia, na mesma sala, o principal nome do PT baiano e os principais nomes da oposição histórica ao PT no estado, incluindo o carlismo que disputa com o PT o governo estadual desde os anos 1990.
A resposta para essa aparente contradição não estava na festa: estava nos fluxos de dinheiro que a Polícia Federal reconstruiria dois anos depois. O achado central é que Augusto Lima não cultivava relação com um lado da política baiana — cultivava com todos, simultaneamente, e pagava por isso dos dois lados do espectro.
No campo do PT, a Polícia Federal identificou que Lima e o senador Jaques Wagner (PT-BA) mantiveram 74 ligações telefônicas em 18 meses, entre 17 de novembro de 2023 — apenas onze dias após o lançamento do Terra Firme — e 25 de maio de 2025, somando cinco horas e meia de conversas. Como A Investigação revelou em reportagem exclusiva sobre as digitais do PT no caso Master, foi Wagner quem articulou, em agosto de 2023, a contratação do escritório Lewandowski Advocacia pelo banco por R$ 250 mil mensais — contrato que continuou ativo por 21 meses mesmo depois de Ricardo Lewandowski assumir o Ministério da Justiça de Lula, pasta que supervisiona a Polícia Federal que investigava o próprio conglomerado. Foi também Wagner quem, no primeiro semestre de 2024, articulou a contratação de Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda de Lula e Dilma, como consultor do Master por cerca de R$ 1 milhão mensais — remuneração paga, entre outras atribuições, para abrir o canal que levaria Vorcaro ao Palácio do Planalto em dezembro daquele ano.
A rede de proximidade entre Wagner e o núcleo do Master não parava nele — e tinha raiz mais antiga do que a própria festa. Segundo a Polícia Federal, foi o publicitário Guilherme Sodré Martins, o "Tio Guiga", quem apresentou Jaques Wagner a Augusto "Guga" Lima, consolidando uma relação que investigadores descrevem como "antiga, próxima e de confiança". Guiga não é uma figura qualquer na história: é o pai de Eduardo Mendonça Sodré Martins, secretário de Meio Ambiente da Bahia (Sema) e enteado do próprio senador
Eduardo Sodré também esteve na festa de lançamento do Terra Firme. A Polícia Federal apurou que a BN Financeira, empresa gerida por Bonnie Toaldo Bonilha, esposa de Eduardo Sodré, recebeu ao menos R$ 11 milhões do Banco Master entre 2022 e 2025 e, em 17 de outubro de 2025, mais R$ 3,5 milhões da PKL One Participações S.A. — entidade ligada à operação do CredCesta e administrada por Andréa Lima Novaes, prima de Augusto Ferreira Lima. Segundo a PF, esse último repasse foi precedido por cobranças que o próprio Eduardo Sodré fez a Augusto Ferreira Lima, apontado nos autos como o principal interlocutor privado do senador dentro do banco; em uma conversa registrada em 4 de setembro de 2025, Sodré teria cobrado de Lima valores para quitar parcelas de um imóvel avaliado em R$ 2,45 milhões que, segundo a PF, teria sido dado como propina ao próprio Wagner. A corporação descreve a BN Financeira como "pessoa jurídica central no eixo dos pagamentos supostamente destinados ao núcleo familiar de Jaques Wagner".
Sodré enfrenta ainda uma frente de apuração paralela, ligada à sua função como secretário de Meio Ambiente: a PF rastreou R$ 3,5 milhões enviados pela empresa que operava o CredCesta à BN Financeira — mesma sociedade de sua esposa — no período em que o governo baiano autorizava, através da Cetrel, uma intervenção de 35 anos num rio sob disputa ambiental.

Em 18 de junho de 2026, a nona fase da Operação Compliance Zero cumpriu 18 mandados de busca e apreensão autorizados pelo STF, incluindo a casa de Jaques Wagner em Salvador — embora o ministro André Mendonça tenha indeferido o pedido específico de busca contra Bonnie Toaldo Bonilha e seu irmão, Patrich Toaldo Bonilha. Uma reportagem posterior revelou que outra empresa de Bonnie, a BN Representações Tecnológicas, dividia endereço, telefone, e-mail e até o mesmo contador com outras 19 pessoas jurídicas investigadas no caso Master.
Em 25 de junho de 2026, André Mendonça também suspendeu, ainda no âmbito da Compliance Zero, a transferência de um terreno de 51 mil metros quadrados que Wagner vendera por R$ 15 milhões — área adquirida por ele em março de 2000 por R$ 28 mil, o equivalente hoje a cerca de R$ 130 mil corrigidos, uma valorização real de 11.400% em 25 anos. O terreno ficava às margens da Via Metropolitana, eixo viário planejado e contratado durante o próprio governo de Wagner à frente do estado, com obras concluídas em 2018 já sob Rui Costa. O STF também interrompeu a venda de um apartamento do senador no Corredor da Vitória, negociado por R$ 10 milhões — as duas operações somariam R$ 25 milhões, contra R$ 3,3 milhões em bens que Wagner declarara em 2018.
Na busca contra o próprio senador, a PF encontrou US$ 55 mil e 33 mil euros — cerca de R$ 471 mil em valores atuais — em endereços ligados a ele; Wagner defende que a origem do dinheiro é legal. Intimado a depor à PF em agosto de 2026, o senador admitiu publicamente a relação pessoal com Augusto Lima, mas negou qualquer envolvimento com a empresa da família ou atuação em favor do banco, atribuindo a tese da PF a uma construção acusatória. Wagner deixou o cargo de líder do governo no Senado em junho, após a operação.
No campo da oposição, o mesmo mecanismo operava em espelho. Um relatório do Coaf revelou que a empresa de consultoria do ex-prefeito de Salvador ACM Neto, hoje vice-presidente do União Brasil e pré-candidato ao governo da Bahia, recebeu R$ 3,6 milhões do Banco Master e da Reag Investimentos, em partes aproximadamente iguais, entre dezembro de 2022 e maio de 2024 — o mesmo período em que ACM Neto era fotografado ao lado de Lima e Flávia Peres no lançamento do Terra Firme. ACM Neto confirmou publicamente os pagamentos e afirmou que se referiam a consultoria em análise da agenda político-econômica nacional.
No mesmo levantamento da PF sobre os contatos de Lima, a lista de presentes distribuídos pelo empresário — vinhos de até R$ 5.300 — reforça o padrão bipartidário: o próprio Jerônimo Rodrigues, Antonio Rueda (presidente nacional do União Brasil, partido de ACM Neto e Bruno Reis), Bruno Reis, ACM Neto e Rui Costa, ministro da Casa Civil de Lula e ex-governador da Bahia responsável pela privatização da Ebal que deu origem ao próprio CredCesta. A festa de novembro de 2023 não reunia adversários por acaso: reunia beneficiários — de lados opostos do espectro partidário — de um mesmo fluxo de recursos que só a queda do banco tornaria visível.
O núcleo do Master em Miami dentro da festa
Enquanto políticos posavam para fotos, ao menos três pessoas hoje centrais na apuração de A Investigação sobre a operação do Master em Miami circulavam no mesmo salão.



Nara Peres de Aguiar aparece em uma das fotos do evento. Pouco mais de um mês depois do evento na Bahia, em 18 de dezembro de 2023, ela se tornaria gestora nomeada simultaneamente da CredCesta USA LLC e da Master RIA LLC, em Miami — e, entre abril de 2024 e outubro de 2025, assumiria como única responsável formal pelas quatro empresas que compunham a estrutura americana do grupo, substituindo, um a um, os executivos que a fundaram.
Luiz Antonio Bull, então diretor de Riscos, Compliance, RH, Operações e Tecnologia do Banco Master, também aparece em outra foto. Bull foi, junto a Eduardo Centola, um dos dois executivos originais retirados dos registros corporativos da estrutura americana do Master em abril de 2024, no mesmo mês em que o Banco Central intensificava a supervisão sobre o grupo. Foi preso, junto com Augusto Lima e Daniel Vorcaro, na Operação Compliance Zero, em novembro de 2025. Em depoimento à Polícia Federal em 27 de janeiro de 2026, disse que assinava documentos sem ler, que não tinha formação em compliance e que não exercia de fato as funções de monitoramento — entre os documentos que teria assinado sem ler estão os artigos de organização da própria Banco Master LLC, da qual constava como manager desde a fundação, em dezembro de 2022.
Ao lado de Bull na mesma fotografia está Matheus Kruschewsky Silva. Segundo fontes, Matheus já atuou como gerente comercial do Banco Master. Matheus e sua mãe já foram representados, em uma ação judicial de 2010, pelo advogado André Kruschewsky Lima — o mesmo André Kruschewsky que atuou como diretor jurídico do Banco Master e que a Polícia Federal aponta como um dos articuladores da chamada “emenda do Master”: uma proposta legislativa, apresentada pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI), que ampliaria a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante, encaminhada ao banqueiro Daniel Vorcaro pouco antes do colapso da instituição.
André Kruschewsky também foi responsável, segundo a PF, pela contratação do escritório Gabino Kruschewsky Advogados — do qual seu primo Eugênio Kruschewsky, procurador do Estado da Bahia, é sócio. O escritório recebeu aproximadamente R$ 54 milhões do Banco Master entre 2022 e 2025, tornando-se o quarto maior destinatário de repasses do banco entre bancas de advocacia, segundo levantamento da Folha de S.Paulo — e um dos maiores beneficiários de honorários pagos pela instituição em colapso. André integra o chamado “Trio K”: ele, o primo Luiá — suporte jurídico da operação CredCesta — e o primo Eugênio.
Eduardo Centola também esteve na festa. Veterano de Goldman Sachs e ModalMais, ingressou no Master em novembro de 2022 com a missão de liderar a internacionalização. A Banco Master LLC foi incorporada na Flórida trinta dias depois. Foi ele quem assinou como incorporador da Master Holdings USA em setembro de 2023, criou sozinho a Master RIA em dezembro e esteve presente na fundação da CredCesta USA no mesmo dia, ao lado de Nara. Deixou o banco antes do colapso público e foi removido do quadro societário das empresas na Flórida em 17 de abril de 2024. Seu perfil no LinkedIn hoje lista cargos em TPG e Grupo Leste. Centola não responde no Brasil a nenhuma investigação formal tornada pública até o momento, mas seu nome aparece nos documentos internos como o executivo que desenhou, do zero, as quatro entidades da operação em Miami.
Em 7 de agosto de 2026, o juiz Scott Grossman, do Tribunal de Falências do Distrito Sul da Flórida — o mesmo que reconheceu a liquidação brasileira como foreign main proceeding em janeiro —, autorizou o liquidante do Banco Master a aprofundar a busca por ativos ligados ao conglomerado e a mais de vinte pessoas e entidades. A ordem obriga três escritórios de advocacia (Greenberg Traurig, Rennert Vogel Mandler & Rodriguez e VMM Law) a apresentar documentos que identifiquem qualquer interesse legal, equitativo ou beneficiário dos investigados em empresas ligadas a imóveis, “mesmo que detidos indiretamente por meio de indicados ou entidades de fachada”.
Os alvos específicos são apartamentos de luxo no Paramount Miami Worldcenter, na Avenida Brickell e uma cobertura no complexo de Aqualina, em Sunny Isles Beach — mantidos por entidades como Flora Paramount Properties LLC, Ocean Fantasy of Florida LLC e Bullspin Ventures LLC. O liquidante quer rastrear a origem exata do dinheiro usado nessas compras, os códigos Swift e instruções de transferência internacional, e mensagens trocadas por e-mail, WhatsApp, Telegram e Signal desde 2018 — com prazo até 3 de setembro para que os escritórios entreguem o material.
O que a ONG fez depois e o que o Estado não fiscalizou
O convênio assinado naquela noite não ficou no papel. Entre maio de 2024 e novembro de 2025, o governo estadual repassou R$ 140,1 milhões à Asseba — Associação dos Servidores da Saúde do Estado, entidade controlada pelo Instituto Terra Firme. Mais de 90% da receita declarada pela Asseba no período veio desse fluxo: R$ 65 milhões diretos da Secretaria da Fazenda e R$ 74,1 milhões de fundos de pensão de servidores.
O Coaf identificou o destino final desses recursos: R$ 101,3 milhões foram parar no próprio Banco Master; R$ 21,7 milhões, em empresas de Augusto Lima (Vida Serviços Administrativos e ACB Processamento de Dados); e R$ 626,7 mil, no escritório de André Kruschewsky. A PF identificou ainda que a Asseba utilizava o mesmo e-mail e os mesmos telefones da Terra Firme da Bahia Ltda, empresa de Lima, como contatos institucionais — evidenciando que a separação formal entre ONG, associação e empresas privadas era, na prática, apenas de papel.
Enquanto esse fluxo corria, o Tribunal de Contas do Estado da Bahia auditava exatamente o programa ao qual o Terra Firme se vinculara. Um relatório de seis auditores do TCE, divulgado em junho de 2025, expôs falhas graves no Bahia Sem Fome: 90 dos 417 municípios baianos sem qualquer ação do programa em 2024, ausência de plano estadual vigente e equipamentos mal armazenados.
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