Parte I: Epstein e João de Deus: entre conspirações e uma realidade sombria
Leitura desatenta dos arquivos alimenta teorias sem prova, mas os fatos revelam uma realidade macabra além do imaginável.
No último dia 30 de janeiro, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos liberou mais uma leva de evidências relacionadas ao caso Jeffrey Epstein, financista condenado por crimes sexuais envolvendo menores e que morreu na prisão em agosto de 2019, enquanto aguardava julgamento. A divulgação decorre de uma lei aprovada pelo Congresso americano em novembro de 2025 e sancionada pelo presidente Donald Trump, cumprindo uma promessa assumida ainda durante a campanha presidencial.
Desde 2023, documentos do caso Epstein vinham sendo divulgados de forma gradual, mas nada se compara ao que foi tornado público agora: mais de 3 milhões de páginas, 180 mil imagens e 2 mil vídeos. Logo após a liberação, jornalistas, investigadores independentes, influenciadores digitais e curiosos passaram a vasculhar os arquivos em busca de revelações, muitas vezes sem distinção clara entre documentos probatórios e material bruto de investigação.
Isso ocorre porque essa avalanche documental reúne conteúdos de natureza muito distinta. Convivem ali evidências já examinadas em tribunal — como depoimentos formais, comunicações e provas colhidas pelo FBI — com denúncias anônimas jamais verificadas, relatos sem corroboração independente, documentos não periciados e comunicações informais arquivadas apenas como “tips” investigativas.
Um desses arquivos passou a circular com força nas redes sociais: um e-mail que sugeria uma possível ligação entre o caso Epstein e outro abusador sexual de notoriedade internacional, o médium brasileiro João de Deus. A relação seria o fato de que ambos teriam operado “fazendas de mulheres” destinadas à reprodução forçada e ao tráfico de bebês. As denúncias contra o médium foram feitas, em 2019, pela ativista Sabrina Bittencourt, que teria se suicidado misteriosamente na Espanha após denunciar que João de Deus mantinha mulheres cativas para procriação e venda de crianças no exterior.
A história logo encontrou terreno fértil no imaginário coletivo, alimentado por obras de ficção recentes como The Handmaid’s Tale e Bom Dia, Verônica, que exploram narrativas semelhantes. Desde o início, o caso Epstein alimentou a imaginação pública. Em parte, porque permaneceu cercado de sigilo por anos, mas também porque seus contornos ultrapassam — e muito — o enredo dos piores filmes de terror. Trata-se de uma história que envolve abuso sistemático de crianças e adolescentes, tráfico de pessoas, coerção sexual e uma teia de relações com a elite política, financeira e intelectual do mundo ocidental.
O que o e-mail revela
O e-mail que cita João de Deus não traz contexto adicional, mas pelo seu conteúdo, podemos chegar a algumas conclusões. Tanto o remetente quanto o destinatário tiveram suas identidades protegidas por tarjas pretas, conforme o protocolo padrão de divulgação. Entretanto, a marcação “[EXTERNAL EMAIL]” no cabeçalho indica que a mensagem foi enviada por alguém de fora do FBI ou do DOJ a um investigador federal. Ou seja, a mensagem foi uma denúncia anônima enviada por um cidadão comum.
No campo “assunto” aparece a manchete de uma reportagem que afirmava que a mulher que acusou o líder de culto João de Deus de estupro teria morrido em circunstâncias descritas como misteriosas na Espanha. O link da matéria, publicada pelo tabloide britânico The Sun, foi incluído ao final do e-mail. A notícia saiu em 4 de fevereiro de 2019, dois dias após a morte de Sabrina. O e-mail, porém, só seria enviado quase dois anos depois, em 29 de dezembro de 2020.
No corpo do texto, o autor sustenta que uma mulher teria declarado “on the record” (ou seja, disse publicamente) que “isso acontecia no Zorro Ranch”, no Novo México, e que Epstein lhe ofereceu dinheiro para “gerar bebês para uso no mercado negro”. A mensagem termina com um simples: “Obrigado por investigar isso”.
O nome da mulher mencionada está censurado. O Departamento de Justiça cobriu com tarjas pretas as identidades de vítimas e testemunhas. Apesar de buscas extensivas em processos judiciais, depoimentos públicos e nos próprios arquivos liberados, não foi localizado nenhum testemunho verificável que corresponda à alegação atribuída a ela.
Semelhanças e diferenças
Sim, há paralelos entre os casos de João de Deus e Jeffrey Epstein: ambos usaram máscaras de respeitabilidade para abusar sistematicamente de pessoas vulneráveis, operando em espaços sob forte controle e cercando-se de figuras influentes que lhes conferiam legitimidade.
Epstein cultivava relações com empresários como Bill Gates e políticos de alto escalão, como o ex-presidente Bill Clinton. João de Deus recebeu celebridades como Oprah Winfrey e manteve proximidade com políticos e com integrantes do poder institucional. Por exemplo, ao menos dois ministros do STF — Gilmar Mendes e Luiz Fux — declararam-se impedidos de julgá-lo por “foro íntimo”.
Mas as semelhanças param por aí.
Não há qualquer indício de conexão entre ambos, nem de que João de Deus operasse fazendas destinadas à reprodução de bebês para adoções irregulares ou tráfico internacional. Até hoje, porém, as acusações de Sabrina não foram corroboradas por investigações oficiais, não resultaram em denúncias formais sustentadas por provas verificáveis e nem foram confirmadas por testemunhos independentes tornados públicos. Tampouco os depoimentos e documentos que ela afirmava ter coletado sobre o tema e “encaminhado a parceiros no Brasil e no exterior” foram apresentados.
O único elemento frequentemente citado por seus apoiadores é o fato de o Ministério Público ter recebido a suposta documentação. Mas este é o procedimento padrão diante de qualquer denúncia, algo que por si só não constitui validação das alegações, apenas o início da apuração preliminar.
Em 2019, participei das apurações do caso João de Deus e publiquei reportagens que expuseram inconsistências, mentiras e versões contraditórias apresentadas por Sabrina. Ao longo da investigação, conversei com familiares, amigos e pessoas próximas que relataram dúvidas sérias sobre sua narrativa — inclusive a possibilidade de que o suposto suicídio tivesse sido forjado e de que ela estivesse viva.
Isso não torna João Teixeira de Faria, o João de Deus, inocente. Acusado por centenas de mulheres de estupro, estupro de vulnerável e violação sexual mediante fraude, o médium foi condenado em diversas ações penais por crimes cometidos contra pacientes durante atendimentos espirituais na Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia (GO). Somadas, as penas chegam a 489 anos de prisão por crimes contra 56 vítimas entre 2010 e 2018. Em razão da idade avançada (82 anos) e problemas de saúde, cumpre atualmente prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica, enquanto aguarda o trânsito em julgado das sentenças.
A obsessão eugenista de Epstein
Embora não haja qualquer prova de que João de Deus tenha operado “fazendas de reprodução”, o caso de Jeffrey Epstein apresenta evidências documentadas de obsessões eugenistas e planos relacionados à reprodução controlada.
Epstein discutiu abertamente, por anos, sua intenção de “semear a raça humana” com seu próprio DNA, considerado por ele geneticamente superior. Ele mencionava a ideia de engravidar múltiplas mulheres simultaneamente em seu Zorro Ranch, no Novo México — um rancho isolado de milhares de acres onde abusos foram relatados por várias vítimas.
Essas declarações foram reportadas por cientistas, empresários e assessores que frequentavam seu círculo. O próprio e-mail que circulou nos arquivos do DOJ afirma que uma mulher — não identificada — teria denunciado que Epstein oferecia dinheiro para gerar bebês no Zorro Ranch, que posteriormente seriam destinados ao mercado negro.
Epstein direcionou milhões de dólares a projetos científicos em instituições de elite, especialmente em Harvard e MIT, para explorar temas de evolução, genética e dinâmica biológica que se alinhavam às suas ideias eugenistas. A liberação recente dos arquivos revela que Epstein planejou financiar secretamente um projeto de clonagem humana. O projeto incluía testes em camundongos em laboratório na Ucrânia e visava permitir que pais selecionassem características genéticas a serem passadas para descendentes.
Há ainda entre os documentos um diário perturbador, escrito em código, atribuído a uma vítima que tinha 16 anos à época dos fatos narrados. No texto, a adolescente afirma ter sido usada como “incubadora humana” por Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell, relata o nascimento de uma menina e diz que a criança lhe foi retirada logo após o parto.
A realidade pior do que a conspiração
No próximo texto desta série, você conhecerá os detalhes da nossa apuração sobre o caso João de Deus e como desmascaramos as narrativas de Sabrina Bittencourt. Contaremos os bastidores inéditos do caso e como Sabrina conseguiu enganar toda a grande mídia.
E depois, detalharemos o que os arquivos de Epstein revelam sobre a mente doentia do financista que buscava “melhorar a raça humana” através de reprodução controlada e seleção genética. O que durante anos foi rotulado como “teoria da conspiração” agora ganha contornos reais, expondo uma rede de poder, ciência e abuso que vai muito além do imaginável.




