Nesta quinta-feira, 30, dois dias depois de Luiz Fux suspender sua ordem de restaurar publicações sobre uma falsa ameaça de Flávio Bolsonaro a Nossa Senhora Aparecida, o ministro Flávio Dino requisitou um inquérito da Polícia Federal sobre ataques a imagens religiosas. Para sustentar a iniciativa, reuniu uma série de notícias sobre uma suposta escalada de atos violentos de intolerância religiosa contra católicos.
Na decisão, Dino escreveu que “chegaram ao Gabinete, por vários meios, notícias de várias partes do Brasil demonstrando uma aparente onda de ataques nos últimos meses contra imagens religiosas”. O despacho não traz série histórica, critério de seleção das ocorrências ou vínculo operacional entre elas.
A Investigação analisou as reportagens completas apresentadas pelo ministro e buscou os desdobramentos de cada ocorrência. Encontramos notícia de 2025, ocorrências com suspeitos já identificados e ataques a terreiros, sem demonstrar aumento dos episódios ou conexão entre seus responsáveis.
Em um dos exemplos, Dino deixou de reproduzir a declaração da própria vítima que rejeitava a classificação de intolerância religiosa. Em outro, usou uma notícia sobre denúncia sem mencionar que a polícia já havia concluído o inquérito e indiciado o suspeito.
O despacho reúne 11 entradas, referentes a dez localidades de sete estados. Londrina aparece em dois períodos. A primeira ocorrência, em Cuiabá, chegou ao gabinete por intermédio de Gilmar Mendes. A lista mistura destruição de imagens católicas, danos em comércio, invasões com furto e ataques a símbolos de religiões de matriz africana.
Em um post no X, o advogado Wallace de Oliveira escreveu que o despacho de Flávio Dino não apenas tensiona as fronteiras do processo penal brasileiro, mas subverte pilares do sistema acusatório, do princípio do juiz natural e da própria competência do STF.
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Da campanha falsa ao novo inquérito
A controvérsia começou com a circulação de uma história que atribuía a Flávio a intenção de retirar de Aparecida o título de padroeira. Como A Investigação reconstituiu, o primeiro post encontrado no X foi publicado em 23 de setembro por Jeferson Monteiro, criador do Dilma Bolada. A narrativa passou por militantes, chegou à GloboNews e continuou circulando depois da retratação da emissora.
O documento usado para dar aparência de prova à história era um projeto de Victório Galli apresentado em 2007 e arquivado em 2008. Flávio não era seu autor. Em 25 de setembro, André Mendonça, no TSE, acolheu pedido da campanha do senador e determinou a retirada de publicações que apresentavam aquela intenção como fato, classificado na decisão como “notoriamente inverídico”.
No domingo, 27, Dino atendeu a pedido de Antonio Tabet e mandou restaurar a postagem em que o humorista associava uma “família miliciana” a um ataque contra Nossa Senhora. Segundo a Agência Brasil, o ministro enquadrou sua intervenção como proteção à liberdade de expressão e religiosa.
Na segunda-feira, 28, Fux suspendeu os efeitos externos da ordem de Dino e restabeleceu a determinação de Mendonça, após novo pedido da campanha de Flávio. Em 30 de setembro, Dino voltou ao mesmo processo, a Reclamação 95.295, agora para requisitar a investigação sobre imagens danificadas. O próprio despacho vincula a iniciativa à decisão que ele havia proferido no domingo.
Uma notícia de 2025 e a declaração que ficou fora
O exemplo mais evidente da seleção feita pelo gabinete está em Londrina. Dino citou a reportagem “Vândalos destroem imagens de santos em loja de Londrina”, da Folha de Londrina, publicada em 15 de setembro de 2025. Os episódios ocorreram nos dias 8 e 13 daquele mês.
O despacho reproduz a referência a ataques ocorridos “na semana passada”, mas não informa o ano da publicação no trecho. Registra apenas o acesso ao endereço em 29 de setembro de 2026. Assim, uma notícia de um ano antes entra na fundamentação de uma suposta onda dos últimos meses sem essa contextualização temporal.
Na mesma matéria, o proprietário Walfrido Soares Barbosa afirmou: “Isso não é intolerância religiosa, isso é vandalismo.” Ele relacionou os episódios à insegurança do centro da cidade. Dino reproduziu a descrição das imagens quebradas e deixou de fora a interpretação da vítima.
A loja voltou à lista por outro episódio, em 1º de setembro de 2026. Dessa vez, Dino usou uma notícia da aRede, com imagens de um homem chutando estátuas de santos. O texto completo menciona ocorrências anteriores em abril e a preocupação do comerciante com a insegurança local. Outra cobertura do mesmo ataque acrescentou outro dado ausente do despacho: o XV Curitiba informou que a Guarda Municipal localizou um homem em situação de rua apontado como responsável e o levou à Central de Flagrantes.
Alucinações e Esquizofrenia
Em Jauru, Mato Grosso, a investigação oficial já tinha individualizado o responsável meses antes. Dino citou uma reportagem do g1, de 10 de março, sobre um homem de 47 anos que danificou uma imagem de Aparecida com machado na noite de 7 de março.
A informação da Polícia Civil, reproduzida pelo Semana7, detalha o resultado: câmeras e testemunhas permitiram identificar o suspeito, ouvido e autuado em 9 de março. O machado foi apreendido. O homem alegou ter agido a mando de espíritos e demonstrou arrependimento. Houve termo circunstanciado por vilipêndio de objeto de culto e liberação. O despacho de setembro não reproduz esses desdobramentos.
Em Rio Grande, no Rio Grande do Sul, Dino selecionou uma reportagem da GaúchaZH sobre a destruição de dois anjos de gesso na Catedral de São Pedro, em 29 de agosto. Aconteceu por volta das 17h. Fiéis contiveram o homem e o conduziram para fora; a Brigada Militar foi acionada. O recorte do ministro enfatiza a importância histórica da catedral, construída a partir de 1755. A matéria completa esclarece que as peças danificadas foram adquiridas em 1963.
Há ainda um contexto importante que não consta na notícia escolhida por Dino. Em 31 de agosto, O Litorâneo publicou a declaração do pároco Gil Pereira Júnior de que o homem resnposável pelo vandalismo sofria de esquizofrenia. O padre também relatou reincidência: “Ele já havia quebrado outras imagens aqui há 20 anos.”
Os ataques a terreiros e o inquérito já concluído na Bahia
Dois pontos da lista não envolvem Nossa Senhora nem símbolos católicos. Em Esmeraldas, Minas Gerais, Dino reproduziu uma notícia da Itatiaia sobre um terreiro de umbanda: assentamentos e imagens de orixás foram danificados, e objetos foram furtados. O texto selecionado situa o episódio em 3 de agosto.
O Estado de Minas apresentou outra cronologia: o responsável saiu em 26 de julho e constatou os danos ao voltar no dia 30, quando registrou a ocorrência. Relatou furto de 15 cadeiras e histórico de três ataques em 2022. A decisão não resolve a divergência de datas nem estabelece conexão dessa reincidência local com os episódios nos demais estados.
Em Acupe, distrito de Santo Amaro, na Bahia, o ministro citou uma notícia do Se Ligue Bahia sobre a denúncia de Mãe Deca contra um pastor acusado de destruir um assentamento de Exu em agosto. O trecho escolhido destaca que ninguém havia sido preso.
Entretanto, em 14 de setembro, o Massa! já havia publicado resposta da Polícia Civil: o inquérito fora concluído e remetido à Justiça em 12 de setembro, com indiciamento do suposto autor. A vítima apontou o pastor Sandro Bonfim e relatou ameaças. O despacho de Dino não informa o indiciamento, deixando de apresentar o estágio concreto da apuração estadual.
Os dois episódios ampliam o conjunto para religiões e circunstâncias diferentes da disputa eleitoral sobre Aparecida. Em Esmeraldas, há invasão, furto e reincidência no mesmo alvo. Em Acupe, há um conflito local com suspeito nomeado e inquérito concluído. A decisão incorpora ambos à mesma fundamentação, sem demonstrar elo com os outros responsáveis.
Danos recentes sem autoria nem motivação esclarecidas
Os casos mais recentes reunidos por Dino têm em comum o dano a imagens religiosas, não uma autoria, um método ou um vínculo demonstrado entre os responsáveis. Em vários deles, não se sabe quem agiu, quando o ato ocorreu ou se houve motivação religiosa, política ou patrimonial. Mesmo assim, entraram na decisão como parte de uma “aparente onda” nacional.
No Matatu, em Salvador, a imagem de Nossa Senhora das Graças foi encontrada quebrada na manhã de 11 de setembro. A reportagem usada por Dino também informava que a igreja entregou imagens de câmeras à polícia e já havia sido alvo de furtos e invasões: o cofre foi arrombado em junho de 2025; em dezembro, criminosos levaram dinheiro, eletrodomésticos e alimentos e destruíram objetos. O horário em que a imagem foi encontrada não revela quando ela foi quebrada. E o histórico do templo impõe, ao menos, a investigação da hipótese patrimonial.
O caso de Santa Dulce, em Plataforma, também não se encaixa no padrão de ataques noturnos anônimos sugerido pela compilação. A imagem foi destruída dentro da Paróquia Jesus Cristo Ressuscitado em 22 de setembro, por volta das 15h, quando a igreja estava aberta. A notícia só ganhou maior repercussão dias depois, mas o ato é anterior à decisão de Dino de 27 de setembro. Não há suspeito identificado nem motivação divulgada.
Em Cuiabá, a imagem de Aparecida junto à Cruz do Chilão foi encontrada quebrada na noite de 25 de setembro. A nota da Arquidiocese, enviada por Gilmar Mendes ao gabinete de Dino, pediu apuração e identificação dos responsáveis. Quatro dias depois, a Polícia Civil informou que não havia localizado registro da ocorrência. O dano foi incorporado à fundamentação para uma investigação federal antes que se soubesse o momento do ato, a autoria ou a intenção de quem o praticou.
Em Maceió, a cobertura sobre a imagem danificada na Jatiúca registrava que a Polícia Civil ainda não havia recebido boletim de ocorrência quando a notícia foi publicada. Em Novo Progresso, no Pará, houve abertura de inquérito e solicitação de perícias após o incêndio de uma imagem à margem da BR-163. São fatos que merecem apuração local. Mas, até agora, as notícias não identificam responsáveis nem demonstram motivação política ou conexão com os demais episódios da lista.
A coleção de notícias não demonstra uma onda nacional
A repetição de danos a objetos religiosos em estados diferentes é o elemento que une a lista. A decisão não apresenta crescimento em relação a anos anteriores, autores compartilhados, mensagens, financiamento, deslocamentos ou organização comum. Também mistura horários do ato e da descoberta: Rio Grande e Plataforma são episódios diurnos; em Matatu e Cuiabá, a notícia informa quando o dano foi encontrado.
Dino justifica a atuação inicial da PF pela repercussão interestadual, necessidade de repressão uniforme e natureza aparente de crimes contra direitos humanos. A Lei 10.446/2002 prevê atuação federal em hipóteses de repercussão interestadual ou internacional que exija repressão uniforme. O despacho enuncia esses fundamentos, mas não individualiza quais circunstâncias dos casos selecionados exigem essa atuação conjunta.
O ministro permite que as investigações sejam concentradas ou desmembradas. Deixa, assim, para os órgãos destinatários a definição de como tratar fatos que apresentou inicialmente como uma onda. O problema documental está na passagem de ocorrências heterogêneas para uma fundamentação abrangente, sem incorporar informações que já distinguiam os episódios.
Nos casos mais recentes, faltam respostas sobre quem causou os danos, quando e com qual motivação. Ainda assim, eles entraram no despacho junto de ocorrências antigas e investigações com suspeitos identificados. A expressão “aparente onda” ocupa o lugar de uma comparação histórica e de uma análise dos vínculos entre os casos.
O professor Pedro Burgos apontou no X como a ordem de investigar pode passar a servir de comprovação da própria narrativa: “A mera decisão vai ser usada pela militância como prova de que essa onda de fato existe.” A crítica atinge o centro do problema: ao reunir episódios distintos sob a expressão “onda”, Dino fornece uma chancela judicial à interpretação que ainda deveria ser demonstrada pela apuração.
Os “ataques” bolsonaristas de 2028
No X, o jornalis Eli Vieira relembrou a investigação realizada pela Agência Dossiê em 201 — projeto anterior deste repórter com a jornalista Vanessa Bigaran—, que contestou o levantamento sobre uma suposta onda de ataques bolsonaristas. Em 10 de outubro daquele ano, a Agência Pública publicou que apoiadores de Bolsonaro haviam realizado “pelo menos 50 ataques”, em levantamento feito com a Open Knowledge Brasil. Vieira apontou a repetição do vocabulário e a mudança de origem da narrativa: “Antes, veio da militância de base e suas ONGs e imprensa parceiras. Agora, vem diretamente do STF.”
Durante a campanha presidencial de 2018, diversas suásticas foram pichadas em banheiros de universidades públicas e em locais públicos, como uma igreja em Nova Friburgo, no RJ. Em outubro de 2018, a capela de São Pedro da Serra foi pichada com suásticas. Posteriormente descobriu-se que os responsáveis erammilitantes de esquerda. Os suspeitos identificados por câmeras disseram à polícia ter agido depois de o padre declarar apoio a Bolsonaro. Eles também picharam calçadas e muros com palavras de ordem contra o candidato, incluindo “Ele Não”.
Na mesma época, uma menina de 19 anos, de Porto Alegre, denunciou ter sido marcada à força com uma suástica na barriga porque ela usava um adesivo “Ele Não”. Uma perícia realizada pela Polícia Civil concluiu que as lesões eram autoinfligidas e a jovem foi indiciada por falsa comunicação de crime. Em fevereiro de 2019, o UOL registrou uma transação penal com 200 horas de serviço comunitário, sem julgamento do mérito.
Por algum motivo, as “suásticas de Taubaté”, que se tornaram motivo de chacota por serem, em sua maioria, tentativas malsucedidas de reproduzir o símbolo nazista, não foram mais desenhadas pelo Brasil e só reapareceram quatro anos depois, em 2022, ano de eleição.
A devoção eleitoral e a devoção comunista
A apresentação da esquerda governista como defensora dos cristãos convive com um histórico de admiração por regimes que reprimiram a religião. A Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos documenta, com arquivos soviéticos, o confisco de bens de igrejas, fechamento de templos e perseguição ao clero sob o comunismo. A Igreja Ortodoxa foi o principal alvo das campanhas dos anos 1920 e 1930; católicos e protestantes também sofreram repressão.
A afinidade petista com Cuba está registrada pelo próprio partido. Na morte de Fidel Castro, em 2016, Lula o descreveu como um irmão mais velho e companheiro insubstituível. O elogio foi publicado no site do PT. Em maio de 2026, a Comissão dos Estados Unidos sobre Liberdade Religiosa Internacional, USCIRF, relatou a continuidade da repressão religiosa em Cuba, incluindo vigilância, multas e exílio forçado de lideranças. O regime celebrado pelo petista permanece sob escrutínio por violações à liberdade que sua campanha agora invoca no Brasil.
O próprio Lula vinculou a chegada de Dino ao STF a essa identidade política. Em dezembro de 2023, celebrou a aprovação do indicado afirmando que o país teria um “ministro comunista” na corte. Em setembro de 2026, é esse ministro quem associa sua intervenção na disputa eleitoral à proteção dos devotos de Aparecida.
A diferença de prioridade também aparece na relação com a Nigéria. A organização Portas Abertas registrou, na lista divulgada em 2026, cerca de 3,5 mil cristãos mortos por razões relacionadas à fé no país entre outubro de 2024 e setembro de 2025. Isso corresponde a aproximadamente 72% dos quase 4,9 mil registros mundiais da organização.
Em 25 de agosto de 2025, Lula recebeu o presidente nigeriano Bola Tinubu. A declaração conjunta tratou de comércio, cooperação e segurança e incluiu referências a crises humanitárias africanas. Não mencionou os massacres de cristãos nem Yelewata, ocorrido em junho daquele ano. O documento registrou, expressamente, apoio brasileiro ao Congresso dos Orixás na Nigéria.
Na campanha brasileira, Lula levou a controvérsia para a propaganda e, em Fortaleza, afirmou que a santa continuaria como padroeira enquanto ele fosse presidente. A promessa responde a uma ameaça que Mendonça já havia classificado como falsa. Na declaração assinada ao lado de Tinubu, as vítimas cristãs não receberam uma menção.
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