Parte III: Epstein e João de Deus: entre conspirações e uma realidade sombria
Muito além da pedofilia e do tráfico sexual, os arquivos revelam a obsessão de Epstein por eugenia, clonagem e controle reprodutivo.
Leia a segunda reportagem aqui.
Se, no caso de João de Deus, a história das “fazendas de bebês” se dissolveu por falta absoluta de evidências, no caso de Jeffrey Epstein o cenário é radicalmente distinto. Aqui não se trata de uma narrativa fabricada a posteriori por terceiros, mas de um conjunto documentado de informações que mostram um homem empenhado em transformar obsessões eugenistas em projetos concretos.
Desde o início dos anos 2000, Jeffrey Epstein falava abertamente sobre sua intenção de “semear a raça humana” com seu próprio DNA, que considerava geneticamente superior. Epstein declarou mais de uma vez querer engravidar simultaneamente dezenas de mulheres em seu rancho no Novo México, o Zorro Ranch. As declarações foram repetidas em jantares privados, encontros acadêmicos e conversas com cientistas, empresários e intelectuais que frequentavam seu círculo.
A divulgação recente de documentos ligados ao caso Epstein, porém, reforça que essas ideias não eram apenas delírios megalomaníacos de um bilionário excêntrico. O material mostra que o projeto foi discutido por ele de forma recorrente e concreta, com referências a financiamento científico, infraestrutura e locais onde tais planos poderiam ser executados, incluindo o Zorro Ranch.
Os materiais mostram também que Epstein pode ter colocado em prática seu plano macabro ao engravidar diversas vezes uma menina de 16 anos com autismo e síndrome de Down. Um diário escrito pela menina, revelado nos arquivos, revela que ela foi submetida a uma série de abusos físicos e sexuais, e que um bebê do sexo feminino teria nascido, a partir destes abusos de Epstein, e teria sido tirado da mãe logo após o nascimento.
Eugenia e evolução
Ao longo de quase duas décadas, Jeffrey Epstein direcionou milhões de dólares a universidades e projetos científicos capazes de materializar suas ambições evolucionárias. O epicentro dessa estratégia foi Harvard. Entre o fim dos anos 1990 e 2007, o financista destinou cerca de US$ 9,2 milhões à universidade, em grande parte canalizados para o Program for Evolutionary Dynamics, então dirigido pelo matemático e biólogo evolucionista Martin Nowak.
O vínculo ultrapassou largamente o padrão de um doador externo. Segundo investigação de Harvard, divulgada em 2021, Epstein utilizou instalações da universidade mais de 40 vezes, inclusive após sua condenação em 2008 por crimes sexuais contra menores, muitas vezes acompanhado por jovens mulheres apresentadas como assistentes.
Em março de 2014, um e-mail entre Nowak e Epstein revelou uma troca bizarra e até hoje inexplicada. Nowak escreveu: “Nossa espiã foi capturada após completar sua missão”. Epstein respondeu: “Você a torturou?”. O contexto da conversa nunca foi esclarecido.
Em 2021, após investigação, Harvard suspendeu Nowak de supervisionar pesquisa de graduação por 2 anos e permanentemente fechou o Program for Evolutionary Dynamics. As sanções disciplinares foram posteriormente levantadas em 2023, mas o programa jamais foi reaberto. Hoje Nowak atua como professor na Universidade de Viena, na Áustria.
Epstein também manteve contato direto com o geneticista George Church, professor da Harvard Medical School e uma das figuras mais influentes do mundo em engenharia genética, edição de DNA e biologia sintética. Church recebeu recursos associados à rede de financiamento ligada a Epstein e manteve comunicações com o financista sobre temas como clonagem, regeneração de tecidos e engenharia genética avançada.
Nos arquivos liberados, uma troca de e-mails de fevereiro de 2016 (assunto: “Re: Egenesis”) mostra Epstein propondo uma reunião presencial com George Church e sua equipe, incluindo Luhan Yang — especialista em CRISPR e clonagem — e um colaborador de nome “Geoff”. O termo no assunto, “Egenesis”, refere-se à startup cofundada por Church e Luhan Yang em 2015, focada em xenotransplantes: porcos geneticamente editados para produzir órgãos compatíveis com humanos.
Após o escândalo vir a público, Church pediu desculpas e atribuiu o relacionamento ao que chamou de “visão de túnel científica”, afirmando não ter participado de atividades ilegais.
A rede de influência
A rede de financiamento também circulou por projetos ligados ao MIT, especialmente por meio do MIT Media Lab, então dirigido por Joi Ito, empreendedor e investidor de tecnologia que atuava como diretor do laboratório. Ito era figura central na captação de recursos privados para pesquisas em inteligência artificial, biotecnologia, criptomoedas e inovação digital. O dinheiro raramente fluía de forma direta. Epstein operava como financiador e, ao mesmo tempo, como articulador de novos aportes, aproximando outros doadores ricos de laboratórios e centros de pesquisa.
Entre 2013 e 2017, o MIT Media Lab recebeu US$ 525 mil diretamente de Epstein em seis doações. O financista também ajudou a canalizar pelo menos US$ 7,5 milhões de outros doadores ao laboratório — incluindo US$ 2 milhões de Bill Gates — consolidando-se como financiador e captador de recursos. Mesmo após ser classificado internamente como doador “desqualificado” por causa da condenação de 2008, o Media Lab continuou aceitando contribuições associadas a ele, algumas marcadas como anônimas para evitar disclosure público e interno.
Em uma mensagem a Ito, Epstein sugeriu enviar “duas parcelas de 50 mil dólares para ver se a linha toca”. Parte desses recursos chegou à Digital Currency Initiative do Media Lab, que ajudou a financiar suporte inicial ao desenvolvimento do Bitcoin-core, consolidando um ecossistema onde se cruzavam criptomoedas, biohacking e projetos de engenharia genética.
O esquema veio à tona em setembro de 2019, quando investigação de Ronan Farrow no The New Yorker revelou a extensão das relações entre Epstein e o laboratório. A reportagem mostrou que Ito não apenas aceitou recursos após a condenação do financista, como o consultava sobre o uso do dinheiro e buscava ocultar sua origem. Diante da repercussão, Ito renunciou ao cargo em setembro de 2019 e deixou conselhos de diversas fundações. Pesquisadores do Media Lab também pediram demissão em protesto. Investigações independentes concluíram que ele cultivou Epstein como doador e como “porta de entrada” para outros bilionários.
O financiamento de Epstein a universidades de elite não era filantropia. Funcionava como investimento estratégico em acesso, legitimidade e infraestrutura científica. Cada doação ampliava sua rede de influência e aproximava projetos de engenharia genética, reprodução assistida e transumanismo de um ambiente disposto a aceitar recursos privados em troca de autonomia quase total e silêncio sobre a origem dos fundos.
Epstein cultivou relações próximas com intelectuais de diversas áreas — desde o linguista Noam Chomsky, com quem trocou e-mails sobre o Brasil e o presidente Lula; o físico Stephen Hawking (falecido em 2018), que participou de uma conferência financiada por ele nas Ilhas Virgens; até o biólogo evolutivo Richard Dawkins, que viajou no jato de Epstein (conhecido como “Lolita Express”) em um voo para uma conferência na Califórnia, em 2002.
O designer de bebês
Epstein também discutiu projetos independentes de bebês geneticamente “projetados” para exibir características consideradas desejáveis. A divulgação recente de seus arquivos mostra que, em 2018, ele trocou diversos e-mails e manteve reuniões sobre “design de bebês” com Bryan Bishop, desenvolvedor de Austin, Texas, ligado ao universo do Bitcoin e do biohacking, autodenominado “cientista maluco” que lhe apresentou um plano detalhado de edição genética aplicada à reprodução humana.
Segundo slides de captação de recursos posteriormente revelados por reportagens, o projeto de Bishop tinha ambições que ultrapassavam a pesquisa genética convencional — e conscientemente evitava a jurisdição americana.
A proposta central era aplicar terapia genética diretamente em células produtoras de esperma de um voluntário através de microinjeções nos testículos. Esses espermatozoides modificados carregariam alterações genéticas específicas e seriam utilizados em fertilizações in vitro, com o objetivo de gerar crianças já portadoras de determinados aprimoramentos biológicos. Bishop estava “prosseguindo com mais testes em camundongos” no Institute of Gerontology da Academia de Ciências Médicas da Ucrânia, em Kiev, onde realizava cirurgias e microinjeções nos animais.
Os materiais de apresentação descreviam um conjunto de características que poderiam ser incorporadas por meio dessa engenharia genética: crescimento muscular elevado sem necessidade de exercício intensivo, resistência ampliada a doenças cardíacas, Alzheimer e diabetes tipo 2, controle genético do peso corporal, aumento da longevidade e aprimoramento de habilidades cognitivas.
O objetivo declarado nos próprios slides era direto: produzir o “primeiro humano com esperma transgênico” e, a partir daí, “começar a receber pré-encomendas”. A formulação, típica de linguagem empresarial e de startups de tecnologia, tratava a manipulação genética humana como um produto escalável.
Nos e-mails, Bishop questiona explicitamente o grau de seriedade de Epstein antes de avançar. Epstein respondeu demonstrando interesse concreto e oferecendo U$1,7 milhão por ano durante até cinco anos, mais U$1 milhão para montagem inicial do laboratório. Mas deixou claro que preferia não aparecer publicamente como financiador e que “não pode fazer nada onde regras dos EUA se aplicam”. Bishop respondeu que poderiam evitar escrutínio através de “parcerias com clínicas no exterior” — estratégia que explica a escolha da Ucrânia.
Quando Bishop explicou que sua técnica envolvia injeção direta nos testículos do pai, Epstein respondeu de forma reveladora: “Eu gosto de implantar embrião, esperar 9 meses, grande final”. A preferência de Epstein não era apenas técnica — refletia sua obsessão com gravidez e nascimento como processo de “criação” sob seu controle.
O MIT Technology Review fez tour virtual (via Skype) do laboratório em Kiev no início de 2019 e documentou os experimentos: o guia, Dmytro Krasnienkov, mostrou um camundongo aberto na bancada do microscópio e close-ups de corantes sendo injetados nos testículos. Krasnienkov confirmou que estava disposto a continuar os testes enquanto Bishop pagasse. Até então, nenhum experimento havia conseguido produzir filhotes de camundongo transgênicos.
Transumanismo
Além de universidades e indivíduos, Epstein recorreu a estruturas corporativas próprias para dar suporte a seus interesses. Registros nas Ilhas Virgens indicam que a Southern Trust Company — entidade ligada a Epstein — declarava atuar em “banco de dados de DNA e mineração de dados”, além de análise financeira biomédica, para justificar incentivos fiscais concedidos em 2013.
Essa mesma estrutura patrocinou eventos científicos e educacionais locais, contribuindo para a construção de uma fachada filantrópica respeitável que facilitava o acesso a pesquisadores, acadêmicos e instituições para uma agenda muito mais obscura.
Paralelamente, Epstein destinou recursos a organizações e iniciativas associadas ao transumanismo, corrente que defende o uso de tecnologia para superar limitações biológicas humanas. Entre os expoentes contemporâneos desse debate está Elon Musk, que defende a necessidade de ampliar a reprodução de indivíduos com alto desempenho intelectual.
Entretanto, nos discursos de Epstein essas ideias apareciam frequentemente vinculadas a temas como melhoramento genético e engenharia humana. O objetivo final nunca foi oculto: Epstein acreditava possuir um patrimônio genético superior e queria reproduzi-lo deliberadamente, usando ciência, dinheiro e poder para controlar o processo. Assim, as experiências eugênicas do século XX, especialmente as políticas raciais e reprodutivas do nazismo, agora são reembaladas com linguagem futurista e tecnocientífica.
Após sua morte, um aderente do transumanismo revelou ao New York Times que Epstein havia deixado instruções para que sua cabeça e seu pênis fossem congelados — prática conhecida como criogenia.
A obsessão pelo código genético
Entre 2016 e 2017, Jeffrey Epstein passou a coletar material genético de pessoas específicas, usando testes comerciais de DNA, e, paralelamente, demonstrou interesse por objetos com potencial carga genética em larga escala. Em 2017, Lesley Groff, assistente executiva de Epstein por anos, tentou encomendar 30 kits de teste “Health and Ancestry” totalizando mais de US$ 6 mil. O destinatário formal seria Sultan Ahmed bin Sulayem, presidente da gigante logística DP World, de Dubai, descrito por Epstein em comunicações internas como “amigo íntimo pessoal” desde o início dos anos 2000.
A encomenda chamou a atenção do setor de compliance da própria 23andMe, que entrou em contato para entender a finalidade de uma compra tão incomum. A explicação enviada por Groff afirmava que Sultan teria recebido um kit pessoal de Epstein como presente, gostado da experiência e decidido que “as pessoas com quem trabalha” também participariam. A troca de e-mails revela que Groff perguntou explicitamente se haveria como evitar a vinculação nominal de cada kit a um indivíduo, contrariando o procedimento padrão da empresa. Também enfatizou que Sultan “não queria esperar mais”, indicando urgência extrema. Os kits seriam transportados em um voo da Emirates para Dubai.
Pouco depois, a 23andMe cancelou a operação, citando violação de seus termos de serviço, que restringem o uso a fins pessoais e proíbem a distribuição internacional ou revenda não autorizada dos testes. O cancelamento não encerra a história. Documentos mostram que Epstein já havia enviado kits de DNA como presentes a outras figuras públicas como Woody Allen e de sua esposa, Soon-Yi Previn, o linguista Noam Chomsky e a banqueira Ariane de Rothschild. Em março de 2017, Groff ainda encomendou outros kits pela Amazon, com uma anotação manuscrita: “for Jeffrey to give as gifts”. Não se sabe quem recebeu esses testes nem como foram utilizados.
Em fevereiro e março de 2017, três fragmentos do Kiswa, o tecido negro bordado em ouro que cobre a Kaaba, em Meca, foram enviados da Arábia Saudita para Epstein. O envio foi intermediado por empresários do Golfo e seguiu a rota Arábia Saudita–Reino Unido–Flórida, com destino final à ilha de Epstein nas Ilhas Virgens Americanas. Um dos fragmentos era descrito como parte interna da Kaaba; outro havia sido usado na cobertura externa; o terceiro era do mesmo material, mas não utilizado. Para fins alfandegários, ao menos uma das peças foi classificada como “obra de arte”.
Em um e-mail de março de 2017, a remetente explica a Epstein o significado religioso do tecido: ele teria sido tocado por milhões de fiéis muçulmanos, de diferentes correntes, durante os rituais de circunvolução, absorvendo, segundo a crença, orações, lágrimas e pedidos. Em outra comunicação associada ao mesmo núcleo documental, Groff envia um kit de teste de DNA à intermediária do envio do Kiswa. O propósito nunca é explicitado.
Não se sabe se Epstein tenha conseguido extrair ou analisar DNA a partir desses fragmentos, ou se isso seria tecnicamente viável nas condições descritas. Entretanto, o mesmo Epstein que financiava pesquisas genéticas, discutia clonagem com cientistas e negociava projetos de “designer babies” aparece tentando acumular material genético — individual e potencialmente coletivo — por meios não convencionais.
O diário secreto e as “incubadoras humanas”
As discussões de Jeffrey Epstein sobre reprodução controlada, eugenia e engenharia genética não ficaram restritas a conversas teóricas com cientistas e financiamentos acadêmicos. Um diário revelado na recente leva de arquivos tornados públicos pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos descreve, em primeira pessoa, como essas ideias podem ter sido testadas na vida real de uma adolescente sob controle direto de Epstein e Ghislaine Maxwell.
Socialite britânica, Ghislaine é filha do magnata da mídia Robert Maxwell e foi, durante décadas, parceira de Epstein, atuando como intermediária no recrutamento e na preparação de jovens que posteriormente seriam abusadas pelo financista. Em 2021, foi condenada pela Justiça dos Estados Unidos por tráfico sexual de menores e outros crimes relacionados. Cumpre pena de 20 anos de prisão em um presídio federal americano.
Leia os diários aqui: [Parte 1], [Parte 2] [Parte 2], [Parte3] e [Parte 4].
O diário está parcialmente escrito em código, utilizando um sistema de cifra simples conhecido como rail fence cipher, no qual as frases precisam ser lidas em zigue-zague, alternando letras de linhas superiores e inferiores. Entre os trechos cifrados, há recortes de revistas, imagens de ultrassom coladas e poemas sobre bebês mortos. A escrita é fragmentada, angustiada e recorrente: gravidez, procedimentos médicos, perda, repetição.
A autora, cuja identidade permanece em sigilo, tinha 16 anos quando foi levada para a órbita de Epstein e Maxwell. Diz ter sido enganada pela própria mãe e enviada a uma festa onde conheceu a “senhora britânica” que a convidou para ir à Flórida “aprender coisas novas”. Uma vez sob controle do grupo, passa a se descrever como “propriedade especial” e, em seguida, como “incubadora humana”.
A ideia de reprodução dirigida aparece explicitamente. Em um dos trechos mais reveladores, a adolescente questiona por que fora escolhida: fala da cor dos olhos, do cabelo e da habilidade musical — elementos que, segundo ela, eram citados como sinais de “bons genes”. A própria autora registra o estranhamento: aquilo lhe parecia “nazista”. Em outro momento escreve que sente falta da pessoa que era antes de ser transformada em incubadora.
O diário descreve múltiplas gestações. Em uma delas, relata um procedimento médico conduzido por um profissional que não falava diretamente com ela. Em outra passagem, registra estar com mais de 20 semanas de gravidez enquanto Epstein e Maxwell discutiam o que fazer. Ele não queria “procedimento”; ela queria. O tempo era “crítico”, mas ninguém lhe perguntava nada. A autora escreve que não queria ficar “amarrada a Jeffrey pelo resto da vida”.
O episódio central do diário é o parto de uma menina, ocorrido em 22 de abril — provavelmente em 2002. A autora relata que foi levada a uma casa próxima à residência de Epstein em Palm Beach. Uma parteira francesa experiente conduziu o parto, descrito como difícil e cercado de sangue. A criança nasceu pequena, com cerca de dois quilos. A mãe adolescente pôde segurá-la e alimentá-la por alguns minutos.
Quinze minutos depois, um homem chegou para levá-la. A parteira prometeu que a criança estaria segura. No corredor, Maxwell comentou que a bebê “era linda”. O uso do tempo passado — “era” — é registrado pela autora como um choque. O diário retorna repetidamente ao momento: o cheiro da criança, o peso leve nos braços, o desaparecimento abrupto. “Só tive 10 a 15 minutos para segurar e alimentar antes de a levarem”, escreve. Em outra página: “Ela é minha. Quero ela de volta.”
O documento sugere que esse não foi o único episódio. Em trechos posteriores, a autora menciona outros procedimentos e utiliza o plural ao se referir a perdas. Pergunta se aquilo foram “assassinatos” e se isso a tornaria uma “assassina”. A linguagem revela culpa profunda e ausência total de controle sobre o próprio corpo.
Há também a descrição de uma terceira gestação avançada, com ultrassom colado no diário. Ela registra ter ouvido os batimentos cardíacos mesmo quando tentaram impedir que escutasse. A disputa entre Epstein e Maxwell sobre manter ou interromper a gravidez aparece novamente. A autora escreve em desespero: não queria outro procedimento, mas também não queria continuar.
O relato contido no diário é coerente com outras denúncias já conhecidas. Virginia Giuffre, uma das principais vítimas de Epstein, afirmou que em 2002, quando tinha 18 anos, recusou uma proposta direta de Epstein e Maxwell para gerar um filho do casal. Segundo ela, a oferta incluía uma mesada de US$ 200 mil, moradia de luxo e todas as despesas pagas, desde que abrisse mão de qualquer direito legal sobre a criança. Ela rejeitou a proposta.
Segundo mensagens recentemente divulgadas, Epstein teria tido um filho com uma mulher não identificada. Um e-mail de 2011 enviado por Sarah Ferguson parabeniza Epstein pelo nascimento de um “baby boy” e afirma ter recebido a notícia por meio do “duque”, referência a seu ex-marido, o príncipe Andrew. O irmão de Epstein, Mark Epstein, e outros familiares negam que ele tenha tido filhos.
A Rede de Abusadores
Ao longo do diário encontramos relatos de dezenas de abusos cometidos por pessoas poderosas no círculo de Epstein. “Não importa quão longe você esteja. Não importa o quão bons você acha que eles são. Mesmo o velho presidente! Eles vão pegar você. Ele deveria estar pensando na Chelsea! Nojento! Em um avião num iate em NY, em DC, na vinha. Na ilha. Em Palm Beach. Não importa”, escreveu.
Os nomes aparecem no documento em tom confuso e fragmentado, muitas vezes misturados a recortes de revistas e anotações cifradas. Parte dessas figuras já havia surgido em investigações, depoimentos e processos relacionados a Epstein; outras aparecem apenas no diário, sem confirmação independente.
Entre os nomes citados estão o advogado Alan Dershowitz, o ex-senador George Mitchell, o economista Larry Summers, o príncipe Andrew, o produtor de cinema Harvey Weinstein, os empresários de tecnologia Ted Leonsis e Steve Case, o banqueiro Jes Staley — que, segundo o relato, teria deixado marcas sangrentas em seus braços com um cinto.
Em um trecho a autora diz que acadêmicos e intelectuais seriam “porcos que se dizem inteligentes e falam sobre Harvard que agiam pior que animais”. Menciona os nomes dos cientistas Lawrence Krauss e Marvin Minsky, que segundo ela seriam nojentos. A menina também cita um tal “Sr. Novak” que ela sentiu pena porque estaria tão desconfortável diante da situação tanto quanto ela. É provável que se trate de Martin Nowak.
O agente de modelos francês Jean-Luc Brunel aparece no diário como instrumento de punição: quando ela tentou fugir, foi enviada de volta a ele. “6 semanas não foram nem dadas antes de ser enviada de volta. Punição por tentar correr”.
Brunel foi um dos principais recrutadores de Epstein por décadas, operando uma rede internacional de aliciamento de jovens modelos, muitas delas menores de idade, recrutadas na Europa Oriental e também no Brasil sob a promessa de carreira internacional. Preso na França em 2020 sob acusações de estupro de menores e tráfico sexual — tal como Epstein —, Brunel foi encontrado morto em fevereiro de 2022 em sua cela na prisão, em aparente suicídio por enforcamento, antes de ir a julgamento.
Jane Doe a “boneca humana”
Mas um nome se destaca tanto pelos detalhes viscerais particularmente específicos quanto pelo fato de revelar detalhes sobre a autora do diário. Em um trecho, a menina descreve um encontro violento na townhouse de Epstein em Manhattan com o empresário Leon Black, cofundador da Apollo Global Management.
“Aquele gordo me mordeu! Ele me jogou no chão e sangue por todo o carpete de Jeffrey e eu sou o problema? Quem diabos morde alguém? Doente! Leon pode ir se foder. Odeio Nova York!”, escreveu.
Em julho de 2023, uma mulher identificada como Jane Doe (nome genérico equivalente a Fulano de Tal no Brasil) processou Leon Black no Distrito Sul de Nova York, descrevendo estupro violento na mansão de Epstein, em 2002, com agressão e sangramento extenso.
O aspecto mais perturbador revelado no processo é a condição da vítima: uma jovem autista com Síndrome de Down em mosaico, forma rara da síndrome que não se manifesta visivelmente, mas traz limitações intelectuais e de desenvolvimento equivalentes às da condição clássica.
A ação revela que Jane tinha desenvolvimento cognitivo estimado em torno de 12 anos, embora tivesse QI acima da média e habilidade no piano, algo que era apreciado por Epstein como prova de sua superioridade genética. Ao mesmo tempo, Epstein apreciava sua “inocência infantil”, além de sua pele clara e olhos azuis brilhantes. Ghislaine Maxwell referia-se a Jane Doe como uma “boneca viva”.
Leon Black nega veementemente todas as acusações e classifica os processos como “frívolos e passíveis de sanção”. Entretanto, Black enfrenta outras duas acusações semelhantes:
Guzel Ganieva alegou ter sofrido assédio e abuso sexual por anos, ter sido forçada a assinar um acordo de confidencialidade sob coação e ter sido introduzida a Epstein com tentativa de obrigá-la a manter relações sexuais com ele. O processo foi dispensado em maio de 2023.
Cheri Pierson alegou ter sido estuprada por Black em 2002 na mansão de Epstein em Nova York. Ela desistiu do processo em fevereiro de 2024.
Apesar dos vários relatos e denúncias, não existe processo criminal contra Black. Isso se explica por que os crimes alegados ocorreram em meados de 2022 e já prescreveram sob a lei então vigente, que previa prazo de cinco anos para a maioria dos delitos sexuais.
A ação de Jane Doe é civil e segue em andamento, ainda que ela tenha recentemente demitido seus advogados do escritório Wigdor LLP. Embora, Black negue todas as acusações, classificando-as como “frívolas”, em julho de 2023, pagou US$ 62,5 milhões ao governo das Ilhas Virgens para evitar um possível processo sobre seus vínculos com Epstein e renunciou ao cargo de CEO da Apollo Global Management em março de 2021.
Após mais de duas décadas, a produção de provas materiais tornou-se extremamente difícil, sobretudo com a morte de Epstein em 2019. Além disso, há a relutância do sistema de justiça criminal americano em processar indivíduos extremamente ricos e poderosos. Nenhum dos homens acusados de abusar vítimas traficadas por ele e Maxwell foi criminalmente processado, apesar de dezenas de nomes citados em depoimentos, documentos judiciais e arquivos recentemente liberados.
Embora os nomes de ambas permaneçam em sigilo, a extrema semelhança dos relatos e a cronologia dos fatos nos dão a segurança para afirmar que a autora do diário e Jane Doe são mesma pessoa. Isso significa que uma adolescente com limitações intelectuais significativas foi dominada por adultos extremamente poderosos, que se aproveitaram de sua condição para submetê-la a um sistema de controle e abuso do qual ela não tinha como escapar.
O próprio diário sugere que essa trajetória só não terminou de forma ainda mais sombria por intervenção externa. Nas páginas finais, a autora relata que uma amiga percebeu o que estava acontecendo e a retirou às pressas antes que fosse enviada ao rancho de Epstein no Novo México. A fuga é descrita como improvisada: pertences recolhidos em sacos, deslocamentos constantes entre casas de conhecidos e a necessidade de se esconder — inclusive da própria mãe, que, segundo ela, tentava recuperá-la.
O rancho do terror
O rancho para onde ela quase foi enviada aparece repetidamente em diferentes frentes da história de Epstein. Trata-se do Zorro Ranch, no Novo México, que fica a cerca de 50 quilômetros de Santa Fé, em uma área isolada de deserto. Epstein comprou a propriedade em 1993 por aproximadamente US$ 12 milhões do ex-governador Bruce King. O terreno ultrapassava 7.500 acres e incluía uma mansão principal de cerca de 33 mil pés quadrados, pista de pouso, heliponto e residências auxiliares. A propriedade era controlada por estruturas corporativas próprias, primeiro o Zorro Trust e depois a Cypress Inc., o que dificultava o rastreamento direto de sua operação.
Vítimas e ex-funcionários descrevem o rancho como parte central da infraestrutura privada de Epstein. Annie Farmer, uma das vítimas mais conhecidas de Epstein e uma das primeiras a denunciar publicamente o esquema, ainda nos anos 1990, relatou ter sido levada ao local ainda adolescente, em 1996, onde foi abusada. Sua irmã, Maria Farmer, que trabalhou para Epstein e foi uma das primeiras a denunciá-lo ao FBI, forneceu descrições detalhadas da estrutura interna. Segundo ela, a propriedade possuía um nível subterrâneo amplo e diversas “salas mecânicas” — oficialmente destinadas a utilidades técnicas, mas preenchidas com computadores e equipamentos de vídeo.
Essas salas, segundo seu relato, eram enormes, maiores que muitas casas, e integravam um sistema de vigilância permanente. Maria Farmer afirmou que todas as propriedades de Epstein eram equipadas com câmeras ocultas e infraestrutura de gravação. A descrição converge com o que foi encontrado anos depois na mansão de Manhattan: quando a polícia executou mandado de busca, localizou dezenas de câmeras com cabos cortados e equipamentos de gravação removidos antes da chegada dos agentes.
A arquitetura do Zorro Ranch também chamou atenção de pessoas que analisaram as plantas do imóvel. Apesar do tamanho monumental da mansão principal, havia apenas quatro quartos. Em vez de dormitórios numerosos, o projeto apresentava uma rede intrincada de corredores, vestíbulos e áreas de espera conectadas às suítes. Especialistas que examinaram o layout observaram que a configuração não correspondia à de uma residência convencional ou de hospedagem coletiva, mas parecia desenhada para circulação controlada e contenção de pessoas dentro do imóvel.
Relatos de sobreviventes e reportagens internacionais indicam que o rancho funcionava como ponto de encontro recorrente para eventos privados e deslocamento de jovens entre propriedades de Epstein. Testemunhos citam voos frequentes, festas e presença de intermediários responsáveis por recrutar e transportar meninas. O próprio Epstein falava abertamente sobre a ideia de “disseminar seu DNA” impregnando múltiplas mulheres no rancho. Registros documentais fragmentários recentemente liberados mencionam clonagem e cultivo de órgãos no próprio Zorro Ranch.
Após a morte de Epstein, o rancho passou a ser alvo de investigações do procurador-geral do Novo México, que reuniu centenas de páginas de documentos sobre a propriedade. Em 2023, o imóvel foi vendido, com os recursos direcionados a credores e fundos de compensação de vítimas. Mesmo assim, autoridades estaduais e parlamentares continuaram defendendo a criação de uma comissão específica para esclarecer o que ocorreu ali, argumentando que ainda existem lacunas significativas sobre as atividades desenvolvidas no local.






