Exclusivo: conheça a executiva invisível que assumiu 4 empresas do Master em Miami enquanto o banco colapsava no Brasil
Registros oficiais mostram que os diretores originais da estrutura americana do grupo de Vorcaro foram substituídos por uma brasileira radicada em Miami sem histórico público no banco.
Entre abril e agosto de 2024, os quatro executivos que apareciam na cúpula da operação americana do Banco Master em Miami deixaram os registros da Flórida. No lugar deles, consolidou-se um único nome: Nara Peres de Aguiar.
A Investigação analisou dezenas de documentos oficiais depositados na Divisão de Corporações do Estado da Flórida, cobrindo três anos e meio de operação, quatro entidades e pelo menos cinco trocas de nome empresarial. Os documentos revelam uma camada ainda pouco visível e até então não explorada da operação americana do Banco Master.
Enquanto autoridades brasileiras e americanas tentam rastrear bens de Daniel Vorcaro nos Estados Unidos, os registros mostram que a estrutura americana foi sistematicamente esvaziada de qualquer vínculo rastreável com o banco: nomes foram removidos, empresas foram rebatizadas, endereços foram alterados e a responsabilidade formal pelas entidades passou a se concentrar em Nara.
Quando o Banco Master colapsou no Brasil, Nara não constava nos registros oficiais da instituição. Na Flórida, porém, seu nome figura como responsável formal nas quatro entidades ligadas ao Master nos Estados Unidos: Banco Master LLC, Altura Holding Corp., Altura Private Capital LLC e Salarly LLC.
O que se revela é uma estrutura que se adaptou, passo a passo, ao ritmo da crise. Enquanto o banco recebia ultimatos do Banco Central e caminhava para a liquidação, os diretores originais foram removidos dos registros, os nomes das empresas mudaram e os vínculos mais visíveis com o Master foram sendo apagados.
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Nara, no entanto, não aparecia como banqueira, gestora financeira ou executiva conhecida do grupo no Brasil. Seu rastro público na Flórida era o de corretora de imóveis em Miami. Mesmo assim, foi seu nome que permaneceu no centro formal da operação americana.
Esta é a segunda reportagem da série Banco Master em Miami. Na primeira, revelamos que o Master tentou exportar para os EUA o mesmo modelo de crédito consignado predatório que arruinou servidores brasileiros e aposentados do INSS — financiando uma estrutura em Miami que negava formalmente sua propriedade, mas trocava nomes e fachadas para ocultar a ligação com o banco brasileiro.
A Investigação entrou em contato com os citados na reportagem, ou seus representantes legais, mas não obteve respostas até o momento desta publicação. O espaço segue aberto para manifestações.
Quem é Nara
Nara Peres de Aguiar é brasileira, radicada em Miami. Seu nome não aparece em nenhum registro público do Banco Master no Brasil. O rastro que ela deixou é outro: dezenas de documentos corporativos depositados na Flórida, nos quais aparece como a única responsável formal por quatro empresas do grupo ao longo de três anos.
Antes de aparecer nesses registros, Nara já operava no ambiente corporativo de Miami — e o mecanismo que ela usou para chegar lá está nos documentos da Flórida. Em 15 de novembro de 2022, constituiu uma empresa chamada Innotri Acquisition LLC. Dois dias depois, renomeou-a para Innotri Limited LLC. Em 21 de novembro, a nova Innotri absorveu por fusão uma empresa de mesmo nome fundada em 2016 pelo holandês Steffen Brandt — uma distribuidora especializada em travel retail, o comércio de lojas livres de impostos em aeroportos e portos, que detinha a concessão exclusiva do Aeroporto Internacional Hato, em Curaçao. A empresa original foi encerrada. A nova — com o mesmo nome, o mesmo registro federal e o mesmo histórico corporativo — continuou. Um mês depois, o Banco Master LLC foi constituído na Flórida.
Nara assinou os documentos da nova Innotri e aparece como sua gestora no relatório anual de 2023. Em 30 de abril de 2024 — o mesmo dia em que Bull e Centola foram removidos da Banco Master LLC e ela foi nomeada presidente da Altura Holding —, a Innotri migrou seu endereço para o 801 Brickell Avenue, Suite 800, e Herman Ten Have, seu marido, holandês radicado em Miami, assumiu o registro como CEO. Hoje, a Innotri opera na mesma suíte que a Salarly e a Altura Holding — as duas entidades remanescentes do ecossistema americano do Banco Master. São três empresas distintas, no mesmo endereço, operadas por marido e mulher.
Nas redes sociais, Nara descreve a própria família como “multicultural” — com as bandeiras do Brasil, dos Países Baixos e dos Estados Unidos. A filha do casal, Isabella Ten Have, estudante da Gulliver Preparatory School — uma das escolas privadas de maior prestígio de Miami —, estagiou como assistente de marketing na Salarly, a empresa que nasceu como CredCesta USA e hoje é a única entidade ativa da estrutura americana com produto no mercado.
Nara atua há pelo menos 13 anos no mercado imobiliário de luxo da Flórida e mantém registro ativo como realtor. Em 1º de novembro de 2025 — dezesseis dias antes da liquidação do Banco Master e da primeira prisão de Daniel Vorcaro —, aparece como agente do inquilino na locação de uma casa em Miami com aluguel mensal de US$ 20 mil.
Nara não concedeu entrevistas — também não respondeu aos contatos desta reportagem até o momento —, não figura em cobertura jornalística brasileira e não tem presença pública identificável fora das redes sociais pessoais e dos registros corporativos da Flórida. O perfil que emerge é o de alguém invisível nos documentos brasileiros — e onipresente nos americanos.
O irmão de Nara
Há ainda um elemento colateral que torna a trajetória de Nara mais sensível do ponto de vista institucional. Seu irmão, Bruno Peres de Aguiar, é auditor de carreira do Banco Central desde 1998 e chefia a Assessoria para Assuntos Parlamentares e Federativos (Aspar) da autarquia — o canal oficial do BC com o Congresso. Quando o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master, em 18 de novembro de 2025, era essa assessoria, comandada por Bruno, que acompanhava a temperatura política no Legislativo em torno da maior quebra bancária recente.
Bruno foi nomeado para o cargo de confiança em 31 de agosto de 2023 por Diogo Abry Guillen, então presidente substituto do Banco Central. Guillen encerrou seu mandato como diretor de Política Econômica no final de 2025 e foi recentemente confirmado como economista-chefe do Itaú Unibanco a partir de 1º de julho — uma trajetória que, por si só, ilustra o trânsito habitual entre a cúpula do regulador e as instituições que ele supervisionava.
Um mês após a liquidação do Master, em 24 de dezembro de 2025, Bruno abriu em Brasília a Partenon Assessoria, Consultoria Empresarial e Financeira Ltda., empresa privada com CNAE de gestão empresarial e financeira. O Código de Conduta do Banco Central veda expressamente que qualquer servidor preste serviços de consultoria, assessoria ou assistência técnica, de forma remunerada, direta ou indiretamente, a empresas privadas que tenham ou possam ter relações com o BC em razão de seu objeto. O Código acrescenta que a ocorrência de conflito de interesses independe do recebimento de qualquer ganho ou retribuição.
O vínculo de primeiro grau entre o chefe do canal político do BC e a CEO da única empresa americana remanescente do grupo liquidado, somado à abertura de uma consultoria financeira logo após a liquidação, não prova qualquer ato ilícito de Bruno — mas constitui, nos termos do próprio Código, uma situação aparente de conflito de interesses que exigia comunicação formal à Comissão de Ética da autarquia.
A dança das cadeiras
Em 17 de abril de 2024, um relatório anual emendado depositado no Sunbiz removeu Luiz Antonio Bull e Eduardo Centola da Banco Master LLC — a primeira e mais direta entre as entidades americanas do grupo, aquela que trazia o nome do banco na razão social.
No mesmo dia, Nara Peres de Aguiar foi nomeada presidente da Master Holdings USA, cujo nome atual é Altura Holting Corp — a holding que concentrava os ativos e participações da estrutura — substituindo um conselho de quatro diretores que incluía, além de Centola e Bull, Angelo Antonio Ribeiro da Silva e André Kruschewsky Lima.
Na Master RIA, a assessora de investimentos registrada na SEC, Centola também saiu. Em junho de 2025, a empresa mudou de nome duas vezes em cinco dias: primeiro para Altura Advisory Group LLC, em 13 de junho; depois para Altura Private Capital LLC, em 18 de junho. O nome Master saiu da fachada. A frente de investimentos passou a usar a mesma marca Altura que já aparecia na holding.
Na CredCesta USA (o nome atual é Salarly), onde ele e Nara dividiam a gestão desde a fundação, seu nome foi igualmente removido. Quando a Master Holdings USA foi reativada em outubro de 2025, já não havia rastro dos quatro diretores originais. Só Nara.
A substituição foi coordenada e se completou em etapas. Entre abril e agosto de 2024, a estrutura americana do Banco Master passou de quatro executivos para uma única gestora sem histórico público no banco. Os quatro eram executivos conhecidos do grupo.
Luiz Antonio Bull era o diretor de Riscos, Compliance, RH e Tecnologia do Banco Master. Foi preso na primeira fase da Operação Compliance Zero, em novembro de 2025. Em depoimento à Polícia Federal em 27 de janeiro de 2026, disse que assinava documentos sem ler, que não tinha formação em compliance e que não exercia de fato as funções de monitoramento. Entre os documentos que Bull assinou sem ler podem estar os artigos de organização e os relatórios anuais da Banco Master LLC na Flórida — empresa da qual constava como manager desde a fundação, em 22 de dezembro de 2022, com endereço declarado no 5º andar da Avenida Brigadeiro Faria Lima, 3.447, no Pátio Victor Malzoni, onde operava o Banco Master S.A., braço de varejo do grupo.
Eduardo Centola era veterano de Goldman Sachs e ModalMais. Ingressou no Banco Master em novembro de 2022 com a missão explícita de liderar os esforços de internacionalização do banco. A Banco Master LLC foi incorporada trinta dias depois. Ele foi o arquiteto prático da estrutura americana — assinou como incorporador da Master Holdings USA em setembro de 2023, criou sozinho a Master RIA em dezembro de 2023, e estava presente na fundação da CredCesta USA no mesmo dia, ao lado de Nara. Deixou o banco antes do colapso. Seu perfil no LinkedIn hoje lista cargos em TPG e Grupo Leste.
Angelo Antonio Ribeiro da Silva era o responsável pela mesa de operações do banco — a frente que emitia ordens de negociação em nome da instituição. A CVM abriu processo contra ele por manipulação de preços no Fundo de Investimento Imobiliário DEA CARE em 2018, quando o banco ainda se chamava Banco Máxima. O caso foi encerrado via termo de compromisso em 2022, com pagamento de R$ 2,2 milhões pela instituição e R$ 736 mil por Angelo pessoalmente. Também aparece como investigado pela Polícia Federal no inquérito sobre créditos falsos do Banco Master. Foi adicionado ao conselho da Master Holdings USA em 2 de outubro de 2023.
André Kruschewsky Lima era o diretor de Private Banking e Wealth Management — a frente de captação de grandes fortunas. Sua presença no conselho da holding americana era coerente: era ele quem deveria sustentar a operação de gestão de patrimônio em solo americano. Mas o nome Kruschewsky carrega peso próprio na Bahia. André integra o que a Coluna Esplanada chama de "Trio K" — ele, o primo Luiá, suporte jurídico da operação CredCesta, e o primo Eugênio, procurador do estado da Bahia.
O escritório Gabino Kruschewsky Advogados, conduzido por Eugênio, aparece como o quarto maior destinatário de repasses do Banco Master entre bancas de advocacia: R$ 54 milhões recebidos entre 2022 e 2025, segundo levantamento da Folha de S.Paulo. André foi adicionado ao conselho da holding americana em outubro de 2023 — exatamente quando o CredCesta se expandia pela Bahia sob a presidência de Augusto Lima.
Da Bahia a Miami, da Faria Lima a Teerã
Lima criou o CredCesta em 2018, levou a carteira ao Banco Master em 2019 e tornou-se sócio e presidente executivo do banco. Em novembro de 2025, foi preso na Operação Compliance Zero. Em abril de 2026, um relatório do COAF entregue à CPI do Crime Organizado revelou que o governo do estado da Bahia, na gestão de Jerônimo Rodrigues (PT), havia repassado R$ 140,1 milhões entre maio de 2024 e novembro de 2025 à Asseba — Associação dos Servidores da Saúde do Estado —, entidade controlada pelo Instituto Terra Firme, fundado por Augusto Lima.
Mais de 90% da receita declarada pela Asseba no período veio desse repasse: R$ 65 milhões direto da Secretaria da Fazenda estadual e R$ 74,1 milhões de fundos de pensão de servidores. O COAF identificou o que saiu dali: R$ 101,3 milhões foram para o próprio Banco Master; R$ 21,7 milhões foram para empresas de Augusto Lima — Vida Serviços Administrativos e ACB Processamento de Dados; e R$ 626,7 mil foram para o escritório de advocacia de André Kruschewsky, então diretor do banco. A PF identificou ainda que a Asseba utilizava o mesmo e-mail e os mesmos telefones da Terra Firme da Bahia Ltda — empresa de Lima — como contatos institucionais.
Todos os quatro com endereço declarado na Suite 510 do 801 Brickell Avenue. Todos os quatro foram substituídos por Nara nos registros americanos entre abril de 2024 e outubro de 2025. No caso de Bull e Centola, a saída ocorreu no mesmo dia.
O Banco Central já havia iniciado a supervisão intensificada do grupo quando a substituição foi protocolada. O timing não passou despercebido nos documentos: abril de 2024 é o mesmo mês em que o regulador autorizava a compra do LetsBank e intensificava o monitoramento sobre a emissão de CDBs. A saída dos executivos identificáveis coincidiu com o momento em que seus nomes começavam a se tornar um risco — não para a operação americana, mas para eles próprios.
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Há ainda um detalhe que os documentos guardam: quando Nara assumiu o lugar de Bull e Centola na Banco Master LLC, o endereço declarado mudou. Saiu do 5º andar — onde operava o Banco Master S.A. — e foi para o 11º andar, Torre A — onde ficavam o Banco Master de Investimentos e a Trustee DTVM, gestora alvo da Operação Carbono Oculto da Polícia Federal, deflagrada em agosto de 2025, para investigar lavagem de dinheiro ligada ao PCC por meio de fundos de investimento na Faria Lima.
Foi este mesmo andar que o empresário brasileiro Roberto Viana Batista Júnior havia indicado à delegação iraniana em dezembro de 2023 como local para reuniões presenciais sobre petróleo bruto, cooperação militar e um escambo de aeronaves Embraer — negociações que, segundo documentos obtidos pelo WikiIran, envolviam a Sepehr Energy, braço comercial do Ministério da Defesa do Irã, designada pela OFAC como entidade de financiamento do terrorismo.
A estrutura que nasceu no ultimato
A operação americana do grupo foi montada em duas ondas. A primeira, em dezembro de 2022, produziu a Banco Master LLC. O endereço inaugural era o 990 Biscayne Blvd, Suite 402, em Miami. A empresa só migraria para o 801 Brickell Avenue, Suite 510 — que se tornaria a base comum de toda a estrutura — três meses depois, no relatório anual de março de 2023.
A segunda onda ocorreu em dezembro de 2023. Foi justamente quando o Banco Central convocou Vorcaro a Brasília e emitiu o primeiro ultimato formal: recapitalizar o banco com R$ 2 bilhões e cessar a emissão agressiva de CDBs. Vorcaro não cumpriu nenhuma das condições. Na mesma semana, o banco anunciou a compra do Letsbank. Em 18 de dezembro de 2023, foram constituídas simultaneamente duas novas entidades americanas: a CredCesta USA LLC e a Master RIA LLC.
Antes da segunda onda, em 1º de setembro de 2023, o grupo já havia incorporado a Master Holdings USA, Corp. — a holding que concentraria os ativos da estrutura. Em 2 de outubro de 2023, trinta dias após sua criação, uma emenda aos artigos de incorporação aumentou o número de ações autorizadas da holding de 500 mil para 10 milhões, mantendo o valor nominal de US$ 1,00 por ação. A holding foi preparada, já no primeiro mês de existência, para receber aportes de capital de até US$ 10 milhões — valor que se alinha com a primeira metade do plano de investimento de US$ 20 milhões que o grupo declararia, meses depois, aos reguladores da Flórida.
As quatro empresas foram constituídas pelo mesmo escritório de advocacia de Coral Gables: Rasco Klock Perez & Nieto, P.L., especializado em estruturas societárias para grupos estrangeiros na Flórida. O sócio Ramon E. Rasco atuava pessoalmente como registered agent por meio de sua firma, a Miami Corporate Systems, L.L.C. Não era um serviço genérico de abertura de empresas. Era uma assessoria jurídica estruturada, com o sócio do escritório assinando como agente registrado.
Os artigos de organização das entidades também incluíam, desde o primeiro dia, cláusulas de indenização que garantiam o adiantamento de despesas judiciais a qualquer diretor ou manager “na medida máxima permitida por lei” — uma blindagem jurídica contratada antes da crise.
A partir de 2025, as empresas da estrutura americana começaram a trocar o agente registrado nos documentos da Flórida. A Miami Corporate Systems, ligada ao escritório Rasco Klock Perez & Nieto, deixou de aparecer nos registros. Em seu lugar, surgiram prestadoras globais de serviços corporativos — primeiro a Computershare Entity Solutions e depois a Corporate Creations Network Inc., empresas especializadas em receber notificações oficiais, arquivar documentos e manter sociedades em funcionamento.
A Salarly se antecipou a esse movimento. Em março de 2024, quando ainda se chamava CredCesta USA, a empresa trocou seu agente registrado para a Corporate Creations Network Inc. A mudança ocorreu antes das demais entidades e no mesmo período em que os diretores originais começavam a ser substituídos por Nara Peres de Aguiar.
A sequência documenta uma limpeza em camadas. Primeiro saíram os nomes: Master Holdings virou Altura; Master RIA virou Altura Advisory e depois Altura Private Capital; CredCesta virou Salarly. Depois saíram os diretores: Bull, Centola, Angelo e André foram substituídos por Nara. Por fim, saiu o escritório original: a Rasco Klock deu lugar a prestadoras globais e impessoais. O que restou foi uma estrutura tecnicamente administrada, menos visível e juridicamente protegida desde o primeiro dia.
Os advogados de Nova York
A operação mais reveladora da série é a renomeação da CredCesta USA para Salarly, protocolada em 30 de outubro de 2024. O documento de mudança de nome foi preparado pela DLA Piper — com sede em Nova York —, um dos maiores escritórios de advocacia corporativa do mundo. A paralegal responsável foi identificada no documento como Tiffany Cinquemani. O pagamento foi debitado da conta estadual número 120000000195.
A taxa paga ao estado foi de US$ 25 — o mínimo cobrado pela Flórida para arquivar uma mudança de nome. Os honorários da DLA Piper não estão no documento. O que o documento registra é o resultado: "CredCesta" — um nome que remete diretamente ao produto de crédito do banco brasileiro — deixou de existir. No lugar, "Salarly" — um nome que não remete a nada identificável.
Nara assinou o documento pessoalmente, sem procurador, como sole member and sole manager. É a única vez, em todos os registros levantados ao longo de três anos e dezenas de documentos, em que ela assina diretamente um ato de alteração societária. Em todas as outras ocasiões — mudanças de nome, dissoluções, reativações —, funcionárias de prestadoras de serviços corporativos assinaram em seu nome como procuradoras.
O endereço da Salarly e da Altura Holding foi atualizado em 30 de abril de 2026 — menos de dois meses após a terceira fase da Operação Compliance Zero. As duas empresas migraram da Suite 510 para a Suite 800 do mesmo edifício, o 801 Brickell Avenue. A Suite 510, onde A Investigação encontrou a placa “Altura” na porta em março de 2026, já não é o endereço oficial das duas empresas remanescentes. Elas subiram três andares, mas continuam no mesmo prédio.
A estrutura que sobreviveu
Das quatro entidades americanas do grupo, duas foram dissolvidas: a Banco Master LLC, em janeiro de 2025, e a Altura Private Capital, protocolada em 6 de março de 2026 — dois dias após a segunda prisão de Vorcaro — mas com efeito retroativo a 2 de outubro de 2025. Isso significa que, juridicamente, a empresa “cessou” suas atividades cinco meses antes de o documento ser assinado. A data retroativa coincide exatamente com o dia em que a Altura Holding foi reinstalada por Nara após a dissolução administrativa — como se, no mesmo ato, uma entidade fosse reativada e a outra fosse encerrada retroativamente.
Duas permanecem ativas: a Altura Holding Corp e a Salarly LLC, ambas agora na Suite 800 do 801 Brickell Avenue. A Salarly é a única das quatro que nunca trouxe o nome “Master” em nenhuma versão de sua denominação. Foi registrada originalmente como CredCesta USA, renomeada para Salarly antes de qualquer medida judicial nos Estados Unidos, e permanece ativa depois que todas as outras entidades com o nome Master ou Altura Advisory foram encerradas ou rebatizadas.
Há um dado que torna essa distinção operacionalmente relevante. A Salarly LLC não consta entre as quatro entidades nomeadas como debtors no processo de Chapter 15 reconhecido pelo juiz Scott Grossman em 8 de janeiro de 2026 — Banco Master S.A., Banco LetsBank S.A., Banco Master de Investimentos S.A. e Master S/A Corretora de Câmbio. O stay automático do Chapter 15 — a medida que bloqueia ações sobre ativos e proíbe transferências — aplica-se especificamente a esses devedores nomeados.
O processo americano tem alcance mais amplo: o tribunal emitiu 28 intimações entre 29 de janeiro e 19 de fevereiro de 2026 para 16 entidades adicionais classificadas como Asset Freeze Parties — designação usada no processo para pessoas e empresas sobre cujos ativos o Banco Central do Brasil havia determinado bloqueio no âmbito da liquidação. O documento do tribunal não lista nominalmente quais são essas entidades nos trechos públicos disponíveis. Se a Salarly consta ou não nessa lista é uma pergunta que os registros públicos, até o momento, não respondem.
O que os documentos respondem é outra coisa. A Salarly é a única empresa do ecossistema com licenças ativas em três estados, site funcionando e produto disponível no mercado americano. E chegou a esse ponto com nome trocado, diretores trocados, escritório jurídico trocado e endereço trocado — cada movimento protocolado antes do passo seguinte da crise no Brasil.
Isso não é um acidente contábil. É o resultado de decisões jurídicas tomadas ao longo de dois anos — assistidas por um dos maiores escritórios de advocacia do mundo — para manter essa entidade separada, com nome diferente, operada formalmente por uma única pessoa. E essa pessoa, desde 18 de dezembro de 2023 até o relatório anual depositado em 30 de abril de 2026 — já com Vorcaro preso pela segunda vez —, é Nara Peres de Aguiar.
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*Coisa de facção criminosa! Clara ORGANIZAÇA CRIMINOSA designada para LADROAGEM EXOLÍCITA e LAVAGEM DE $$$$ do ILÍCITO! Lógico que Vorcaro foi financiado evapoiado por " governantes"...🤡🤡🙄😶🤢🤮*