Flávio Bolsonaro quebra o silêncio após pergunta de A Investigação e diz que voto no PL da Misoginia evitou “armadilha do PT”
Embora o voto tenha gerado críticas na direita, pesquisas recentes indicam que a estratégia preservou o desempenho eleitoral do senador.
Na tarde de sábado, 28 de março de 2026, na CPAC Texas — o maior encontro conservador do mundo —, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) explicou pela primeira vez por que votou a favor do chamado “PL da Misoginia”, aprovado dias antes no Senado. A declaração foi dada em entrevista coletiva a jornalistas credenciados no evento. A pergunta foi feita por A Investigação. Até então, o senador não havia se manifestado publicamente desde a aprovação.
“Todo mundo sabe que estamos em ano eleitoral e essa era uma grande armadilha do PT para mim”, disse o senador. “Você acha que eu ou quem é de direita será a favor de algum projeto que garanta instrumentos para o governo censurar a liberdade de expressão, a liberdade de opinião nas redes sociais? É claro que não. Mas estava um circo todo armado com uma lei que não defende as mulheres e que, na prática, vai gerar censura. É muito subjetiva”, afirmou.
O PL 896/2023, de autoria da senadora Ana Paula Lobato (PSB-MA), foi aprovado no Senado em 24 de março por 67 votos a favor e nenhum contra. O texto inclui a misoginia — definida como “a conduta que exteriorize ódio ou aversão às mulheres” — entre os crimes previstos na Lei do Racismo (Lei 7.716/1989), com pena de dois a cinco anos de reclusão e multa. Também inclui a expressão “condição de mulher” entre os critérios de interpretação da lei. Entre os votos favoráveis está o de Flávio Bolsonaro. Nos cinco dias seguintes, ele não deu entrevistas nem divulgou notas sobre o tema.
O episódio gerou reação dentro da própria direita, mas não se refletiu nos levantamentos eleitorais divulgados na sequência. Pesquisa do Paraná Pesquisas realizada entre 25 e 28 de março — período de maior repercussão do caso — apontou Flávio com 45,2% contra 44,1% de Luiz Inácio Lula da Silva em um eventual segundo turno, mantendo a tendência de crescimento observada desde fevereiro. O dado indica que, apesar da pressão interna, a candidatura não recuou — sinalizando que, ao menos no curto prazo, a estratégia do senador não produziu custo eleitoral mensurável.
Na entrevista, Flávio afirmou que votou a favor mesmo discordando do conteúdo do projeto e antecipou a estratégia que pretende adotar na Câmara dos Deputados, para onde o texto segue.
“Eu sabia que no Senado não tinha ambiente para fazer alteração nela. Tanto que vocês viram o placar. Então eu sabia que o projeto ia voltar para a Câmara dos Deputados e lá nós vamos fazer um grande trabalho, se Deus quiser, para arquivar essa lei ou para fazer alterações que garantam que a liberdade de expressão nas redes sociais não estará em risco”, afirmou.
Flávio também usou a resposta para atacar a hipocrisia da esquerda no tema. Disse que, se o PT defendesse as mulheres, não teria votado contra o aumento de pena para estupradores; que o Cadastro Nacional de Pedófilos está previsto em lei há sete meses e ainda não foi implementado; e que classificar PCC e CV como organizações terroristas seria uma medida concreta de proteção às mães brasileiras.
“A esquerda o tempo inteiro usa a dor das mulheres”, disse. “As mulheres sofrem, sim. São vítimas de machismo, de misoginia. Mas não é certamente essa lei que vai impedir que isso aconteça.”
O alvo seletivo
A reação ao projeto de lei veio de dentro da própria direita. Eduardo Bolsonaro foi um dos primeiros a criticar o projeto nas redes sociais, chamando-o de “agressivamente antimasculino”. O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) afirmou que o texto é “um instrumento extremamente subjetivo para silenciar pessoas”.
A deputada Júlia Zanatta, entrevistada por A Investigação no CPAC Texas, também criticou o texto. “O que a esquerda está querendo fazer é censura”, disse. Para ela, a definição central da lei é ampla o suficiente para permitir uso político. Sua posição converge com a de Flávio: o texto deve ser reformado ou derrubado na Câmara.
O Movimento Brasil Livre (MBL), que hoje possui seu próprio partido, o Missão, classificou o projeto como “assustador” e apontou risco de uso para restringir opiniões nas redes sociais. O canhão do MBL, porém, concentrou-se sobre Flávio. Toda a bancada do PL no Senado votou a favor — incluindo Damares Alves e Sérgio Moro. Dos 67 votos favoráveis, apenas ele foi alvo direto. Nas redes, críticos do MBL destacaram que o movimento não possui representação no Senado, o que, segundo esses comentários, facilita a oposição ao texto sem o ônus do voto.
As demais respostas da coletiva
Sobre o governo que pretende construir, Flávio disse que os quatro anos da gestão de Jair Bolsonaro foram “um grande aprendizado”, especialmente no que classificou como a principal dificuldade do período: a falta de quadros técnicos preparados para ocupar ministérios e executar políticas públicas. Segundo ele, esse diagnóstico orienta diretamente a próxima etapa. Afirmou que chega ao novo ciclo com 23 anos de experiência acumulada entre Câmara e Senado e com maior capacidade de montar equipe. Ao sintetizar a crítica ao governo atual, resumiu: “Não é difícil mudar. É só fazer diferente.”
Sobre o Nordeste, disse que a região ocupa papel central na estratégia eleitoral. “O Nordeste não é problema — é a solução para o país”, afirmou. Para sustentar o argumento, citou dados da Bahia, governada pelo PT há duas décadas: entre 70% e 80% da população sem acesso a esgoto tratado e cerca de 50% sem água encanada. A estratégia, segundo ele, é “levar a verdade” ao eleitorado. Em tom pessoal, mencionou que tem vínculo com o estado, onde conheceu a esposa, em Arraial d’Ajuda.
Ao tratar de alianças, disse que mantém diálogo com União Brasil e PP, sem definição sobre palanque ou composição eleitoral. Citou ACM Neto e relatou o pedido feito em encontro recente: “Liberte o povo da Bahia, vença o PT.” Sobre a possibilidade de um vice do Nordeste — com especulações envolvendo lideranças locais, como o prefeito de Salvador —, evitou confirmar qualquer negociação em estágio avançado.
Ao falar do pai, disse que precisa “segurar a emoção” ao ver o nome de Jair sendo ovacionado em eventos e encontros públicos. Encerrando a resposta, projetou o cenário que pretende construir: “Tenho convicção de que, a partir do ano que vem, o Brasil vai ser outro. A gente vai implementar mudança de verdade, custe o que custar.”
O discurso baseado em A Investigação
Antes da coletiva, Flávio havia discursado por cerca de 15 minutos no palco principal da CPAC Texas, denunciando interferência americana nas eleições de 2022. Citou financiamento da USAID e da NED, pressão da administração Biden e o alinhamento do governo Luiz Inácio Lula da Silva com a China.
Na coletiva, afirmou que o texto foi escrito por Eduardo Bolsonaro e pelo jornalista Paulo Figueiredo. “Eu apenas ajustei alguns pontos.” Em entrevista exclusiva à A Investigação, ambos confirmaram que o material investigativo do veículo serviu de base para o discurso. Paulo Figueiredo afirmou que o trabalho “foi absolutamente fundamental” para que “os próprios americanos entendessem o que estava acontecendo”. Eduardo Bolsonaro acrescentou que a investigação permitiu “construir uma base mais sólida para a defesa da democracia”.
A reportagem “Operação Tio Joe”, publicada por A Investigação, mapeou o fluxo de financiamento entre USAID e agências de checagem, a sequência de visitas de autoridades americanas ao Brasil entre 2021 e 2022 e a articulação entre pressão diplomática e decisões do STF.
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Só saberemos "às custas de quantos" no futuro sobre essa armadilha evitada! Talvez ele mesmo...
Evitei a pica surpresa. Fui la e sentei em cima e pedei