Neste domingo, 18 de outubro, exatamente uma semana antes do segundo turno, o presidente Lula publicou um depoimento de Déa Lúcia, mãe do humorista Paulo Gustavo, para pedir votos e atacar Flávio Bolsonaro. “Paulo Gustavo poderia estar aqui. A vacina não chegou a tempo e a COVID-19 levou sua vida”, escreveu. A peça apela ao luto das famílias, mas não demonstra qual decisão de Jair Bolsonaro teria causado a morte do ator nem em que condições uma vacinação antecipada o teria alcançado.
O apelo retoma uma narrativa que já atravessou duas eleições: transformar estimativas de mortes evitáveis em responsabilidade pessoal do ex-presidente. Nesta semana, A Investigação mostrou como o humorista Gregório Duvivier, em vídeo divulgado pelo YouTuber Felipe Neto, apresentou uma comparação entre países como prova de que Bolsonaro “matou” 400 mil brasileiros. O humorista também citou Paulo Gustavo e atribuiu à negociação com a Pfizer números calculados para cenários diferentes.
A expressão #ElesPoderiamEstarVivos, que voltou a circular entre apoiadores de Lula, também foi o título de um documentário lançado em setembro de 2022. Um dos diretores era Lucas Mesquita, identificado por A Investigação como o infiltrado no grupo de WhatsApp dos empresários atingidos por uma operação de Alexandre de Moraes naquele ano. O percurso das mensagens até o gabinete do TSE, com intermediação de Letícia Sallorenzo, a “Bruxa”, foi revelado na série Vaza Toga.
No depoimento completo, de cerca de cinco minutos e meio, Déa reconhece a incerteza sobre o que teria acontecido com o filho: “a gente não sabe”. Ao mesmo tempo, atribui negligência ao governo e pede que nenhum representante de Bolsonaro volte ao poder. O pedido eleitoral é explícito: “Flávio é retrocesso” e “vamos com Lula”.
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A morte de Paulo Gustavo e a fila da vacinação
Estudos afirmam que a vacinação poderia reduzir o risco de uma morte por Covid, especialmente no caso de pessoas com comorbidades. Isso não permite afirmar que uma compra antecipada teria salvado especificamente Paulo Gustavo. Para sustentar essa acusação, seria necessário demonstrar que as doses adicionais chegariam a tempo, alcançariam sua faixa etária e produziriam proteção antes da infecção. A data relevante não é apenas a de sua morte, mas a de quando ele adoeceu.
Paulo Gustavo tinha 42 anos, foi internado em 13 de março de 2021 e morreu em 4 de maio. O Brasil já havia começado a vacinar em 17 de janeiro, mas a campanha ainda atendia grupos prioritários. O calendário do Rio só alcançou a população geral de 42 anos em julho. Portanto, ele morreu depois do início da vacinação no país, mas antes de sua faixa etária ser contemplada. Esse calendário, sozinho, não resolve a discussão sobre os efeitos de uma compra anterior.
Países que começaram antes também mantinham filas por idade. Na Inglaterra, o agendamento para pessoas de 42 anos só abriu no fim de abril; no Chile, a primeira dose para essa idade estava marcada para 5 de maio, um dia depois da morte do humorista. Pelo critério etário geral, nenhum desses calendários o contemplaria antes da internação. Isso contraria a fala de Duvivier de que Paulo Gustavo morreu quando “o mundo inteiro já tinha vacina, e a gente não quis”: ter iniciado a campanha não significava ter vacinas disponíveis para todas as faixas etárias.
Havia campanhas que alcançaram sua idade mais cedo. Israel incluiu pessoas com 40 anos ou mais em 19 de janeiro de 2021; Bahrein e Emirados Árabes Unidos já anunciavam vacinação para adultos a partir dos 18 anos em dezembro de 2020. Esses exemplos mostram que uma vacinação anterior foi possível, embora em países pequenos. Não demonstram que o Brasil conseguiria reproduzir os mesmos prazos, nem que o ator teria recebido as doses e desenvolvido proteção antes de se infectar.
O acesso às primeiras doses também dependia de quem tinha prioridade. Em março de 2021, este repórter questionou a decisão de vacinar indígenas adultos antes de idosos muito mais velhos que viviam fora de instituições. Na cidade de São Paulo, a vacinação de indígenas aldeados começou em 20 de janeiro; a de pessoas com 90 anos ou mais, em 5 de fevereiro. Em Santa Catarina, uma liderança indígena de 41 anos, aparentemente saudável, recebeu a dose em 18 de janeiro. Já uma moradora de 110 anos de Guarujá, no litoral paulista, foi vacinada em 12 de fevereiro.
As propostas da Pfizer de agosto de 2020 ficaram sem aceite no prazo, segundo o representante da empresa na CPI. Havia, porém, obstáculos que o vídeo de Duvivier ignora: a vacina ainda não tinha autorização da Anvisa, concedida em fevereiro de 2021, e o governo contestava cláusulas contratuais sobre garantias e responsabilidade por efeitos adversos. O impasse foi debatido no Congresso e levou à aprovação de uma lei em março. Pela oferta de 26 de agosto, a opção de 70 milhões de doses previa 1,5 milhão ainda em 2020 e mais 3 milhões no primeiro trimestre de 2021; o restante seria entregue ao longo do ano. Uma oferta não equivale a 70 milhões de doses prontas para aplicação antes de março.
A regra de três e a conta trocada da Pfizer
A cifra das 400 mil mortes tem outra origem. Em 24 de junho de 2021, Pedro Hallal, ex-reitor da Universidade Federal de Pelotas, formado em Educação Física e com mestrado e doutorado em Epidemiologia, afirmou à CPI que o Brasil reunia 2,7% da população mundial e aproximadamente 13% das mortes notificadas por Covid. Se a participação brasileira nos óbitos fosse igual à sua participação na população, as mais de 500 mil mortes registradas até então cairiam para perto de 100 mil. Da subtração vieram os 400 mil.
É uma regra de três grosseira, não uma demonstração de culpa. A média mundial reúne populações com idades, condições de saúde, circulação viral, estrutura hospitalar e capacidade de registrar mortes muito diferentes. Um país que deixou vítimas fora das estatísticas pode parecer melhor do que outro que as contou com mais rigor. A diferença entre os totais não revela, por si só, quanto decorreu de decisões do governo.
Duvivier repetiu essa comparação no vídeo divulgado por Felipe Neto em 14 de outubro e acrescentou que mais de 100 mil pessoas teriam morrido apenas porque Bolsonaro não respondeu aos e-mails da Pfizer. A fala troca o objeto da estimativa: os cerca de 95 mil apresentados por Hallal envolviam Pfizer e CoronaVac. Já os 145 mil citados na mesma audiência correspondiam a um cenário mais amplo de vacinação. Nenhuma dessas contas isolava o efeito dos e-mails de uma única fabricante.
O alcance foi expressivo. Nas capturas examinadas para a reportagem publicada em 16 de outubro, o vídeo original de Duvivier no Instagram já passava de 900 mil curtidas. A publicação de Felipe Neto exibia quase 600 mil visualizações. Duvivier encerra o vídeo com um ataque ao voto no número 22, associando a candidatura de Flávio às mortes que atribui ao pai.
Outros estudos não consertam automaticamente a acusação. Um trabalho de 2023, na Revista Brasileira de Epidemiologia, estimou cerca de 392 mil mortes evitáveis ao combinar vacinação 40 dias antes, esquema completo para 80% da população até maio de 2021 e medidas de prevenção 34% mais eficazes. Os autores não consideraram diretamente a disponibilidade de cada vacina ao longo do tempo. A simulação calcula o benefício de determinadas condições; não demonstra, por si só, que todas eram realizáveis naquele calendário nem atribui individualmente as mortes a Bolsonaro.
Até críticos da gestão Bolsonaro e do chamado tratamento precoce contestaram o salto entre comparação e culpa. Franklin Weise, o Frankito, colunista do Estadão, chamou a conta de “regra de três incorreta”. O médico Glauber apontou que diferenças nas estatísticas não comprovam o resultado que outro governo teria alcançado. São críticas à lógica da acusação, não uma defesa de que a gestão foi irrepreensível.
Há ainda a acusação de que Bolsonaro ria de pessoas que morriam sufocadas, repetida por Duvivier. Nos dois episódios em que imitou falta de ar, os vídeos completos mostram que ele criticava uma orientação atribuída a Luiz Henrique Mandetta de procurar o hospital apenas quando surgisse dificuldade para respirar. A encenação existiu, mas foi apresentada como crítica à orientação de atendimento. Omitir esse contexto muda o sentido da fala.
O recurso eleitoral junta coisas diferentes: críticas à compra de vacinas, estimativas sobre políticas públicas, uma morte individual e a rejeição à candidatura de um filho do ex-presidente. A dor das famílias dá força ao apelo, mas não preenche as lacunas da conta. É justamente essa passagem da crítica à gestão para uma acusação de autoria das mortes que exige demonstração.
O documentário e o infiltrado
O slogan da hashtag atual tem um antecedente eleitoral concreto. O documentário Eles Poderiam Estar Vivos, dirigido e produzido pelos irmãos Gabriel e Lucas Mesquita, foi lançado em 22 de setembro de 2022, dez dias antes do primeiro turno. Com cerca de duas horas de duração e apoio do Grupo Prerrogativas, atribuía à estratégia do governo Bolsonaro e ao chamado negacionismo a responsabilidade por pelo menos metade das cerca de 680 mil mortes registradas até então.
Hallal era um dos entrevistados. A divulgação do filme também recorria à comparação entre a participação brasileira na população e nos óbitos mundiais. O que volta agora, portanto, não é apenas uma expressão de luto: é uma formulação já usada em uma produção de intervenção no debate eleitoral de 2022.
A atuação de Lucas Mesquita não se limitou ao documentário que culpava Bolsonaro pelas mortes. Em 3 de setembro de 2025, A Investigação identificou o documentarista como o infiltrado no grupo “Empresários & Política”, que reunia nomes como Luciano Hang, da Havan, Meyer Nigri, da Tecnisa, e José Koury, do Barra World Shopping. Em janeiro de 2024, ele havia sido nomeado assessor no Ministério do Empreendedorismo, então comandado por Márcio França.
A identificação não foi entregue pronta por Eduardo Tagliaferro. O ex-assessor exibiu documentos e capturas de tela em depoimento ao Senado, em 2 de setembro de 2025. Este repórter confrontou aquele material com o histórico do grupo e reuniu indícios sobre a origem da exportação. O ponto decisivo não era a posição política de Mesquita, mas a coincidência dos registros digitais.
A captura apresentada no Senado mostra uma exportação com a linha “Você entrou usando o link de convite deste grupo”, em 24 de abril de 2022, às 10h07. No histórico usado para comparação, esse é o minuto da entrada de Mesquita. Havia outro ingresso naquele dia, mas cerca de 13 minutos antes. O horário distingue as duas contas.
Esse confronto evitou repetir um erro cometido no próprio campo da direita. Como relatei em setembro, no dia em que identifiquei Mesquita, o youtuber Ricardo Albuquerque Pinto, o Ancapsu, apontou um empresário português do grupo como infiltrado. Verifiquei os registros e o alertei de que o homem não correspondia à conta identificada na exportação. Pinto disse ter se baseado no relato de um integrante da conversa. Depois, afirmou falsamente em vídeo que eu havia encontrado “outro infiltrado”, como se sua primeira acusação tivesse sido confirmada. O empresário português permanece até hoje no grupo.




O material analisado também apontou coincidência entre o encerramento do conjunto de mensagens e a saída de Mesquita, em 20 de agosto. Dentro do grupo, ele se apresentava como empresário de assessoria de comunicação e defendia uma candidatura de centro contra Lula e Bolsonaro. Fora dali, produzia os documentários políticos. A comparação entre as duas pontas do arquivo e seu comportamento sustentou a identificação jornalística.
Essa conclusão é indiciária, não uma perícia no arquivo original do tribunal, ao qual esta apuração não teve acesso. A conferência do original é necessária para uma confirmação pericial. Também permanece sem demonstração se Mesquita entregou o arquivo diretamente a Sallorenzo ou se houve intermediários. A investigação não precisa preencher esse trecho desconhecido com uma certeza inventada.
A “Bruxa”, as buscas e a perseguição aos repórteres
O que está documentado nas conversas que revelamos na Vaza Toga 4 é a entrega de material do grupo por Sallorenzo a Tagliaferro. Na noite de 27 de agosto de 2022, ela enviou capturas, listas e, às 23h55, a exportação das conversas em um arquivo de cerca de 3 MB. Quatro dias antes, a Polícia Federal já havia cumprido buscas contra os empresários.
Segundo Tagliaferro, o gabinete pressionava pela produção de documentos que dessem sustentação posterior à operação. Nas mensagens, ele registra que o ministro precisava do material até a segunda-feira. Sallorenzo pergunta se o celular apreendido de Nigri estava com uma “PF confiável” e sugere recorrer à esposa de Moraes para obter mais prazo. O gabinete do ministro negou irregularidades e sustentou que os procedimentos foram oficiais, regulares e documentados nos autos.
A operação, cumprida em 23 de agosto de 2022, impôs buscas, bloqueios bancários e restrições a redes sociais em plena campanha. Em agosto de 2023, Moraes arquivou a investigação contra seis dos oito empresários por falta de elementos mínimos e ausência de justa causa. Naquela decisão, manteve as apurações contra Hang e Nigri.
Sallorenzo já havia sido identificada por A Investigação em novembro de 2024. A jornalista se apresentava no currículo Lattes como “colaboradora informal” do TSE desde 2022, com carga de 20 horas semanais. Questionado por este repórter pela Lei de Acesso à Informação, o tribunal respondeu que não havia vínculos dessa natureza.
A reação às reportagens chegou ao próprio Supremo. Em outubro de 2025, Sallorenzo pediu que este repórter, Eli Vieira e Tagliaferro fossem investigados nos inquéritos das fake news e das milícias digitais. A representação atribuía ao trio crimes contra a honra, a administração pública, a Justiça e o Estado Democrático de Direito. Revelar a atuação da colaboradora informal virou fundamento para tentar enquadrar os autores da apuração nos mesmos procedimentos que investigavam.
A tentativa fracassou. Em decisão de 26 de janeiro de 2026, Moraes seguiu a manifestação da Procuradoria-Geral da República e arquivou a representação. Registrou a ausência de “indícios mínimos da ocorrência de ilícito criminal”. A decisão também afastou a ligação necessária com os inquéritos indicados por Sallorenzo.
Esse histórico não demonstra que Mesquita participe da atual campanha de Lula, nem que tenha produzido o depoimento de Déa. Demonstra quem estava por trás de um uso anterior do slogan e como a atuação desse diretor ultrapassava a produção audiovisual: ele foi identificado na origem de um arquivo que chegou ao gabinete do TSE por uma via informal.
Em 2022, o documentário combinou relatos de familiares, depoimentos de acadêmicos e uma acusação contra Bolsonaro. Em 2026, Duvivier transformou estimativas em uma contagem de pessoas que o ex-presidente teria matado, e a campanha de Lula recorreu à morte de Paulo Gustavo para pedir votos contra Flávio. Os formatos mudam. A lacuna permanece: nem uma regra de três nem um depoimento comovente demonstram, sozinhos, a responsabilidade individual pelas mortes que a retórica eleitoral atribui a Bolsonaro.
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A desfaçatez desse energúmeno não tem limites.