Quando Ketlin Feitosa se despediu do Superior Tribunal de Justiça, em 14 de agosto de 2024, as ações da empresa que ela passaria a representar vinham de uma valorização atípica. Entre 28 de junho e 9 de agosto, os papéis da Ambipar saltaram de R$ 13 para R$ 97,35 — alta de aproximadamente 650% em 42 dias. Considerando as 162,5 milhões de ações declaradas pela própria companhia no balanço do segundo trimestre de 2024, o movimento pode ter elevado o valor de mercado estimado da Ambipar de R$ 2,1 bilhões para R$ 15,8 bilhões.
Durante a arrancada, dois fundos vinculados à rede financeira do Banco Master — Texas I e Kyra — ampliaram suas posições na companhia. Com um terceiro veículo, chegaram a reunir 15% do capital da Ambipar, fatia que valia cerca de R$ 2,4 bilhões no pico de R$ 97,35 por ação. As compras reduziram em aproximadamente 70% o volume de papéis disponíveis para negociação, segundo documentos das apurações do Ministério Público Federal e da Comissão de Valores Mobiliários.
Ketlin é filha da advogada Guiomar Feitosa, então mulher do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal. Foi tratada publicamente pelo ministro como filha e conduzida por ele ao altar. É também sobrinha do empresário e ex-senador Francisco “Chiquinho” Feitosa — presidente do Republicanos no Ceará — contratado por uma empresa da rede de Daniel Vorcaro por R$ 500 mil mensais, além de uma parcela inicial de R$ 800 mil.
O cruzamento feito por A Investigação coloca a família Feitosa em três pontos de uma mesma cronologia. Ketlin ocupava a área de Relações Corporativas da Ambipar; Chiquinho recebia da rede Vorcaro e estimulava o banqueiro a se aproximar de Gilmar; e Guiomar foi procurada para uma reunião com o dono do Master.
Essa aproximação incluiu uma audiência no STF cujo roteiro foi enviado por Chiquinho a Vorcaro. A mensagem previa que o banqueiro entraria sozinho no gabinete de Gilmar e, meia hora depois, seria acompanhado por André Kruschewsky Lima, então diretor do Master, e Bruno Bianco, ex-advogado-geral da União. O gabinete confirmou a reunião, mas não divulgou os nomes: informou apenas que recebeu “advogados do Banco Master”.
Ketlin não é a única pessoa ligada à cúpula do poder que atuava nas relações institucionais da Ambipar. Em 2026, Renata Varandas, companheira do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, participou de pelo menos quatro reuniões com autoridades federais representando o grupo. Registros oficiais a identificaram como diretora de Relações Governamentais da companhia em encontros nos ministérios de Portos e Aeroportos e de Minas e Energia, no Ibama e no Banco Central. Uma reportagem do Poder360 revelou que as agendas trataram de normas ambientais, apresentação empresarial e “assuntos institucionais” da Ambipar.
Não há, no material tornado público, mensagem de Ketlin com Vorcaro nem prova de que ela tenha participado das operações financeiras entre a Ambipar e fundos ligados ao Master. Também não há evidência de que Gilmar ou Chiquinho tenham interferido em sua contratação.
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Do STJ à Ambipar
Ketlin passou 29 anos no Judiciário, sendo 16 deles no STJ, onde chefiou a Assessoria de Gestão Sustentável. A publicação de despedida, divulgada em 16 de agosto de 2024, registrou que ela deixara o tribunal na quarta-feira anterior, dia 14, e iniciaria “novos voos” a partir do dia 23.
A publicação não identificava o novo destino profissional. A primeira evidência pública localizada por A Investigação aparece quatro meses depois. Em uma postagem de 21 de dezembro de 2024, Ketlin afirmou ter representado o Grupo Ambipar no ExpoCIST, congresso realizado nos dias 4 e 5 daquele mês no World Trade Center de São Paulo.
Atualmente, seu perfil profissional a apresenta como “Diretora de Relações Corporativas I — Grupo Ambipar”. Em julho de 2025, ela também apareceu em uma série do ConJur como representante da companhia e defendeu que a sustentabilidade deveria ser encarada como um negócio. A função a colocou no circuito jurídico e empresarial em nome de um grupo ligado ao Master por diferentes fundos e operações financeiras.
O material público não esclarece a data formal da contratação, a linha hierárquica de Ketlin nem o alcance de suas atribuições. Também não informa se ela participava do relacionamento com bancos, investidores, fundos ou órgãos reguladores. A Ambipar já possuía outros representantes institucionais: em março de 2024, por exemplo, Vinícius Silveira apareceu como diretor institucional do grupo.
A trajetória familiar de Ketlin é conhecida há mais de uma década. Ela é a filha mais velha de Guiomar Feitosa, com quem Gilmar Mendes se casou em 2007. Em 2012, o ministro a conduziu ao altar numa cerimônia realizada na casa da família, no Lago Sul. Gilmar e Guiomar permaneceram casados até novembro de 2025, quando anunciaram o divórcio.
A Ambipar na teia do Master
Uma reportagem da Folha mostra que os fundos Texas I e Kyra compraram ações da Ambipar e, com um terceiro fundo, chegaram a concentrar cerca de 15% de seu capital. Os veículos faziam parte de uma estrutura posteriormente herdada pelo BRB após o agravamento da crise do Master. O Texas I tinha como dono o Banco Voiter, comprado pelo Master e depois transferido a Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro e investigado pela Polícia Federal. O Kyra, por sua vez, recebia recursos de outro fundo cujo cotista era um executivo do Master.
As operações retiraram aproximadamente 70% das ações da Ambipar que circulavam livremente no mercado. Nesse intervalo, a cotação subiu cerca de 650%. Ao preço máximo de R$ 97,35, a posição conjunta de 15% teria valor de mercado próximo de R$ 2,4 bilhões. O cálculo dimensiona a participação naquele dia, mas não corresponde necessariamente ao valor desembolsado pelos fundos, que compraram os papéis em momentos e preços diferentes.
O balanço do segundo trimestre de 2024 dá outra medida dessa escala. Em junho, a Ambipar informava patrimônio líquido de aproximadamente R$ 2,5 bilhões, caixa e aplicações de R$ 3,9 bilhões e dívida líquida de R$ 4,9 bilhões. A companhia registrara receita líquida de R$ 1,4 bilhão e EBITDA de R$ 440 milhões no trimestre. No pico da cotação, portanto, a fatia reunida pelos três fundos valia quase o patrimônio líquido inteiro da empresa e correspondia a aproximadamente metade de sua dívida líquida.
O Ministério Público Federal passou a suspeitar que o Texas I fora utilizado pelo Master para inflar artificialmente o preço dos papéis. A CVM também abriu apuração sobre as negociações. As investigações não haviam produzido, até o fechamento desta reportagem, conclusão definitiva sobre a responsabilidade de cada investidor pela alta.
Em setembro de 2025, 93% da carteira do Texas I estava concentrada em ações da Ambipar, num total próximo de R$ 590 milhões. O fundo também havia recebido dinheiro de regimes próprios de previdência de servidores públicos. Uma segunda reportagem da Folha mostrou que aplicações realizadas por institutos estaduais e municipais perderam mais da metade do valor com a queda das ações.
A conexão não ficou restrita ao mercado acionário. Em setembro de 2024, no mesmo período em que Chiquinho negociava sua remuneração com Vorcaro, um fundo do conglomerado Master concedeu cerca de R$ 710 milhões à Everest Participações, empresa posteriormente incluída na recuperação judicial do grupo Ambipar. Na operação, foram vinculadas cotas de fundos do próprio grupo avaliadas em valor semelhante.
O fluxo também ocorreu na direção contrária. A Ambipar comprou aproximadamente R$ 500 milhões em ativos do Banco Master para um fundo de direitos creditórios do qual, segundo documentos e reportagens sobre a recuperação judicial, era a única cotista. Isso significa que a companhia não apenas recebeu recursos de veículos ligados ao banco, mas também colocou dinheiro em papéis originados por ele.
No balanço de 2025, a Ambipar declarava aproximadamente R$ 2,5 bilhões em caixa e aplicações financeiras. Desse total, apenas cerca de R$ 300 milhões estavam depositados em bancos considerados de primeira linha. Havia ainda aproximadamente R$ 1,2 bilhão num fundo lastreado em crédito contra a União anterior à expedição de precatório e cerca de R$ 250 milhões numa instituição financeira posteriormente liquidada — não identificada publicamente pela companhia.
A Ambipar entrou em crise no segundo semestre de 2025. Em setembro, obteve uma proteção judicial depois de alegar que a antecipação de suas dívidas poderia abrir um rombo superior a R$ 10 bilhões. O grupo pediu recuperação judicial no mês seguinte. Em novembro, o Banco Central liquidou o Master.
O tio que abriu a porta
A aproximação de Vorcaro com Gilmar Mendes começou antes de Ketlin deixar o STJ. Em 11 de abril de 2024, Chiquinho enviou ao banqueiro o contato de Carla Maria Moreira Sampaio Zottmann, salvo como “Carla Gilmar”. Servidora do STJ cedida ao gabinete do ministro, ela havia conseguido encaixar uma audiência de aproximadamente 15 minutos naquela tarde.
Apesar do encaixe curto informado por Carla, Chiquinho encaminhou uma sugestão de roteiro que reservava uma hora para o encontro. Vorcaro entraria sozinho no gabinete das 18h às 18h30. Às 18h30, duas pessoas se juntariam à reunião: André Kruschewsky Lima, identificado na mensagem como “diretor jurídico do Banco Master”, e Bruno Bianco, descrito como assessor jurídico do WTL. No texto original, o sobrenome de André foi digitado como “Krutchevsky”. Os registros corporativos e as reportagens anteriores mostram que se tratava de Kruschewsky.
O encontro foi confirmado pelo gabinete de Gilmar depois que a Folha revelou a audiência. Segundo a nota, a reunião ocorreu às 18h, no gabinete do ministro, e contou com “advogados do Banco Master”. O STF não publicou a lista nominal dos participantes.
O processo discutido foi o ARE 1.327.995, relacionado à Destilaria Alcídia e sob relatoria de Edson Fachin. O Master havia comprado créditos de usinas contra a União e poderia perder dinheiro caso o STF exigisse a comprovação individual dos prejuízos. A Advocacia-Geral da União estimava impacto de até R$ 145 bilhões.
Uma reportagem do Estadão confirmou que o encontro de Bruno Bianco com Gilmar ocorreu e informou que Vorcaro apresentou o advogado a Chiquinho. Bianco, ex-advogado-geral da União, havia sido contratado para defender fundos que compraram precatórios de usinas. Ele afirmou que não integrava o quadro do Master e que atuava de forma independente, por seu próprio escritório.
As mensagens posteriores reforçam que a conversa aconteceu. Chiquinho escreveu a Vorcaro que “a conversa do Bianco ficou perfeita c o Gilmar”. Mesmo assim, afirmou ao Estadão que não sabia que Bianco trabalhava para interesses ligados ao banqueiro. Também disse não conhecer André Kruschewsky.
A presença de André na estrutura americana do Master já havia sido revelada com exclusividade por A Investigação. Em maio, o site mostrou como o grupo montou quatro empresas em Miami e, em outra reportagem, identificou Kruschewsky entre os quatro executivos que integraram a cúpula original da operação e depois foram substituídos nos registros da Flórida. Em agosto, A Investigação detalhou sua atuação no Banco Master, as relações do núcleo Kruschewsky na Bahia e os pagamentos milionários feitos pelo banco ao escritório de um primo. A mensagem de 11 de abril agora coloca esse mesmo executivo no roteiro encaminhado para a audiência no STF.
Chiquinho Feitosa ajudou na aproximação. Em 19 de abril, oito dias depois da reunião, o número atribuído a ele enviou a Vorcaro uma recomendação direta:
“Você tem que começar uma relação direta com ele! É importante para o futuro!”
As conversas extraídas do telefone do banqueiro se estenderam pelo menos até junho de 2025. Chiquinho chamava Vorcaro de “irmão”, mencionava encontros com autoridades e dizia tratar de assuntos “de nosso interesse”. Em maio de 2024, afirmou que jantava com Gilmar e Cristiano Zanin, versão que posteriormente negou.
Em setembro, Chiquinho e Vorcaro negociaram um contrato de R$ 500 mil líquidos por mês. O acordo também previa R$ 800 mil adicionais no primeiro pagamento. Uma planilha localizada pela investigação registrava “500K — F&A Super valor mensal (Chiquinho)”. O primeiro repasse ocorreu em 15 de setembro de 2024.
A contratante era a Super Empreendimentos e Participações, empresa administrada pelo cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel. A Polícia Federal passou a investigar a Super como possível canal de pagamentos do grupo a agentes públicos e integrantes de uma estrutura privada de segurança.
Onze dias antes do primeiro repasse, Chiquinho também marcou uma conversa de Vorcaro com Guiomar Feitosa. Segundo mensagens reveladas por O Globo, o encontro foi agendado para 4 de setembro de 2024. Guiomar é sócia do escritório Sérgio Bermudes e já atuou em processos envolvendo precatórios. Ela afirmou que Vorcaro ficou de apresentar números de processos, o que não ocorreu.
É nesse intervalo que Ketlin surge publicamente na Ambipar. Ela deixara o STJ em agosto, começou os anunciados “novos voos” no dia 23 e, em dezembro, já representava o grupo. O tio negociava sua remuneração com Vorcaro, o banqueiro procurava sua mãe e fundos ligados ao Master mantinham posições relevantes na empresa em que ela passou a trabalhar.
Medicina, precatórios e votos contrários
As conversas de Chiquinho com Vorcaro não se limitavam aos precatórios das usinas. A Folha mostrou referências a interesses do banqueiro na abertura de cursos de Medicina, incluindo a ULBRA, instituição financiada por um fundo administrado pela corretora do Master.
Em agosto de 2024, o número atribuído a Chiquinho encaminhou a Vorcaro um documento do Ministério da Educação intitulado “padrão decisório cursos de medicina”. No mês seguinte, ao comentar as tratativas, escreveu: “MEC: Andando na velocidade esperada”. Chiquinho afirmou que o documento era público e que apenas ouviu um representante da ULBRA indicado pelo banqueiro.
Naquele período, Gilmar era relator da ADC 81, ação que discutia a abertura de novas faculdades de Medicina. Seu voto restringiu a criação geral de cursos sem chamamento público, mas preservou uma exceção para processos considerados avançados. Uma unidade da ULBRA em Manaus acabou beneficiada por esse caminho e recebeu autorização para abrir 60 vagas em abril de 2026.
A existência da rede de contatos não significa que os votos de Gilmar tenham favorecido Vorcaro. No processo das usinas, o ministro votou contra a pretensão de interesse do Master. Gilmar e André Mendonça ficaram vencidos, enquanto Edson Fachin, Dias Toffoli e Nunes Marques formaram a maioria favorável à empresa.
O voto de Gilmar no caso das faculdades também não acolheu integralmente a posição de instituições privadas. Preservou, porém, uma rota excepcional posteriormente utilizada pela ULBRA. A cadeia financeira entre o Master e a universidade, por meio de fundos, foi noticiada com base nos arquivos policiais, mas não aparece integralmente nos dados públicos dos fundos.
O que dizem os envolvidos
Gilmar afirmou que desconhecia qualquer tratativa entre Vorcaro e Chiquinho. Disse que a audiência ocorreu no STF, em ambiente institucional, com advogados do Master, e destacou que votou contra o interesse do banco no processo das usinas. O ministro também negou ter tratado de cursos de Medicina com o banqueiro ou com o então cunhado. Sua nota não identificou nominalmente os participantes da reunião.
Chiquinho confirmou que manteve contrato com a Super Empreendimentos por um “curto período”, quando a companhia ainda não era investigada. Negou ter sido contratado para aproximar Vorcaro de Gilmar e afirmou que seu trabalho não envolveu demandas do banqueiro no MEC. Disse ainda não conhecer André Kruschewsky nem saber que Bruno Bianco atuava em assunto de interesse de Vorcaro.
Bianco declarou que não integrou o quadro do Banco Master. Segundo ele, sua advocacia sempre foi exercida de forma independente e, no caso dos precatórios, representava clientes de seu escritório numa discussão jurídica que também interessava a outras partes. A tese não prevaleceu no STF.
Guiomar afirmou que não prestou serviços a Vorcaro e que a conversa não teve continuidade. O gabinete de Gilmar declarou que o ministro “não responde por relações privadas ou profissionais de ex-parente”.
Ketlin não foi citada nas reportagens baseadas no telefone de Vorcaro. Até o fechamento deste levantamento, não havia manifestação pública localizada sobre sua data de entrada na Ambipar, suas atribuições no grupo ou eventual conhecimento das operações da companhia com fundos ligados ao Master.
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