A caixa-preta do ICL: entre a hipocrisia fiscal e as conexões com o PT
Crise no ICL expôs distribuição de R$ 43,7 milhões aos sócios para escapar de imposto que defende para os outros e ligações diretas com a máquina de comunicação do PT
Nas últimas semanas, o Instituto Conhecimento Liberta (ICL) entrou na sua maior crise desde a fundação. Em 10 de julho de 2026, o jornalista Leandro Demori anunciou que foi tirado do ar e de todas as funções que exercia — inclusive da Direção de Jornalismo — por uma decisão que classificou como “unilateral da empresa”. Segundo ele, antes de ser afastado, recebera a ordem de cortar 30% do orçamento da redação e elaborar uma lista de demissões.
O ICL vende ao público a imagem de um veículo independente, financiado por alunos e assinantes e protegido dos conflitos de interesse da imprensa tradicional. Criado em 2020 pelo banqueiro Eduardo Moreira e pelo especialista em marketing digital Rafael Donatiello, reúne uma plataforma de cursos, um canal diário e um portal de notícias. A própria empresa se proclamou “o maior jornal independente do país”.
Por trás da marca, funciona uma empresa cuja sociedade e diretoria estão ligadas à máquina de comunicação do PT. O jornalismo é só a face pública do negócio. Por seu profundo alinhamento editorial com o governo Lula, o ICL ficou conhecido nas redes pelo apelido pejorativo “Instituto Chupa Lula”. Curiosamente, a própria linha editorial do ICL afirma que interesses econômicos, políticos e ideológicos “deformam o jornalismo”.
O cadastro empresarial registra como sócio-administrador do ICL o marqueteiro Otávio Antunes, escolhido pelo PT para a campanha de Fernando Haddad ao governo de São Paulo. Em junho, Giácomo Degani, então diretor de Marketing e Comunicação do ICL, foi recrutado para comandar as redes da campanha de reeleição de Lula. Leandro Demori, por sua vez, manteve entre 2023 e 2025 um contrato de R$ 440 mil com a EBC (TV Brasil), emissora pública do governo, para apresentar o programa “Dando a Real com Demori”. Felipe Neto foi anunciado pelo ICL como “novo sócio” em 2024 e integrou, em 2023, o Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável da Presidência da República (o “Conselhão” de Lula), embora não figure no quadro societário atual da empresa.
A crise também expôs a hipocrisia. Quando tentou justificar as demissões, Moreira alegou dificuldades financeiras. Uma ata societária, no entanto, mostra que o ICL aprovou a distribuição de R$ 43,6 milhões em lucros acumulados no fim de 2025. Moreira recebeu R$ 25,1 milhões. Donatiello recebeu R$ 16,7 milhões. A operação foi antecipada para escapar da tributação de dividendos que começaria em 2026. Meses depois de distribuir o caixa aos sócios, a empresa cortou pessoal sob a alegação de dificuldades financeiras.
Em seu manifesto por justiça fiscal, o grupo defendeu a “taxação de dividendos milionários” e o “combate às estratégias que driblam impostos”. Quando a nova cobrança ameaçou alcançar seus controladores, a empresa usou exatamente uma dessas estratégias. Para o público, tributar dividendos era justiça fiscal. Para os donos do ICL, pagar o imposto era “indevido”.
Durante a crise, o Conselho Editorial do ICL negou interferência política. Afirmou que não houve censura, que a linha editorial seria mantida e que o veículo continuava independente, “sem bets, sem bancos e sem apoio governamental”.
As demissões que abriram a caixa-preta
Demori relatou ao Conselho Editorial que a direção lhe entregou a tarefa de reduzir em 30% o orçamento do jornalismo. O corte exigiria demissões justamente quando a redação se preparava para a cobertura eleitoral de 2026. Segundo a carta, ele não participara das decisões empresariais que produziram a crise.
O diretor propôs uma reunião ampliada com os demais dirigentes, sócios e conselheiros antes de elaborar a lista. A consulta não ocorreu. A direção informou que a Diretoria de Jornalismo seria extinta e que Demori não participaria de nenhuma outra iniciativa da empresa. Depois do envio da carta, ele foi retirado dos grupos internos de WhatsApp.
Moreira apresentou outra versão. Disse que havia conversas sobre uma “mudança na gestão do jornalismo” e que não esperava que o assunto se tornasse público antes da conclusão da transição. A apuração do Diário do Centro do Mundo, porém, concluiu que não houve negociação: Demori foi informado de que estava fora. Mas Demori não era apenas um funcionário. O quadro societário ainda o mantém como sócio-administrador, condição assumida em março de 2024. Segundo o DCM, ele cogita uma auditoria independente.
Os números da demissão variam conforme o recorte. Moreira falou em 15 desligamentos no grupo. O DCM contabilizou 16 saídas até 14 de julho. O Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo confirmou 11 demissões apenas no ICL Notícias e classificou o movimento como demissão coletiva.
Adriana Ferreira, Nina Lemos, Eduardo Souza, Thiago Barcellos, Juliana Zaroni, Pedro Barciela e Alice Maciel estavam entre os desligados. O comentarista César Calejon anunciou a saída depois dos cortes. Thiago Guedes, principal executivo do grupo, também deixou a empresa. A reestruturação não atingiu cargos aleatórios na periferia da operação. Retirou peças do primeiro escalão editorial e administrativo.
O sindicato apontou ainda um número “expressivo” de jornalistas contratados como pessoa jurídica para exercer a atividade-fim da empresa. Para a entidade, a pejotização contradiz a defesa de direitos trabalhistas e as críticas à precarização que o ICL transforma em pauta. Contratos obtidos pelo DCM também preveem multa de R$ 100 mil para quem revelar a própria remuneração. A empresa que vende transparência impôs aos prestadores uma barreira financeira para falar sobre os pagamentos que recebem.
O ICL funcionou, ao longo dos anos, como refúgio para jornalistas militantes ou em declínio profissional. Nomes como César Calejon, Bruno de Lucca, Juliana Dal Piva e Guilherme Amado já operavam na fronteira entre jornalismo e militância. No caso de Amado, segundo fontes, a ruptura com o Metrópoles em 2024 ocorreu depois que ele gravou conteúdo para o ICL de dentro do próprio estúdio do portal e, por erro, publicou o material destinado ao instituto no site do Metrópoles.
Milhões aos sócios e o imposto “indevido”
“Instituto Conhecimento Liberta” é o nome fantasia da Editora e Livraria Conhecimento Liberta Ltda. O cadastro empresarial a identifica como Sociedade Empresária Limitada, aberta em fevereiro de 2020, com capital social de R$ 100 mil. Ao contrário do que sugere o seu nome, o ICL não é um instituto ou uma entidade sem fins lucrativos.
Essa natureza empresarial ficou evidente na ata de dezembro de 2025. O documento registra R$ 43,6 milhões em lucros acumulados: R$ 5,5 milhões referentes a 2024 e R$ 38,2 milhões a 2025. Todo o resultado acumulado dos dois exercícios foi destinado aos sócios.
Eduardo Moreira, detentor de 57,48% da empresa, ficou com R$ 25,1 milhões. Rafael Donatiello, com 38,32%, recebeu R$ 16,7 milhões. Os R$ 1,8 milhão restantes foram distribuídos entre os seis minoritários. Os valores individuais desses sócios — entre eles Demori e Otávio Antunes — não foram divulgados.
A Lei nº 15.270, sancionada pelo presidente Lula, estabeleceu, a partir de janeiro de 2026, retenção de 10% sobre dividendos mensais superiores a R$ 50 mil pagos pela mesma empresa à mesma pessoa física. Lucros apurados até 2025 conservariam a isenção se a distribuição fosse aprovada até 31 de dezembro e o pagamento respeitasse os termos fixados no ato societário. O ICL entrou nessa janela.
A operação foi legal. Sua finalidade também foi explícita: evitar o imposto. Moreira confirmou no pronunciamento:
“O caixa da empresa foi distribuído todo no ano passado para os sócios, porque teve uma mudança tributária no país, que passou, corretamente, a gente sempre defendeu isso, a tributar os dividendos. Então a gente precisou fazer isso para não pagar indevidamente mais de 5 milhões de reais em impostos e tributos.”
A contradição dispensa interpretação. Em julho de 2025, o ICL lançou o manifesto “Somos 99%”. O texto exigia “que o 1% mais rico finalmente pague sua parte justa, com taxação de dividendos milionários e combate às estratégias que driblam impostos”. O grupo divulgou que a campanha reuniu centenas de milhares de assinaturas. Cinco meses depois, seus controladores anteciparam os próprios dividendos milionários para não pagar a nova cobrança.
Moreira afirmou que os sócios que permaneceram na empresa usariam o dinheiro recebido para custear a operação nos anos seguintes. O fundador também disse que ele e Donatiello financiariam uma nova sede com estúdios, redação e teatro. Não informou quem será o proprietário do imóvel, quanto foi investido, se a empresa pagará aluguel aos sócios nem como o negócio aparecerá na contabilidade. Sem esses dados, não é possível saber se o dinheiro retornará ao ICL ou formará um patrimônio privado usado pela companhia.
A Gazeta do Povo resumiu o episódio como “imposto para os ricos, isenção para mim”. A legalidade do planejamento tributário não elimina a hipocrisia. Ela a documenta: o ICL usou a brecha que seu próprio manifesto classificava como privilégio do 1% mais rico.
Do ICL para as campanhas do PT
O quadro societário atual reúne oito administradores: Eduardo Moreira, Rafael Donatiello, Leandro Demori, Otávio Antunes, Jessé Souza, Maurício Arruda, Adriana Vilhena e Eduardo Marinho de Oliveira Junior. As participações de Moreira e Donatiello somam 95,8%. Os outros seis entraram em março de 2024.
Em postagens nas redes sociais, o perfil The Incorrupt, administrado pela jornalista Pâmela Costa, destacou as conexões entre o ICL e a máquina de comunicação do PT. Em um dos posts, mostrou que o marqueteiro da pré-campanha de Fernando Haddad ao governo de São Paulo é sócio do ICL. Em outro, revelou que o ex-diretor de marketing do ICL Notícias, Giácomo Degani, deixou a empresa para integrar a campanha digital de Lula, na equipe de Ricardo Stuckert.
Otávio Antunes é o elo formal mais direto com o PT. Além de sócio-administrador do ICL, ele dirige a Urissanê Comunicação e foi escalado para comandar o marketing de Fernando Haddad na disputa pelo governo paulista em 2026. A relação financeira com o partido vem de antes. A Urissanê recebeu R$ 17,3 milhões na campanha de Haddad ao governo de São Paulo em 2022. Em 2024, faturou quase R$ 14 milhões de 18 campanhas e do diretório nacional. De janeiro a outubro de 2025, recebeu mais R$ 5 milhões do PT.
Antunes também criou peças da “Taxação BBB” — bilionários, bancos e bets — e participou da profissionalização da militância digital petista. Em julho de 2025, o PT reuniu centenas de influenciadores no lançamento do “Clube de Influência Eu Tô com Lula”, braço do projeto “Pode Espalhar”. O próprio partido atribuiu a Antunes a responsabilidade pela campanha tributária. A Investigação mostrou como a estrutura transforma militantes e influenciadores em uma rede profissional de distribuição de mensagens encomendadas pelo partido. Outra reportagem mapeou a circulação de agências, criadores e dinheiro público no mesmo ecossistema.
O trajeto de Giácomo Degani reforça o padrão. Em junho de 2026, ele ainda era apresentado como diretor de Marketing e Comunicação do ICL e do ICL Notícias quando a campanha de Lula o contratou para administrar as redes do candidato, ao lado de Nicole Briones e Ricardo Stuckert. Degani não saiu da comunicação do ICL para cobrir a eleição. Passou a operar a comunicação eleitoral do presidente.
Felipe Neto é a conexão mais nebulosa. O ICL o anunciou como “novo sócio” e integrante do conselho em julho de 2024. Moreira afirmou que ele levaria experiência em redes e “capilaridade” à empresa. O cadastro atual da Receita, porém, não inclui o influenciador entre os sócios. Neto também tem ligação com o governo: foi nomeado para o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social Sustentável da Presidência (o “Conselhão”) em 2023 e integrou o grupo de trabalho do Ministério dos Direitos Humanos sobre discurso de ódio.
Da Vaza Jato ao patrulhamento
Demori deixou o comando do ICL prometendo continuar “fazendo jornalismo independente”. Uma piada. Em 2023, A Investigação documentou a participação de Demori na campanha contra André Shalders, Tácio Lorran e Andreza Matais, então no Estadão. Os repórteres haviam revelado a presença de Luciane Barbosa Farias, conhecida como “Dama do Tráfico do Amazonas”, em reuniões no Ministério da Justiça.
Demori não enfrentou os documentos publicados. Mirou os jornalistas. Perfis alinhados ao governo transformaram Andreza em “Dama das Fake News”, multiplicaram ataques pessoais e pressionaram anunciantes. Felipe Neto aderiu à campanha com a pergunta “Quem financia a dama das fake news?” junto da foto de Andreza Matais.
Demori também descartou as revelações dos Twitter Files como “mamadeira de piroca” e afirmou que “não tem nada ali”. O padrão era o inverso do jornalismo de fiscalização: em vez de investigar o poder retratado nos documentos, atacava quem os investigava. Na época, em uma transmissão para o ICL, Demori exibiu ao vivo um documento que continha o endereço da minha casa em uma tentativa de me vincular politicamente ao bolsonarismo. O mesmo jornalista que, enquanto diretor do The Intercept Brasil, publicou as reportagens da Vaza Jato, passou a desqualificar colegas de profissão que investigavam, de fato, os poderosos.
Enquanto fazia esse patrulhamento, sua empresa mantinha um contrato público sem licitação com a Empresa Brasil de Comunicação, também conhecida como “TV Lula”. A EBC contratou a Escola de Jornalismo Ltda. por inexigibilidade para produzir e apresentar “Dando a Real com Demori”, na TV Brasil. O contrato previa R$ 440 mil por 12 meses, para 52 episódios de 26 minutos, com possibilidade de prorrogação até o limite total de 60 meses. Isso não significa que Demori recebeu pagamentos durante cinco anos. Ele afirmou que o vínculo terminou em 2025, a seu pedido. Na amostra examinada por A Investigação em 2023, os episódios registravam de 3 mil a 4 mil visualizações em média.
Demori afirmou, ao anunciar a saída, que os detalhes dos “motivos” e de como a demissão ocorreu “virão eventualmente à tona em algum momento, e serão esclarecedores”. A frase deixa o futuro em aberto. A crise de julho de 2026 revelou a distribuição de milhões, a natureza empresarial por trás do “instituto” e as conexões com a máquina de comunicação do PT. Resta saber quantos outros esqueletos o ICL ainda guarda no armário.
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Reportagem publicada em 23 de novembro de 2023









