O ator Leonardo DiCaprio foi recebido nesta quarta-feira, 2 de setembro, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pela primeira-dama Janja no Palácio do Planalto. A reunião durou aproximadamente 40 minutos e teve como pauta oficial a preservação da Amazônia, as mudanças climáticas e as políticas ambientais do governo. DiCaprio estava acompanhado de representantes da Re:wild, organização internacional da qual é um dos fundadores.
DiCaprio encerrava uma viagem por projetos de conservação no Brasil. Antes de chegar a Brasília, visitou comunidades indígenas no Mato Grosso, encontrou-se com o cacique Raoni e passou pelo Pantanal. A Re:wild mantém projetos de proteção de florestas e territórios indígenas em cooperação com o governo federal.
Realizado durante a campanha presidencial de 2026, o encontro recoloca sob atenção a participação do ator norte-americano na mobilização de jovens eleitores durante as eleições de 2022. Na época, publiquei na Gazeta do Povo a reportagem Hulk, Luke Skywalker, DiCaprio: quem está por trás da campanha para jovens tirarem título de eleitor.
A nossa apuração mostrou que manifestações aparentemente espontâneas de artistas de Hollywood — incluindo as de Mark Ruffalo e Mark Hamill — faziam parte de uma mobilização estruturada, com empresas de comunicação, organizações ambientalistas, entidades financiadas por fundações estrangeiras e pessoas ligadas a movimentos de esquerda.
A ideia era aumentar o número de eleitores jovens já que era justamente esse público que sera visto com mais tendência a votar em partidos de esquerda e mais “facilmente manipuláveis”. Os jovens da época não haviam experimentado os governos Lula e Dilma.
Uma semana depois da publicação da nossa reportagem, o Metrópoles revelou que o PT havia destinado aproximadamente R$ 100 mil a sua própria campanha para convencer adolescentes a obter o título eleitoral. Segundo o veículo, o partido investiu na estratégia por considerar que os novos eleitores tinham maior probabilidade de votar em Lula contra Bolsonaro. O portal afirmou que o partido demorou a perceber a importância desse público e ficou a reboque da mobilização conduzida pelos artistas nas redes sociais.
Olha o Barulhinho
Em 2022, DiCaprio divulgou as campanhas “Olha o Barulhinho”, “Cada Voto Conta” e “Seu Voto Importa”, agradecendo aos organizadores por atuarem como “heróis da democracia”. As publicações incentivavam adolescentes de 16 e 17 anos, para os quais o voto é facultativo, a obter o título e participar das eleições daquele ano.
A “Olha o Barulhinho” era executada e financiada pela empresa de comunicação Quid, embora o site da mobilização não identificasse seus responsáveis ou os valores empregados. Entre os fundadores da empresa estava Pedro Telles, também cofundador da Bancada Ativista, movimento ligado ao PSOL e criado para eleger ativistas de esquerda em São Paulo. Profissionais que haviam trabalhado nas campanhas de Fernando Haddad e da própria Bancada Ativista também integravam a estrutura da Quid.
A assessoria de imprensa da mobilização ficou a cargo de Clarissa Beretz, então vinculada ao Instituto Internacional de Educação do Brasil, organização ambientalista envolvida na gestão de recursos do Fundo Amazônia. A Quid afirmou que Beretz havia sido contratada individualmente como profissional autônoma, negou a participação financeira ou organizacional do instituto e da Bancada Ativista e disse que Telles havia deixado a equipe antes do início da campanha. Ele, contudo, ainda aparecia como sócio-administrador da empresa nos registros consultados na época.
Outra iniciativa divulgada por DiCaprio, a “Cada Voto Conta”, era promovida pela NOSSAS, organização financiada por entidades como Open Society Foundations, Oak Foundation, Skoll Foundation e Tinker Foundation. A campanha oferecia iPhones, aparelhos Kindle e outros prêmios às pessoas que convencessem o maior número de jovens a obter o título. A “Seu Voto Importa” tinha o apoio da Quid e o patrocínio da Girl Up, iniciativa criada pela United Nations Foundation.
As campanhas não pediam expressamente votos para Lula. O direcionamento político era apontado pelo perfil das organizações envolvidas, pelas manifestações contrárias a Bolsonaro e pelo público escolhido. Pesquisas daquele período mostravam Lula com quase o dobro das intenções de voto de Bolsonaro entre os eleitores de 16 a 24 anos. Depois do segundo turno, DiCaprio celebrou a vitória do petista como uma oportunidade de mudar o curso da história e da Amazônia.
A padronização das publicações de celebridades, a organização profissional da mobilização e a ausência de informações sobre seus custos também levantaram a dúvida sobre a espontaneidade das manifestações. A reportagem relembrou o “Mensalinho do Twitter”, revelado nas eleições de 2018, no qual influenciadores foram pagos para publicar mensagens favoráveis a uma candidatura. Não foram encontradas, entretanto, provas de que DiCaprio ou os demais artistas tenham recebido pagamento.
Questões jurídicas
A reportagem também levantou dúvidas jurídicas sobre os métodos utilizados. O artigo 290 do Código Eleitoral criminaliza o ato de induzir alguém a se inscrever como eleitor com violação das regras eleitorais. O dispositivo exige, porém, alguma irregularidade ou fraude no alistamento. Incentivar alguém a obter legalmente o título não constitui crime por si só.
A oferta de aparelhos celulares, leitores digitais e outras vantagens acrescentava outro problema. As recompensas não eram condicionadas ao voto em determinado candidato, mas ao número de adolescentes convencidos a obter o título. Por isso, não permitiam concluir automaticamente pela existência de corrupção eleitoral ou captação ilícita de sufrágio.
Para configurar esses ilícitos, seria necessário demonstrar que a vantagem foi oferecida com a finalidade específica de obter voto, além da participação ou anuência do candidato beneficiado. O próprio TSE exige provas robustas desses elementos.
O uso de dinheiro de empresas, organizações não governamentais ou financiadores estrangeiros poderia ser investigado como abuso do poder econômico ou financiamento eleitoral irregular caso fosse comprovado que os recursos serviram para beneficiar uma candidatura. A origem estrangeira do financiamento de uma ONG, isoladamente, não caracteriza doação eleitoral proibida. Seria necessário demonstrar o destino do dinheiro, a finalidade eleitoral, a gravidade da conduta e o vínculo com o candidato favorecido.
A apuração revelou as conexões políticas, a oferta de vantagens e a falta de transparência sobre parte do financiamento, mas não concluiu que esses requisitos jurídicos estivessem comprovados.
Da pressão sobre Bolsonaro à parceria com Lula
A aproximação da Re:wild com o governo Lula começou poucos dias depois da posse. Em fevereiro de 2023, a organização de DiCaprio e o Bezos Earth Fund, do bilionário Jeff Bezos, fecharam com a ministra Marina Silva um acordo para captar recursos destinados à recuperação de áreas da Amazônia degradadas pelo garimpo e à descontaminação das regiões atingidas por mercúrio.
Segundo o UOL, os valores ainda não haviam sido definidos. DiCaprio e Bezos liderariam a mobilização de onze organizações filantrópicas estrangeiras, com a promessa de colocar a operação emergencial em funcionamento no prazo de 40 dias. O dinheiro também poderia financiar projetos de conexão à internet em áreas da Amazônia.
A relação de DiCaprio com os governos brasileiros mudou conforme o ocupante do Palácio do Planalto. Em 2020, o ator apoiou a campanha internacional “Defund Bolsonaro”, que pressionava consumidores, empresas e governos estrangeiros a relacionar produtos brasileiros à destruição da Amazônia. A mobilização questionava publicamente de que lado as pessoas estavam: “Amazônia ou Bolsonaro”.
Nos primeiros meses do governo Lula, o Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, apontou 321,97 quilômetros quadrados sob alerta de desmatamento em fevereiro de 2023. Foi o pior resultado para aquele mês desde o início da série histórica, em 2016, e representou uma alta de 62% em relação a fevereiro de 2022.
Em Recorde no desmatamento na Amazônia: cadê DiCaprio e Greta?, A Investigação registrou que DiCaprio não havia reagido publicamente ao resultado com a mesma pressão dirigida a Bolsonaro. Na mesma semana da divulgação dos dados, o ator participou do Green Carpet Fashion Awards, em Hollywood, onde entregou um prêmio à ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara. A reportagem também destacou as críticas ao uso frequente de aviões particulares pelo ator e registrou que ele havia percorrido quase 20 mil quilômetros em viagens aéreas nas semanas anteriores ao evento.
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Recorde no desmatamento na Amazônia: Cadê DiCaprio e Greta?
O número de alertas de desmatamento na Amazônia bateu recorde histórico em fevereiro, chegando a mais de 320 km2 desmatados. Para se ter uma ideia, os alertas de desmatamento cresceram 62% na comparação com o mesmo mês do ano passado, segundo dados do Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter). Em comparação com 2021 o número subiu 162%, …




