Na madrugada de quinta-feira, 8, o Radar da Virada, site criado para ajudar a militância a promover Lula nas redes, retirou um aviso de que não havia fonte para a acusação de que Flávio Bolsonaro acabaria com o programa Farmácia Popular. Horas antes, contas da comunidade ligada ao projeto divulgaram a história no Kwai e no TikTok. Um vídeo com o mesmo tema continuou entre as recomendações, favorecido pelas regras do sistema.
O Farmácia Popular é um programa federal que fornece medicamentos farmácias credenciadas. O boato de que Flávio teria anunciado que iria encerrar o programa circulou entre a militância petista e foi refutado até mesmo por agências de checagem. O plano de governo promete manter os programas sociais e a sua candidatura declarou que fortalecerá o programa.
O levantamento de A Investigação recuperou versões antigas do Radar da Virada e encontrou a retirada do alerta atribuída, no código, a uma decisão de uma pessoa chamada “Gustavo”. Depois, o nome foi apagado, a autoria das alterações foi substituída e o histórico público foi reescrito. Na sexta-feira, 9, o projeto fechou o acesso ao código e substituiu também o histórico de uma cópia pública. Os registros, porém, sobreviveram em outra cópia.
Construído com Claude Code, ferramenta de inteligência artificial que escreve programas, o Radar surgiu em 6 de outubro, depois de Lula terminar o primeiro turno atrás de Flávio. Seus documentos o chamavam de war room, uma sala de guerra digital para a disputa por votos. O painel reúne tendências, vídeos para compartilhar e mapas eleitorais, e se conecta a uma rede de ferramentas pró-Lula, entre elas Fura Bolha, Diretório 13 e a plataforma da Comunidade Tech contra Flávio Bolsonaro.
Os arquivos registram outras decisões: checagens continuaram a ser produzidas, mas deixaram de aparecer; o alerta “Falso, não compartilhe” foi descartado; um canal alertado pelo próprio sistema seguiu sendo promovido; e o medidor da imprensa recebeu regras favoráveis a Lula. No sábado, 10, o site oficial da candidatura indicou o Radar como ferramenta de voluntários.
A indicação documenta a divulgação pela candidatura. O levantamento não estabeleceu que ela tenha criado, financiado ou dirigido a rede. Também não encontrou anúncios dos sites na biblioteca da Meta nem um sistema de disparo em massa: os botões de compartilhamento dependem da ação de quem visita as páginas.
A regra eleitoral permite a mobilização de apoiadores para ampliar o alcance de mensagens. Quando essa organização serve a fins ilícitos, prevê a responsabilização de quem organiza, cria, distribui e participa, conforme a conduta de cada pessoa.
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O aviso desapareceu, o vídeo continuou
Na quarta-feira, 7, às 19h04, uma alteração no site incluiu o selo “SEM FONTE” para a história sobre a Farmácia Popular. O aviso reconhecia que ela circulava em publicações “do nosso lado” e dizia: “Não encontramos declaração nem trecho do plano de Flávio dizendo isso.” Todos os horários desta reportagem são de Brasília.

O aviso já constava nas versões publicadas quando @techcontraflavio divulgou o tema no Kwai, às 21h16, e publicou no TikTok, cerca de 22 minutos depois, a legenda “É o fim da farmácia popular!!!”.
À 1h de quinta-feira, o registro da retirada apresentou a anotação: “bloco ‘cuidado’ fora do ar por decisão do Gustavo”. A mudança foi apresentada como uma alteração de layout. Os dados de checagem continuariam a ser gerados, mas o visitante deixaria de vê-los.
Na mesma madrugada, o Radar passou a dobrar a pontuação dos vídeos classificados como úteis para a militância. “Não vamos deixar o Farmácia Popular acabar”, do perfil do ministro da Saúde Alexandre Padilha no Tik Tok, recebeu essa marca. O perfil era uma referência fixa, e o vídeo tinha aprovação dos mantenedores — condições que o dispensavam da audiência mínima exigida de outras publicações. As versões recuperadas registram sua saída do ranking às 22h55 de sexta-feira, 9.
Checagens escondidas e uma guerra de canais
A retirada do aviso sobre a Farmácia Popular atingiu todo o bloco “Cuidado no nosso lado”. Os arquivos continuaram a registrar alertas sobre publicações pró-Lula: a celebração do fim da escala 6x1 como se já estivesse aprovado, pesquisas apresentadas de forma enganosa e a atribuição do incêndio na UFPE a apoiadores de Flávio sem prova. O visitante recebia as recomendações, mas já não via essas advertências.
Na noite de quinta-feira, o projeto chegou a criar uma faixa com checagens de portais e a mensagem “Falso, não compartilhe”. Onze minutos depois, às 19h59, retirou a mensagem do código. A faixa foi descartada antes de chegar à página vista pelo público.
O caso do Plantão Brasil expõe a diferença entre os alertas internos e a promoção de conteúdo. Nos dados preservados do painel, o sistema sinalizava um vídeo intitulado “Confirmadas fraudes bolsonaristas nas eleições”. A advertência dizia: “Não há fraude confirmada por nenhuma autoridade.” E acrescentava uma preocupação eleitoral: “Desconfiar da eleição só ajuda quem está na frente.” Outro vídeo anunciava uma prova de interferência estrangeira, enquanto a nota interna registrava que a apuração da PF tinha sido arquivada.
Esses alertas deixaram de aparecer. O Plantão Brasil, porém, permaneceu no diretório de canais promovidos pelo Radar, com botão para o visitante se inscrever. Uma captura de quinta-feira também registrou um título que aproximava Flávio, o incêndio na UFPE e a palavra “terrorista”.
O painel comparava os temas tratados por canais de direita e de esquerda em uma função chamada “guerra”. Às 17h50 de quinta-feira, o código reconheceu que 11 canais de direita não eram lidos pelo sistema. A correção aproximou os dois lados da paridade. Cerca de três horas depois, uma alteração mandou esconder a seção “Do que cada lado fala”, com a anotação “a pedido do dono”. O registro não explica o motivo nem identifica o “dono”.
O mesmo código anotou que, com “Lula na frente”, o medidor “mantém o verde”. Na versão de domingo, 11, a orientação era ainda mais explícita: notícias desfavoráveis a Flávio recebiam peso maior, e as escolhidas manualmente iam ao topo. A apresentação como monitor da imprensa convivia, assim, com uma seleção política dos resultados.
No sábado, outra ferramenta apareceu por 27 minutos: uma “Lista para avaliação jurídica” com 54 vídeos de apoiadores de Flávio. Todos estavam marcados “sem checagem registrada”; cinco eram classificados como prioridade. O texto dizia que uma equipe jurídica decidiria sobre pedidos de remoção depois de conferir cada vídeo. O arquivo não identificava a equipe nem registrava pedidos efetivamente apresentados. A lista foi retirada, mas ficou preservada no histórico da cópia do site.
Falsidades e acusações prontas para o WhatsApp
Os sites se apresentam uns aos outros como ferramentas para a campanha. O Diretório 13 se descreve como “repositório de materiais para se informar e compartilhar na campanha eleitoral por Lula”. O Fura Bolha organiza vídeos para assistir, baixar e enviar ao WhatsApp. Na quinta-feira, o Radar passou a intercalar vídeos deste acervo entre suas recomendações. Os links e a integração documentam uma rede de divulgação, sem demonstrar que todos os sites tenham o mesmo operador.

O objetivo da mobilização também foi registrado pelos desenvolvedores: avisar quando um vídeo começasse a crescer para os apoiadores curtirem, comentarem e compartilharem nas primeiras horas, quando o algoritmo decide se amplia sua circulação. No Kwai, a conta da comunidade usou hashtags como #lulaladrao e #forapt em vídeos favoráveis a Lula, associando essas peças a termos usados por seus adversários.
No Fura Bolha, as distorções aparecem também nos textos escritos pelo próprio site. Um resumo atribui a Flávio a defesa de eletrochoque em autistas, sem apresentar qualquer declaração que sustente a acusação. A controvérsia citada remonta a uma proposta técnica discutida pela Conitec durante o governo de Jair Bolsonaro; a comissão esclareceu que não recomendava o procedimento. No Radar, essa mesma alegação constava como pendente de conferência, enquanto o sistema incorporava o acervo do Fura Bolha.
Outro resumo anuncia uma Constituinte proposta por Flávio e associa a ideia à perda de direitos, inclusive do voto feminino. O candidato falou em usar a maioria no Congresso para mudar a Constituição, não em convocar uma Constituinte. Alterar o texto por emendas e convocar uma assembleia para escrever outra Constituição são procedimentos distintos. Desde 1988, o Brasil já ampliou ou alterou 139 emendas contidas na Constituição, incluindo algumas propostas pelo PT. Os dois resumos continuavam no ar no domingo, 11.
No Radar, um cartão sobre Previdência e BPC dizia que Flávio não esclarecia se manteria a ligação dos benefícios com o salário mínimo. A própria reportagem citada como fonte, do Poder360, registrava a negativa do candidato à desvinculação. O cartão foi gerado cerca de três horas depois da notícia e repetia o “não diz” no texto pronto para compartilhar.
Nas contas da comunidade, os ataques incluíram chamar o candidato de “Flávio Rachadinha” e de “bandido”. Esses posts acrescentam acusações pessoais ao material oferecido para mobilizar eleitores. No próprio ranking, uma publicação marcada para conferir a expressão “miliciano” foi aprovada. Outras publicações sinalizadas pela revisão foram barradas.
O uso de IA também mudou de apresentação. O Radar retirou a explicação de que os vídeos eram classificados por inteligência artificial, embora o sistema continuasse a usar o Claude nessa tarefa. O Fura Bolha passou, no fim de semana, a rotular várias peças como “Feito com IA”, entre elas uma cena de Lula saindo de um caixão e agarrando Flávio pelo pescoço. A revisão ainda encontrou peças com aparência sintética sem identificação equivalente na página.
Pelos contadores do próprio Fura Bolha, os envios informados cresceram de cerca de 2 mil para 11,5 mil entre sexta-feira e domingo. O número é do serviço, não uma contagem independente de mensagens recebidas no WhatsApp.
Como os rastros foram recuperados
A documentação ficou acessível porque o projeto começou com código aberto no GitHub, plataforma que guarda as versões de um programa. Cada alteração recebe um identificador. Reescrever a lista de mudanças visível ao público pode retirar nomes e versões dessa lista, mas não apaga necessariamente todas as cópias já existentes. A Investigação comparou os registros originais, as versões reescritas, os arquivos publicados e um perfil arquivado antes da eleição.
O primeiro registro do Radar, de 6 de outubro, foi assinado pela conta zuttox e trazia coautoria do Claude. Outras alterações registram a assistência do Claude Code. Além de ajudar a escrever o programa, a IA era usada para classificar os vídeos; as decisões sobre o que publicar cabiam aos mantenedores, segundo as instruções do projeto.
Uma cópia do perfil zuttox arquivada em agosto mostrava o nome Gustavo Marques, a identificação de fundador da Allmo e um link profissional. Depois, o perfil perdeu a biografia e os links e passou a exibir “done”. O perfil identifica o nome associado à conta; a referência a quem retirou o aviso aparece, separadamente, no comentário sobre “Gustavo”.


O sistema também tinha uma barreira para impedir a publicação dos termos zuttox, allmo e gustavo marques. Uma alteração intitulada “Privacidade” retirou a lista do código porque ela própria estava legível no repositório aberto. Na mesma alteração, saiu o comentário que atribuía a retirada do alerta a Gustavo. As versões antigas permitiram recuperar ambos.
O histórico foi reescrito em duas etapas, entre quarta e quinta-feira: primeiro para trocar a autoria por proxy-reverso, depois para alterar o conteúdo dos registros. Na sexta, às 20h08, a organização anunciou que o Radar tinha código privado. Cerca de uma hora depois, o espelho público recebeu um novo registro inicial, sem o histórico anterior. A alteração com “por decisão do Gustavo” sobreviveu na cópia independente.

Na madrugada de sábado, às 1h01, o Radar retirou do rodapé a identificação da Comunidade Tech contra Flávio Bolsonaro como responsável. Mais tarde, apagou a frase “sem vínculo com a campanha” e os links para as redes da comunidade. O Fura Bolha também eliminou o “Powered by GadoDecider” dos créditos. Gado Decider é um perfil anônimo, popular no X, que foi propagandeado pelo site Núcleo Jornalismo como um “robozinho legal de seguir no Twitter”. Hoje, o perfil diz que aposentou seu bot e “junta vídeos pra você mandar no zap da família”.
Na plataforma da comunidade, os próprios desenvolvedores registraram a necessidade de se definir responsável, contato e financiamento. A página de apresentação da equipe não funcionava na captura de domingo.


O que dizem os envolvidos
O Radar da Virada respondeu por e-mail a A Investigação: “O Radar da Virada é um projeto voluntário e independente, sem vínculo com campanha, partido ou candidato, e não recebe dinheiro de nenhum deles.” A mensagem não respondeu às perguntas sobre a retirada dos alertas, a escolha dos vídeos recomendados e a reescrita do histórico do projeto.
No sábado, 10, o site oficial da candidatura de Lula divulgou o Radar como uma ferramenta desenvolvida por voluntários. A publicação demonstra que a candidatura indicou o site, mas não que tenha participado de sua criação ou financiamento.
Gustavo Marques foi procurado por meio do e-mail da Allmo e não respondeu. Os responsáveis pelo techcontrabolsonaro.dev também não responderam. A Investigação tentou enviar as perguntas ao Fura Bolha pelo formulário de contato, mas a página apresentou erro e impediu o envio. O espaço permanece aberto para a manifestação de todos os citados; eventuais respostas serão acrescentadas à reportagem.
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