Parte II: Epstein e João de Deus: entre conspirações e uma realidade sombria
Arquivos recentes reativaram a narrativa criada por Sabrina Bittencourt. Nenhuma evidência jamais confirmou a acusação.
Leia a primeira reportagem aqui.
Há anos, de tempos em tempos, a narrativa de que o médium João de Deus teria mantido fazendas de mulheres destinadas à reprodução forçada e à venda de bebês no mercado negro ressurge nas redes sociais. Nos últimos anos, esse retorno ficou mais frequente e passou a aparecer com força também em núcleos de direita que reapresentam as acusações como uma história mal compreendida e injustamente descartada.
Nesta semana, a narrativa ganhou novo combustível com a divulgação de um e-mail surgido no contexto do caso Jeffrey Epstein. Nas redes, a mensagem passou a circular como suposta prova de que o que a ativista Sabrina Bittencourt afirmou anos atrás seria verdadeiro.
Como explicamos na parte 1 desta série de reportagens, o documento é apenas um entre milhões liberados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Embora remetente e destinatário apareçam com os nomes ocultos, é possível inferir que se trata de uma mensagem enviada por alguém de fora do FBI ou do próprio DOJ a um investigador federal.
No campo de assunto, aparece a manchete de uma reportagem afirmando que a mulher que acusou João de Deus de estupro teria tirado a própria vida de forma misteriosa na Espanha, com link para matéria publicada pelo tabloide britânico The Sun. No corpo do texto, o autor afirma que uma mulher teria declarado “on the record” que “isso acontecia no Zorro Ranch” e que Epstein lhe ofereceu dinheiro para “gerar bebês para uso no mercado negro”.
Para entender o caso e o contexto das suspeitas contra João de Deus, é preciso voltar no tempo e relembrar o início das denúncias contra o médium e curandeiro, e a suposta morte misteriosa da ativista brasileira Sabrina Bittencourt.
A ativista e o médium
Sabrina de Campos, então com 38 anos, afirmava ter liderado denúncias contra João Teixeira de Faria, o João de Deus, médium de Abadiânia (GO) acusado por centenas de mulheres de abuso sexual. Criadora da plataforma Coame (Combate ao Abuso no Meio Espiritual), ela também se apresentava como sobrevivente de abuso sexual na infância, que teria ocorrido em uma igreja mórmon frequentada por sua família.
Em janeiro de 2019, poucas semanas após a prisão de João de Deus — ocorrida em 16 de dezembro de 2018 — Sabrina divulgou um vídeo com acusações ainda mais graves. Segundo ela, o médium teria operado por cerca de duas décadas um esquema internacional de tráfico de bebês. Meninas seriam mantidas em cativeiro em fazendas rurais em Goiás e no norte de Minas Gerais, forçadas a engravidar repetidamente, enquanto seus filhos seriam vendidos por até US$ 50 mil a famílias da Europa, dos Estados Unidos e da Austrália. As jovens, ainda segundo Sabrina, seriam assassinadas após cerca de dez anos de “reprodução forçada”.
Sabrina afirmou ter entrevistado mulheres de três continentes que teriam comprado bebês brasileiros supostamente oriundos desse esquema. Com base nessas alegações, o Ministério Público de São Paulo encaminhou os documentos apresentados por ela ao MP de Goiás e ao MP Federal. Sete anos depois, porém, nenhuma evidência das chamadas “fazendas de bebês” foi encontrada.
João de Deus foi condenado a 489 anos e 4 meses de prisão em regime inicial fechado por crimes de estupro, estupro de vulnerável e violação sexual mediante fraude. Somando as 17 ações penais julgadas em primeira instância, ele foi condenado em relação a 56 vítimas. Mas não foi acusado de tráfico de crianças.
O dossiê Sabrina Bittencourt
Naquele período, eu publicava no site Agência Dossiê, um projeto voluntário que mantinha com a jornalista Vanessa Bigaran, voltado à checagem de fatos e ao desmentido de boatos. Àquela altura, o caso João de Deus já havia sido exposto no programa de Pedro Bial, exibido em 7 de dezembro de 2018, e já havia se tornado um escândalo de nível internacional.
Durante uma navegação pelas redes sociais em busca de pautas, encontrei uma publicação de um homem chamado Paulo Pavesi, que afirmava estar desmascarando uma mulher responsável por falsas acusações de tráfico de crianças. Sem conhecer ainda a fundo o conteúdo, manifestei publicamente disposição para investigar o caso.
Posteriormente soube que Paulo Airton Pavesi não era um aventureiro ocasional ou teórico da conspiração. Ele era pai de Paulinho, criança de 11 anos que morreu em abril de 2001 em Poços de Caldas, Minas Gerais. Médicos forjaram laudo de morte encefálica para retirar órgãos do menino enquanto ele ainda estava vivo. O pai começou a investigar após receber uma cobrança indevida pela retirada de órgãos do filho.
Ao longo de décadas, Pavesi descobriu um esquema complexo envolvendo políticos, autoridades policiais e judiciais em uma verdadeira “máfia” de tráfico de órgãos. O caso gerou a CPI do Tráfico de Órgãos na Câmara dos Deputados em 2004. Médicos foram condenados, e em 2022, o médico apontado como chefe do esquema foi finalmente preso. Pavesi refugiou-se na Inglaterra, em 2008, devido a ameaças e chegou a escrever o livro “Tráfico de Órgãos no Brasil – O que a máfia não quer que você saiba” (2014). Ou seja, tratava-se de alguém com experiência concreta envolvendo tráfico humano e redes criminosas protegidas por autoridades.
Dias depois de meu comentário público oferecendo investigar o caso, Sabrina passou a alegar publicamente que eu e outras pessoas estaríamos colocando sua vida em risco. Inicialmente tratei a acusação com descrédito — à época, eu estava acamado, com a perna quebrada após um acidente de trânsito. Pouco depois, porém, a situação escalou: Sabrina publicou nas redes sociais uma longa carta suicida.
A partir desse momento, passei a receber ameaças, algumas anônimas, outras abertas. Fui entrevistado pelo blog Jornalistas Livres, que chegou a me questionar se eu teria qualquer relação com a suposta morte de Sabrina. A entrevista nunca foi publicada.
Diante da escalada, anunciei formalmente que faria uma reportagem independente. Em poucos dias de apuração, já havia reunido material suficiente para publicar o primeiro “Dossiê Sabrina Bittencourt”, no qual expus mentiras, contradições e histórias mal contadas apresentadas por ela. O material viralizou.
Em razão disso, fui contratado pelo Portal Metrópoles para produzir uma investigação ainda mais aprofundada. Ao longo de meses, trabalhei ao lado da jornalista Cleuci de Oliveira, reconstruindo passo a passo a trajetória de Sabrina. Conversamos com familiares próximos e pessoas do convívio íntimo dela — algo que nenhum outro jornalista, no Brasil ou no exterior, havia conseguido até então.
O mistério solucionado
Em abril de 2019, dois meses após o anúncio da suposta morte, publicamos no Metrópoles uma reportagem investigativa que revelou que familiares e pessoas próximas desconfiavam que Sabrina tivesse forjado o próprio suicídio para assumir uma nova identidade.
Vinícius Thiessen, ex-marido de Sabrina e pai de seu filho Gabriel, afirmou à reportagem que a ele não importava onde Sabrina estava escondida, mas o que lhe preocupava era o seu filho, que, segundo ele, se encontrava sob total controle da mãe. Vinícius declarou também que o filho teria dado a entender, em ligação telefônica, que a mãe estaria viva. Outros familiares e amigos, sob condição de anonimato, descreveram Sabrina como “megalomaníaca” e “mitômana” e tinham as mesmas suspeitas.
As circunstâncias da morte apresentavam contradições graves. A ONG Vítimas Unidas, projeto denuncista parceiro de Sabrina, inicialmente informou que ela havia morrido em Barcelona, Espanha. Posteriormente, seu filho mais velho Gabriel Baum declarou que ela teria morrido no Líbano e seria enterrada sob uma oliveira, e que ninguém atestaria a morte de sua mãe.
Posteriormente o ex-marido de Sabrina, o espanhol Rafael Velasco, afirmou em entrevista que o enterro seria adiado para o dia 7 de abril, mesmo dia do aniversário de Gabriel. O problema é que a suposta morte de Sabrina teria ocorrido no dia 2, cinco dias antes, e todos sabem o que acontece com corpos de pessoas falecidas. O corpo começa a se decompor em pouco tempo. Para conservá-lo em boas condições, é necessário mantê-lo em um resfriador de uma funerária. Mas funerárias exigem que seja apresentado um atestado de óbito. E para isso é preciso um laudo médico e registro em delegacia. Isso é particularmente sensível no caso de mortes de estrangeiros e, principalmente, em casos suspeitos de homicídio.
Mais importante: o Itamaraty confirmou que não foi solicitado nenhum documento ou pedido de traslado de corpo de pessoa com nome de Sabrina Bittencourt. Ou seja, não há corpo. Não há certidão de óbito. Não há registro de enterro em Espanha, Líbano ou Brasil.
A amnésia e outras estórias
A reportagem também identificou um padrão recorrente de autopromoção e fabricação de narrativas. Ao longo dos anos, Sabrina criou dezenas de organizações não governamentais e dezenas de projetos sociais, e figurou em diversas reportagens sobre seu “empreendedorismo em série”.
Em 2007, ganhou atenção da mídia ao promover seu segundo casamento como a primeira “boda ecologicamente correta” do Brasil — uma estratégia de marketing pessoal que virou pauta até no programa Pequenas Empresas, Grandes Negócios. Em 2017, participou da exposição “Tragam seus filhos para ver gente nua”, onde era exibida nua em frente a crianças na performance “Comer y Ser Comida”.
Em 2014, o programa Fantástico deu destaque à sua alegação de que teria sofrido uma amnésia repentina durante um almoço em família. Segundo ela, esqueceu-se dos então últimos 11 anos da sua vida, não reconhecia o marido, nem os filhos mais novos: “Na minha mente, eu estava com 21 anos”, dizia.
A história chegou a ser transformada em um TEDx Talk, no qual Sabrina narrava dramaticamente como teria “esquecido” da própria família. Anos depois, familiares próximos descreveram o episódio como mais uma de suas fabulações em busca de atenção midiática.
Outras alegações bizarras ao longo dos anos incluíam:
Ter sofrido “estupros mentais” de 30 homens de uma comunidade mórmon;
Ter ajudado na prisão de um homem que a abusou desenhando um retrato falado;
Fazer sexo com deficientes para “ajudá-los” a superar traumas;
Receber a namorada de seu filho adolescente e arrumar o quarto para eles fazerem sexo;
Ter trabalhado na NASA e recebido o título de Honoris Causa pela Cátedra da Unesco em Barcelona;
Ter sido atacada por terroristas em Paris;
Ter um chip implantado na cabeça e ser, portanto, um “ciborgue”;
Ter sido curada de um câncer com ervas naturais;
Ter um filho que era um “gênio” da culinária.
As fazendas fantasma
Ao longo da apuração, recebi relatos diretamente da equipe do programa Conversa com Bial. Sabrina Bittencourt participou, sim, da coleta inicial de depoimentos de algumas vítimas de abuso sexual que posteriormente seriam ouvidas pela equipe do programa de Pedro Bial. Ela também havia ganhado visibilidade ao se associar a denúncias envolvendo líderes espirituais, como no caso Prem Baba, em 2018.
O guru espiritual brasileiro foi acusado de abuso sexual por uma discípula com quem manteve relacionamento entre 2008 e 2010. A denúncia foi arquivada em outubro de 2019 a pedido da própria promotora que investigou o caso por insuficiência de provas. Prem Baba admitiu o relacionamento, mas alegou que foi consensual.
Em reportagem publicada por Juliana Dal Piva na revista Época, uma mulher que permaneceu anônima apresentou denúncias contra Prem Baba. A identidade nunca foi revelada, mas pessoas próximas ao líder espiritual levantaram a hipótese de que se tratasse da própria Sabrina, já que, à época, ela frequentava os festivais do guru.
Esse histórico revelou que Sabrina teria percebido o potencial de projeção pública associado a denúncias de abuso sexual e soube explorá-lo. Seu estilo exagerado, teatral e dramático lhe rendia atenção constante, além de prestígio em determinados círculos progressistas e midiáticos.
Foi justamente esse excesso que precipitou sua queda. Segundo integrantes da equipe do programa de Pedro Bial, Sabrina chegou a ser cogitada para participar da edição dedicada ao caso João de Deus. A participação, no entanto, foi cancelada após uma série de exigências consideradas completamente fora da realidade: ela demandou a disponibilização de um avião particular cujo piloto só saberia o destino final após a decolagem, além do fornecimento de coletes à prova de balas e escolta armada.
A equipe concluiu que se tratava de alguém emocionalmente instável e decidiu cancelar a participação. A decisão provocou uma reação explosiva. Familiares relataram que esse tipo de comportamento não era incomum: em outra ocasião, por exemplo, Sabrina teria reagido de forma igualmente histérica ao ser confrontada com o fato de que, apesar de se declarar vegana radical, mantinha uma geladeira abastecida com carne.
Foi nesse contexto de rejeição e falta de protagonismo que surgiu a narrativa das chamadas “fazendas de mulheres para procriação”. Em um vídeo gravado em local não identificado, Sabrina passou a acusar João de Deus de operar um esquema internacional de tráfico de bebês.
Àquela altura, o médium já estava preso havia semanas, respondendo por centenas de acusações reais de abuso sexual. Ainda assim, segundo a lógica adotada por Sabrina, não bastava denunciar crimes comprovados: era preciso elevar o grau da acusação para produzir maior impacto e recuperar os holofotes.
O colapso da narrativa
A história, porém, não resistia ao escrutínio mais básico. Como um esquema dessa magnitude poderia operar por 20 anos sem deixar rastros? Onde estariam os registros de nascimento forjados? Como bebês cruzariam fronteiras internacionais sem documentação? Por que nenhuma das supostas vítimas das “fazendas” se apresentou, mesmo após a prisão de João de Deus e a ampla cobertura midiática do caso? Mesmo assim, a denúncia foi formalmente recebida pelo Ministério Público.
Em janeiro de 2019, Sabrina deu depoimento informal à promotora Gabriela Manssur, então coordenadora do Núcleo de Gênero do Ministério Público de São Paulo (MP-SP). Manssur colheu o relato por videoconferência, devido a supostas ameaças contra a ativista, e encaminhou o relatório ao Ministério Público de Goiás (MP-GO) — jurisdição principal do caso — e ao Ministério Público Federal (MPF), dada a alegação de tráfico internacional.
No MP-GO, além de Sabrina, foi ouvida Maria do Carmo, advogada ligada ao grupo Vítimas Unidas. Os depoimentos foram colhidos pelas promotoras Patrícia Otoni e Gabriella de Queiroz, com participação da delegada Karla Fernandes Guimarães, da Polícia Civil, que afirmaram que tratariam os fatos com “a mesma seriedade e celeridade” dispensadas às demais denúncias.
Sete anos depois, em 2026, nenhuma evidência foi encontrada. Nenhuma vítima das supostas fazendas se apresentou. Nenhum registro de nascimento forjado foi localizado. Nenhuma documentação de travessia internacional de bebês apareceu. O único elemento frequentemente citado pelos apoiadores é o fato de o Ministério Público ter recebido a suposta documentação. Mas este é o procedimento padrão diante de qualquer denúncia. O MP tem o dever legal de apurar qualquer denúncia de crime que receba, mas acolher uma denúncia não significa que os fatos alegados sejam verdadeiros.
Também não fazem sentido as alegações de que o MP foi omisso ou conivente. Pelo contrário, as promotoras do caso demonstraram interesse e proatividade no combate aos crimes comprovados, obtendo condenações múltiplas contra João de Deus — que já estava preso e cumpria pena em regime fechado. Elas estariam mais do que interessadas em avançar com qualquer linha investigativa sólida que surgisse.
O ponto final
A refutação feita por Paulo Pavesi foi devastadora. Ele publicou uma série de vídeos refutando ponto a ponto as alegações de Sabrina, usando sua experiência em investigação de tráfico humano para demonstrar as inconsistências e impossibilidades logísticas do suposto esquema.
Pouco depois, Sabrina divulgou a carta de suicídio numa clara tentativa de gerar comoção. Ainda que o assunto tenha gerado grande atenção, inclusive internacional, isso não se sustentou no longo prazo. As pessoas começaram a desconfiar, e até a grande imprensa passou a questionar as diversas versões contraditórias apresentadas. Mas foi a publicação de nossa reportagem que consolidou o colapso da narrativa.
O documentário sobre sua vida, que vinha sendo produzido desde 2016 pela cineasta Maiara de Paula, foi descontinuado. Um projeto de filme inspirado em sua história, que chegou a ser cogitado com a atriz Ingrid Guimarães no papel principal, também acabou abandonado.
Após a publicação da reportagem no Metrópoles, nosso trabalho foi material de estudo na Universidade de Columbia, nos EUA. O ponto central era a suposta controvérsia na cobertura do assunto. Na época, o site The Intercept Brasil publicou um artigo me acusando de estar promovendo uma “caça” ao corpo de Sabrina e defendendo que, se ela realmente estivesse morta, eu seria insensível com a família, se estivesse viva, eu estaria a colocando em risco de vida. Mesmo assim, a jornalista autora da reportagem elogiou nosso trabalho “fundamentado e responsável”.
Tempos depois, fui convidado a visitar os estúdios da Globo para conhecer pessoalmente Pedro Bial. No encontro, o jornalista veterano elogiou o trabalho investigativo que havíamos realizado. Graças às nossas revelações, sua equipe finalmente pôde ter os créditos devidos sobre a investigação do caso João de Deus. Com isso, a emissora produziu dois documentários sobre o caso, destacando o trabalho da equipe de reportagem.
Durante aquele período, chegamos a elaborar um plano para trabalho conjunto em pautas sensíveis: uma investigação cruzando informações sobre milícias e políticos no Rio de Janeiro, além de uma pauta sobre medalhas concedidas pelas Forças Armadas. A parceria, no entanto, nunca saiu do papel. Meses depois, a jornalista Juliana Dal Piva publicava uma reportagem investigativa no O Globo com a mesma abordagem que eu havia proposto.
Os danos colaterais
Mesmo com todas essas evidências, Sabrina continuou a circular por certos círculos progressistas. Muitos de seus apoiadores passaram a defender a tese de que ela teria fingido a sua morte para se livrar dos “assassinos de João de Deus”.
Muitos, mesmo os convencidos de que ela realmente contou mentiras, acreditavam e alegavam que ela teria feito mais bem do que mal. Eu, no entanto, demonstrei que Sabrina destruiu vidas reais com seu denuncismo desenfreado e fabricação de provas. Um caso particularmente grave foi o do professor de yoga André De Rose, que teve a carreira completamente destruída por uma falsa acusação de abuso sexual fabricada por Sabrina. Ela jamais apresentou qualquer prova. Nenhuma vítima apareceu para fazer denúncia formal. Nada. Mesmo assim, uma simples acusação nas redes sociais foi suficiente para acabar com a reputação de André e afastar seus alunos.
Durante a investigação, descobri que André e sua ex-esposa — uma doula adepta do naturalismo radical — disputavam a guarda do filho. A mãe realizava clara alienação parental e maltratava a criança: não havia dado ao menino sequer as vacinas básicas obrigatórias. Curiosamente, a mesma mulher passou de antivacina fervorosa a “vacilover” entusiasta durante a pandemia.
Sabrina atuou ativamente no caso criando um atestado escolar falso para derrubar a acusação do pai de abandono intelectual por parte da mãe. Tempos depois, prestei depoimento como testemunha no processo judicial e apresentei as descobertas da nossa investigação sobre Sabrina. Com isso, André De Rose conseguiu obter a guarda do filho e finalmente recomeçou a vida após anos de sofrimento causado por uma mentira.
A narrativa ressuscitada
Ao longo dos anos seguintes, perfis de direita e conservadores passaram a resgatar e adotar as narrativas criadas por Sabrina para empurrar suas próprias agendas políticas. Isso se intensificou principalmente após as denúncias da então ministra e hoje senadora Damares Alves sobre exploração sexual infantil na Ilha de Marajó, no Pará. Curiosamente a própria Sabrina a chamava pejorativamente de “Sinistra Damares” e espalhava a falsa história de que ela raptava crianças em aldeias indígenas.
O fato é que tráfico e exploração sexual de crianças são problemas reais e graves no Brasil. Eu mesmo já reportei em A Investigação sobre redes de abuso infantil que utilizam, por exemplo, os chats de bate-papo do portal UOL para comercializar vídeos com cenas de abuso sexual, inclusive envolvendo bebês. Esses crimes existem, são comprovados e precisam ser combatidos com seriedade.
O que as acusações fantasiosas de Sabrina fizeram foi desacreditar denúncias legítimas. Ao exagerar e inventar esquemas inexistentes envolvendo João de Deus, ela manchou a credibilidade do movimento de proteção à infância e deu munição para criminosos reais.
Memórias póstumas de Sabrina
Ao longo dos anos, recebi uma série de mensagens anônimas e contatos suspeitos oferecendo supostas informações exclusivas sobre o paradeiro de Sabrina Bittencourt. As abordagens eram frequentemente acompanhadas de exigências de confidencialidade e alegações extraordinárias sem qualquer comprovação verificável.
Em uma delas, o remetente afirmava possuir material envolvendo Felipe Neto e outras figuras públicas. Em outra, mais recente, foi me oferecida a “oportunidade” de participar como intermediador de um leilão de fotos, vídeos e documentos que comprovariam que Sabrina estaria viva, além de imagens comprometedoras com “políticos importantes” e celebridades. O interlocutor afirmava já ter iniciado negociações com uma produtora americana por US$ 700 mil (cerca de R$ 3,6 milhões) pelo material, ao mesmo tempo em que buscava interessados no Brasil.
O padrão recorrente e o conteúdo das mensagens levantam a hipótese de que parte dessas comunicações tenha sido enviada pela própria Sabrina Bittencourt.
A própria construção de sua biografia pública na internet segue lógica semelhante. O verbete sobre Sabrina na Wikipédia apresenta trechos elogiosos, reproduz alegações não comprovadas e omite controvérsias relevantes. O histórico de edições mostra que boa parte do conteúdo foi inserida por contas ligadas ao seu círculo direto.
Registros da própria plataforma mostram que o perfil de seu filho Gabriel foi o primeiro a editar o verbete. Após este receber advertências de administradores por edições consideradas não construtivas, as diversas modificações passaram a ser realizadas por uma conta vinculada ao projeto Coame, iniciativa criada pela própria Sabrina. O verbete sobre Sabrina na Wikipédia talvez seja a primeira autobiografia escrita pós-morte.
Leia a terceira reportagem aqui.



