Em 23 de setembro de 2026, Jeferson de Oliveira Monteiro publicou no X uma orientação de voto que associava os Bolsonaro à suposta ameaça de retirada do título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida. Criador do perfil Dilma Bolada, ele escreveu: “Católico não vota em nenhum Bolsonaro e nem em nenhum candidato que queira retirar o título de Nossa Senhora Aparecida”.
A Investigação identificou essa publicação como a primeira associação entre os Bolsonaro e a suposta ameaça à padroeira encontrada no X. Posteriormente, a campanha de Flávio Bolsonaro também apontou o post como origem da narrativa. Pouco mais de cinco minutos depois, outra conta deu à hipótese a aparência de notícia sobre pressões evangélicas contra o senador. A história cresceu, chegou à televisão e foi corrigida pela GloboNews.
Em 26 de setembro, Jeferson negou à Folha de S.Paulo ter publicado informação falsa. Alegou que sua orientação aos católicos era contra candidatos que ameaçassem a democracia e que a referência à padroeira tratava de propostas antigas da extrema direita. A explicação não desfaz a associação registrada no post: ele reuniu os Bolsonaro e a suposta ameaça a Nossa Senhora na mesma orientação de voto. Também não identificou quem estaria promovendo a mudança em 2026. O projeto usado depois para sustentar o boato havia sido arquivado em 2008.
Os registros de sua conta mostram, ainda, que o uso eleitoral de Nossa Senhora não começou agora. Em 2018, Jeferson falou em ameaças a igrejas da padroeira; em 2022, distribuiu um vídeo sobre a passagem de Jair Bolsonaro pelo santuário; em 2026, associou o voto católico à possibilidade de retirada do título. As alegações mudaram, mas o símbolo religioso voltou a ser usado para atingir os Bolsonaro e mobilizar eleitores católicos.
Jeferson não é um militante ocasional. Na campanha de 2014, a marqueteira Mônica Moura afirmou em delação que lhe entregou R$ 200 mil em espécie para reativar a personagem Dilma Bolada; ele negou a acusação. Em 2023, recebeu um cargo comissionado na Empresa Brasil de Comunicação, também conhecida como TV Lula, e foi exonerado após viajar à Europa sem direito a férias, segundo o então presidente da estatal. Voltou à comunicação de Eduardo Paes no Rio e participou da estratégia digital da reeleição do prefeito em 2024.
A trajetória do publicitário revela outra sequência. Em 2018, sua empresa e uma produtora administrada por Antonia Soares Pellegrino, mulher de Marcelo Freixo, apareceram entre os fornecedores da campanha de Lindbergh Farias ao Senado. As despesas declaradas com as duas somaram R$ 194 mil. Cinco anos depois, a Empresa Brasil de Comunicação, a EBC, identificou (identificou num tem nada a ver) Jeferson como assessor de Antonia. Em 2024, a empresa dele constou novamente de contas eleitorais, desta vez na reeleição de Eduardo Paes, com R$ 264 mil em despesas contratadas.
Em 2015, Jeferson negou prestar serviços ao PT, embora confirmasse um contrato de R$ 20 mil com a agência Pepper, fornecedora do partido; disse que o trabalho era para outros clientes. Em 2017, Mônica Moura afirmou em delação que lhe entregara R$ 200 mil em espécie na campanha de 2014 para reativar o perfil. Ele negou o recebimento e ironizou que estava com o aluguel atrasado e o telefone cortado.
A padroeira nas campanhas de 2018, 2022 e 2026
Em 12 de outubro de 2018, entre os dois turnos da eleição presidencial, Jeferson publicou no X que Bolsonaro e alguns pastores estariam dividindo brasileiros entre evangélicos e não evangélicos. Acrescentou uma acusação mais grave: “Grupos de whatsapp ameaçando atacar igrejas de Nossa Senhora Aparecida”, escreveu. A publicação, preservada por esta reportagem, não reproduzia as mensagens nem identificava os autores das supostas ameaças.
Era o feriado da padroeira, quando Aparecida ocupa as conversas de milhões de famílias. Jeferson apresentou o suposto risco às igrejas naquele contexto e responsabilizou politicamente Bolsonaro, sem mostrar as mensagens que sustentariam a acusação.
Quatro anos depois, novamente em 12 de outubro, Jeferson publicou um vídeo sobre a visita do então presidente ao Santuário Nacional. Preparou, segundo suas próprias palavras, uma versão para WhatsApp, status e stories. “Mandem pro grupo da família, pra avó, pra mãe católica, pros grupos jovens”, orientou. A visita de Bolsonaro causou tumulto, e um padre criticou o uso eleitoral da celebração. Jeferson procurou distribuir sua interpretação do episódio diretamente entre eleitores católicos.
Em 2026, a alegação foi outra. No post de 23 de setembro, ele não apresentou projeto de Flávio Bolsonaro, declaração do senador ou pedido de uma liderança evangélica. Reuniu os Bolsonaro e um candidato que desejaria mudar a condição da santa numa orientação de voto. O projeto posteriormente usado para dar aparência documental à história era de Victório Galli: apresentado em 2007 e arquivado em 2008, não correspondia a uma proposta de Flávio para esta eleição.
As duas Doce Fúria na campanha de Lindbergh
Na eleição de 2018, Lindbergh Farias disputava uma vaga no Senado pelo PT no Rio de Janeiro. Sua prestação de contas registra despesas com duas empresas de nomes quase iguais: Doce Fúria Produções Artísticas Ltda. e Doce Fúria Comunicação Ltda. Os CNPJs e os responsáveis são diferentes.
A Doce Fúria Produções Artísticas, CNPJ 07.528.463/0001-70, foi aberta em março de 2005. Seu cadastro identifica Antonia Soares Pellegrino como sócia-administradora. A campanha de Lindbergh declarou cinco despesas, num total de R$ 141 mil, com a produtora. Ela também aparece como fornecedora de outras candidaturas de esquerda naquele ano, entre elas as de Guilherme Boulos e Luciana Genro.
A Doce Fúria Comunicação, CNPJ 31.256.446/0001-05, foi aberta em 16 de agosto de 2018. O cadastro aponta Jeferson de Oliveira Monteiro como sócio-administrador. A candidatura de Lindbergh declarou duas despesas, somando R$ 53 mil, com essa empresa. Juntas, as duas Doce Fúria representaram R$ 194 mil em despesas lançadas pela mesma campanha.
Além da semelhança dos nomes, há o encontro das trajetórias: duas firmas distintas, administradas por pessoas que depois trabalhariam juntas na EBC, forneceram serviços à mesma candidatura em 2018. Os cadastros não mostram uma sociedade entre Antonia e Jeferson, mas as contas eleitorais registram a atuação de ambos na campanha de Lindbergh.
De um evento com Freixo à diretoria da EBC
Freixo aparece nessa história também fora do vínculo matrimonial. Em setembro de 2022, Jeferson participou de um encontro de influenciadores promovido pelas campanhas de Lula à Presidência e de Freixo ao governo do Rio. Uma reportagem de O Dia o identificou entre os presentes. Na ocasião, Freixo disse que os participantes seriam importantes na disputa eleitoral nas redes e “essenciais na luta contra a onda de desinformação”.
Em 6 de março de 2023, a Doce Fúria Produções Artísticas, administrada por Antonia, foi baixada. Uma semana depois, Jeferson recebeu um cargo na EBC. Procurada pelo Correio Braziliense em 14 de março, a estatal informou que ele atuava como assessor da futura diretora de Conteúdo e Programação, Antonia Pellegrino, que ainda aguardava os trâmites para assumir o posto.
Em 6 de abril de 2023, dia em que Antonia tomou posse na diretoria, uma portaria da EBC designou Jeferson assessor III no gabinete da Diretoria de Conteúdo e Programação, no Rio de Janeiro. Em junho, outro ato o transferiu para a Gerência de Pauta da mesma diretoria, em Brasília.
A passagem terminou em 14 de agosto de 2023, conforme a portaria de exoneração. O então presidente da EBC, Hélio Doyle, disse ao Poder360 que tomou a decisão depois de Jeferson viajar à Europa sem ter direito a férias. Antonia permaneceu na estatal e assumiu sua presidência em 10 de abril de 2026.
A contratação por Paes e a pergunta sobre 2026
Depois da EBC, Jeferson voltou à comunicação de Eduardo Paes, com quem já havia trabalhado antes da passagem pela estatal. Em junho de 2024, a Agenda do Poder, citando a coluna de Lauro Jardim, noticiou sua escolha para a estratégia digital da reeleição do prefeito.
As contas da campanha de Paes à Prefeitura em 2024 relacionam três despesas contratadas, no total de R$ 264 mil, com a Doce Fúria Comunicação de Jeferson. É a mesma pessoa jurídica que apareceu nas contas de Lindbergh seis anos antes. Somados os dois pleitos, os registros apontam R$ 317 mil em despesas contratadas com essa empresa: R$ 53 mil em 2018 e R$ 264 mil em 2024.
Paes deixou a prefeitura em 20 de março de 2026 para disputar o governo estadual; Eduardo Cavaliere assumiu o cargo. Naquele mês, segundo uma reportagem do BelfordRoxo24h, Jeferson afirmou que continuaria trabalhando na estratégia digital de Cavaliere até o início da campanha estadual. O veículo o encontrou na folha municipal de julho, mas não na de agosto.
Os documentos permitem seguir Jeferson por três eleições, duas campanhas que contrataram sua empresa e uma passagem pela diretoria hoje comandada pela mulher de Freixo. Os pagamentos eleitorais identificados são de 2018 e 2024. Para a ofensiva de 2026, permanece a pergunta: quem financia, se houver financiamento, a atuação do publicitário que fez a primeira associação encontrada entre os Bolsonaro e a suposta ameaça à padroeira?
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