Em 4 de outubro de 2026, Flávio Bolsonaro venceu o primeiro turno da eleição presidencial, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Luiz Inácio Lula da Silva. Após a apuração, perfis de esquerda pediram que Lula dissolvesse o Congresso, propuseram anular a eleição e defenderam a morte de pastores. Uma publicação pregou “genocídio” caso Lula perca a disputa. Os dois candidatos se enfrentarão no segundo turno, marcado para 25 de outubro.
As reações vão da defesa aberta de uma ditadura às insinuações de violência. Uma postagem, que passou de 400 mil visualizações, propôs uma Revolução Cultural três vezes mais violenta que a chinesa — que matou de 1 a 2 milhões de pessoas. Outra evocou a execução da família do czar russo — que incluiu a morte de crianças — ao sugerir uma “solução” para o resultado eleitoral. Houve ainda quem ameaçasse igrejas e políticos.
Em mensagens de um grupo de WhatsApp, participantes mencionaram atiradores contra Flávio, Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato. Outros falaram em colocar um deputado “no paredão” e em dar um “tiro em praça pública” na deputada estadual eleita Eduarda Campopiano.
O resultado também provocou pedidos por uma campanha baseada em mentiras e ataques pessoais. Em uma das conversas, um participante sugeriu espalhar entre pessoas próximas da aposentadoria a afirmação de que Flávio elevaria para 70 anos o tempo de contribuição. Nas redes, previsões sobre o fim do Pix e a proibição do casamento homoafetivo se misturaram a insultos contra eleitores, trabalhadores e religiosos. Uma dessas “previsões” superou 1,7 milhão de visualizações.
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Dissolver o Congresso e rejeitar as urnas
Uma das publicações de maior alcance pediu uma “ditadura no Brasil”. “Lula, DISSOLVA o parlamento e inicie estado de sítio agora”, escreveu a autora. O post acumulava quase 400 mil visualizações e cerca de 30 mil curtidas. Em resposta, outro perfil declarou apoio à “ditadura” de Lula.
O pedido reúne duas medidas incompatíveis entre si. Para decretar estado de sítio, o presidente precisa de autorização do Congresso, que continua funcionando durante a medida. A Constituição exige ainda que o chefe do Executivo ouça os conselhos da República e de Defesa Nacional e apresente ao Legislativo os motivos da solicitação.
A rejeição ao resultado apareceu em outras formas. Um usuário defendeu que a eleição fosse anulada e Lula decretasse estado de sítio. Outro apontou o governante nicaraguense Daniel Ortega como exemplo ao falar em cancelamento de eleições. Em julho, Ortega declarou que o país não terá mais eleições, com o objetivo de impedir que a direita chegue ao poder.
Também houve quem lançasse suspeitas genéricas sobre a apuração. Uma publicação vista centenas de milhares de vezes afirmou que Lula “nunca perdeu” e conclamou seus leitores a “acordar”. O TSE registrou uma diferença de mais de 2 milhões de votos entre os candidatos no primeiro turno.
Armas, igrejas e políticos como alvos
A influenciadora Brenda Laranja escreveu que criaria um “H4MAS brasileiro”. A grafia evoca o Hamas, e o post ultrapassou 650 mil visualizações. Em seguida, ela mencionou um fuzil Kalashnikov. Em 2025, Brenda foi ouvida pela polícia e após ameaçar Nikolas Ferreira.
A violência contra religiosos apareceu de forma frequente. Um perfil propôs “começar a matar pastores”. Outro sugeriu: “comecem pelo [pastor André]Valadão”. Uma terceira conta incluiu o nome do pastor Silas Malafaia. Houve ainda quem sugerisse atear fogo a igrejas e quem mencionasse uma bomba em uma delas.
Flávio também foi citado como alvo. Uma usuária escreveu que, se ele ganhasse, seria preciso “botar fogo nele”. Em outras mensagens, perfis defenderam armar a esquerda, propuseram incendiar bancos e invadir condomínios de políticos ou pediram que seus aliados se armassem “pra matar”. Uma publicação foi além e pregou “partir pro genocídio” caso Lula perca. O texto emprega a palavra sem identificar quem seria morto.
No WhatsApp, “paredão” e “tiro em praça pública”
Em uma das mensagens em grupos de WhatApp analisadas por A Investigação, ima integrante de nome Ana Caroline pergunta onde estariam os atiradores capazes de fazer Flávio Bolsonaro, Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato e Donald Trump “irem de Kirk”. A expressão alude a Charlie Kirk, assassinado a tiros por um militante antifa nos Estados Unidos em setembro de 2025.
Um outro integrante de nome Matheus escreveu que seria preciso pegar políticos “pra deixar de exemplo” e sugere jogar Nikolas “no pneu”. Em outra parte da conversa, diz que não vê problema em colocar o deputado “no paredão” e acrescenta: “é meu sonho”.
A deputada estadual eleita Eduarda Campopiano foi alvo de outras falas. A integrante Rhaíssa escreveu que ela precisava ser “kirkificada”. Outra participante de nome Bruna afirmou que a parlamentar deveria “tomar tiro em praça pública”. O contexto é o resultado da eleição para a Assembleia Legislativa de São Paulo, na qual Campopiano recebeu quase 2 milhões de votos.
Outros participantes desejaram mortes sem descrever uma ação a executar. Paloma disse torcer para que Flávio morresse em um acidente de helicóptero. Renatta perguntou pelos “bandidos” que os adversários atribuem a Lula e afirmou que estava “na hora de agir”. Sofia propôs que o grupo começasse a ser a “extrema esquerda” temida pela direita; Alexandre respondeu que a “ameaça do comunismo” deveria se tornar real.
Da execução dos Romanov à Revolução Cultural
Uma publicação vista cerca de 250 mil vezes anunciou uma “solução” para o resultado eleitoral, desde que os leitores fossem “mente aberta”. A imagem anexada mostrava uma busca sobre a execução de toda a família do czar russo pelos bolcheviques. Sem escrever uma ordem de ataque, o autor deixou a comparação à vista de todos.
A conversa sob essa postagem dá o contexto da menção à facada. Um usuário perguntou como seria possível executar a ideia se seus defensores fossem contrários às armas. @YulYugo respondeu: “Dando facada igual no mito”, seguido de uma provocação sobre o sangue de Jair Bolsonaro. Ele se referia ao atentado sofrido pelo ex-presidente em 2018.
Outro perfil propôs uma “revolução cultural 3x mais violenta que a chinesa” para o Brasil. A publicação somava mais de 400 mil visualizações e cerca de 40 mil curtidas. Uma mensagem do mesmo conjunto sugeriu fazer Mao parecer “colônia de férias”.
Mao Tsé-Tung lançou a Revolução Cultural em 1966. O movimento desencadeou perseguições, conflitos entre facções e repressão. Ao estudar os primeiros cinco anos, o sociólogo Andrew Walder, da Universidade Stanford, estimou entre 1,1 milhão e 1,6 milhão de mortos e entre 22 milhões e 30 milhões de pessoas perseguidas.
A postagem brasileira recebeu respostas de chineses indignados com a relativização da Revolução Cultural de Mao. “Tem alguém da América do Sul informado que possa explicar, o que aconteceu com vocês hoje? Já vi mais de dez ou vinte tweets seguidos dizendo que vocês querem uma revolução ou socializar”, escreveu um perfil baseado em Hink Kong. Outra conta descreveu famílias que perderam parentes e não podiam lamentá-los sem se expor à perseguição. “Não pense assim, você não sabe o quão terrível foi a Revolução Cultural”, escreveu outro chinês.
Mentiras e ataques como estratégia eleitoral
A reação ao primeiro turno incluiu cobranças para que Lula adotasse uma campanha mais agressiva. Um usuário defendeu “fazer o diabo” e destruir reputações. Outro pediu a “campanha mais baixa da história” e sugeriu explorar uma alegação sexual envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro. Esta última publicação passava de 780 mil visualizações.
Nesse contexto, voltou a circular uma declaração anterior de Denise Tremura, a Detremura. A influenciadora propunha “contar mentira, inventar atentado fake e destruir reputações” para vencer uma eleição. Sua fala não descrevia apenas uma campanha dura: incluía a fabricação de um acontecimento para produzir efeito político.
A conversa do grupo de WhatsApp analisada por A Inevstigação trouxe uma sugestão específica. O integrante João Marcelo disse que era preciso “fazer o terror” e orientar conhecidos próximos da aposentadoria a ler uma matéria segundo a qual o tempo de contribuição subiria para “70 anos”. Depois, compartilhou um link para uma notícia sobre possíveis reformas previdenciária e trabalhista. A afirmação sobre 70 anos não constava da manchete exibida. Em abril, a AFP já desmentira outra alegação que atribuía a Flávio uma proposta de elevar a idade da aposentadoria.
Alfredo Gaspar, vice de Flávio, também apareceu nas publicações. Uma conta divulgou uma imagem com uma ilustração dele com uma criança no colo para associá-lo a uma acusação de estupro. Outra tratou sua culpa como estabelecida. A acusação, feita sem provas, partiu de Soraya Thronicke e Lindbergh Farias depois que Gaspar pediu o indiciamento de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, no relatório da CPI do INSS.
Pânico moral e desprezo pelo eleitor
As mensagens de maior alcance transformaram uma possível vitória de Flávio Bolsonaro em perdas dadas como certas. Uma publicação anunciou o fim do Pix, a saída da BYD do país e o abandono da proposta de acabar com a escala 6 por 1; somava mais de 1,7 milhão de visualizações. Outra previu a proibição do casamento homoafetivo. O direito, reconhecido pela Resolução 175 do CNJ em 2013, continuou a ser exercido durante o governo Jair Bolsonaro. Antes da eleição de Jai Bolsonaro, as mesmas hipóteses eram apresentadas como consequências inevitáveis do voto.
O ataque mais direto, porém, não mirava um programa de governo: mirava o eleitor pobre. Lady Kruella escreveu: “se fode aí, banguela, desdentado, clt assalariado morto de fome”. A publicação somaa cerca de 4 mil curtidas. Em outra, desejou a liberação das apostas e disse: “Pobre viciado tem mais é que se foder”.
Outros posts repetiram o alvo. Um tuiteiro afirmou que “pobre de direita precisa se foder mesmo” e previu que ele choraria nos quatro anos seguintes. Um perfil desejou a esse eleitor uma jornada de trabalho “30x0 sem direito a 13 e férias”. Outro incluiu “preto de direita”, “pobre de direita” e “gay de direita” numa sequência de pessoas com quem disse que iria se indispor. A crítica a uma escolha política virou escárnio dirigido à condição social de quem a fez.
O trabalhador de aplicativo foi um alvo específico. Um perfil publicou um vídeo com a legenda “Sou Uber de direita e dps de privatizarem a Petrobrás a gasolina tá muito cara”, uma cena hipotética para ridicularizar o motorista bolsonarista. Outro prometeu dar nota 2 a qualquer motorista de aplicativo que expressasse apoio a Bolsonaro. A privatização mencionada na legenda era uma projeção do autor, não um acontecimento.
Nas mensagens de WhatsApp, Renatta Reis chamou o “pobre que se acha rico” de “pior espécie”. Ramon disse que seria preciso “acabar com a classe média”. Mateus e Ana Carolina ironizaram motoristas e entregadores que se identificam como empreendedores. Em uma discussão pública, uma usuária invocou o fato de ser branca e de seu interlocutor ser negro para insultá-lo.
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