CPAC Texas: Flávio Bolsonaro denuncia interferência nas eleições de 2022 com base em reportagem de A Investigação
Fala na CPAC reúne acusações de interferência americana, financiamento via ONGs e atuação institucional, com base em levantamentos já publicados por A Investigação.
Leia aqui o discurso traduzido na íntegra.
Na tarde de sábado, 28 de março de 2026, o senador Flávio Bolsonaro subiu ao palco principal da CPAC Texas — o maior encontro conservador do mundo — e afirmou, em seu discurso, que houve interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras de 2022. Citou a atuação da administração de Joe Biden, o financiamento de ONGs por estruturas como a USAID e a NED, a pressão diplomática sobre autoridades brasileiras, o alinhamento do governo Luiz Inácio Lula da Silva com a China e a condenação de seu pai como parte de um sistema de lawfare.
Os pontos centrais da fala já haviam sido documentados por A Investigação, especialmente na série “Operação Tio Joe”, que mapeou o fluxo de financiamento internacional, a cronologia das visitas de autoridades americanas ao Brasil entre 2021 e 2022, a atuação de agências de checagem inseridas nesse circuito e os efeitos geopolíticos do alinhamento entre Brasil e China. O trabalho identificou o Brasil como protótipo do Complexo Industrial da Censura — um modelo desenvolvido nos Estados Unidos e reimportado como instrumento de perseguição judicial.
Segundo o próprio Flávio, o discurso foi escrito pelo deputado Eduardo Bolsonaro e pelo jornalista Paulo Figueiredo, com ajustes finais feitos por ele. Em entrevista a esta reportagem, os dois confirmaram que o material investigativo de A Investigação foi a base do que foi dito naquele palco.
Eduardo Bolsonaro confirmou que a fala se apoiou diretamente nesses levantamentos: “Primeiro de tudo, é graças a esse trabalho investigativo que a gente consegue colher os frutos — não é pra direita ou esquerda, mas para uma democracia mais sólida. A fala do Flávio converge com isso. Ele não quer privilégio, não quer ganhar na mão grande do juiz. Ele só quer que o juiz apite o jogo, porque está seguro de que, sem fraude, será eleito.”
Paulo Figueiredo foi ainda mais direto ao reconhecer o papel da reportagem: “O trabalho que você especificamente fez, mas vocês todos, em várias etapas, foi absolutamente fundamental. Foi esse material que permitiu, inclusive, que os próprios americanos entendessem o que estava acontecendo — e, em alguns momentos, orientou a direção que a gente precisava seguir. Hoje, aqui dentro dos EUA, não há a menor dúvida de que Joe Biden interferiu nas eleições que levaram Lula à presidência.”
Paulo também detalhou o conjunto probatório que a campanha tem em mãos: “A gente tem materialmente o dinheiro pra onde foi, a gente tem as visitas que foram feitas, tem atas de reunião, tem os protocolos do deep state americano sendo implementados pelas forças do Brasil — inclusive relatórios oficiais do governo americano mostrando este tipo de influência.”
Assista aqui as entrevistas com Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo.
Sobre a estratégia para evitar repetição em outubro de 2026, os dois traçaram um caminho de dois tempos. Eduardo apontou que o governo Trump já cumpriu a primeira parte ao cortar o financiamento da USAID, da NED e do Atlantic Council — o dinheiro que, segundo ele, bancou ao longo do governo Bolsonaro cerca de 300 milhões de dólares em rubricas para “combate à desinformação”, dos quais 5,7 milhões foram destinados à criação das agências de checagem que embasavam as ordens de censura de Alexandre de Moraes. “Como não tem mais dinheiro da USAID, não tem mais o governo mandando altas autoridades pra ameaçar na surdina as autoridades brasileiras — é por isso que eu digo que já temos metade do caminho andado.” A outra metade, disse, depende da comunidade internacional: “Nos ajudem a fiscalizar, nos ajudem a certificar que nosso processo eleitoral é íntegro, liso e transparente.”
Paulo complementou com a pista deixada pelo próprio Flávio no discurso: “O mundo livre precisa prestar atenção na eleição no Brasil, e a pressão diplomática deve ser para que nós tenhamos liberdade de expressão. Se tivermos isso, teremos meio caminho andado. Além disso, o Flávio está com uma equipe jurídica muito mais robusta que a do Jair. E só de não termos o Moraes como presidente do TSE já faz muita diferença.”
Os pontos centrais do discurso
Flávio Bolsonaro organizou o discurso em três eixos que avançavam do pessoal ao geopolítico: a condenação de Jair Bolsonaro como lawfare, o papel dos Estados Unidos nas eleições de 2022 e a posição estratégica do Brasil no cenário global.
Começou pelo pai. Disse que Jair passou seu 71º aniversário hospitalizado e sob prisão, condenado a 27 anos num processo que chamou de lawfare “quase idêntico ao que Donald Trump sofreu aqui na América”. A comparação foi calculada: ao invocar Trump como espelho, traduziu uma realidade brasileira em linguagem que a plateia da CPAC assimila de imediato. “A acusação formal é semelhante à que o presidente Donald Trump enfrentou: insurreição. Soa familiar?”
Em seguida, afirmou que houve interferência americana nas eleições de 2022, com atuação direta da administração Biden, financiamento de ONGs via USAID e pressão institucional sobre autoridades brasileiras. Descreveu o retorno de Lula ao poder como resultado direto dessa interferência — e não de uma vitória eleitoral legítima.
O argumento avançou para a geopolítica. Flávio afirmou que o Brasil é peça-chave para reduzir a dependência americana da China em minerais críticos, citando que os EUA ainda dependem da China para cerca de 70% das importações de terras raras — essenciais para processadores, inteligência artificial e equipamentos militares. Disse que o governo Lula, em vez de se tornar esse parceiro, alinhou-se à China em escala massiva e adotou posições contrárias aos americanos em cada item da política externa: Venezuela, Irã, Cuba e combate ao narcotráfico.
Para sustentar essa linha, citou dois episódios concretos e recentes. O primeiro: o governo Lula teria feito lobby ativo junto a assessores americanos para impedir que os dois maiores cartéis brasileiros — o PCC e o CV — fossem classificados como organizações terroristas pelos Estados Unidos, argumento que Flávio ancorou em artigo publicado pelo New York Times no dia anterior ao discurso. O segundo: o Brasil cancelou o visto do Dr. Darren Beatty, assessor sênior do Departamento de Estado para política brasileira — a mais alta posição diplomática americana para assuntos do Brasil —, após ele solicitar uma visita a Jair Bolsonaro na prisão para avaliar suas condições de detenção. “Sim, o Brasil está agora expulsando diplomatas americanos”, disse Flávio ao microfone.
No encerramento, pediu atenção internacional às eleições de outubro de 2026 — com monitoramento do processo, fiscalização da liberdade de expressão nas redes sociais e pressão diplomática para que as instituições funcionem. E anunciou formalmente sua candidatura à presidência, com uma frase direta para a plateia: “Deixem-me olhar nos olhos de vocês e dizer — nós vamos vencer.”
O que revelou “Operação Tio Joe”
Publicada em 18 de maio de 2025 por A Investigação, a série Operação Tio Joe identificou um padrão de atuação externa nas eleições brasileiras de 2022 estruturado em três frentes: diplomática, financeira e judicial.
No eixo diplomático, a apuração reuniu a sequência de visitas de autoridades americanas ao Brasil entre 2021 e 2022 — William Burns, Jake Sullivan, Lloyd Austin e Victoria Nuland. Embora com pautas oficiais distintas, essas agendas coincidiram com um movimento de pressão sobre lideranças militares para aceitação do resultado eleitoral, sustentado pela dependência brasileira de equipamentos e treinamento dos Estados Unidos.
No eixo financeiro, a investigação rastreou recursos da USAID, da NED e do Atlantic Council destinados a iniciativas de “combate à desinformação”. Parte desse financiamento chegou a agências de checagem que passaram a produzir relatórios técnicos utilizados como base para decisões do ministro Alexandre de Moraes no STF.
No eixo judicial, a série identificou a atuação do Supremo junto a plataformas digitais por meio de ordens não publicizadas — as chamadas “ordens secretas”. Também analisou a declaração do ministro Luís Roberto Barroso, então presidente do TSE, de que buscou apoio de autoridades americanas durante o processo eleitoral, além da hipótese de que ele possa ter sido a fonte anônima citada pelo Financial Times em 2022.
A reportagem apontou que o Brasil não apenas sofreu influência externa, mas operou como campo de teste de um modelo que combina financiamento, pressão institucional e atuação judicial coordenada — o que a série definiu como Complexo Industrial da Censura.
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