Reportagem de A Investigação sobre ligações do PT com caso Master provoca guerra de PowerPoints e crise na GloboNews
Globonews plagiou A Investigação e foi cancelada pela miliância petista. PT ameaçou judicializar quem fizer gráficos criticando o governo.
Nos cinco dias seguintes à publicação de “As digitais de Lula e do PT nos escândalos do INSS e Banco Master”, no dia 19 de março, em A Investigação, as redes sociais foram tomadas por uma enxurrada de diagramas tentando recontar o caso. Como filho feio não tem pai, cada campo montou a sua própria versão da história e passou a empurrar a responsabilidade pelos bilhões desviados para o lado mais conveniente. A disputa não era por fatos novos. Era por narrativa.
A reportagem, coautorada pela jornalista Pâmela Costa, organizou uma sequência já pública, mas dispersa: como o modelo nasce na Bahia, nos governos de Jaques Wagner e Rui Costa, com o CredCesta, e como essa engrenagem chega ao Banco Master pelas mãos de Augusto Lima. Não foi uma corrida por furo. Enquanto parte da imprensa corre para publicar primeiro e monetizar a ansiedade do público, optamos por fazer o trabalho básico: juntar as peças e mostrar o desenho completo.
Ao fechar o texto, surgiu uma questão prática: a imagem destacada. Em vez de uma foto genérica, optei por montar no Canva um painel de evidências — aquele formato clássico de investigação, com rostos, recortes e linhas conectando nomes. O recorte foi intencional. O objetivo era mostrar as conexões do PT no caso. Há personagens de outros campos envolvidos — e isso está registrado no texto. Mas colocar todos no mesmo quadro apagaria o ponto central e transformaria a imagem em barulho.
No dia seguinte, 20 de março, a GloboNews levou ao ar, no Estúdio i, com Andrea Sadi, um painel praticamente idêntico. Mesmo conceito visual, mesma lógica de círculos com fotos ligadas por linhas, mesma estrutura de leitura. Ajustaram nomes, redistribuíram posições e incluíram figuras da direita — como Nikolas Ferreira — para sugerir equilíbrio. Ainda assim, a reação veio forte.
Na manhã seguinte, provoquei no X: “Bom dia, @GloboNews! Pode usar o conteúdo de @a_investigacao_ à vontade. Só não esquece de dar os créditos, tá bom? ☺️”, com os dois painéis lado a lado. E foi aí que a guerra começou de verdade.
Perfis alinhados ao governo, militantes e influenciadores passaram a atacar em bloco o que chamaram de “PowerPoint da GloboNews”. Hashtags como #GloboMaster ganharam tração, vídeos e threads se multiplicaram e a linha de ataque se repetia: desqualificar o material e, principalmente, deslocar o foco. Não era uma refutação dos fatos. Era uma tentativa de afastar o caso do entorno de Lula e diluir responsabilidades, como se bastasse misturar nomes para apagar a origem e a estrutura do esquema.
Ao longo da semana, surgiram análises longas, lives, “desmontagens” do painel e versões alternativas — todas girando em torno do mesmo objetivo: limpar a barra do governo e reescrever a cronologia. A intensidade da reação acabou revelando mais do que escondendo. Quanto mais se tentava desqualificar o conteúdo, mais evidente ficava o incômodo que ele havia causado.
Três dias depois, veio o recuo da GloboNews. Em um pronunciamento constrangedor e visivelmente desconfortável, Andrea Sadi pediu desculpas pela emissora por um material que classificou como “errado e incompleto e em desacordo com nossos princípios editoriais”. O pedido não encerrou o episódio. Mesmo após a retratação, a militância manteve os ataques — agora não apenas contra o painel, mas contra qualquer tentativa de organizar, de forma visual, as conexões do caso.
As digitais de Lula e do PT nos escândalos do INSS e Banco Master
A implosão do Banco Master virou um jogo de empurra em Brasília. Desde que Daniel Vorcaro foi preso e a extensão do rombo veio à tona, apoiadores do governo Lula repetem na CPMI do INSS o apelido “BolsoMaster”, como se a história começasse em 2019, com a autorização dada pelo Banco Central para a compra do Banco Máxima. Não começa. Essa é só a fase em q…
O ataque de pelanca governista
Os apoiadores de Lula não apresentaram um dado novo, nem apontaram um erro factual. Em vez disso, mobilizaram praticamente toda a sua máquina de reação — não para contestar o conteúdo, mas para desqualificar quem o publicou. Até então elogiosa à Globo durante o governo Lula 3, a militância de esquerda passou a tratar a emissora como “golpista” e a acusar seus jornalistas de atuarem como “militantes da extrema-direita disfarçados”. Em vídeo publicado no YouTube, o jornalista Ricardo Feltrin detalhou os casos.
O Diário do Centro do Mundo classificou o A Investigação como veículo “ligado ao bolsonarismo” e me descreveu como “jornalista bolsonarista” cujo material foi plagiado pela GloboNews. A Revista Fórum seguiu a mesma linha: “GloboNews é acusada por blogueiro bolsonarista de plagiar PowerPoint”. Um internauta chamou o “plágio do PowerPoint de um bolsonarista feito pela Globo” de “escândalo de desinformação para prejudicar o governo”.
Xico Sá, jornalista e colunista, chamou o material da GloboNews de “trabalho escolar de aluno preguiçoso da 5ª série” e acusou a Globo de “passar recados políticos” e “desprezo pelo jornalismo sério”. André Forastieri, jornalista de televisão, foi além: listou os nomes que deveriam estar no painel — Jair Bolsonaro, Tarcísio de Freitas, Ibaneis Rocha, Cláudio Castro e Roberto Campos Neto — e concluiu que se tratava de “propaganda eleitoral — pior, fake news na cara dura”.
Vários internautas tentaram elaborar a sua própria versão do “PowerPoint” utilizando photoshop ou inteligência artificial. O ex-ator global Tuca Andrada — conhecido nas redes por sua defesa fervorosa do governo Lula — apresentou sua própria versão do painel, reorganizando os círculos com os nomes que a esquerda queria ver no centro. “Agora sim”, escreveu ao publicar uma imagem com nomes como Jair Bolsonaro, Tarcísio de Freitas, Nikolas Ferreira, Ibaneis Rocha e Ciro Nogueira. O ICL, do ex-banqueiro Eduardo Moreira, levou Leandro Demori para uma análise detalhada e a apresentação de um “contrapainel”.
No plano parlamentar, o deputado Paulo Teixeira (PT-SP) criticou a emissora por “associar o presidente Lula ao caso enquanto ignorava figuras com elos reais com Vorcaro e Zettel”. Ivan Valente, deputado federal pelo PSOL-SP, foi o mais enfático: “Que feio, Globo News! A mídia não vai descansar enquanto não envolver o governo Lula nas fraudes de Daniel Vorcaro. Esse PowerPoint é uma VERGONHA! Não há nada nas investigações que envolva qualquer membro do governo! A Globo sente falta das artimanhas da Lava Jato para incriminar Lula!” O senador Lindbergh Farias (PT-RJ) disse ter ficado “indignado” com o painel, reconheceu o pedido de desculpas como “postura correta” .
Os ataques mais duros da semana vieram de ex jornalistas da Globo. Neide Duarte, repórter especial com 42 anos de emissora, escreveu no Instagram que, ao passar pela sala e ver o painel na tela, o material lhe pareceu “um programa de algum culto pentecostal que resolveu fazer o seu jornalzinho rápido para atacar o Lula”. Descreveu uma “cartolina ligando alhos com bugalhos, pão de queijo com fuzil, brincadeira de criança com tornozeleira eletrônica”. E concluiu: “Esse episódio aceita vários nomes, menos o de jornalismo. Dia da vergonha na GNews.”
Ari Peixoto, repórter com 34 anos de Globo, que alegou ter se demitido recentemente, escreveu nos comentários do post de Neide que a emissora havia se tornado “uma arma política, quase um partido autônomo, dirigido por gente ressentida pelas derrotas sucessivas para os candidatos da esquerda”. E encerrou com o que talvez seja a frase mais reveladora de toda a semana: “Preparem-se. Cenas como esta, aliadas à IA, serão muito comuns até outubro. O PowerPoint da Lava Jato vai parecer desenho de criança.”
Na esquerda mais ideológica, a reação foi menos defensiva e, por isso, mais honesta. Jones Manoel, professor universitário e militante do PCBR, foi o único a dizer em voz alta o que a reação petista preferia não admitir: o caso Master “é pluripartidário” e envolve “sim figuras do chamado campo progressista — Jaques Wagner, Lewandowski, Rui Costa e companhia”.
A traição global
A militância petista se sentiu traída — e não por acaso. A traição pressupõe um pacto. E o pacto existia. Durante todo o governo Lula 3, a GloboNews operou em frequência próxima à do governo: coberturas favoráveis, suavização de crises, linha editorial que em muitos momentos contrastou visivelmente com o tratamento dado a administrações anteriores. Talvez outro contraste com governos anteriores ajude a entender por que a emissora tinha crédito suficiente para ser chamada de aliada até a semana passada.
Em três anos — 2023, 2024 e 2025 —, o Grupo Globo recebeu R$ 462 milhões em verbas de publicidade do governo federal, segundo dados do Sicom apurados pelo Poder360. Isso equivale a praticamente metade de todo o investimento publicitário televisivo da administração direta: 50,8% em 2023, 48,2% em 2024. Em quatro anos de governo Bolsonaro, o Grupo Globo havia recebido R$ 228,5 milhões — metade do que recebeu em três anos de Lula.
Enquanto o dinheiro entrava, o silêncio estava garantido. Quando a emissora ousou exibir um painel que colocava o PT no centro do esquema — mesmo com todas as concessões de equilíbrio artificial —, a militância que havia aplaudido a Globo por quatro anos a chamou de golpista, de lixo, de braço da ultradireita.
No dia 23 de março, Andrea Sadi foi ao ar e pediu desculpas. A Fundação Perseu Abramo comemorou a retratação com nota pública. O PT Brasil postou o vídeo com sirenes e a legenda “Compartilhe a verdade!”. Vídeos feitos com inteligência artificial foram divulgados pelos grupos do Pode Espalhar, já denunciados por A Investigação.
A GloboNews não pediu desculpas porque os fatos estavam errados. Pediu porque a pressão foi forte o suficiente para tornar o painel politicamente insustentável. Isso ajuda a explicar o que veio depois. Nos bastidores, a emissora entrou em um “clima de terror”, segundo apuração de Daniel Castro, do Notícias da TV. A direção decidiu demitir os editores responsáveis pela produção e aprovação do material. De acordo com Castro, a arte com as conexões de Vorcaro foi solicitada pela chefia ainda pela manhã, mas só ficou pronta no momento da exibição. Andréia Sadi, apresentadora do Estúdio i, teria visto o painel pela primeira vez já no ar.
A tentativa de contenção não parou ali. O vídeo do programa de sexta-feira foi alterado no Globoplay. A versão atual traz um aviso informando que o conteúdo “foi modificado em sua versão web para correção de erro”. Por volta de uma hora de transmissão, há um corte abrupto no trecho disponibilizado.
O contra-ataque petista
No dia 22 de março, o Poder360 divulgou um áudio do presidente do PT, Edinho Silva, enviado a dirigentes estaduais do partido. Edinho pediu que cada diretório estadual montasse uma “força-tarefa” para monitorar, catalogar e reportar à direção nacional qualquer material crítico ao presidente Lula — outdoor, panfleto, jornal, gráfico, dashboard. Tudo, absolutamente tudo. Com cidade, endereço e, se possível, o nome de quem fez. O objetivo declarado era usar essa base para acionar “órgãos do governo federal” contra os autores, sob o argumento de que atacar o presidente equivale a atacar a instituição Presidência da República.
Depois da repercussão, Edinho disse que se referia apenas a “ofensas” e ataques à honra, não a jornalismo. A distinção, num campo em que o mesmo partido chama qualquer cronologia inconveniente de fake news, é menos tranquilizadora do que parece.
O advogado e professor Emerson Grigolette, coautor dos livros Suprema Desordem e In Verbo Veritas, alertou no X que o PT havia colocado em prática um plano de intimidação e censura, processando diversas pessoas que associaram o partido ou Lula ao caso Master — mesmo quando a associação se baseava em matérias da imprensa nacional e estrangeira.
Segundo Grigolette, as petições justificam as ações alegando que o partido “já sofreu demais nas eleições de 2022 devido a desinformação” e que isso foi objeto de reclamações no TSE com algumas condenações — ou seja, o histórico eleitoral está sendo usado como argumento jurídico para suprimir cobertura sobre o escândalo. Para ele, a campanha eleitoral de perseguição e censura massiva já havia começado.
O que ninguém respondeu
O campo governista não refutou um dado. Não apresentou um documento. Não trouxe uma fonte nova. Destruiu a Globo por ter copiado o painel errado, ameaçou judicializar quem faz gráficos, me chamou de blogueiro bolsonarista — e em nenhum momento explicou por que Vorcaro se reuniu com Lula em dezembro de 2024 sem pauta registrada, por que a nora de Jaques Wagner recebeu R$ 11 mi do Master, por que Ricardo Lewandowski continuou recebendo R$ 250 mil mensais do banco por 21 meses depois de tomar posse como ministro da Justiça, ou por que o CredCesta nasceu, cresceu e foi juridicamente blindado em governos petistas.
Confira aqui os melhores momentos do ataque de pelanca petista:




















