Nesta quinta-feira, 1º de outubro, a Revista Oeste noticiou que o PT pediu ao ministro Flávio Dino, no STF, que apurasse uma rede de anúncios eleitorais pagos em dólar como mais um possível caso de interferência estrangeira nas eleições. A petição registrou 138 peças negativas a Lula, número extraído de um levantamento da Agência Lupa.
No entanto, o próprio levantamento citado pelo partido mencionava 600 anúncios negativos a Flávio Bolsonaro (PL). Nossa equipe, que já rastreava a mesma rede, examinou um conjunto maior de anúncios e também encontrou Flávio no centro da ofensiva. Ao seguir os links e as contas que distribuíam as peças, descobriu como dezenas de páginas davam alcance a portais fabricados em série e em escala industrial.
A rede mudava o candidato que promovia sem tirar Flávio do centro dos ataques. Em julho, favorecia Renan Santos (Missão); a partir de setembro, Augusto Cury (Avante). As páginas também reimpulsionaram vídeos produzidos pela coligação Lula–Alckmin.
O nome exibido como pagador de parte dos anúncios abriu outra pista. A conta verificada dessa empresa no Google já havia divulgado campanhas de órgãos do governo de Nicolás Maduro na Venezuela. Quem a contratou para atuar na eleição brasileira ainda não foi identificado.
Nossa equipe mapeou 76 páginas no Facebook e 40 endereços com aparência de portais brasileiros. Trinta e sete domínios foram registrados em 6 de setembro, numa sequência de cerca de 50 minutos. Os sites receberam nomes, marcas e cidades diferentes, embora a publicidade da rede tivesse começado em julho, antes de existir a maior parte deles.
Em 16 de setembro, uma conta verificada no Google passou a anunciar matérias desses portais que atacavam Flávio. Seu nome legal era Corporativo Lam, LLC. Na Meta, a empresa figurava como anunciante e pagadora declarada de centenas de peças da operação. O rótulo não revelava quem escolhia as pautas.
A Corporativo Lam foi registrada em Delaware, nos Estados Unidos. O estado é conhecido por garantir anonimato a proprietários de empresas. O cadastro estadual informa a formação da empresa e seu agente registrado, mas não identifica necessariamente as pessoas que a controlam. O nome nos anúncios deixava a pergunta principal em aberto: quem contratou a empresa e de onde saiu o dinheiro?
As fachadas diferentes escondiam a mesma linha de produção. Os sites compartilhavam um token de verificação do Google e um programa de navegação idêntico. Uma matéria política apareceu em 20 portais no mesmo segundo. Entre notícias reescritas automaticamente e pautas replicadas, a rede acumulou cerca de 130 mil artigos. Para quem clicava num anúncio, cada endereço parecia levar a uma redação independente.
Em 1.428 anúncios individualizados de 70 páginas, as faixas de gasto informadas pela Meta somam ao menos US$ 210 mil e menos de US$ 385 mil — cerca de R$ 1,1 milhão a R$ 2 milhões. A plataforma não informa o preço exato de cada peça, e o investimento no Google fica fora dessa conta. A Meta removeu parte dos anúncios por descumprimento das regras de publicidade política. As remoções não identificaram o mandante.
Em 23 anúncios de 20 páginas, nossa equipe encontrou vídeos produzidos pela coligação Lula–Alckmin. O nome da campanha e seu CNPJ permaneciam na faixa de identificação. Um chamava Flávio de “o pior dos Bolsonaros”; outros o associavam a Daniel Vorcaro e Rodrigo Bacellar sob a palavra “PRESO”. A identificação mostra quem produziu os vídeos, mas não quem pagou para que aquelas páginas os anunciassem.
O histórico da Corporativo Lam conduzia à Venezuela: sua conta no Google exibira 37 anúncios naquele país entre abril e maio, inclusive campanhas de órgãos do governo Maduro preservadas por nossa equipe. Havia ainda a página Papo em Rede. Criada como “7 Transformaciones”, nome do plano de governo venezuelano, ela passou a anunciar material da rede brasileira; em duas peças, a Meta identificava a Corporativo Lam como pagadora.
Esse histórico não demonstra que Maduro financiou os ataques no Brasil. Os vídeos da coligação tampouco provam que Lula ou o PT pagaram por seu reimpulsionamento. Os registros mostram que Flávio foi o principal alvo da rede levada ao STF. Quem encomendou a campanha e forneceu o dinheiro continua sem identificação.
Sobre a contagem: nossa planilha classifica 514 dos 1.428 anúncios como ataques diretos a Flávio; ele aparece como personagem principal em 627. Isso confirma que ele ocupa o centro da nossa amostra.
Quarenta portais, uma linha de montagem
As páginas começaram a anunciar em julho, antes mesmo de existir a maior parte dos sites que depois receberiam o tráfego pago. Naquela fase, as peças favoreciam Renan Santos (Missão), e atacavam Flávio Bolsonaro. Em 6 de setembro, segundo as consultas de registro reunidas na apuração, 37 dos 40 domínios foram registrados em sequência, em aproximadamente 50 minutos. Cinco dias depois, a página que se chamava “7 Transformaciones” adotou o nome Papo em Rede. Em meados do mês, o foco da publicidade favorável a candidatos passou a Augusto Cury (Avante), sem que Flávio deixasse de ser alvo.
Os endereços pareciam pertencer a redações diferentes. Cada um ganhou identidade visual e cidade de referência; alguns se apresentavam como portais de jogos, viagens ou finanças. Mesmo nesses, textos de política surgiam em lugares de destaque, como a seção “Mais lidas”. O levantamento contabilizou cerca de 130 mil artigos nos 40 sites até 27 de setembro. Parte reproduzia notícias reescritas automaticamente; aproximadamente 15 mil textos derivavam de cerca de 830 pautas selecionadas, segundo a classificação de nossa equipe. Uma mesma história podia aparecer em muitos portais, como se várias redações a tivessem apurado.
A linha de montagem deixou marcas verificáveis. Uma mesma matéria política surgiu em 20 domínios no exato segundo de 12 de setembro, às 15h36min08s, com a mesma imagem. Os 40 portais compartilham um token de verificação do Google Search Console e um programa de navegação idêntico, embora exibam fachadas e cidades de referência diferentes. Nenhum veicula publicidade comercial, segundo os arquivos examinados pela equipe. Um dos próprios artigos sobre Flávio e Daniel Vorcaro termina dizendo que sua fonte não confirma o encontro sugerido pela pauta. Em outro caso, um portal tratava Milton Leite como foragido depois de já ter noticiado que ele se apresentara à polícia. A velocidade de produção deixava erros à vista.
Também sobraram marcas em espanhol. Na descrição interna de uma imagem, lê-se “Imagen incluida en el documento original proporcionado”; em uma matéria sobre Filipe Barros (PL), candidato ao Senado pelo Paraná, “Pieza sin título”. Comentários no programa usado pelos portais e no arquivo que informa quem pode vender publicidade em cada site trazem expressões como “comportamiento ligero y progresivo” e “# pendiente de AdSense”. Essas marcas indicam ferramentas ou pessoas hispanófonas no processo, mas não permitem apontar a Venezuela como local de produção: a empresa também tem uma pista comercial na República Dominicana.
A mesma conta, dois países
Na Central de Transparência do Google, Corporativo Lam aparece como nome legal de uma conta verificada que promoveu os portais brasileiros. Ao filtrar a Venezuela, aparecem 37 anúncios veiculados entre abril e maio. Os vídeos e destinos preservados pela equipe mostram peças de economia de energia associadas ao canal do Ministério da Energia e da mobilização “Venezuela Vuela Libre”. A conta também anunciava outros produtos: isso mostra a atividade de uma prestadora de serviços, não a identidade do cliente que comprou cada campanha. Um anúncio para o portal Caderno Atual ainda constava como exibido em 1º de outubro.
Na Meta, a Lupa identificou Corporativo Lam nos campos “anunciante” e “pagador” de 710 dos 1.006 anúncios que examinou até 21 de setembro. Um único vídeo contra Flávio, da página Fato em Curso, recebeu de US$ 6 mil a US$ 7 mil — cerca de R$ 31 mil a R$ 36 mil — e teve mais de um milhão de exibições. O anúncio indicava os Estados Unidos como localização da empresa e apontava para pagolinkglobal.com. A designação da Meta confirma o vínculo da companhia com parte da distribuição; não identifica, por si só, quem lhe entregou o dinheiro ou escolheu os ataques.
Os levantamentos da Lupa e de A Investigação examinam a mesma rede em momentos distintos. Os 38 domínios relacionados pela agência estão entre os 40 analisados nesta reportagem, e 57 dos 68 identificadores de páginas também coincidem. Não se somam os valores das duas contagens. A nossa planilha individualiza 1.428 anúncios de 70 páginas; seis outras aparecem no catálogo mais amplo, mas seus gastos ainda não estão nessa faixa. Como a Meta informa intervalos, o valor real não pode ser cravado centavo a centavo.
A história da página Papo em Rede acrescenta um elo diferente. A transparência da Meta registra sua criação, em 20 de fevereiro de 2025, como “7 transformaciones”, o ajuste para “7 Transformaciones” no mesmo dia e a mudança para o nome atual em 11 de setembro de 2026. As “7 Transformaciones” são o plano de governo de Maduro para 2025–2031. Já sob a identidade brasileira, a página anunciou material da rede; dois anúncios examinados traziam Corporativo Lam como pagadora declarada. A troca de nome não mostra quem administrava a página antes nem se ela mudou de mãos.
Quem recebeu e quem contratou
O endereço pagolinkglobal.com, exibido nos anúncios da Meta, oferece uma pista sobre o papel da empresa. Em versões arquivadas, PagoLink Global se apresentava como marca operada por Corporativo Lam e oferecia a clientes latino-americanos uma estrutura de recebimentos nos Estados Unidos. Hoje, o endereço mostra apenas uma página genérica, sem a antiga oferta de serviços. A oferta comercial é compatível com a atuação de uma intermediária, mas não documenta o pagamento de nenhuma peça da eleição brasileira.
Outra atividade de Corporativo Lam surgiu na mesma conta do Google: entre junho e julho, ela anunciou o cliping.io, plataforma voltada a produtores de vídeo. Uma resposta da página de pagamento preservada pela reportagem apresenta a empresa como estabelecimento recebedor. O contato comercial ali informado coincide com o de Alfredo Luciano Garcia em um cadastro de fornecedores da República Dominicana. Seu nome também aparece nos dados internos de uma versão arquivada do site de PagoLink. Esse cruzamento liga Alfredo à atividade comercial da empresa. Não demonstra que ele criou os portais brasileiros, encomendou os ataques ou financiou a propaganda eleitoral.
Há um dado independente sobre o trabalho do consultor. A OGTIC, órgão do governo dominicano, contratou Alfredo em novembro de 2023 para auxiliar na colocação de publicidade digital; outros dois contratos, de abril e agosto de 2024, tinham o mesmo objeto. Juntos, somam cerca de RD$ 675 mil (aproximadamente R$ 59 mil). São contratos de outro país e de anos anteriores, não pagamentos pela operação contra Flávio.
Em agosto, quatro peças políticas da página Vira Notícia apareceram no filtro da República Dominicana da Biblioteca de Anúncios da Meta, mas não no filtro brasileiro, conforme a consulta preservada na apuração. Dias depois, a página anunciou no Brasil. O episódio merece exame dos registros de segmentação e cobrança, mas o local de exibição de uma peça não é o endereço de quem a administrou. No Google, o campo “Anúncio financiado por” traz “HADI NUGRAHA” em peças venezuelanas e brasileiras. O procedimento da plataforma relaciona a identificação ao perfil de pagamentos, que pode ser alterado; o nome não permite atribuir nacionalidade ou comando da operação.
O alvo e os beneficiados
O ataque mais constante era a Flávio Bolsonaro. O levantamento encontrou cerca de 4,5 mil artigos desfavoráveis a ele, derivados de 149 histórias repetidas entre portais. As pautas exploravam Banco Master, Daniel Vorcaro, o filme Dark Horse e integrantes da família Bolsonaro. Ao lado dos ataques, mais de mil textos para cada um de três nomes — Augusto Cury, Ronaldo Caiado e Renan Santos — promoviam candidaturas em momentos diferentes.
Em setembro, Cury recebeu o impulso mais concentrado. Mas a equipe encontrou também 45 anúncios que reutilizaram vídeos com faixas de identificação de campanhas eleitorais. Entre eles, 23 reimpulsionaram peças da coligação de Lula (PT) e Geraldo Alckmin (PSB), veiculadas por 20 páginas da rede, sobretudo em 10 de setembro. Todos os 23 anúncios atacavam Flávio. Um dizia “Flávio, o pior dos Bolsonaros”; outros exibiam “Daniel Vorcaro amigo de Flávio — PRESO” e “Rodrigo Bacellar amigo de Flávio — PRESO”. Dez traziam a indicação “Conteúdo produzido com IA – Eleven Labs”. O CNPJ 68.475.818/0001-02, lido nas faixas dos vídeos, corresponde à coligação “Brasil Pronto pra Mais” nos registros do TSE consultados pela equipe. Isso mostra quem produziu o material; não quem contratou ou pagou seu reimpulsionamento.
A mesma rede anunciou 12 vídeos da campanha de Ronaldo Caiado (PSD), quatro de Kim Kataguiri (Missão) contrários a Lula, dois favoráveis ao próprio Flávio (PL), um de Renan Santos (Missão) e outras peças de identificação incompleta. Juntos, os 45 reimpulsionamentos custaram menos de US$ 3 mil (cerca de R$ 16 mil), pequena parcela do gasto total. O anúncio isolado mais caro do levantamento, entre US$ 9 mil e US$ 10 mil (cerca de R$ 47 mil a R$ 52 mil), exibiu uma reportagem do Fantástico sobre as relações investigadas de Roberta Luchsinger com o entorno de Lula. A presença de vídeos da coligação não permite identificar a campanha de Lula ou o PT como comprador da rede.
A rede também atingiu aliados de Flávio em disputas locais: dois anúncios examinados pela Lupa miravam Carlos Jordy (PL), candidato ao Senado no Rio de Janeiro. O conteúdo permite identificar quem ganhou visibilidade ou poderia se beneficiar do desgaste de um adversário; não prova quem encomendou os anúncios.
À Lupa, a campanha de Augusto Cury negou ter criado, contratado, financiado ou autorizado as páginas e os anúncios. As prestações de contas examinadas nesta apuração não identificaram pagamento direto das campanhas citadas a Corporativo Lam. Isso não descarta uma contratação por terceiros, cuja apuração depende dos registros de cobrança e dos contratos.
O PT levou a rede ao STF
Em 23 de setembro, o PT pediu ingresso na ADPF 1178 e requereu que o ministro Flávio Dino estendesse ao processo eleitoral uma decisão sobre a eficácia de atos estrangeiros no Brasil. A ação havia sido proposta em 2024 pelo Instituto Brasileiro de Mineração para discutir processos movidos por municípios brasileiros no exterior. Em agosto de 2025, Dino decidiu que ordens executivas, leis e decisões de outros países não produzem efeito automático aqui. O pedido eleitoral do PT veio depois: mencionava a Rockbridge Network, publicidade paga no X e conteúdos oferecidos na Academia da Direita, ligada ao PL. Essa primeira petição não cita Corporativo Lam nem a rede de portais.
Uma frente do pedido trata do Estúdio Quinto Elemento. O PT afirma que a Academia da Direita oferecia gratuitamente documentários do Brasil Paralelo e ao menos três conteúdos da Patrística Brasil e da Produções 5 Elemento, sem pagamento correspondente nas contas do PL e de sua fundação examinadas pelos advogados. A peça descreve uma cadeia societária que passa por empresas da Flórida, mas reconhece que essa estrutura, sozinha, não comprova a origem estrangeira dos recursos. Trata o caso como frente autônoma de investigação, sem estabelecer ligação com a Corporativo Lam.
Em 1º de outubro, o partido apresentou um aditamento à ADPF. Segundo a reportagem da Revista Oeste, a nova peça usou o levantamento publicado pela Agência Lupa: 68 páginas, 38 sites, 1.006 anúncios e a Corporativo Lam como pagadora declarada em 710 deles. A petição registrou também 138 anúncios negativos a Lula naquela amostra e pediu a Dino que determinasse à Meta a preservação dos anúncios, inclusive os removidos, e a identificação dos pagadores, bancos, países e moedas usados nas cobranças. Esse é o pedido do partido; sua apresentação ao relator não equivale a uma decisão dele.
A iniciativa do PT não foi a única. Também em 1º de outubro, a Advocacia-Geral da União pediu à Polícia Federal e à PGR que investigassem um programa americano de US$ 1 milhão (cerca de R$ 5,2 milhões) destinado a apoiar grupos críticos ao STF. A AGU se baseou numa reportagem do Guardian, que afirma ter visto documentos internos não publicados; o jornal não identificou o beneficiário brasileiro, e o Departamento de Estado disse que as concessões seguiam em análise. Não há vínculo demonstrado entre esse programa e a Corporativo Lam.
O recorte revela outra face quando se lê o levantamento inteiro. A Lupa contou 600 anúncios contra Flávio e 138 contra Lula; chamou Flávio de principal alvo. Nossa equipe identificou, na mesma estrutura, 23 veiculações de vídeos produzidos pela coligação Lula–Alckmin e uma conta comercial da Corporativo Lam que antes anunciara campanhas na Venezuela. Essas constatações não identificam quem encomendou a operação brasileira nem ligam seu financiamento ao PT ou ao governo Maduro. A empresa registrada em Delaware, por si, também não demonstra de onde saiu o dinheiro.
O levantamento mostra quem foi o alvo mais frequente. Duas perguntas continuam abertas: quem mandou fabricar os portais e escolheu as pautas contra Flávio? Quem forneceu o dinheiro para os anúncios, inclusive no Google, cujo gasto não foi quantificado?
Os registros revelam uma empresa que também divulgou campanhas do governo venezuelano, uma página que carregou o nome de um plano de Maduro e uma operação de grande alcance na eleição brasileira. Para identificar o mandante, será preciso obter os dados dos administradores e das contas de anúncios na Meta, o perfil de pagamentos no Google e os contratos da companhia. A Justiça Eleitoral dispõe de procedimentos para requisitar às plataformas informações sobre anúncios e anunciantes; já determinou a preservação e o fornecimento de dados em investigação de atuação coordenada nas redes. Até que esses registros sejam confrontados, a pista venezuelana não autoriza atribuir a Maduro o financiamento ou o comando da campanha.
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