A Investigação

A Investigação

FBI oferece R$ 1 milhão de recompensa por informações de ex-agente acusada de espionar para o Irã

O caso Witt mostra que Washington endureceu contra ações estrangeiras em solo americano, postura que também levou à expulsão do delegado brasileiro Marcelo Ivo de Carvalho.

David Agape's avatar
David Agape
May 15, 2026
∙ Paid


O FBI anunciou nesta quinta-feira, 14, uma recompensa de até US$ 200 mil (cerca de R$ 1 milhão) por informações que levem à prisão e condenação de Monica Elfriede Witt, ex-militar americana e ex-agente de contrainteligência acusada de espionar para o Irã.

O anúncio foi feito pelo escritório do FBI em Washington. Witt foi denunciada por um grande júri federal no Distrito de Columbia em fevereiro de 2019, sob acusação de conspiração para entregar informações de defesa nacional a representantes de um governo estrangeiro e de entregar essas informações ao governo iraniano. Sete anos depois da denúncia, ela continua foragida.

Witt serviu na Força Aérea dos Estados Unidos entre 1997 e 2008, atuou como especialista em inteligência e foi agente especial do Air Force Office of Special Investigations, órgão responsável por investigações e contrainteligência dentro da Força Aérea. Depois, trabalhou como contratada do governo americano até 2010.

Segundo o FBI, essas funções deram a Witt acesso a informações classificadas como SECRET e TOP SECRET, incluindo dados de inteligência estrangeira, contrainteligência e nomes reais de integrantes infiltrados da comunidade de inteligência dos EUA.

Deserção e traição

De acordo com a acusação, em 2013, Witt desertou para o Irã e passou a fornecer informações ao governo iraniano, colocando em risco programas sensíveis de defesa nacional e agentes americanos no exterior. O FBI afirma que ela também fez pesquisas para ajudar o regime iraniano a identificar e mirar antigos colegas do governo americano.

O caso é considerado grave porque, segundo o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, Witt teria revelado a existência de um programa altamente classificado de coleta de inteligência e a identidade de um oficial americano, colocando a vida desse agente em risco. A denúncia de 2019 também afirma que ela ajudou serviços de inteligência iranianos a preparar alvos contra ex-colegas da comunidade de inteligência americana.

Assine A Investigação ou faça-nos uma doação direta:

  • Pix: ainvestigacao.com@gmail.com

  • Zelle: davidagape@proton.me

A investigação atingiu ainda quatro iranianos — Mojtaba Masoumpour, Behzad Mesri, Hossein Parvar e Mohamad Paryar — acusados de participar de uma campanha cibernética contra integrantes da inteligência dos EUA. Segundo o Departamento de Justiça, o grupo usou perfis falsos, contas fraudulentas e ataques de spearphishing para tentar invadir computadores de ex-colegas de Witt.

Na página de procurados do FBI, Monica Witt aparece com os aliases Fatemah Zahra e Narges Witt. Ela nasceu em El Paso, no Texas, em 8 de abril de 1979, tem nacionalidade americana, fala farsi e, segundo a agência, vive no Irã. O FBI a classifica como risco internacional de fuga.

Ao anunciar a recompensa, Daniel Wierzbicki, agente especial responsável pela divisão de contrainteligência e cibersegurança do escritório do FBI em Washington, disse que Witt “traiu seu juramento à Constituição” ao desertar para o Irã e fornecer informações de defesa nacional ao regime. Ele afirmou ainda que o FBI acredita que, “neste momento crítico da história do Irã”, alguém sabe onde ela está.

O FBI pede que qualquer pessoa com informações sobre Monica Witt procure um escritório local da agência, a embaixada ou o consulado americano mais próximo, ou envie uma denúncia pelos canais oficiais do órgão.

O alerta americano contra operações estrangeiras

O anúncio sobre Monica Witt foi feito três dias depois de outro caso envolvendo atuação estrangeira dentro dos Estados Unidos. Em 11 de maio de 2026, o Departamento de Justiça informou que Eileen Wang, então prefeita de Arcadia, na Califórnia, havia sido acusada de atuar ilegalmente como agente da República Popular da China.

A prefeita de Arcadia foi acusada de atuar como agente político e propagandístico da China dentro dos Estados Unidos. Segundo o governo americano, Wang e Yaoning “Mike” Sun operaram o site U.S. News Center, voltado à comunidade sino-americana da Califórnia, mas usado para publicar conteúdos favoráveis à República Popular da China sob orientação de autoridades chinesas.

Wang, de 58 anos, nasceu na China e havia assumido a prefeitura de Arcadia em fevereiro. Segundo o Departamento de Justiça, ela concordou em se declarar culpada e renunciou ao cargo. A acusação pode levar a até dez anos de prisão federal.

A proximidade entre os dois anúncios reforça a mensagem pública das autoridades americanas: Washington tenta mostrar que continua rastreando operações estrangeiras em seu território, sejam elas de propaganda, influência política, coleta de inteligência ou entrega direta de informações sigilosas.

O caso brasileiro

A mesma lógica ajuda a entender outro episódio recente — desta vez envolvendo o Brasil. Em abril de 2026, o governo americano pediu que Marcelo Ivo de Carvalho, delegado da Polícia Federal e oficial de ligação da PF junto ao ICE em Miami, deixasse os Estados Unidos. A decisão ocorreu depois da breve detenção de Alexandre Ramagem em Orlando. Ramagem foi detido pelo ICE em 13 de abril e liberado dois dias depois.

O Bureau of Western Hemisphere Affairs, do Departamento de Estado americano, afirmou que nenhum estrangeiro pode manipular o sistema migratório dos EUA para contornar pedidos formais de extradição e estender “caças às bruxas políticas” ao território americano. A nota não citava nominalmente Ramagem nem Marcelo Ivo.

Assine A Investigação ou faça-nos uma doação direta:

  • Pix: ainvestigacao.com@gmail.com

  • Zelle: davidagape@proton.me

O caso ganhou repercussão após reportagens de A Investigação identificarem Marcelo Ivo como o delegado brasileiro ligado à operação contra Ramagem em solo americano e revelarem detalhes de sua atuação como oficial de ligação da PF dentro do sistema migratório dos EUA. As reportagens também questionaram a estrutura mantida por Ivo em Miami, incluindo o uso de um apartamento de alto padrão no SLS Lux Brickell.

O episódio chegou ao Congresso. No Senado, a Comissão de Segurança Pública aprovou convites para ouvir o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e o próprio Marcelo Ivo sobre a atuação do oficial de ligação da Polícia Federal em Miami junto ao ICE e sobre a saída do delegado dos Estados Unidos. A Câmara também pautou requerimento para convidar Ivo a prestar esclarecimentos sobre sua missão internacional, sua atuação junto a autoridades estrangeiras e eventuais verbas indenizatórias recebidas no exercício da função.

O caso brasileiro não é igual ao de Monica Witt nem ao de Eileen Wang. Mas os três episódios passam pela mesma fronteira sensível: até onde um governo estrangeiro pode operar dentro dos Estados Unidos?


Leia mais:

Exclusivo: conheça Marcelo Ivo de Carvalho, o delegado da PF por trás da armadilha que colocou Ramagem na mira do ICE

David Agape
·
Apr 17
Exclusivo: conheça Marcelo Ivo de Carvalho, o delegado da PF por trás da armadilha que colocou Ramagem na mira do ICE

Alexandre Ramagem, ex-deputado federal e ex-diretor da ABIN, foi detido na segunda-feira, 13 de abril de 2026, pelo Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos Estados Unidos (ICE), em Orlando, na Flórida. No mesmo dia, o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, comemorou a detenção e

Read full story

Exclusivo: senador Rogério Marinho aciona TCU para apurar auxílio de R$ 48 mil pago a Marcelo Ivo com base em reportagem de A Investigação

David Agape
·
Apr 27
Exclusivo: senador Rogério Marinho aciona TCU para apurar auxílio de R$ 48 mil pago a Marcelo Ivo com base em reportagem de A Investigação

O senador Rogério Marinho (PL-RN), líder da oposição no Senado, acionou o Tribunal de Contas da União (TCU) para apurar se o custeio do apartamento de luxo usado pelo delegado da Polícia Federal Marcelo Ivo de Carvalho em Miami foi bancado com recursos públicos. Marcelo Ivo atuava como oficial de ligação do Brasil junto ao ICE, o serviço de imigração do…

Read full story
User's avatar

Continue reading this post for free, courtesy of David Agape.

Or purchase a paid subscription.
© 2026 David Agape · Privacy ∙ Terms ∙ Collection notice
Start your SubstackGet the app
Substack is the home for great culture